segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

Entrevista: Arimatéia Cunha

FORRÓ COM TEMPERO POTIGUAR

José de Arimatéia da Cunha tem 37 anos e nasceu em Açu. Geógrafo, funcionário público e professor, herdou do pai, Manoel Segundo, a paixão pela música nordestina, mais particularmente pelo forró. Cantor, compositor e percussionista, Arimatéia Cunha abre a série de entrevistas do jornal Zona Sul no ano de 2005.

Em uma tarde quente do final de dezembro, eu e o jornalista Costa Júnior fomos ao apartamento de Arimatéia Cunha, no bairro da Candelária. A conversa, que durou pouco mais de uma hora, teve como testemunha apenas a paisagem bonita emoldurada pela porta da varanda daquele lar. Talvez inspirado por este quadro, o forrozeiro discípulo do Trio Nordestino não economizou palavras para falar sobre a sua trajetória, a música brasileira, os grandes artistas do forró e muito mais. Um feliz 2005 para todos! (Roberto Homem)

ZONA SUL - Como despertou em você o interesse pela música, mais particularmente pelo forró?
ARIMATÉIA – Foi bem criança ainda. Eu creio que com cinco anos de idade já tinha essa vontade pela música. Quando passava um carro de som, na rua, e tocava uma música, eu já ficava ligado. Parava na hora o que estivesse fazendo. E a influência de papai, Manoel Segundo, foi importante demais. Ele ia com os amigos lá para casa, ou então ia para casa de amigos, ou para um bar, e eu ali presente. Eu, pequenininho, já tocava zabumba. Meu pai dizia: “esse menino vai tocar, esse menino vai gostar de forró, vai ser forrozeiro”. A opção pelo forró foi pela convivência com esse tipo de música, por ser a cultura a qual tive acesso, me identifiquei e gosto até hoje. Acompanhando o meu pai e sua turma, fui crescendo e fui gostando. Eu era apaixonado pelo forró e pela música instrumental também. Lembro que eu gostava muito de ver Noca do Acordeom. Isso tudo que estou falando até aqui aconteceu em Açu, onde nasci. Morei lá até meus 13 anos. Núbia Lafayette também nasceu lá, mas não a conheci. Ela saiu da cidade muito cedo. Não foi da minha época. Lembro de músicos de Açu, acordeonistas que chegaram a tocar em Natal, na Rádio Nordeste e na Rádio Poti, naqueles programas de auditório.
ZONA SUL – O rádio teve alguma influência no seu gosto pela música?
ARIMATÉIA – Sim, muita, desde a época de Açu. Naquele tempo existiam as rádios regionais. Açu sofria muita influência da Rádio Rural de Mossoró, que é um celeiro em termos de cultura e da história do rádio no Rio Grande do Norte. Só havia rádio AM. Tenho uma paixão muito grande por rádio AM, porque acho que quem faz rádio de verdade é esse pessoal que trabalha em AM. Açu passou a ter a sua primeira emissora de rádio em 1980, quando foi inaugurada a Rádio Princesa do Vale. Até então, a Rádio Rural de Mossoró abrangia toda a área. Lembro que tinha aqueles programas de forró e que até papai chegou a tocar ao vivo em alguns deles. Sempre no final da tarde, tinha os programas regionais onde só tocava música nordestina. Ali entravam o forró, os sanfoneiros, o cantor de viola, o embolador de coco, o repentista... Tudo ao vivo. Ali era cheiro de povo. O povo estava realmente presente. Você podia mandar um alô para um camarada... Repentistas tiravam uma prosa com os ouvintes... A coisa era mais interativa, a cultura era bem mais rica do que hoje. Atualmente tudo é muito superficial, enlatado. Você consome uma coisa que não viu fazer, que não interage com ela. Vai apenas consumir.
ZONA SUL – Quais os artistas você ouvia naquela época de Açu e logo no começo de sua vinda pra Natal?
ARIMATÉIA – Como eu me identifiquei com o gênero do forró autêntico, o que eu mais ouvia era o Trio Nordestino e Os 3 do Nordeste. Por incrível que pareça, eles me influenciaram mais do que Luiz Gonzaga. É que esses trios trabalhavam um estilo novo para a época, embora fosse um forró bem autêntico. Luiz Gonzaga tinha uma particularidade: sua música tratava principalmente do regionalismo nordestino, da seca, da “fulô” do mato... Já o Trio Nordestino cantava o amor, um tema com o qual me identifiquei muito depois. Os 3 do Nordeste também seguiam essa linha. O próprio estilo do formato trio me fez gostar muito do trabalho destes dois grupos. Era um cantor solo e um vocal respondendo. E ao mesmo tempo, os três tocando e dançando. Apesar de Luiz Gonzaga ter sido realmente o pai do forró, ter descoberto a fórmula da zabumba, da sanfona e do triângulo, o Trio Nordestino teve uma participação efetiva na modernização desse estilo. A forma de dançar, de cantar, de dividir a música...
ZONA SUL – Qual foi seu primeiro instrumento? Você começou a tocar em Açu ou já tinha se mudado para Natal?
ARIMATÉIA – Foi a zabumba, lá em Açu. Na verdade, antes de chegar zabumba na região, existia um instrumento que a gente chamava de surdo, um surdão que ainda hoje escola de samba usa muito. Eu ficava praticamente em pé para poder tocar. Eu tocava porque, no meio de uma daquelas brincadeiras do meu pai, diziam: “o menino vai tocar, deixa o menino tocar”. E eu ia lá e tocava, de uma maneira bem intuitiva. Depois tentei tocar violão, mas deixei, não tive paciência. Agora, recentemente, foi que tive vontade de retomar o acordeom. Estou tendo umas aulas, mas falta tempo. Dediquei-me mais a compor e a cantar. Esse fato foi primordial para eu deixar o instrumento em segundo plano. Mas quando estou tocando com um trio, ou quando não tem ninguém para tocar percussão, eu canto e toco triângulo ou zabumba.
ZONA SUL – E a transição de Açu para Natal, como aconteceu?
ARIMATÉIA – Vim para Natal em 1980. Natal tinha cinco rádios AMs, todas elas com programas de forró de manhã, a alvorada matutina, e à tarde. Todos os programas da tarde tocavam forró. Eram forrós bons, de grande audiência. Foi aí que comecei a conhecer pessoalmente os integrantes do Trio Nordestino, de Os 3 do Nordeste, Jorge de Altinho... Eu já tinha uns 14, 15 anos, foi quando comecei a compor de verdade. Antes eu já compunha, mas era aquela coisa meio que amadora demais. Passei um tempo procurando quem gravasse minhas músicas. Procurei o Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste, mas todos já tinham bons compositores trabalhando para eles. Tudo graças à estrutura da gravadora Copacabana, onde a música era realmente editada e os direitos autorais pagos. Mas chegar junto é uma coisa e fazer com que gravem é outra completamente diferente. Gravei uma música para o Trio Nordestino, lá no Hotel Reis Magos. Era um xote, gravado quatro anos depois por Fátima Melo. Quando fui gravar eu estava muito nervoso. Tinha 15 anos. Eles tentaram me tranqüilizar, perguntaram se eu queria que saíssem. Nem disse sim, nem não, já que o nervosismo era independente de qualquer coisa. Eles contaram que aconteceu o mesmo com Jorge de Altinho, quando foi levar para o Trio a música Sapo Cururu. Combinamos que eles levariam a música e, em setembro, eu telefonaria, para saber de alguma resposta. De antemão me aconselharam a não desistir, mesmo se minha música não fosse gravada por eles. Isso aconteceu em 1984. Dez anos depois, encontrei com um deles, Genário, em Recife, quando eu estava acompanhando a gravação do disco de Gláucio Costa, que incluía uma música minha. Fui falar com Genário, ele disse que estava me reconhecendo, mas não lembrava direito. Como estava no meio da música, ele não ia dizer que eu era dentista. Disse que sabia que eu era músico, mas não lembrava de onde. Perguntou se eu tocava contra-baixo. Respondi que não. Contei a história. “Eu não disse a você que não desistisse”, comentou Genário. Mas a vida de compositor é difícil. Imagine o Nordeste todo compondo música para essa turma. Nós do Rio Grande do Norte terminamos levando desvantagem, já que não temos tradição, em nenhum gênero musical, para competir com compositores de estados como Pernambuco, por exemplo.
ZONA SUL – A que você atribui esse fato?
ARIMATÉIA – Não sei se estou certo, mas creio que a própria disposição geográfica do Rio Grande do Norte contribui para isso. A influência dos americanos na Segunda Guerra mundial também ajudou a fazer com que Natal se sentisse avançada, sem ser. Por causa disso, Natal aderiu a algumas modas e desprezou a sua própria cultura. O principal nome do forró potiguar ainda é Elino Julião, que deixou o estado no tempo certo, na hora certa e conviveu com as pessoas certas. Terezinha de Jesus também era muito boa, mas não se firmou. Na Paraíba têm Jackson do Pandeiro e Os 3 do Nordeste, grupo que competia em pé de igualdade com o Trio Nordestino, que era baiano. Tem também Genival Lacerda, de Campina Grande e o cearense Alcimar Monteiro. A Bahia é um celeiro também, e sempre foi. Um estado que cabe o resto do Nordeste todo dentro dele. Pernambuco, que é o berço do forró, tem o restante dos forrozeiros: Jorge de Altinho, Luiz Gonzaga, Dominguinhos... Se você for para Caruaru, vai ver também os grandes forrozeiros que ainda têm por lá. Mas hoje as coisas não acontecem mais como antigamente. Naquela época se ouvia mais o talento, a vocação. Hoje não. Hoje tudo está desvirtuado. Outro problema que temos é a falta de unidade em Natal. Ao contrário, temos uma rivalidade e uma má vontade enormes. É um querendo derrubar o outro. É como se fôssemos cinco crianças engatinhando. Ao invés de uma chegar e dar a mão, ajudar a outra a se levantar, ela empurra. O resultado é que caem todas as cinco. Isso também me deixa triste.
ZONA SUL – Há alguma diferença entre a música daquela época e a que é tocada nos dias de hoje?
ARIMATÉIA - Naquele tempo a música era muito mais bem feita. Os músicos eram muito bons, tocavam com partitura, os maestros de bandas de música do interior participavam dos grupos. Era uma coisa saudável. Dentro do forró, tinha a parte instrumental... É bom destacar que, apesar de toda a tecnologia de hoje, ninguém tira mais um som como se tirava naquele tempo. As gravações de forró feitas antigamente no Rio, no tempo do elepê, são incomparáveis. Eu próprio não dou o molho que dava um Cobrinha, do Trio Nordestino. Não tem um sanfoneiro que faça o que fazia o Chiquinho do Acordeom. Dominguinhos é bom, mas Chiquinho do Acordeom era um cara incrível. Ele criava introduções maravilhosas, fazia arranjos, inovava.
ZONA SUL – Como surgiu a vontade de começar a compor?
ARIMATÉIA – Foi quando morreu Lindu, um dos integrantes do Trio Nordestino. Sua morte representou uma queda muito grande da música nordestina. Quando ele morreu, a primeira coisa que me ocorreu foi fazer uma música que falasse nele. Foi a primeira vez que compus. A partir daí, vim amadurecendo e melhorando. Até mostrei ao Trio Nordestino a homenagem que fiz a Lindu. Eles gostaram, mas não gravaram porque era uma música que os enaltecia. Sugeriram que eu procurasse alguém para prestar essa homenagem. Como eu estava em Natal, distante da realidade dos grandes grupos de forró, já que eles viviam em Caruaru, Recife, Campina Grande e outras cidades fora, não tive como negociar a gravação da música. Mas surgiu daí. Depois a gente vai amadurecendo, vai pegando um pouco da manha. Eu também sempre procurei ouvir muito quem fazia coisa boa.
ZONA SUL – Você chegou a abandonar tudo por causa da música? Qual foi sua grande tentativa para ter a música como profissão?
ARIMATÉIA – Não. Paralelo à música, continuei os estudos. Estudava e procurava manter contato com aqueles cantadores, ao mesmo tempo em que explorava minha veia de compositor. Mas há uma disputa muito grande e é enorme a dificuldade de conseguir um espaço. Por isso, a maioria daquelas pessoas não dava muita atenção. Alguns perguntavam porque eu não gravava minhas próprias músicas. Mas eu não tinha essa pretensão. Em 1991, Fátima Melo gravou uma música minha, e, no ano seguinte, inscrevi uma música no Festival do Sesi. Fui procurar um amigo para defender. Ele disse que não. Então resolvi que eu mesmo cantaria. A música classificou, mas não foi para a semifinal. Depois disso, desisti de participar de festivais. Eu só queria conhecer como era.
ZONA SUL – E a gravação do seu CD, como aconteceu?
ARIMATÉIA – Logo após o festival do Sesi, comecei a pensar em gravar um disco. Comecei a me preparar. Paralelamente, fui fazer Geografia na faculdade. Então, resolvi estipular como meta gravar meu CD logo após concluir o curso. Foi exatamente o que eu fiz. Um ano antes da gravação, eu já percorria emissoras de rádio do Rio Grande do Norte para divulgar o cantor Gláucio Costa. Eu gostava muito de participar desses programas. Levava discos de outros cantores para divulgar também. Essa experiência foi boa porque me deu uma certa maturidade. No final de 1995, gravei meu disco em Maceió, o CD Forró Sempre Forró. Naquela época, tinha surgido o modismo das bandas de forró, tipo Mastruz Com Leite, Cavalo de Pau... Eles tinham dito publicamente que Trio Nordestino já tinha se enterrado fazia tempo e que o forró de Luiz Gonzaga também tinha morrido. Disseram assim mesmo, na televisão.
ZONA SUL – Você concorda com a morte artística de Luiz Gonzaga? O que ele significa para a música nordestina?
ARIMATÉIA – Claro que não concordo. Luiz Gonzaga foi 10! Não existiu um outro igual, tanto do ponto de vista artístico, como humano. Existe uma música-tributo a ele, gravada pelo Trio Nordestino, do compositor paraibano Antonio Barros, que diz que Luiz Gonzaga foi o degrau das escadas de muitos cantadores. E isso é verdade. Ele botou muita gente para cantar, para gravar, para crescer. Hoje não temos nenhum discípulo de Luiz Gonzaga dando oportunidade a ninguém. É outro pecado nosso, dos nordestinos. Essa falta de solidariedade. Ele era diferente. Costumava distribuir sanfonas no interior. Dava tudo. Certa vez Genival Lacerda, já com repertório pronto para gravar um disco, mas sem dinheiro, procurou Luiz Gonzaga e pediu uma ajuda. Gonzagão disse: “arrume um canto que eu vou tocar pra você”. Genival arrumou um circo. Naquela mesma noite ele contou a Gonzaga que o show seria em um circo. Ele foi, mesmo assim. Era tanta gente que viram a hora o circo arriar. Hoje não têm quem nos dê a mão.
ZONA SUL – Voltando ao CD Forró Sempre Forró. Após a gravação do disco, o que aconteceu?
ARIMATÉIA – Com o CD gravado, fui para o campo de trabalho. Eu não queria tocar naquele “pega na rua”. Não queria aquele negócio de juntar quatro pessoas e marcar pra tocar naquela mesma noite. Eu queria uma coisa organizada, planejada e ensaiada. Resolvemos ir para o mercado. Mas cadê o espaço? Surgia proposta para tocar de graça. Mas como manter uma banda tocando de graça? Resolvemos tentar. Mas cadê a mídia para nos promover? Ainda toquei em algumas FMs daqui e em algumas rádios AMs. Hoje ainda toca na FM Universitária, uma emissora que trata a música com respeito. A partir daí comecei a perceber que estava malhando em ferro frio. Resolvi investir mais na minha vida, na minha profissão. Voltei para a universidade e fiz mestrado em Geologia. Mas, paralelamente, tocando de vez em quando.
ZONA SUL – Em 2004 sua carreira tomou um novo impulso...
ARIMATÉIA – Sim, agora, em 2004, classifiquei uma música no festival promovido pela TV Cabugi, o Forraço. Depois, fui para uma das eliminatórias e consegui chegar à final, quando fiquei em quinto lugar. No total, em tornos de 400 músicas foram inscritas, 38 classificadas e 12 selecionadas para a final. O prêmio foi participar de um CD ao vivo. O primeiro colocado levou mil reais e o segundo e terceiro, quinhentos, cada um. Também tivemos umas chamadas na mídia. Esse festival tinha tudo para projetar e abrir as portas para a música potiguar. Não temos uma identidade que produza espaço para o artista local. Natal é uma cidade turística, mas chega à noite e o turista que está aqui não tem o que ver. Quando ele vai para um barzinho ou para uma casa de música, só escuta músicas da Bahia ou do Ceará. Isso é triste.
ZONA SUL – Hoje Natal sente falta de uma boa casa de forró? Seria um empreendimento de sucesso?
ARIMATÉIA – Acho que primeiro temos que trabalhar a conscientização para que haja vontade de se ir a esses espaços. O que temos hoje são aqueles megaeventos, com super-bandas... Mas aquele espaço consistente, que faz a base, nós não temos. Pernambuco, por exemplo, tem a Casa de Reboco. Queria uma coisa assim. Em Recife são vários os locais. Eu digo que sou um pernambucano que nasci no Rio Grande do Norte. Tenho uma grande identidade com esse povo, apesar de não ter nascido lá.
ZONA SUL – Qual sua opinião sobre essas bandas de forró atuais, tipo Calcinha Preta, que arrastam multidões por onde passam?
ARIMATÉIA – Eu não considero nem forró. Não admiro, não vejo nada de semelhança com o forró. Já o chamado forró universitário ele é mais parecido, porque resgatou a sanfona, o triângulo e a zabumba. É bom porque pelo menos não denegriu tanto e quis resgatar. Mas, no fundo, não é o nosso forró puro. Tem uma batida de forró feia, uma levada de forró fraca, e não tem o vocabulário que nós temos. Forró autêntico tem que ser feito pelo nordestino puro e sertanejo, ou seja, por quem nasceu na região semi-árida, principalmente. Agora, o poder da mídia é muito forte. E nós nordestinos terminamos deixando de ouvir o nosso forró para consumir o que vem de fora, quando a gente tem um monte de artistas muito melhores aqui.
ZONA SUL – O que você está ouvindo atualmente no seu toca-cds?
ARIMATÉIA – Luiz Gonzaga, Nando Cordel... Tenho muitos de Jorge de Altinho. Trio Nordestino tenho em vinil, eles estão lá em papai, pois estou passando para CD. Os 3 do Nordeste eu também escuto muito, junto com muita coisa antiga, boa, que nunca deixo de ouvir. O forró sempre teve o bom, o médio e o fraco. E o fraco é aquela música pejorativa, que hoje infelizmente está prevalecendo. Hoje o que faz sucesso é “Cadê minha rapariga”, “Eu quero ir pro cabaré”. Acho uma coisa abominável. Não é forró.
ZONA SUL – Quem, no Rio Grande do Norte, está fazendo um forró que merece ser ouvido? E no país?
ARIMATÉIA – Os forrozeiros do Rio Grande do Norte estão todos no anonimato. O único que está se sobressaindo, até pelo mérito e também pelo nome que já tinha, é Elino Julião. Tem um amigo meu, Chiquinho do Acordeom, que tem um trabalho bom, a gente já tocou junto, ele me acompanhou em show. Olinto Potiguar é outro que se sobressai. Zé Barros, um rapaz que está até cego, tem uma coisa bem nossa. Mas não têm tantos forrozeiros. Poucos ficaram na linha, entre eles, eu. Muitos migraram, passaram a tocar de um jeito diferente, coisa que eu não faço. Uma grande forrozeira de Natal, que temos uma ingratidão muito grande com ela, é Hermelinda. Ela está no anonimato total. No Brasil, continuo achando que o melhor forrozeiro que temos ainda é Jorge de Altinho, nessa linha que eu me identifico, que gosto, que acho que é forró puro. Até pela própria história dele. Ele foi compositor de Luiz Gonzaga, de Trio Nordestino, d’Os 3 do Nordeste. Ele é um pernambucano que tem raiz profunda na história sertaneja desse povo. Tem uma facilidade muito grande de fazer poesia. Fala de lugar, de amor, de prazer, de alegria, de tristeza... Acho um cara completo. Pra ser forrozeiro, tem que ser um matuto autêntico, no bom sentido. Assim como Jorge de Altinho, eu me acho um matuto autêntico. O meu avô dizia, e eu repito sempre: “tem que conhecer o cheiro e o povo do sertão”. Muitos dizem que forró não tem letra. Mas são pessoas que ainda não tiveram capacidade de descobrir o que tem em uma música de forró.
ZONA SUL – E essas denominações que a mídia dá para o forró, tipo pé-de-serra, universitário...
ARIMATÉIA – Eles criaram o termo pé-de-serra depois que houve uma decadência muito grande daquelas bandas. Trouxeram o zabumba pra frente e começaram a chamar de pé-de-serra. Nós, forrozeiros, dizemos sempre: só existe um forró. Não existe outro. Quando passaram a chamar outros ritmos de forró, foi que complicou o negócio. Da mesma forma que chamaram o pagode de samba. Se você escuta o samba verdadeiro, é uma diferença muito grande. Waldonis disse até uma frase engraçada, mas verdadeira, quando esteve aqui em Natal, em 2004: “forró é como tatu - se não for verdadeiro, é peba”.é peba”.
ZONA SUL – Tem algum plano que envolva música?
ARIMATÉIA – – Sempre me cobram por um novo CD, mas tenho que pesar se vale a pena. Quem está cobrando não sabe a dificuldade. O problema não é gravar, mas fazer com que tenham acesso a ele. Antigamente diziam que era difícil chegar ao disco e fácil conquistar o sucesso. Hoje é o contrário. É fácil chegar ao disco e o sucesso é remoto. As portas da divulgação, que é a alma do negócio, estão fechadas. Por isso, como se apresentar se ninguém lhe conhece? Eu precisaria de uma mídia, de um grupo. Até isso falta visão no Rio Grande do Norte. Se um empresário desse investisse, poderia sair na frente. Se uma FM ao invés de tocar apenas as músicas feitas fora, se investisse na cultura do estado, poderia se surpreender com o resultado. O negócio é comparar, dar uma chance ao público de escolher. Também já pensei em montar um trio para trabalhar em um hotel, por exemplo. Ter uma terça-feira à noite voltada para o turista. Natal está precisando urgentemente de algo assim. Ou faz, ou acaba o turismo. Depois que todo mundo visitar as dunas, não vem mais aqui. Vem ver o que? A noite de Natal não tem nada. Se você vai ao Zás Trás, quando chega lá os cara tão apresentando música da Bahia. Não pode.

Um comentário:

  1. Tive o previlégio de conhecer Arimatéia pessoalmente, de ser seu amigo. Suas palavras nesta entrevista são sinceras, autênticas como ele. Figura singular, de caráter e talento indiscutível. Nunca desista...

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