O KEITH RICHARDS PAPA-JERIMUM

“Meu nome completo é Reinaldo Azevedo. Os jipeiros me chamam de Lobão. Nasci ora em Natal, ora em São Paulo do Potengi. Ora no dia 21 de novembro, ora no dia 23 de novembro de 1950. Sou sagitariano...” Foi dessa forma que, em uma noite de julho, começou o bate-papo que eu e Costa Júnior mantivemos com o artista Reinaldo Azevedo, da Banda Anos 60. Ao final, outro integrante da Banda, Mário Henrique, juntou-se a nós. Direto, bem-humorado e firme nas suas posições, Reinaldo não se esquivou de nenhuma pergunta. Ao contrário: fez questão de soltar o verbo contra o descaso com o qual o músico potiguar é tratado pelos produtores. Vamos aos melhores momentos da conversa. (Roberto Homem)

ZONA SUL – Por que essa polêmica quanto ao local e à data do seu nascimento?
REINALDO – Minha vida inteira é uma polêmica. Na realidade, Chico Luiz, papai - que era um grande incentivador da Banda Anos 60 - não sei por qual mutreta me registrou dois dias antes de eu nascer. Ainda bem que ele acertou no sexo. (risos) Na realidade eu nasci no dia 23 de novembro, em Natal.
ZONA SUL – Foi uma cachaça grande que ele tomou?
REINALDO – Foi uma cachaça juntamente com um pecúlio ou algo assim. Eu não sei direito que danado era.
ZONA SUL – Você tem quantos filhos?
REINALDO – Oficialmente tenho dois casamentos. São dois filhos e dois netos do primeiro - dos quais uma filha e um filho são músicos - e um neto com 13 anos já aprendendo a tocar guitarra. Do segundo casamento tenho o Lobinho, já com seis anos, que está desarnando para a bateria.
ZONA SUL – Seu pai também era músico?
REINALDO – Meu pai Chico Luiz era músico e boêmio muito conhecido em Natal. Ele foi um grande orientador e incentivador da Banda Anos 60. Mas isso foi depois. Papai ficou com uma raiva muito grande da gente porque a primeira guitarra que nós construímos foi quebrando o violão dele para aproveitar o braço. Isso no começo dos anos 60. Ele foi obrigado a comprar outro violão.
ZONA SUL – Chico Luiz chegou a se profissionalizar?
REINALDO – Não. Ele era um músico conhecido nas noitadas, nas boêmias norte-rio-grandenses, mas não se profissionalizou.
ZONA SUL – Essa tendência para a música você adquiriu com ele?
REINALDO – Não, mas com o pai dele, o meu avô. Meu avô era violeiro, tinha um conjunto de violeiros. Meu pai tinha conjunto de boêmia, tinha regional. Meu avô era Manoel Luiz de Assunção. Acariense, mas estabelecido em São Paulo do Juremal, ou do Potengi. Sou o músico da terceira geração da família. Da quarta, são meus filhos. A quinta geração já é o meu neto, com 13 anos, já desarnando na guitarra.
ZONA SUL – Você envolveu-se com a música desde cedo? Com qual idade?
REINALDO – Sim, desde cedo. Cara, acho que já nasci tocando percussão...
ZONA SUL – Mas no primeiro ou no segundo nascimento? No do dia 21 ou no dia 23?
REINALDO – Em ambos!!! (gargalhada) Na realidade, eu tinha uma tendência muito grande pra percussionista. Comecei a pegar o violão de papai e ele, com ciúme, dizia que eu não tinha nascido pra tocar violão. Depois descobri a guitarra com Tony Campelo. Quando me deslumbrei com a guitarra, papai disse: “isso é instrumento de fresco, de veado, portanto você nunca vai ser um guitarrista, já que você nem tem tendência pra veado, muito menos pra guitarrista. Mas pra percussionista pode até ser”. Resolvi mostrar ao velho que eu poderia tocar guitarra. Aí passei a me dedicar. No início tive muita dificuldade de digitação. Percussão era beleza.
ZONA SUL – Você parece guardar boas recordações desse começo musical...
REINALDO – Sim, tem até uma história engraçada. Depois de ter quebrado o violão dele, e de ele ter comprado um outro, eu disse: “pai, aprendi uma música espetacular”. Ele perguntou qual era e eu respondi: rock and roll. Chico Luiz quis saber qual era o tom. Eu disse Mi. “Maior ou menor?” Menor. Ele comentou que eu tinha começado bem, pois já estava sabendo o que era Mi Menor. Pediu pra eu fazer um acorde. Quando peguei o violão dele, eu com uma pulseira enorme, ele mandou eu tirar pra não arranhar o violão. E já emendou que pulseira não era negócio de homem sério. Ele pediu que eu fizesse um Mi Menor e fosse para a introdução. A música tinha sido gravada por Jet Black`s, Chapeuzinho Vermelho. “Ei, menina do chapéu vermelho / não ligue pra nenhum conselho / dizem por aí que eu sou o Lobo Mau”. Mas antes tinha uma introdução, que era o uivo de um lobo. Depois que toquei o Mi menor, Chico Luiz pediu que eu fosse para a introdução. A introdução era um uivo, e eu uivei: auuuuuuuuuu. Ele mandou eu parar e me proibiu de pegar no seu violao. “Isso não é negócio de gente séria”. Essa história ficou pra posteridade. Mas depois ele amaciou. Ao final, antes de viajar, já usava cabelo maior que o meu. Tenho vídeos e dvds dele tocando com a gente. O mais animado da banda era Chico Luiz.
ZONA SUL – E a história de formar a banda, como foi?
REINALDO – Tenho um legado de bandas de jovem guarda dos anos 60. Fui fundador, em 1966, do cojunto do Colégio Padre Monte, no quarto ano ginasial, em 1966. Depois, em 1967, quando parti para o curso científico e tive que deixar o colégio Padre Monte, formei o conjunto Os Nobres, com Expedito, Jairo e Jair. Depois passei pelos Zíngaros e Os Brasas. Quando fui para a faculdade, passei uns cinco anos sem tocar. Fiz odontologia. Depois disso tudo encontrei com Mário Henrique, e numa noite de degustações etílicas aqui por Ponta Negra, disse a ele que tinha vontade de fazer um show de MPB no Teatro Alberto Maranhão. Ele gostou da idéia, mas o show não aconteceu. Paralelamente, eu já vinha fazendo uma pesquisa discográfica e bibliográfica sobre a jovem guarda, porque lá no meu âmago, lá no meu espírito, eu tinha vontade de fazer alguma coisa do gênero, pra resgatar aquilo. O fato é que nunca montamos o show de MPB nem o de jovem guarda no Teatro Alberto Maranhão. Começamos a ensaiar alguma coisa de jovem guarda baseado na pesquisa para apresentar em barzinhos. Fizemos no antigo De Repente Pastel, em Ponta Negra, no Badaladeira e em outros locais. Isso vai fazer 20 anos em outubro. A partir de então foi irreversível, porque ninguém nunca deixou a coisa retroagir. Começamos a tocar profissionalmente, o primeiro show foi no Clube da Petrobras, depois Badaladeira, e por aí foi.
ZONA SUL – Você hoje vive de música ou tem outra profissão?
REINALDO – Costumo dizer que nas horas vagas sou dentista. Mas meu consultório odontológico dei de presente para uma comunidade carente lá de Lagoa de Pedra, um dia quando tava tomando uma cerveja,. Um amigo disse que tava precisando de um consultório. Eu falei que tinha um parado e perguntei se ele queria ir buscar. Ele não acreditou, pensou que eu estava bêbado. Eu mandei ele passar no dia seguinte. Ele foi e levou o consultório. Hoje sou funcionário público da Secretaria de Saúde do Estado e também desenhista ilustrador desde os anos 70, desde o tempo do Grupehq (Grupo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos), do qual fui fundador com Emanoel Amaral, Anchieta Fernandes, Edmar Viana, do Cartão Amarelo, e muitos outros, como Lindemberg Revoredo e Don Lucas Brasil. Hoje continuo fazendo ilustrações. Trabalho no meu ateliê, lá em casa. Faço por encomenda. Fui muito mais ilustrador de história em quadrinho, nos anos 70. Depois, ilustrei livros. Ano passado ou retrasado, não lembro bem, ilustrei um dicionário de termos nordestinos que foi lançado em Fortaleza. Ele é meio amarelado, cobre. Depois fiz ilustrações para um tratado de história do Brasil em dois volumes. Não vi o resultado final porque esse trabalho estava no prelo pra ser impresso pela gráfica do Senado, em Brasília. Não sei se saiu. Da Secretaria de Saúde já estou perto de me aposentar. Fui contratado como dentista, mas sempre fui assessor de planejamento. Hoje sou assessor de comunicação. Na área musical, tenho a Banda Anos 60.
ZONA SUL – Foi difícil consolidar a banda? Vocês encontraram muitas dificuldades?
REINALDO – Não, nenhuma. O núcleo base da banda permanece há 20 anos: eu, Mário Henrique e Jorge Lira, no teclado. Até os demais componentes - Jairo, na bateria; Serginho, no contrabaixo; Silvinha, a crooner; e Bill, na guitarra base, são veteranos. O universo musical também é o mesmo.
ZONA SUL – A banda tem composições próprias?
REINALDO – Sim. O compositor oficial da banda é Mário Henrique. Eu gosto mais da parte de arranjos, essa coisa toda. Mário Henrique é um grande compositor. Sempre que entra em um festival tira em primeiro, segundo ou terceiro lugar, pra não matar o pessoal de inveja. Também temos CDs gravados. Nossa discografia inclui um vinil compacto simples, O vento sopra em seus cabelos, e dois CDs: um ao vivo e o outro em estúdio, gravado com Jota Marciano. Os nomes são Banda Anos 60 Ao Vivo e Banda Anos 60 O melhor da jovem guarda. Em carreira solo tenho o Reinaldo Azevedo Instrumental. Estamos entrando no estúdio em breve pra fazer Banda Anos 60 Internacional, com repertório só de músicas internacionais. Já está sendo muito cobrado pelo público. O orçamento já está feito, só falta agora levantar fundos.
ZONA SUL – Nesse instrumental você toca todos os instrumentos?
REINALDO – Sim, mas também tem a participação de alguns convidados especiais da Banda Anos 60, que tocam em três faixas. O disco é um tributo oferecido a Chico Luiz, onde procurei tocar todos os instrumentos. O repertório é surfing music. Têm músicas instrumentais da jovem guarda, muito Jet Blacks, Incríveis, The Clevers, The Jordans, The Pop’s, Os carbonos... Também tive a ousadia de gravar um choro de Waldir Azevedo em ritmo pop, com a base de contrabaixo e bateria. A musica é Pedacinhos do céu.
ZONA SUL – Quantos instrumentos você toca?
REINALDO – Perdi a conta. No CD devo tocar quase 20. Só guitarras são umas seis ou oito.
ZONA SUL – A receptividade do público natalense foi parecida com a do seu pai quando você começou com essa história de banda?
REINALDO – Quando comecei com a história de banda, entrei exatamente no choque de gerações. Começo dos anos 60. A primeira vez que peguei uma guitarra e subi no palco para tocar foi em 1965. No palco do Colégio Padre Miguelinho. A segunda vez foi no Colégio Padre Monte. Daí desarnou. Naquele tempo, você tocar tocar guitarra, ter cabelo grande, usar calça apertada, pulseira e bota de salto alto era negócio de veado. Levei muito nome de gay. Aliás, não chamava gay ainda, era veado mesmo, ou fresco. Gay nem tinha, gay era chique demais. Era fresco mesmo. Foi conflitante, eu diria. Pegou a época de ditadura, do regime militar, daquela confusão toda... Foi muito difícil. Tinha outro complicador, a questão da dificuldade instrumental da coisa. Nós fabricávamos as guitarras quebrando violão, era uma loucura toda. A primeira guitarra que eu fiz foi de papelão, um protótipo. Mas foi muito difícil.
ZONA SUL – Vocês se apresentam em algum lugar fixo?
REINALDO – Não. Desde que a banda começou, nunca tocamos em um lugar. Isso pra não saturar nem a nós mesmos nem ao público. A Banda Anos 60 sempre toca e pára um pouquinho. Exagerando, talvez sejamos uns Rolling Stones tupiniquins. A gente toca e dá uma parada para relaxar, principalmente no meio do ano, que é um período junino, de chuva. Aqui não tem um Cavern Club da vida que dê para a gente tocar o ano todo. A gente para, dá saudade, o público pede e nós voltamos. É mais ou menos assim.
ZONA SUL – Vocês também abrem shows para bandas de fora...
REINALDO – Algumas vezes sim. O pessoal diz que sou pavio curto e não tenho meio termo, mas acontece uma sacanagem com a parte empresarial aqui de Natal. Eu nunca vi tamanha ignorância. Eu não diria nem ignorância, mas ganância mesmo. Além disso tem uma coisa pior: o pessoal não enxerga a prata da casa, os valores culturais que nós temos. Tenho andado pelo meio do mundo, pelo Sul, pelo exterior; toquei nos Estados Unidos, no México e até na Argentina, mas nunca vi uma viseira tão grande como essa que se usa aqui em Natal. Como as daqueles jumentos, daqueles burros que puxam carroça e o cara bota uma viseira lateral pro bicho não ver de lado. Grande parte dos empresários aqui de Natal agem assim. E isso nem é só com a Banda Anos 60. De uns cinco anos pra cá, eu diria, grandes bandas novas desarnaram. Deixaram aquela mesmice do forró, do pagode e do axé - que eu também não tenho nada contra isso - e tão fazendo hoje um trabalho muito sério. Mas acontece que a classe empresarial aqui de Natal olha pro outro lado pra não contratar grupos quando vem outras bandas tocar.
ZONA SUL – Mesmo com essa dificuldade, a Banda Anos 60 se apresentou com muitas outras bandas e artistas de fora?
REINALDO – Fizemos muitas dobradinhas com bandas de fora. Renato Barros, dos Renato e seus Blue Caps, por exemplo, é padrinho da Banda Anos 60, pra quem não sabe. Gileno Wanderley, o Leno, é meu primo. A Banda Anos 60 tocou com os maiores nomes da jovem guarda. Mas é complicado. Quando o cara vem de fora, o empresário tem que pagar 50% na hora em que firma o contrato, e, antes de subir no palco, quitar o restante. É um direito que o artista tem. Agora, quando é uma banda daqui, o empresário vem choramingar. Quer trocar um show por dois ou três caroços de feijão, mais cinco caroços de arroz. Isso é sacanagem! Muitas vezes tenho que bater forte nisso aí, e brigar. É até uma obrigação da Banda Anos 60, com a maioridade que tem, fazer isso. Uma das primeiras vezes que houve show aqui de Renato e seus Blue Caps, Fevers e Pholhas, um empresário, não lembro nem do nome, veio perguntar se a Banda tinha interesse de se apresentar também. Eu disse que sim. Ele propôs, como cachê, uma mesa e um litro de whisky. Eu respondi que não tocávamos a troco de merreca. A gente toca até de graça pro abrigo dos velhos, Instituto Juvino Barreto, pro Hospital Infantil Varela Santiago, pra eventos como o do Dia Mundial de Combate a Aids ou o Dia do Músico... Se tiver algum amigo doente, a gente faz um megashow e dá a grana para o cara ou para a família. Mas tocar a troco de merreca, não. Temos obrigação de denunciar essas coisas, bater o pé e não fazer. A Banda Anos 60 toca onde acha que é reconhecida e valorizada. Vem uma banda de fora, qualquer uma que seja, e os caras exigem o que querem. Os empresários daqui arreiam as calças e deixam os caras fazer o que quiserem. Vem, levam nosso dinheiro e o pessoal ainda acha ótimo. Estou completando 40 anos de palco e não estou mais disposto a baixar a cabeça pra ninguém.
ZONA SUL – E a carreira de vocês fora de Natal?
REINALDO – A Banda Anos 60 começou como mero hobby. Depois virou um hobby remunerado. Cada um dos componentes da banda, sem exceção, tem atividades profissionais paralelas. Todos nós somos profissionais liberais. Não estou me vangloriando disso, porque meu coração é puramente de músico. Quando o pessoal pergunta o que sou, digo que: dentista nas horas vagas e músico profissional. Sempre digo isso. Temos nossas obrigações, tanto profissionais, quanto com nossas famílias também. Já tocamos em outros lugares, principalmente em João Pessoa, Campina Grande, e, no interior do Rio Grande do Norte, em muitos municípios. Representei a Banda Anos 60 tocando na Argentina, na fronteira com o Uruguai, no México, e, principalmente, nos Estados Unidos - tanto na Flórida como no Arizona. Agora, onde aparecer contrato, nós vamos. Desde que não seja uma turnê muito demorada. Isso só depois de nos aposentarmos, daqui a uns três anos.
ZONA SUL – Já trabalharam em campanha política?
REINALDO – Oficialmente não. Já demos algumas canjas informais para alguns políticos. Show apolítico para político. Sem comentários. Nós estávamos presentes e nos convidaram para subir ao palanque e fazer uma apresentação. Ainda sou muito adepto de que o artista deve ir onde o público está. E assim nós fazemos. Agora, se pintar um contrato legal, por que não? É trabalho profissional. Subiu no palco, é profissional.
ZONA SUL – Vocês tiveram problemas com a censura?
REINALDO - Antigamente tivemos, na época da ditadura. Lembro bem que houve quando eu tocava nos Brasas e no Zíngaros também, na época em que existia a censura federal. Um bando de cara que não entendia nada de música. Acho que nem o estilo da música eles sabiam o que era. Antigamente era sério isso aí.
ZONA SUL – E a relação de vocês com as outras bandas?
REINALDO – Muito boa. Nunca pensei na minha vida que depois de uma certa estrada, de tanto tempo de palco, fôssemos ser tão respeitados. Digo isso com o maior carinho do mundo. Fico muito feliz quando sinto isso nessa meninada de hoje. Aliás, todo o louvor pra esses meninos de hoje que estão estudando, ralando. Digo até sem medo de errar: estão botando a gente no bolso. Acho lindo. A relação é a mais linda do mundo. Eu só queria que a relação entre os empresários e os músicos fosse similar a relação que existe com essa nova geração. Antigamente, abrindo um parêntesis, nós, bandas, competíamos. Quando, nos anos 60, uma banda terminava de tocar em um baile, corria pra onde houvesse outro que ia terminar mais tarde. Era um verdadeiro revival. Faltando meia hora pra terminar, subia todo mundo no palco. Era cobra engolindo cobra, todo mundo querendo engolir todo mundo. Depois se abraçava, aquele negócio todo, mas na saída um comentava com o outro: “mas aquele cara está tocando ruim demais, né não?”. (risos)
ZONA SUL – O que você gosta de escutar?
REINALDO – Tudo. Tenho minhas preferências, evidentemente. Evito ouvir algumas coisas. Me irrita muito música ruim. Música ruim é música mal tocada. Você pode nem ser um grande instrumentista, mas se tocar com sensibilidade, eu gosto. Nós mesmos da Banda Anos 60 não somos virtuoses, mas músicos medianos. O fenômeno da Banda Anos 60 é que, quando subimos no palco, temos feeling. É a lágrima chamada. Agora, o que gosto mais de ouvir no meu dia-a-dia é rock. Sou roqueiro assumido e também gosto de blues. Pra começar, eu citaria Chucky Berry, que é das minhas grandes influências. Carlos Santana também, que pra mim é o músico mais completo que pode existir. Ele abrange todos os gêneros. Consegue aglutinar tudo e vomitar na guitarra dele. Ele rumina e vomita depois. Um verdadeiro ruminante, aquele cara. B.B King. é outro gênio. Voltando mais para o Brasil, tem um cara chamado Armandinho que é sensacional. Robertinho do Recife é outro. Agora, aqui em Natal temos grandes instrumentistas, como Joca. Ele é uma pessoa que considero como dos maiores guitarristas do mundo. Tive o privilégio de tocar com Joca Costa ainda nos festivais do Palácio dos Esportes, nos anos 60. Também gosto de Kiko Chagas, que é quase primo meu. Ele é enteado de uma prima minha. Tem também um cara que eu gostaria de citar o nome dele, que eu adoro ouvir, que é um bluesman chamado Albert Collins.
ZONA SUL – Pelas suas preferências seu pai errou feio na previsão que fez a seu respeito...
REINALDO – Papai errou feio. Papai me fez tocar bandolim, tocando choro. Aliás, queria agradecer a Chico Luiz, que deve estar lá em cima queimando as orelhas porque a gente ta falando essas coisas aqui. Eu tenho um agradecimento a fazer pra ele porque ele disse: “pra você aprender a tocar a porra dessa guitarra, primeiro vai passar aqui pelo choro”. Na realidade, o sonho dele era que eu tocasse cavaco. E eu comecei tocando cavaquinho, ainda toco. O frevo baiano vem da adaptação, claro que do frevo pernambucano, mas com o choro, através da guitarra do Armandinho. Me influenciou muito. Eu consegui ludibriar papai transformando o cavaquinho numa guitarra baiana. Eu projetei minha primeira guitarra baiana, mas não tive coragem de fazer. Levei pro mestre Antonio Lucas. Hoje finado, ele deve estar ouvindo também o nosso papo. Era gente finíssima. Mas Chico Luiz me obrigou primeiro a passar pelo violão, depois o cavaco. Por rebordosa entrei no bandolim. Foi uma grande escola que eu tive, ter passado pelo choro e pela MPB
ZONA SUL – Como o público de hoje, século XXI recebe o show da Banda Anos 60? Qual a platéia que assiste a banda?
REINALDO – Pra nossa surpresa, nunca pensei que o iê-iê-iê - vamos falar agora no idioma tupiniquim - fosse tão bem absorvido pelas mais diversificadas e diferentes gerações. Nós pensávamos que Banda Anos 60 seria apenas uma brincadeira passageira. Mas rendeu. O show da Banda Anos 60 hoje abrange um público dos 8 aos 80 anos. Inclusive nós temos experiências lindas com grupos de jovens e encontros de casais com Cristo. Isso porque nem sou muito religioso. Conheço muito de bar, de religião não. Mas acho fantástico esse negócio de jovens religiosos, de juventude cristã. Já fizemos vários shows para esses grupos. Os filhos vêm contratar a banda e os pais são convidados deles. Tem horas que você chega a chorar de emoção. É pai junto com filho curtindo rock and roll e jovem guarda. Os filhos também conhecem o repertório, não é brincadeira não. Isso aí é o maior alimento que a Banda Anos 60 nunca pensou em ter na vida.
ZONA SUL – Existe algum evento que pode ser considerado “o show” da Banda? Uma apresentação inesquecível, como por exemplo Paul Simon e Art Garfunkel naquele show para 200 mil pessoas no Central Park?
REINALDO – Nós temos o nosso show no Central Park. O nosso foi melhor. Pode não ter sido maior. Mas foi melhor. Temos inclusive em DVD. Conseguimos capturar essa imagem. Uma pessoa gravou isso amadoristicamente, nos cedeu uma fita com um som que não passava nem pela mesa de som. Mas, cara, ficou legal demais. Isso foi ainda na época do Hiper São José quando nós fizemos dois grandes shows. Um com Leno e outro com Leno e Lílian. Lindo, lindo, lindo, lindo. Talvez tenha sido nossa apoteose. Helison sonorizando o evento. Acho que Castelo Casado fazendo iluminação. Superlotou aquele pátio aberto. Meu irmão Fernando Azevedo, que também é músico nas horas vagas e hoje é aposentado pela Polícia Rodoviária Federal, fez uma estimativa muito louca do estacionamento. O estacionamento na BR chegou a quilômetros de extensão. Temos essas imagens. Foi apoteótico, eu diria. Agora, mais importante que considero não é isso, não. O que acho mais bacana é quando, no intervalo ou no final de qualquer apresentação, vou no banheiro e ouço os comentários. “Cara, que show legal, pá pá pá”. Teve também um show que fizemos no Bar do Buraco que foi fantástico. Um show jovem, tinha até um roqueiro, um bluesman, que veio de fora. Um negro americano que tocava muito bem. A banda Anos 60 tocou uma parte desse show. Lá pras tantas durante a apresentação, o público começou a gritar: a camisa, a camisa... Eles estavam pedindo a camisa que eu estava usando, pintada por mim mesmo E eu pensava que era camisinha. Eu tirei umas camisinhas da bolsa e joguei. “A outra”, gritaram. Tirei a camisa, fiz um grande strip e joguei para o público. Foi altamente disputada. Quando terminamos, devido a degustação etílica da cerveja, nós fomos desbebê-la. Ivanildo, nosso guitarrista e backing vocal, veio contar o que ouviu no banheiro. “Cara, tinha um velho muito doido que parecia estar cheio de droga. Fez um strip-tease e ainda deu a camisa pra gente”. “Ô véio doido, cara”. Ouvir coisas desse tipo é melhor do que qualquer cachê.
ZONA SUL – O que a banda está planejando?
REINALDO – Cinco mil coisas. As vezes a gente não executa muito por causa das atividades paralelas. Mas breve, talvez comemorando os 20 anos de banda, em outubro, estamos pensando duas coisas ou uma. Seria um show baile, que é a nossa praia, e a gente fazer um experimento de um acústico. Temos muita vontade de mostrar a importância dos Beatles e da jovem guarda na cultura jovem brasileira. Seria o acústico. Está praticamente escrito, pesquisei nos meus alfarrábios. Abri o velho baú e pesquei um bocado de informações. Selecionamos um repertório dos Beatles de aproximadamente 25 músicas. Estamos com 50 montadas. Mas vamos ter que reduzir pela metade, porque vamos dividi-las em inglês e português. O show terá um roteiro cronológico mostrando quem na época da jovem guarda fez a versão e quem regravou. Já está pronto. Já começamos a ensaiar e fazer as adequações. Vai ter um scriptzinho não muito cansativo, onde nenhuma palavra vai ser jogada pra cima. Não vai ser show baile, será em lugares pequenos, fechados. Semi-acústico, eu diria. Não vai ser unplugged. Além disso, terá toda uma ambientação. Já fiz, em bico de pena, todos os desenhos dos Beatles que pretendo usar e vou ampliá-los em painéis gigantes, para o fundo do palco, como decoração. Ao mesmo tempo, esses mesmos painéis - as artes finais feitas em nanquim, em tamanho A4 – serão impressas em algumas arte-camisetas. Vamos fazer essa exposição de arte-camiseta ou, quem sabe, a camiseta servir como a entrada.
ZONA SUL – Também tem plano de transformar essa apresentação em CD?
REINALDO – Quem sabe? Podemos fazer um CD só Beatles, não cover. Pode até sair um CD acústico. Gravar um CD internacional é outro projeto. O repertório será Elvis, Beatles, Creedence, Little Richard, Chucky Berry, Pat Boone, The Platters...
ZONA SUL – Como é sua relação com o desenho?
REINALDO – Eu passei muito tempo sem desenhar depois que o Grupehq se extinguiu. Veio a faculdade, a pós-graduações e também paramos de tocar um pouco. Sofri muito com isso. Não me arrependi porque não me arrependo de nada do que fiz. Eu me arrependo do que eu não fiz. Peco por excesso, nunca por omissão. Mas eu via necessidade de voltar a fazer uma coisa mais introspectiva. O trabalho como músico é muito grupal. Já do desenho gosto muito porque é quando preciso hibernar e ficar muito introspectivo. Depois que voltei a desenhar, de uns oito anos pra cá, desenvolvi uns trabalhos de pirogravura em couro, em vaqueta natural. Minha temática sempre foi nordestina, pesquisando cangaço. Pretendo fazer algumas exposições grandes, itinerantes, até em escolas também. Já fiz uma experiência na Academia Norte-Rio-Grandense de Odontologia, foi com pirogravuras. Essas mesmas pirogravuras eu puxei pro bico de pena, em cima da pesquisa que estou fazendo sobre cangaço. Trabalho mais em cima não só da história em si, mas procuro dar ênfase em resgatar situações as quais não foram resgatadas Estou procurando resgatar lendo muitos episódios sobre cangaço. Principalmente sobre Lampião, mas não só sobre ele. Quando a neta de Lampião, Vera Ferreira, esteve aqui em Natal, ano passado, fazendo uma exposição, ela levou um trabalho meu. Ela achou interessante alguns trabalhos que fiz, como, por exemplo, o nascimento da mãe dela. Não tem nenhum registro do nascimento de Expedita, a mãe dela. Era filha de Maria Bonita com Lampião. Ela nasceu numa noite enluarada, com muito sacrifício, sob as estrelas. A fogueira pras cangaceiras fazerem a assepsia de Maria Bonita. Lendo, eu fiz um desenho de Lampião pegando nas mãos a filha recém-nascida e apresentando para o bando todo, muito feliz, sorridente, inclusive. Ao fundo, a fogueira. Uma lua simbólica com um céu estrelado. Ao longe a barraca onde Maria Bonita estava sendo asseada pelas cangaceiras. Ela gostou muito desse trabalho, eu dei uma cópia para ela. São coisas assim que venho fazendo, além das ilustrações.
ZONA SUL – Cheguei até ver um desenho seu em Mário...
REINALDO – Mário Barbosa? (risos) Conheço demais seu pai, Nélson Siqueira. Nós somos fregueses fiéis. Estou vindo de lá agora. Foi praticamente em dois lugares que aprendi a beber em Natal. Vale a pena registrar o fato: Mário Barbosa e Aldeman.
ZONA SUL – Onde as pessoas encontram seus trabalhos?
REINALDO – Os CDs Reinaldo Azevedo e Banda Anos 60 podem ser encontrados lá em Discos Fitas, em Marcínio, que é um grande incentivador da Banda. Sabe tudo sobre música, principalmente sobre música jovem. Tem um acervo fantástico. Sua loja fica na Princesa Isabel, esquina com aquela rua que eu não sei o nome. Acho que é General Osório. Em frente ao barzinho Caixa de Fósforo. É o primeiro fã e guru da banda.
ZONA SUL – Como pretende encerrar essa entrevista?
REINALDO – Cantando, ora... “Eu agradeço pela atenção que você dispensou / Muito obrigado e aquele abraço porque eu já vou”
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