Essa entrevista com Roque de Sá já deveria ter ocorrido há alguns meses. Chegamos a marcar
dia e hora. Nós dois comparecemos, mas, na hora “H”, Roque desconversou. Dessa vez não houve escapatória. Eu e o repórter fotográfico Waldemir Rodrigues o cercamos aqui de Brasília. Os jornalistas Roberto Fontes e Costa Júnior, via Internet, aumentaram a marcação, direto de Natal. E o repórter fotográfico maranhense Roque de Sá não teve como escapar. Valeu a pena organizar essa força-tarefa digna de capturar até foragido da Justiça. Roque – e é bom que se diga que ele não deve nada à Justiça -, enfim, contou a sua história. A conversa também pode ser conferida no site http://zonasulnatal.blogspot.com/ As fotos são de Victor Soares, dono da Agência Victor Press. (robertohomem@gmail.com)
dia e hora. Nós dois comparecemos, mas, na hora “H”, Roque desconversou. Dessa vez não houve escapatória. Eu e o repórter fotográfico Waldemir Rodrigues o cercamos aqui de Brasília. Os jornalistas Roberto Fontes e Costa Júnior, via Internet, aumentaram a marcação, direto de Natal. E o repórter fotográfico maranhense Roque de Sá não teve como escapar. Valeu a pena organizar essa força-tarefa digna de capturar até foragido da Justiça. Roque – e é bom que se diga que ele não deve nada à Justiça -, enfim, contou a sua história. A conversa também pode ser conferida no site http://zonasulnatal.blogspot.com/ As fotos são de Victor Soares, dono da Agência Victor Press. (robertohomem@gmail.com)ZONA SUL – Onde você nasceu? Como foi sua infância?
ROQUE - Nasci no maranhão, em um lugar chamado Lago dos Rodrigues. Era distrito do município de Lago dos Juncos. Hoje Lago dos Rodrigues já é cidade. Na minha infância eu cortava e cambitava cana. Quer dizer, eu cortava a cana e depois transportava no lombo de um jumento até o engenho. Lá era feita a rapadura e a cachaça. Meu pai se chamava Francisco França de Sá. Minha mãe era Sebastiana Moreira de Sá. Eu também trabalhava moendo a cana e enchendo o tacho para fazer a rapadura. Com tanta atividade, tinha que acordar cedo, geralmente de madrugada. Em compensação, eu também dormia cedo. Até porque não tinha muita coisa para fazer à noite. Sequer tinha televisão na minha casa. Minha infância foi de muito trabalho e quase nenhuma diversão.
ZONA SUL – De lá você foi para onde?
ROQUE – Para São Luís.
ZONA SUL – Por que a mudança?
ROQUE – Meu cunhado e minha irmã moravam em São Luís... Ele se chamava Bezerra. Esse meu cunhado já morreu. Como sou da rama final da família, os outros são bem mais velhos. Fui morar com meu cunhado, minhã irmã e meus sobrinhos para ter oportunidade de estudar e trabalhar. Na verdade, fui mais para trabalhar do que para estudar. Meu cunhado tinha um foto.
ZONA SUL – Apesar de São Luís ser uma cidade pequena naquela época você sofreu algum impacto em ir morar na capital do seu estado?
ROQUE – Não tive dificuldade. O que mais me impressionou em São Luís foram umas cercas vivas que o pessoal cortava em formato de animais. Fiquei curioso para saber como aquilo era feito. O resto achei tudo normal. Sou muito adaptável.
ZONA SUL – Antes de eu interrompê-lo, você estava dizendo que seu cunhado era dono de um foto...
ROQUE – Sim, e eu fui trabalhar com ele. Nesse tempo se ganhava dinheiro com foto três por quatro. Antes de mexer com fotografia, meu cunhado foi pedreiro no interior. Ainda no interior, ele montou um foto. Depois mudou para São Luís, com a minha irmã. O três por quatro foi um grande filão da fotografia. Hoje não tem muita importância, mas, naquele tempo, tinha. No laboratório do meu cunhado aprendi os primeiros passos da profissão.
ZONA SUL – Descreva o seu trabalho nesse laboratório fotográfico.
ROQUE – Eu fazia de tudo um pouco: atendia no balcão, batia fotografia três por quatro... Mas o principal era o trabalho no laboratório. Nesse tempo a fotografia era em preto e branco e a revelação era manual. A gente contava o tempo para a revelação. Já devia existir relógio nesse tempo (risos), mas lá a gente não usava. Contava até cem e recomeçava várias vezes, para dar o tempo certo.
ZONA SUL – Nessa sua fase de aprendiz aconteceu algo que mereça ser citado? Alguma foto perdida ou um elogio inesperado?
ROQUE – Em laboratório acontece, às vezes, de a pessoa perder um filme, estragar alguma coisa. Mas nesse tempo não lembro de ter acontecido. Mas recordo de um fato diferente. Até há bem pouco tempo não havia preocupação com a ventilação nos laboratórios. Era terrível passar horas trancado ali dentro, com aquelas químicas todas. Como não havia ventilação ou circulação de ar, às vezes o cara saía branco de dentro do laboratório. Uma vez, colocando a foto pra revelar (a foto estava demorando pra aparecer porque tinha sido dada pouca exposição), virei as costas pra trás e desmaiei. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Quando acordei, estava caído no chão e a fotografia estava preta, dentro do laboratório. Devo ter ficado desmaiado pelo menos uns dez minutos.
ZONA SUL – Além de trabalhar nesse laboratório fotográfico você estudava?
ROQUE - Estudava à noite no Colégio Cardoso Amorim. Lá fiz o ginásio, mas aprendi quase nada. Não tinha nada pra aprender. Foi como se eu continuasse sem ter estudado. No interior onde eu morava, era mato mesmo. O colégio ficava tão longe que quando a gente saía pra ir ao colégio, quando chegava lá, já estava na hora de voltar pra almoçar.
ZONA SUL – Voltemos, então, a São Luís.
ROQUE – Tá. Depois do foto do meu cunhado, onde permaneci muito tempo, saí e fui trabalhar no Foto Sombra. Uma outra irmã minha foi também pra São Luís... Vários de minha família
foram. Se não fosse esse meu cunhado, eu estaria até hoje fazendo rapadura e utilizando o mesmo método artesanal que aprendi na infância. Então fui morar com essa outra irmã, que abriu uma lanchonete, mas o serviço da lanchonete não era suficiente pra manter a mim e a ela. Então, de manhã cedo eu ajudava na lanchonete e depois ia trabalhar no Foto Sombra. Fiquei no laboratório durante um tempão. Depois disso, na sequência, meus pais venderam o sítio no interior e compraram um terreninho em São Luís. A gente construiu uma casinha e montei um fotinho lá também. Era uma merceariazinha e um fotinho três por quatro, tudo pequeno. Fiquei com esse foto durante um tempo, naquele bairro de periferia. Como tinha um irmão que morava em Brasília, depois mudei pra capital do país.ZONA SUL – Quer dizer que esse irmão abriu caminho para sua vinda.
ROQUE – Gabriel era o nome do meu irmão. Ele já morreu. Éramos oito filhos: quatro homens e quatro mulheres. Dois dos homens já morreram.
ZONA SUL – Já se falava em José Sarney na época em que você morou no Maranhão?
ROQUE – Sim, claro. Na época em que eu morava lá, minha família votava em Epitácio Cafeteira, que era adversário político ferrenho de Sarney. Na política, você sabe, as pessoas inventam muitas histórias. Comentavam que Cafeteira, quando foi prefeito de São Luís, asfaltava uma rua e o governador mandava a Companhia de Águas cortar o asfalto todo, para atrapalhar a vida do adversário.
ZONA SUL – Você chegou a fazer fotojornalismo em São Luís?
ROQUE – Não.
ZONA SUL – Você chegou em Brasília na época da construção da cidade?
ROQUE – Não. Vim pra cá em 1979. Ao chegar trabalhei na Gráfica Horizonte. Vim para Brasília com 28 anos. Antes de vir, estagiei no laboratório de fotolito do jornal O Imparcial. Passei um mês. Aprendi um pouco e vim para Brasília. Na Gráfica Horizonte fiz esse mesmo trabalho. Nesse meio tempo, outro irmão meu, que trabalhava em São Luís n'O Imparcial, veio para Brasília e começou a trabalhar no Jornal de Brasília. Por intermédio dele fui trabalhar lá também, no laboratório. Fiquei um ano e meio no laboratório e depois trabalhei mais seis anos como fotógrafo. Entrei no Jornal de Brasília em 1980. Em 1981 tirei o registro de fotógrafo. Fiquei por lá até 1986.
ZONA SUL – Contam que nessa época você também atuou como ator pornô. Fez sexo explícito ao vivo em teatros. Isso é verdade?
ROQUE – Eu inventei essa história por brincadeira. Andei contando que tinha feito esses shows no Conic. Como essa mentira não fez muito sucesso, desisti.
ZONA SUL – Trabalhando na rua, cobrindo pauta e fotografando, o que você destacaria nesse período do Jornal de Brasília?
ROQUE – Quando comecei como repórter fotográfico fiquei todo orgulhoso. Achava que podia ajudar a mudar o mundo. Essa ilusão é comum no princípio. Mas a primeira grande decepção não demorou. Fui fazer uma matéria sobre uns prédios que tinham sofrido rachaduras depois de umas chuvas. As garagens tinham ficado alagadas, essas coisas. O prédio era do Wigão, o ex-deputado de Brasília Wigberto Tartuce. Fui com o repórter. De repente o assessor de imprensa chamou o repórter pra conversar. Continuei fotografando. Nisso ouvi o dono de um apartamento reclamar a Wigão que aquela inundação desvalorizaria seu apartamento. Wigão respondeu que era besteira e se ofereceu para comprar o apartamento pelo mesmo valor que o cara tinha pago. Wigão disse mais: falou que bastava ele pagar um anúncio de primeira página no jornal que a situação se reverteria. Ouvi aquilo e fiquei na minha, certo de que aquela afirmação era lorota dele. Mas não era. No dia seguinte a matéria saiu, mas totalmente diferente da realidade. O texto foi publicado de forma amenizada, quase que favorável ao prédio. Essa foi a primeira decepção que tive com o mundo do jornalismo: perceber que muitas vezes o interesse comercial se sobrepõe totalmente ao jornalismo.
ZONA SUL – O repórter negociou seu texto?
ROQUE – Não foi isso. Depois falei com o repórter e ele me garantiu que a matéria que escreveu era completamente diferente. A direção é que tinha mudado. Fiquei frustrado. Outra frustração foi quando escrevi algumas matérias. Como eu estava sozinho, fiz as fotos e resolvi também escrever. Um jornalista chamado Bartô me ajudou a redigir. Praticamente ele redigiu sozinho (risos). Publiquei a foto e a matéria. Não lembro o assunto, mas fiquei entusiasmadíssimo por ter conseguido emplacar texto e foto. Foi bem no começo de minha carreira como repórter fotográfico. Pouco depois, novamente fiz texto e fotos sobre uns feirantes trabalhando no prédio da administração do Governo do Distrito Federal. A matéria foi publicada, as fotos não. Fiquei mais alegre ainda. Pensei que depois disso eu viraria repórter. Porém, conversando com um jornalista petista daqueles roxos, contei empolgado que tinha conseguido emplacar dois textos. Ele jogou o maior balde de água fria. Argumentou que se eu começasse a fotografar e a escrever e os repórteres também passassem a fotografar, ia diminuir o número de vagas na imprensa. Eu constatei que ele tinha razão e parei de escrever. Hoje me arrependo, mas durante muito tempo achei que o cara estava certo.
ZONA SUL – Fale de algumas coberturas marcantes das quais você participou.
ROQUE – Na época em que trabalhei no Jornal de Brasília, a cobertura de carnaval era feita basicamente através de fotografias. Texto tinha pouco. A gente passava as noites de clube em clube, trabalhando. Certa sexta-feira de carnaval fui ao Iate Clube. O editor havia recomendado que eu fizesse umas fotos durante a madrugada, quando as mulheres costumavam tomar banho de piscina. Nesse dia eu fiz uma coisa errada: bebi uma cervejinha enquanto fotografava. Foi um deslize que um profissional não pode cometer. Depois dessa experiência, nunca mais repeti o erro. Mas, voltando a história, lá pras tantas vi uma mulher tomando banho na piscina. Fui lá fotografar. Só estávamos nós dois naquele ambiente. Ela dentro, tomando banho, e eu fora, fotografando. De repente chegou um segurança, já valente, dizendo que eu não podia fotografar os foliões tomando banho de piscina. Respondi que se alguém estava fazendo algo de errado era a moça, que estava tomando banho na piscina. Eu apenas estava registrando. O cara me deu um safanão e eu fiquei aborrecido. Ele ameaçou me levar na diretoria. Mas naquele instante, quem estava querendo ir à diretoria era eu, para reclamar do tratamento que aquele segurança tinha me dispensado. Fomos.
ZONA SUL – E então, o que aconteceu na diretoria?
ROQUE – Antes que saíssemos do local, chegou um diretor enorme. Denunciei o segurança por ele ter me agredido. Esse diretor sugeriu que fôssemos até o seu gabinete. Receoso que ele quisesse me levar para um local sem testemunhas para que os seguranças me dessem porrada, insisti em fazer a reclamação ali mesmo. Eu estava com a minha máquina na mão. De repente,
aquele diretor que parecia um guarda-roupa pegou no meu ombro e apertou. Quando senti que ia apanhar, segurei firme a máquina e acertei o queixo dele. O diretor caiu por cima de umas mesas. Formou-se aquele rolo todo. Durante o embate com os seguranças, quando um deles estava me apertando o pescoço, a mulher a quem eu havia fotografado apareceu e pediu a máquina. Passei a máquina para ela, até para poder me defender melhor. Os seguranças pararam de bater e me levaram para outro setor. Perguntei se eu estava preso. Um segurança disse que eu estava retido, que não podia sair. Perguntei pelo meu equipamento fotográfico. Fui informado que estava guardado. Quando o dia amanheceu, o diretor a quem eu tinha acertado um direto no queixo, com a máquina, me chamou. Ele propôs que nem eu nem ele denunciássemos o caso na delegacia. Ele mostrou a marca que o golpe que eu dei tinha deixado em seu rosto. Pegou ponto e tudo.ZONA SUL – Você topou o acordo?
ROQUE – Nada. Expliquei a ele que não podia concordar com a proposta, já que eu estava naquele clube à trabalho e que tinha a obrigação de levar o assunto para o jornal. Como eu estava lá a mando do jornal, não me vi no direito de negociar privadamente aquele acordo. Perguntei de novo pela minha máquina. Ele disse que estava guardada. Só que, como não topei o acordo, quando pedi a máquina, disseram que ela tinha sumido. O equipamento não pertencia ao jornal, era meu. Sumiu. Liguei para meu irmão e ele foi me buscar. Do clube fomos direto à delegacia. O delegado não queria deixar que eu prestasse queixa alegando que alguém do clube já havia me denunciado. Disse que posteriormente eu seria chamado para me explicar. Não aceitei aquilo e, depois de insistir muito, fiz a minha queixa. Porém, não consegui recuperar o meu equipamento. Fui buscar apoio do Sindicato de Jornalistas. Lá sofri outra decepção. Na época o presidente era Hélio Doyle. Depois que contei a história, ele prometeu falar com o presidente do clube. Mas não fez absolutamente nada. Também pedi ajuda ao chefe da fotografia do jornal, já que eu estava a serviço quando tomaram o meu equipamento. Também não aconteceu nada. Depois de um ou dois anos, pedi permissão ao meu chefe para ir falar com a diretoria do jornal. Peguei a diretoria toda reunida e contei a história. Eles compreenderam e me deram o dinheiro para eu comprar um equipamento equivalente ao que tinham me tomado.
ZONA SUL – De uma certa forma, além do ato de violência o clube praticou um assalto contra você. O jornal publicou alguma coisa sobre esse assunto?
ROQUE – Nada. Foi mais uma decepção que tive com o mundo do jornalismo. Nem o editor que me pautou para fazer aquela foto quis se responsabilizar por alguma coisa. Todo mundo correu fora. Se eu tivesse feito o acordo com o cara, provavelmente ele teria me devolvido o equipamento. Eu era ingênuo, achava que o jornalismo era baseado em princípios e, por isso, não me senti no direito de fazer aquele acordo particular, sem a participação do jornal. Outra história interessante foi quando um morto-vivo correu atrás de mim em uma garagem do Setor Comercial Sul de Brasília.
ZONA SUL – Como foi isso?
ROQUE – Esse cara tinha problemas sérios com a Justiça. Ele era conhecido como morto-vivo por ter cometido um assassinato e forjado sua própria morte, trocando de identidade com alguém já falecido. Até então, ninguém conseguia provar que esse assassino estava vivo, embora já houvesse a suspeita. O Jornal de Brasília descobriu que ele tinha um escritório no Setor Comercial. O Correio Braziliense também estava correndo atrás dessa história. Fui com o repórter procurar esse cara e ele tinha acabado de sair do escritório. Descemos para a garagem e o encontramos. O repórter começou a fazer perguntas e ele passou a responder que não tinha nada a ver com a história. No mesmo instante, fiz umas fotos. Naquele ambiente, e com os recursos dos equipamentos da época, eu já sabia que as fotos não sairiam boas. Mas comecei a fotografar para intimidar o cara. Acabei provocando a ira do “morto-vivo”. Ele saiu correndo atrás de mim, tentando me pegar dentro do estacionamento. Usando o argumento de que já sabíamos de tudo e tínhamos até fotografias dele, o repórter terminou convencendo o cara a dar a entrevista para o Jornal de Brasília. Subimos até seu escritório, conversamos, e eu fiz várias fotos. No outro dia o Jornal de Brasília deu um grande furo no Correio Braziliense. Publicamos uma foto grande na primeira página com a manchete: “Morto-vivo fala”. O Correio deu a notícia “Morto-vivo some”. Eles tinham corrido atrás do cara sem conseguir alcançá-lo.
ZONA SUL – Depois do Jornal de Brasília você foi para onde?
ROQUE – Fiquei um tempo desempregado. Frilei um pouco n'O Globo, na Folha, no Estadão e depois trabalhei na sucursal do Estado de Minas, em Brasília, durante três anos. No período em que estive desempregado, de tanto as pessoas perguntarem o que eu estava fazendo, terminei cansando de dizer que estava desempregado e passei a responder que tinha criado uma agência. Começou a pegar, essa história de agência. Então passei a encarar aquela conversa com maior seriedade. Quando você diz que está desempregado, as pessoas se afastam um pouco. Quando você diz que tem uma agência, o impacto é outro. É mais interessante dizer que tem uma agência. Só que, nessa brincadeira, terminei montando uma agência e continuo com ela até hoje. Inclusive, por falta de tempo para achar um nome para agência, coloquei o nome de Agência Tempo.
ZONA SUL – Isso foi quando?
ROQUE – Em 1986 eu saí do Estado de Minas. A agência foi criada em 1988. Depois, mais recentemente, trabalhei na Agência Senado. O serviço da Agência Tempo andava meio devagar e senti necessidade de arrumar alguma coisa. O amigo fotógrafo Roosevelt Pinheiro me avisou que surgiria a vaga no Senado. Quando a vaga apareceu, fui lá e terminei sendo contratado. Trabalhei um período, até os serviços da Agência Tempo se normalizarem. Foi quando pedi demissão da Agência Senado para me dedicar à Agência Tempo. O período no Senado foi legal porque conheci muita gente boa, como vocês dois (Roberto Homem e Waldemir Rodrigues), além de outros tantos.
ZONA SUL – Na Agência Tempo você realizou trabalhos para alguns políticos do Rio Grande do Norte. Como foi a experiência?
ROQUE – A primeira experiência foi no final no segundo mandato do governador Garibaldi Alves Filho. Rubens Lemos era o subsecretário de Comunicação Social. O contato foi com ele. No ano seguinte, Wilma Faria assumiu o governo e Rubinho foi nomeado secretário de Comunicação. Ele me convidou e continuei fazendo toda a cobertura fotográfica das vindas da governadora a Brasília. Depois fui contratado também para fazer a cobertura em vídeo. Pela necessidade, passei a estudar uma forma de transmitir vídeos de boa qualidade pela Internet. O interessante é que o mundo demora a evoluir porque as pessoas sentem dificuldades de mudar.
ZONA SUL – Como assim?
ROQUE - A princípio eu transmitia os vídeos pela Embratel. Eu gravava a matéria, levava a câmera na Embratel. Uma emissora de televisão de Natal agendava um horário, por exemplo, das 17 horas às 17h10min. Eu chegava antes, plugava, testava, via como estava o sinal e deixava tudo pronto, aguardando chegar o horário previamente acertado. Quando dava 17 horas, começava o processo sem sequer saber se aquele vídeo estava mesmo sendo transmitido e se estavam recebendo. Se houvesse qualquer falha, não tinha outra chance. Tinha que resolver naqueles dez minutos. Ao final é que telefonava para saber se o vídeo havia chegado. Se houvesse qualquer problema, o jeito era comprar outro horário para mandar de novo. Era um sistema bastante ultrapassado. Então desenvolvi um esquema de transmitir pela Internet. Falei para Rubinho, mas ele foi resistente à ideia, por achar que não ia funcionar. Continuei transmitindo pelo modelo antigo. Um dia liguei para o pessoal que recebia o vídeo na televisão, era a TV Ponta Negra. Procurei falar com um técnico. Fizemos um teste: transmiti um vídeo de poucos segundos que eu já havia enviado no dia anterior, pela Embratel. Dez minutos depois telefonei e o técnico disse que a qualidade estava até melhor. Anotei o nome dele e telefonei para a Secretaria de Comunicação Social. Falei com a subsecretária Cledivania Pereira. Contei a história do teste e pedi para ela entrar em contato com o técnico. O resultado é que a partir da viagem seguinte da governadora a Brasília, passei a enviar os vídeos pela Internet. Mas até hoje ainda encontro algumas pessoas que resistem a adotar esse sistema.
ZONA SUL – Vamos falar um pouco sobre a Agência Tempo.
ROQUE – Fundei a Agência com um sócio, França, meu irmão. Ele já morreu. Era jornalista e um bom repórter fotográfico. Trabalhou no Jornal do Brasil e n’O Globo durante muito tempo. Apesar de grande repórter fotográfico, ele era mais fazendeiro. Então a minha sociedade com ele não deu certo. Quando acabou, fiquei de novo sozinho, na batalha. Hoje a Agência Tempo tem estrutura e capacidade para desenvolver uma excelente cobertura jornalística para quem precisa desse serviço em Brasília.
ZONA SUL – Quais os serviços a Agência Tempo tem a oferecer?
ROQUE – Em resumo, trabalhamos com foto, texto, vídeo e áudio. Nosso público-alvo são governos, prefeituras, parlamentares ou até mesmo empresas que precisam de cobertura jornalística aqui em Brasília. Quem necessitar de cobertura jornalística na capital do país para divulgar na sua cidade ou estado, a Agência Tempo está à disposição. Nós fazemos um trabalho jornalístico. Não atuamos como lobistas ou coisa do gênero. Muitas vezes uma autoridade - um governador, por exemplo - vem a Brasília e consegue bons resultados para o seu estado. Mas só que como essa viagem não é divulgada, o povo nem fica sabendo que ele veio trabalhar em benefício daquele estado.
ZONA SUL – Você dizia que a Agência produz a foto, o texto, o vídeo e o áudio. Depois desse material pronto, como ele é distribuído?
ROQUE – Vou citar como exemplo o caso do Rio Grande do Norte. Aliás, nós da Agência Tempo estamos à disposição da governadora Rosalba Ciarlini e do seu secretário de Comunicação, Alexandre Mulatinho, para, quem sabe, renovar a parceria com o Estado. Mas, como eu dizia, o processo funcionava assim: depois de todo o material produzido ele era disponibilizado no site e baixado pela Secretaria de Comunicação Social, que distribuía para os veículos do estado. Às vezes a própria emissora de televisão entrava no site e baixava, quando autorizado pela Secretaria. O ideal é a equipe da Secretaria fazer o download, até porque às vezes o cara da TV não está muito disposto a fazer aquilo, e tal. O grande lance é que o material é produzido rapidamente. Quando uma audiência acontece às 10 horas, por exemplo, eu já libero o material entre 10 e meia e 10h40. Esse material todo é baixado em menos de 10 minutos.
ZONA SUL – Mudando um pouco de assunto, você tem grande interesse pela Idade Média. Como é isso?
ROQUE – Recentemente andei lendo um pouco sobre a Idade Média e me surpreendi. Para mim a Idade Média ainda não acabou. Defendo a teoria de que ainda estamos na Idade Média. Se você ligar a televisão e ficar acompanhando o noticiário, vai relacionar muita notícia de hoje com o que ocorria na Idade Média. Lógico que alguma coisa mudou, sobretudo no que diz respeito a tecnologia. Mas, com relação ao comportamento humano, tudo ainda é muito parecido. Hoje a gente toma banho mais vezes do que as pessoas daquele tempo. Mas, fora isso, pouco mudou.
ZONA SUL – Nesse aspecto de banho, dizem que os franceses nem mudaram tanto assim...
ROQUE – (risos) Pois é. Dia desses li na Internet o caso de uma menina de 14 anos que foi chicoteada até a morte porque teve relações sexuais com um primo de uns 40 anos. Detalhe: esse primo a sequestrou e fez sexo com ela a força. Isso não é típico de Idade Média? Também me surpreendeu descobrir que até o início desse século os animais que “cometiam crimes” eram julgados. O último julgamento registrado ocorreu em 1906. Foi ontem! Um cachorro foi julgado na Suíça. Em 1836 uma porca foi condenada à forca por ter assassinado uma criança. A execução foi em Praça Pública e o carrasco fez o seu trabalho usando um par de luvas brancas, devido a importância que se dava a esse tipo de solenidade. Em alguns países do Oriente ainda existem execuções públicas. Até nos Estados Unidos a pena de morte continua em vigor.
ZONA SUL – O que você pretende fazer com as informações que recolheu a respeito da Idade Média?
ROQUE – Gostaria de fazer um filme. Talvez um documentário fazendo uma comparação com os dias de hoje. O filme mostraria que a Idade Média não acabou. Também seria interessante dar aulas sobre a Idade Média para ver se as pessoas começam a aprender com os erros do passado. Lembrei de outra situação chocante: meninas africanas criadas na Europa são levadas para o seu país de origem quando completam certa idade com o objetivo de serem submetidas a uma cirurgia para extrair seu clitóris. Os próprios pais levam. É um absurdo! É um comportamento atual que se entrelaça, se entranha com a Idade Média. A violência no Brasil é outro exemplo. Vejo comentaristas ditos inteligentes denunciarem na televisão que a violência está crescendo e tal, mas nenhum deles analisa de onde vem essa violência. É absurda a cegueira dessas pessoas. Enquanto se combate a violência no varejo, na ponta, ela está se construindo a partir do abandono das crianças. É enorme a quantidade de meninos na rua cheirando e fumando crack. Não existe um esforço para reverter essa realidade. Deveria ser prioridade nacional. Se um menino fica na rua, é certo que ele vai usar drogas e cometer crimes. Por que então o governo deixa esses meninos na rua? Recentemente a Globo mostrou imagens de um carro de polícia passando perto de meninos cheirando crack sem fazer nada. A notícia criticava como se a polícia pudesse fazer alguma coisa. O que ela poderia fazer? Dar uma volta com ele e soltar novamente? Não há opção. Falta um projeto, não existe nada. Enquanto isso a violência aumenta a cada dia sem ninguém se dar conta do motivo principal. É de uma ignorância muito grande.
ZONA SUL – Qual seria a solução para esse problema?
ROQUE – Primeiro tinha que acabar essa história de “criança de rua”. No máximo poderíamos admitir “criança na rua”. Uma criança perdida temporariamente do pai, ou coisa parecida. Criança que se desgarrou temporariamente do responsável, mas não vai demorar muito tempo lá. Votei no PT até Lula se eleger presidente. Eu tinha certeza que quando ele fosse eleito retiraria as crianças da rua. Ao contrário, a situação piorou. Foi uma grande decepção.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul
ROQUE – Em 2007 fui a Natal. Confesso que, antes de ir, eu tinha o receio de encontrar uma cidade suja. Surpreendi-me favoravelmente. Achei foi uma cidade limpa, bonita e bem cuidada. Passeei pelo litoral e fiquei fascinado. Gostei muito da cidade. Quero deixar um abraço a todos os que acompanharam a entrevista ao vivo pela Internet e também para os que agora estão lendo nas páginas do jornal. Um brinde a todos!
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