<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129</id><updated>2012-01-24T18:00:27.221-02:00</updated><category term='Ceará-Mirim'/><category term='religião'/><category term='UFAL'/><category term='SC'/><category term='SP'/><category term='Literatura'/><category term='Coronel Ludugero'/><category term='cabeças errantes'/><category term='Gente do RN'/><category term='CE'/><category term='Poesia'/><category term='PE'/><category term='MA'/><category term='Jornalismo do RN'/><category term='PM'/><category term='UFPB'/><category term='TO'/><category term='MT'/><category term='Reginaldo Rossi'/><category term='Inri Cristo'/><category term='Ator'/><category term='zona sul natal ponta negra roberto homem'/><category term='cantor MG'/><category term='Nova Zelândia'/><category term='Humor'/><category term='Noélia Ribeiro'/><category term='Futebol do RN'/><category term='Ator do RN'/><category term='Mamulengo'/><category term='RS'/><category term='Escritor'/><category term='misticismo'/><category term='Pedro Mendes'/><category term='poesia do RN'/><category term='DF'/><category term='Menestrel'/><category term='artista'/><category term='Senado'/><category term='Jornalismo'/><category term='artista plástico do RN'/><category term='PB'/><category term='Empresário'/><category term='Editor'/><category term='Gente do Brasil'/><category term='Literatura do RN'/><category term='Música'/><category term='helio camara'/><category term='Mágico'/><category term='ginástica olímpica'/><category term='Cordel'/><category term='Inusitado'/><category term='MG'/><category term='Teatro'/><category term='poeta'/><category term='policial militar'/><category term='titina medeiros'/><category term='Fotografia'/><category term='artista plástico'/><category term='Rádio do RN'/><category term='culinária do RN'/><category term='esporte'/><category term='Teatro de rua'/><category term='sebo'/><category term='Música do RN'/><category term='professor'/><category term='PA'/><category term='atriz do RN'/><category term='Deficiência visual'/><title type='text'>Jornal Zona Sul</title><subtitle type='html'>Entrevistas feitas pelo jornalista Roberto Homem para o jornal Zona Sul, de Natal, a partir de outubro de 2003.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>93</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-5326229922288335667</id><published>2012-01-23T20:43:00.010-02:00</published><updated>2012-01-24T17:52:29.760-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gente do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='sebo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='culinária do RN'/><title type='text'>Entrevista: Abimael Silva</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-GKBmIZpSjSo/Tx3lA2XoM-I/AAAAAAAAA6c/ssjBe6x30VQ/s1600/Entrevista%2Bcom%2BAbimael.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold; "  &gt;A LITERATURA POTIGUAR É VERMELHA&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Apesar de reunir todas as cores, é inegável que, hoje, a literatura do Rio Grande do &lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-X6sB8epg-hU/Tx3juIBPQRI/AAAAAAAAA40/O1rYiBG8_dI/s320/DSC02278.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700963084887081234" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt; Norte carrega um tom encarnado. Antes que julguem o contrário, é bom que se diga que não estamos falando de política. O rubro que permeia a cultura potiguar vem de Abimael Silva. Mais precisamente, da sua editora: a Sebo Vermelho Edições. Ex-bancário e ex-vendedor de loja de discos, o sebista e editor é antes de tudo um entusiasta das coisas que dizem respeito ao solo papa-jerimum. A entrevista a seguir foi realizada em parceria com o jornalista, amigo e meu xará Roberto Fontes. Do seu apartamento, Roberto e Abimael conversaram comigo, que estava na minha casa, em Brasília. Via Skype as ideias no ciberespaço e o resultado você pode conferir agora. O texto também está disponível no site http://www.zonasulnatal.blogspot.com&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o seu nome completo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – José Abimael da Silva. Nasci no Agreste potiguar, na cidade de Várzea. Mais precisamente em um lugarejo chamado Tanque do Boi. No final dos anos 1960 fui morar em Tibau do Sul. Fiquei por lá até 1973. Depois mudei para Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em que seus pais trabalhavam?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha mãe era dona de casa e trabalhava com artesanato, com sisal. O meu pai, carpinteiro, fazia de tudo: móveis, porta, cama e até caixão de defunto quando morria alguém... No tempo em que moramos em Tibau ele construía barcos no porto, além de fazer as outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o nome deles?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O nome da minha mãe é Maria Rodrigues da Silva. E o meu pai, Severino Hercílio da Silva. Só a minha mãe está viva. Lamentavelmente meu pai morreu no ano de 1980.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por que sua família trocou Tanque de Boi por Tibau?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No tempo em que a gente morava nesse lugarejo, o meu avô por parte de pai – Manoel Florêncio, o Seu Quincas - de repente resolveu vender a sua propriedade. Cada um dos filhos morava em uma casa dentro dessa área. Meu pai, por ser o filho mais velho, foi o primeiro a ser sacrificado. A gente teve que ir morar junto com outros familiares lá em Tibau.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a sua idade nessa época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Uns cinco anos. Lembro da mudança e até da comida que a gente comeu nesse dia. Foi leite de vaca escaldado com farinha. Um pirão, uma comida bem de pobre mesmo. A gente comeu e saiu do sítio em direção à cidade, transportando os móveis... Coisa bem de retirante mesmo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As principais lembranças de sua infância são de Tibau...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É. Inclusive, no tempo em que eu morava em Tibau, Pipa não era nada. Havia certa rivalidade entre os moradores de Tibau e os de Pipa. Quando passava, por exemplo, os moradores de Pipa em direção à feira de Goianinha, as pessoas de Tibau jogavam pedra e gritavam: “lá vem os pipeiros”. Era aquela concorrência besta.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o motivo dessa rivalidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era rivalidade normal de um lugarejo com outro, de uma cidade com outra. Mas eu falava sobre a minha infância em Tibau. Nesse tempo não tinha luz elétrica. À noite, entre 6 e 9, era ligado um gerador. De manhã cedo eu ia pegar água no chafariz para a minha mãe fazer o trabalho doméstico. Depois eu ia ao porto. Todos os dias o meu pai fazia barcos lá. Nossa família era bem pobre, necessitada. Naquele tempo tinha muita lagosta na praia. Quando chegava um barco, os pescadores, com um garfo, dispensavam a cabeça da lagosta e ficavam só com a cauda. Meu pai pegava umas cinco ou seis cabeças das maiores. Meu trabalho era pegar essas cabeças de lagosta e levar para a minha mãe fazer um cozido. A gente comia isso com batata, com macaxeira, com inhame, com farinha mesmo...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E os estudos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em Tibau estudei o básico. No começo dos anos 1970, minha mãe, já preocupada com os estudos dos filhos, resolveu que a família deveria mudar para Natal ou, pelo menos, enviar para a capital os filhos mais interessados. Dois dos meus irmãos não estavam nem aí para os estudos. Foi assim que a gente veio: eu e duas irmãs, que hoje são freiras. Uma mora em Angola, Irmã Maria Dionice, e a outra, Irmã Maria José, em Emaús. Ambas são da congregação Filhas de Santana.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tem quantos irmãos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Cinco irmãs e dois irmãos. Sou o mais novo entre os homens e o quarto filho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em Tibau você demonstrava interesse pelos estudos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Com relação a gostar de ler, como eu já falei em vários momentos, devo tudo ao&lt;/div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-mOdMPZwT6zY/Tx3juYHMBFI/AAAAAAAAA48/--JuKEbP_OE/s320/DSC02275.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700963089207002194" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;div&gt; professor Antenor Laurentino Ramos. É um brilhante professor de língua portuguesa, literatura e francês. Ele foi o grande mestre, um incentivador para eu gostar de ler e de alguns autores, principalmente José Lins do Rego, que é o preferido dele.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos voltar um pouco no tempo para você comentar como foi a transição de Tibau para Natal. Você sentiu algum impacto ao vir morar na capital?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Senti um impacto forte ao chegar em Natal, no começo dos anos 1970. Fui morar nas Rocas. Morei no Areal e depois fui morar no Alto da Castanha, na Rua Desembargador Lemos Filho. Fui estudar no Isabel Gondim. As Rocas tinha toda aquela efervescência. Existia a festa de Santos Reis, o cinema Panorama... Quando saía da aula, eu ficava no Canto do Mangue curtindo o movimento dos barcos. Como não tinha outra diversão, eu ia na fábrica de gelo que tinha ao lado e pegava duas pedras de gelo e ficava chupando. De repente a gente pode encontrar a felicidade em uma pedra de gelo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Além de estudar no Isabel Gondim você, nessa época, precisava trabalhar para ajudar no sustento da família?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nesse tempo eu não trabalhava, mas logo em seguida comecei a vender confeito. Meu pai construiu um tabuleiro e eu passei a vender confeito na porta das escolas e nas praias do Meio e dos Artistas. Sempre tentei sobreviver de alguma maneira, para não ter que ficar pedindo dinheiro ao meu pai ou à minha mãe. Eles eram tão necessitados que eu resolvi que precisava ter uma certa independência. Eu era muito criança, acho que tinha uns doze anos. Todo ano, quando chegava o inverno, eu falia. É que todos os confeitos e chocolates amoleciam e colavam. Ficava aquela bola de doce. Só quando o inverno terminava eu me recapitalizava para começar tudo de novo. Quando terminou a coisa dos confeitos, trabalhei um tempo em uma padaria enchendo os sacos de brotes e de bolachas. Trabalhava de cinco às onze da manhã e estudava no período da tarde.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nesse ritmo você conseguiu ser um bom aluno?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui um aluno razoável em algumas matérias. Quando passava para aquela coisa de cálculo, eu me lascava todo. Em matemática sempre fui um fracasso. Também nunca me dei bem em química, física... Em 1976 fui morar nas Quintas e passei a estudar no Colégio João XXIII. Foi lá que conheci o professor Antenor. Ele trabalhava muito José Lins do Rego. Depois acabei conhecendo Pilar, local onde acontece toda aquela trama de Menino de Engenho. Fui com Antenor. Foi uma viagem que até hoje lembro. A gente viajou de Kombi o dia todinho para chegar em Pilar. Até hoje Antenor é um amigo. Ele sempre foi um professor muito dedicado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Além de José Lins do Rego, o que mais ele recomendou a você, nessa época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ele trabalhava muito os nordestinos: Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e um pouco de Jorge Amado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você concluiu o segundo grau?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na verdade eu sou um ordinário. Não concluí o segundo grau, parei no terceiro ano. Tudo por causa de um professor de matemática. Minhas notas não estavam muito boas e eu disse a ele que tudo o que eu queria mesmo era concluir o ano. Ele respondeu que não me aprovaria porque lá na frente eu poderia ser reprovado em um concurso e colocar a culpa nele. Insisti, mas ele acabou me reprovando. Fiquei com raiva e disse a ele: “não irei concluir o segundo grau por sua culpa”. ZONA SUL – Quando o Sebo Vermelho entra na sua vida?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Antes de ter deixado o colégio, eu já havia aberto o sebo. Isso ajudou na decisão de não concluir o segundo grau.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas antes do sebo você teve outras atividades...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Trabalhei em uma loja de discos, a Discol, durante quatro ou cinco anos. Vendia discos, fitas. Depois trabalhei quatro anos no Unibanco. Tenho 48 anos, mas na verdade me considero um cidadão de 44 anos. Os quatro anos que passei no banco considero perdidos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você fazia no banco?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Comecei como contínuo. Até aí, tudo bem: eu saía, resolvia as coisas do banco, dava uma volta na rua. Depois fui para o setor de contas correntes. Uma chatice: todo dia tinha que somar 500 cheques e chegar a um valor exato. Era uma tortura. Consegui suportar quatro anos na marra. Depois resolvi sair. Com todo respeito a quem trabalha em banco e aos militares: se você passar 20 anos como soldado, se lhe perguntarem o que você sabe fazer, quando deixar o quartel, a resposta será: “nada, eu fui soldado”. Com o bancário é a mesma coisa. Você trabalha, trabalha, trabalha e não tem nenhuma utilidade.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a reação da sua família quando você resolveu deixar o Unibanco para montar um sebo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Só quem deu força foi minha irmã que hoje é freira e mora em Angola. Todos os outros disseram que eu estava maluco. A minha mãe, mesmo, ficou horrorizada: “como pode sair de um banco para botar um sebo, vender livro velho”. Foi um horror. Mas eu estava decidido. Saí por ter participado daquela famosa greve geral dos bancos de 1985, começo de 1986. Fiz piquete na porta do banco. Quando me demitiram, senti um alívio grande.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Natal já tinha outros sebos quando você abriu o Sebo Vermelho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tinha o sebo da família de Jácio. O meu foi o primeiro a usar a palavra “sebo”. &lt;/div&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-cdRP54fU2Uc/Tx3k_fSPN-I/AAAAAAAAA6E/PnZB9RpW38E/s320/12052011054.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700964482701801442" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;div&gt;Quando coloquei, pichei alguns muros e coloquei “Sebo Vermelho” junto com algumas frases de efeito: “Transar fiado, no pau ou fazer troca-troca, vá de Sebo Vermelho”. Saí pichando tudo que foi esquina e algumas pessoas se chocaram com essa coisa de sebo. Perguntaram se eu sabia o significado da palavra. Não só as pessoas de fora, mas as da minha família. Tive que mostrar o dicionário para minha mãe, para ela entender que sebo era livraria que vende livros usados. Mesmo assim ela insistiu que aquela era uma palavra horrível. Por parte da família de Jácio eu era o intruso, aquele que não podia dar certo. Tanto que o pai dele, seu Raimundo, ficava lá no início dizendo que era melhor eu vender manteiga do sertão, caixas de uva. Comecei o sebo com a minha biblioteca, sacrificando 90 por cento dos meus livros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quantos títulos, mais ou menos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Comecei com uns 600 livros. Vendi com a maior pena. Mas era o capital inicial e tinha que ser dessa maneira. Foi muito duro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De um começo de 600 livros, hoje o acervo do Sebo tem quantos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Uns 30 mil.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por que Sebo Vermelho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tinha que ter um nome. Funcionava em uma cigarreira na Vigário Bartolomeu, quase em frente ao Banco do Nordeste, próximo à Praça Padre João Maria. Natal tinha cigarreira amarela, azul, verde, branca... Só não tinha preto e vermelho. Se pintasse preto, não daria certo por causa do calor. Resolvi pintar de vermelho, que é vida, sangue, energia e é a cor do amor. Toda propaganda importante tem vermelho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ancorado no Sebo Vermelho você lançou também um jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em 1986 abri o Sebo. Em 1990 lancei o jornalzinho do Sebo. Em 1987, junto com Dorian Lima, eu já fazia o jornal “A Franga”, que era razoavelmente anárquico ironizando e concorrendo com “O Galo”, jornal oficial do Governo do Estado. Estou reeditando em fac-símile a coleção completa, os cinco números. Depois fiz o jornalzinho do Sebo e, em seguida, “O Canguleiro”, um jornal sobre a Ribeira. Fiz também “O Cascudinho”. O “Jornal do Sebo Vermelho” circulou de 1990 a 2004. Teve 55 números com textos importantes. Era mensal, mas saía conforme os patrocinadores.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nos primeiros anos do Sebo Vermelho o que vendia mais? Livros ou discos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No início, principalmente discos. Mas livros também vendia bem, tanto que eu ia comprar em Recife, lá na “Livro 7”. Comprava livro com preço defasado e vendia no sebo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois da chegada do CD caiu a procura pelo sebo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De 1992 para cá, o vinil entrou em decadência total. Seu espaço foi ocupado pelo CD. Mas hoje em dia o elepê está voltando a ser procurado, tem todo um encanto. Algumas gravadoras estão fabricando vinil. Acho isso puro sentimentalismo besta. Não tem mais condições. Ninguém tem mais agulha, vitrola... Como vai gravar um vinil desse tamanho podendo gravar tudo isso em um arquivo que é a metade de uma unha?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu a ideia de o Sebo Vermelho editar livros?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Começou com um livro de Anchieta Fernandes, sobre a história do cinema de Natal. Ele estava com dificuldade para publicar o livro. Em 1991 fiz uma parceria com Varela Cavalcanti, que era presidente do Sindicato dos Bancários do RN. Ele disse: “compre o material que eu imprimo”. Assim foi feito. “Écran natalense” foi um grande sucesso e está adotado, inclusive, no curso de Comunicação da UFRN.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A primeira edição saiu com quantos exemplares?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No geral as nossas edições saem com 300 exemplares. Talvez essa de Anchieta tenha saído com 500, por ser o primeiro livro e ter aquele encantamento todo. O livro recebeu críticas favoráveis de jornalistas da cidade como Nélson Patriota e Otto Guerra.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até então o projeto era o de apenas lançar esse livro, e não uma editora. Como você sentiu que tinha espaço para o Sebo Vermelho ter sua editora?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como esse primeiro livro foi um sucesso, despertou o interesse de continuar. Eu tinha na minha biblioteca particular a primeira antologia poética do Rio Grande do Norte. Reeditei essa  antologia em 1993: “Poetas do Rio Grande do Norte”, de Ezequiel Wanderley. Tinha sido publicado em 1922, em Recife. Reúne 108 poetas do RN. Fiz uma reprodução fac-similar em có-edição com Carlos Lima, da “Clima”. O livro foi um sucesso estrondoso. Foi resenhado no Jornal do Brasil, com direito a figurar entre os lançamentos do mês. De repente o livro esgotou. Só na noite do lançamento foram vendidos 102 exemplares. Ao todo, foram vendidos 500. Tomei um gosto danado e resolvei tentar publicar pelo menos um livro por ano. Sempre em parceria, principalmente com Wodem Madruga, na época presidente da Fundação José Augusto.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Existe literatura no Rio Grande do Norte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E como tem! O que falta é as pessoas descobrirem. Claro que tem que separar o joio do trigo. Tem muita coisa comum, sem futuro mesmo. Mas, procurando, tem poetas de importância internacional, cronistas, contistas, romancistas e grandes historiadores. No Rio Grande do Norte o que falta é essa separação e também uma divulgação, uma janela que mostre esses autores.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o livro da editora que mais vendeu até hoje?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O livro que mais vendeu das edições do Sebo Vermelho é um livro de Marlene da Silva Mariz e Coquinho (Luis Eduardo Brandão Suassuna): “História do Rio Grande do Norte”. Quase todo ano a gente faz uma reimpressão dele, de 300 exemplares. Outro que deu um impacto danado foi um livrinho de Celso da Silveira e José de Souza: “O valor que o peido tem”. Esse livro causa um zumzumzum danado. Quase toda semana chega alguém lá no sebo procurando um exemplar. O livro mostra o peido no lado científico. A composição do peido, a descrição...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o livro que mais lhe orgulhou publicar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Existem vários livros que até hoje eu não canso de ler e reler. O principal é “Cartas de Drummond a Zila Mamede”, organizado por Graça Aquino. Pretendo reeditá-lo agora em 2012. Reúne mais de 60 cartas que Carlos Drummond de Andrade enviou para Zila Mamede, cada uma mais carinhosa que a outra. Esse livro foi um marco nas nossas edições. Foi o 20º título da Coleção João Nicodemos de Lima.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem foi João Nicodemos de Lima?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi o primeiro sebista do Rio Grande do Norte. Teve um sebo, de 1932 a 1975, na Ribeira, na Tavares de Lira. Foi um homem de grande importância, citado por Cascudo em alguns livros, como “O tempo e eu” e “Na ronda do tempo”. É um cidadão completamente esquecido. A única homenagem que ele recebeu foi essa nossa coleção. Não tem um nome de rua, de praça. Depois de João Nicodemos, Natal teve outro sebista, Cazuza. Mas João Nicodemos foi o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O livro das cartas de Drummond a Zila é uma reedição ou era inédito?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É uma edição mesmo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você conseguiu essas cartas para publicar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na lei do direito autoral, a carta pertence a quem recebe. Se você mandar uma carta para o Papa, o Papa é quem vai ter os direitos autorais. Mas se ele lhe enviar uma carta, o direito autoral será seu e você terá total liberdade de publicar essa carta. Zila Mamede manteve correspondência não apenas com Drummond, mas também com João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira e com Geir Campos. A família tem muitas cartas. De João Cabral, tem 37. De Manuel Bandeira, se não me falha a memória, tem 18. De Geir Campos tem mais de 100. Essas cartas pertencem à família de Zila Mamede. Uma professora, Graça Aquino, reuniu, e eu publiquei. Os herdeiros de Drummond ficaram com a cara toda enjoada, querendo fazer confusão pelos direitos autorais. Mas, no pé da letra, a carta pertence a quem recebe.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Existe algum título que você gostaria muito de publicar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dezenas. Tenho nos meus papéis mais de 80 títulos que pretendo reeditar. Na verdade, o que gosto mesmo é de reeditar um livro que tenha alguma importância, além do interesse pessoal. Só de Cascudo - mas aí vou ter que me entender com a família dele - tenho material que dá para fazer mais de vinte livros inéditos, reunindo coisas de grande importância que ainda não foram concretizadas. Como, por exemplo, material de Cascudo só sobre livreiros e editores. Uma série de vinte artigos descrevendo a questão. Tenho uma coleção bem razoável de livros no prelo. Agora mesmo estou publicando o primeiro livro sobre cangaço no Brasil. É de um paraibano chamado João Bandeira. Ele publicou um livro, em 1929, chamado “Cangaceiros do Nordeste”, quando a Paraíba ainda era Parahyba do Norte. Esse livro nunca foi reeditado. Estou fazendo uma reprodução fac-similar dele.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O fato de hoje se encontrar livros e fragmentos de praticamente todo tipo de texto na Internet de alguma maneira interferiu no seu negócio como editor e sebista? As novas tecnologias afastaram o leitor do livro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pelo contrário: a internet só viabilizou, só tornou o livro mais viável, mais íntimo do leitor comum. A Sebo Vermelho Edições, por exemplo, já tem quase 350 livros publicados. A grande maioria sobre o Rio Grande do Norte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O Poder Público estimula o seu trabalho de alguma maneira? Você tem alguma parceria com governo ou prefeitura?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até o presente momento, não. Mas, se for esperar pelo Poder Público, não se realiza nenhum sonho. O Poder Público só chega junto quando envia ofícios solicitando a doação de livros para essa ou aquela biblioteca. Até hoje nunca um governo estadual, municipal ou federal chegou para comprar nem dez títulos sobre a história do Rio Grande do Norte, de Natal, de Baixa Verde, ou de Mossoró...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A editora é rentável?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você fez uma pergunta cruel. É e não é. Aqui e acolá um livro acontece, mas no geral a gente espera muito e é aquele fracasso. Às vezes a gente até perde a amizade com o autor porque ele estava esperando vender 100 exemplares e vende oito ou dez. Mas sempre tem um livro que vai compensando os outros. Meu único objetivo é com a venda de um livro viabilizar a publicação de outro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Excetuando o Rio Grande do Norte, qual o estado que mais compra as publicações da editora?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É a Paraíba O difícil do livro nem é publicar, mas fazer ele livro acontecer, distribuir. O duro é convencer o dono da livraria a expor o seu livro, que ele poderá ganhar um bom dinheiro com aquilo. Agora mesmo, por exemplo, uma grande livraria de um shopping de Natal não tem nenhum livro de autores do Rio Grande do Norte. Isso é um descaso muito grande, é um desserviço à cultura do estado e ao desenvolvimento da nossa região.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Hoje quem é o grande nome da literatura do Rio Grande do Norte?&lt;br /&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-YpMMKin6zZs/Tx3k_BLmS3I/AAAAAAAAA50/9lTvrV-rvnc/s320/12052011053.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700964474620889970" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É difícil citar só um, mas pegando como exemplo um nome que a grande maioria conhece, eu escolheria Nei Leandro de Castro. Ele é um ótimo romancista, ótimo poeta e bom cronista. Tem livros publicados por grandes editoras, como a Nova Fronteira e a Siciliano. Mas não é o único: Sanderson Negreiros é um grande cronista, Iracema Macedo já mereceu o reconhecimento da crítica a nível nacional e temos muitos outros nomes de talento.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E o Abimael escritor?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Publiquei alguns livrinhos: “Guia dos Sebos de Natal &amp;amp; textos afins”, “Eu e Natal”, “As 14 mais da poesia potiguar” (uma antologia com 14 poetas que eu acho que são figuras importantes aqui) e estou preparando “Como comprar, preparar e comer um bom caranguejo uçá”. Será a primeira publicação sobre caranguejo na gastronomia brasileira. Também estou organizando uma antologia chamada “Poesia Futebol Clube”. O livro reunirá 23 poetas do Rio Grande do Norte, todos escrevendo sobre futebol. Tem Adriano de Souza, Chico Ivan, Ferreira Itajubá e muita figuras interessantes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Onde se pode adquirir os livros da Sebo Vermelho Edições? Eles estão disponíveis pela internet?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Um sebo de Campina Grande comercializa na internet todas as edições do Sebo. Na Estante Virtual (http://www.estantevirtual.com.br/) tem muita gente vendendo. Estou pensando em começar a dar cabimento à internet. Ainda sou da máquina de escrever. Mas meus livros estão disponíveis no Sebo Vermelho (Av. Rio Branco, 705, Cidade Alta – Natal) e em algumas livrarias como a Potylivros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você ainda não utiliza a internet para vender os livros?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O Sebo tem um blog (http://sebovermelhoedicoes.blogspot.com/) organizado por Alexandre Oliveira, o meu capista. Ele é um danado, é quem mexe e faz tudo. Quando alguém pede um livro, eu separo e ele envia para o sujeito. Além do blog tenho outra página, também, mas é a minha esposa quem dá os pitacos lá e coordena tudo. Eu nem lembro o danado do nome dessa página.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você pretende comercializar suas publicações também em formato digital?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O caminho é esse, embora eu ache que o livro de papel ainda vá durar uns 200 anos. Mesmo com toda a tecnologia e essa história de não derrubar árvores, ele vai continuar existindo. A tendência é que os dois formatos sejam oferecidos ao leitor. Acredito demais no impresso e até no livro como objeto de arte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale sobre a entrevista que você deu a Jô Soares.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi em 2003, quando completei 40 anos e recebi o título de cidadão natalense. Na mesma época eu tinha editado o centésimo livro da editora Sebo Vermelho. A produção de Jô deve ter tomado conhecimento através de matérias que saíram no Diário e na Tribuna. Quando eles mantiveram contato, no início pensei que era brincadeira. O diferencial para a entrevista acontecer foi o fato de o Sebo Vermelho ser o único do país que edita livros. Esse foi o gancho. Pra se sincero, eu viajei meio temeroso. Jô Soares joga muito pesado quando entrevista um cidadão comum. Quando é uma autoridade, ele faz aquele lengalenga. No cidadão comum ele bota pra lascar mesmo. Se ele viesse dizer, por exemplo, que nordestino come calango ou lagartixa, eu responderia à altura. Fui preparado: para a guerra ou para a paz.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você levou uns caranguejos para preparar no programa...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Quando a produção estava me entrevistando, antes de agendar a entrevista, falei do projeto de escrever o livro sobre caranguejo. Imediatamente eles pediram para eu levar alguns caranguejos. Foi uma novela danada, uma burocracia tremenda, transportar esses caranguejos. Só o frete no aeroporto, na época, foi quase 80 reais. Caranguejo tem que ser comido quentinho, morno. Se esfriar a carne não sai com facilidade. E como a cozinha ficava longe do estúdio, preparei os caranguejos e pedi a um cara para ele levar quente, durante a entrevista. Do contrário o ar-condicionado muito pesado estragaria o caranguejo. O problema é que quando o cara foi buscar, perdeu o horário. Eu tinha preparado duas cordas de caranguejo. Depois vi pessoas comendo - um músico, um funcionário - mas Jô Soares não comeu.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que Jô Soares procurou abordar na conversa que teve com você?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A conversa foi sobre o sebo. Eu mostrei a ele um cartaz feito na primeira eleição pra presidente, em 1989. Reunia depoimentos fictícios de várias figuras. Tinha Lula com um chapéu dizendo: “eu tiro o chapéu para o sebo vermelho”. Gabeira falando: “porra, Abimael bem que podia criar o Sebo Verde, também”. Jô Soares abriu e ficou lá, paparicando Ulysses Guimarães, Afif Domingos e Brizola. Quando a entrevista terminou ele disse: “agora eu conversei com essa figura extraordinária” e papapá. Foi bem interessante. A entrevista foi no dia 2 de julho de 2003.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Selecione alguns livros imperdíveis de sua coleção.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Começaria citando dois sobre os quais já falei nessa entrevista:  “Poetas do Rio Grande do Norte”, de Ezequiel Wanderley, e “Écran Natalense”, de Anchieta Fernandes. Nessa relação, incluiria “Os americanos em Natal”, de Lenine Pinto. É uma reedição do Sebo de um livro publicado pela Gráfica do Senado, em 1975. É a melhor crônica sobre Natal durante a guerra. Tem também um livro de Djalma Maranhão que considero o livro mais natalense que publiquei: “Esquina da Tavares de Lira com a Dr. Barata”. Um outro imperdível foi organizado por Moacy Cirne e Nei Leandro de Castro: “69 poemas de Chico Doido de Caicó”. Esse livro virou peça que foi encenada no Teatro Villa-Lobos, no Rio de Janeiro. Ficou três meses em cartaz. Imagina, uma peça baseada em um livro publicado no Rio Grande do Norte, com resenhas na Veja, no Estadão, Globo, Jornal do Brasil... Outro que eu gostaria de acrescentar é o livro organizado por Manoel Onofre Jr., “Contistas Potiguares”. É uma antologia com os principais contistas do Rio Grande do Norte. Do jeito que tem livros esses livros especiais, tem outros que fico um pouco sem querer lembrar. Chega muita gente querendo publicar livro reiera mesmo. Um amigo, Inácio, bispo de Taipu, certa vez pediu que eu publicasse um livro. Eu disse que não publicaria de maneira alguma, que o texto era muito sem futuro. Ele então sugeriu: “crie uma coleção chamada “Langanha” para editar tudo o que chegar de porcaria”. A ideia é até boa, mas quem é que vai querer ver seu livro sair pelo selo “Langanha”? (risos)&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais os projetos para o futuro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; –  Eu pretendo, agora em 2012, publicar uns 50 títulos. Por ser um ano eleitoral, tudo fica mais fácil. Se você fizer um lançamento na caixa d'água do Banespa, chega fulano, sicrano,&lt;/div&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-gRHlquhxA74/Tx3jxDZv5uI/AAAAAAAAA5g/miE5Aakb27w/s320/DSC02281.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700963135187314402" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;div&gt; beltrano e tudo que é candidato. Eles vão e compram o livro, tiram uma fotografia e tal. Quando o ano não é eleitoral, como foi 2011, tudo fica mais complicado. Mesmo assim, em 2011 publiquei uns 30 títulos. Agora no começo do ano vai sair um livro que tem tudo para se tornar um best-seller: “Histórias de um taxista”. É de um motorista de táxi de 30 e poucos anos que tem tendência a ser literato. Ele tem histórias ótimas. Uma delas é a seguinte. Um cachorrinho daqueles bem miudinhos morreu. Como a família ficou arrasada, o veterinário se ofereceu para providenciar o enterro em um cemitério de animais localizado em São Gonçalo do Amarante. O dono do animal aceitou. Então o veterinário telefonou para esse taxista e pagou para ele transportar o cachorro, que estava dentro de um saco plástico, até o cemitério. O motorista colocou a “encomenda” na mala do carro e resolveu que levaria o bicho pra São Gonçalo após a última corrida do dia. No final da tarde ele pegou uma corrida de uma família que tinha feito compras no Hiper. Acomodou as compras na mala e fez a viagem. No destino, a família levou as compras e ele continuou a trabalhar. No final do dia, quando resolveu levar o cachorro para o cemitério, cadê o saco? A família tinha tirado, junto com as compras. Quando me contou essa história, o taxista comentou: “só fiquei com pena da mulher quando foi guardar as compras e encontrou aquele cachorro morto”. (risos)&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pelo visto vai ser mesmo um sucesso.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - O cara é demais. Ele está escrevendo e um amigo meu, professor de língua portuguesa, está fazendo uma revisão rigorosa. Outra história contada pelo taxista é de uma mulher que chegou perguntando quanto ele cobrava para ir procurar o marido dela nas Rocas, no picado do Monteiro - no Alecrim - e no bairro Nordeste. A mulher era linda, segundo o taxista. Chegaram em uma espelunca pesada, nas Rocas. O marido não estava. Dez e meia, onze horas, o cara também não estava no Alecrim. Foram para o Bairro Nordeste e ela viu logo o carro do marido. Estava na casa da amante. Ela esculhambou o marido, pegou uma pedra, amassou uma porta e quebrou o para-brisa do carro. Dois minutos depois o marido saiu, só de cuecas e com sono. Ela esculhambou: “Seu cachorro, você não tem vergonha de estar na casa dessa rapariga”. Foi o maior escândalo. A amante saiu também e começou a confusão entre as duas. O marido chegou para o taxista e disse: “rapaz, leva essa mulher daqui”. O taxista perguntou logo: “E a corrida?”. “Eu pago, quanto foi?”. “Trezentos reais”. O cara deu o dinheiro. O taxista chegou para a mulher e disse: “dona, vamos embora que a polícia está chegando, a vizinhança já denunciou”. Quando entrou no carro, ele disse: “a senhora é muito mais bonita do que ela e também o estrago que a senhora fez no carro ele nunca mais vai esquecer”. Assim ele conseguiu levar a mulher. Outra história parecida foi a corrida que ele fez para pegar um cliente em um motel. Quando chegou, uma cinquentona e um garotão com cara de 16 anos. Quando chegou na casa da mulher, o marido fez o maior escândalo. “Como você chega uma hora dessa”. A mulher respondeu no ato: “só vim agora porque sabia que você ia dar esse escândalo”. O marido perguntou quem era o garoto. A esposa já tinha a resposta na ponta da língua: “Dormi na casa da minha prima, esse é o filho dela. Ele veio pra evitar de você me bater. Agora, pague a corrida e dê algum dinheiro ao garoto”. O cara pagou e ainda deu uma gorjeta ao boy. O cara contando é coisa de você gravar e comparar com as histórias de Gabriel Garcia Márquez.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E história desse tipo vivida por você? Tem muita?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Antigamente, quando perguntavam se eu publicava livro, eu já respondia que sim. Certa vez chegou uma senhora no Sebo Vermelho. Era começo de semana, duas e meia da tarde.&lt;/div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-JjINOgrgKKg/Tx3ju8Eev7I/AAAAAAAAA5M/DgQuorHouu4/s320/DSC02277.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700963098859323314" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;div&gt; Ela perguntou se eu publicava livros. Respondi que sim. Ela disse que queria publicar um. Expliquei que geralmente o Sebo pagava 50% dos custos e a pessoa interessada pagava a outra parte. “Dinheiro não é problema: quero pagar tudo”, ela respondeu. Nesse instante, já fiquei com uma pulga atrás da orelha. “Quero fazer um livro sobre o meu neto, que está completando cinco anos. Vai ter uma festa bonita e só o contrato com o buffet foi R$ 5 mil ”. Nessa época, com R$ 2 mil a gente editava o livro que ela queria. Aperreado, comecei a me perguntar como eu ia conseguir sair daquela camisa de sete varas, já que eu tinha dito que publicava o livro. Um livro sobre o neto de cinco anos... Se fosse um neto de 30 ou de 40, tudo bem. Ainda perguntei se ela não achava que estava muito cedo para fazer um livro para o neto. “Não, é um presente. Isso aqui já está programado”. Nisso, do outro lado da rua estava uma Pajero. O motorista tinha ficado para estacionar o carro. Tentei explicar à mulher que só publicava se fosse sobre a história do Rio Grande do Norte. Mas ela não aceitou de jeito nenhum. “Nosso acordo é esse e eu vou pagar tudo”. A conversa continuou até que chegou uma hora em que ela disse que queria o livro publicado em uma edição bilíngue - português e inglês - e com capa dupla. Vi aquilo como a minha salvação. Disse logo que eu não fazia capa dupla e emendei: “Seu neto também não tem grande importância, ele é muito novo para a senhora fazer um livro, e ainda por cima em edição bilíngue”. Encerrei dizendo que não tinha a mínima condição de fazer e sugeri que ela procurasse outro. Dei o endereço da Offset Gráfica e autorizei ela a usar meu nome quando fosse falar com Ivan Júnior. Ela insistiu disse que queria o livro com o selo do Sebo Vermelho, que até podia fazer em outro local, mas com o selo do Sebo. Não concordei. Certa hora o motorista ligou e eu só ouvi ela falar: “não, não deu certo. O garoto aqui está todo queixudo”. Eu sentado numa cadeira, tomando uma cerveja, três horas da tarde. “E ele tá me encarando aqui, venha, traga o carro, ele não quer fazer de maneira alguma. Está me encarando agora”. Quando ela botou o pé fora do sebo, fiz um juramento com Padre João Maria: “Nunca mais cometerei esse deslize, esse antiprofissionalismo de dizer que publico qualquer coisa”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Para finalizar, deixe um recado para o leitor.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ABIMAEL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Leia, mesmo que seja bula de remédio, revista Tio Patinhas, Tex, Sabrina, Bianca, Júlia ou jornal disso ou daquilo. A coisa mais importante é ler. Com a leitura você vai descobrir caminhos e fazer novas viagens. O conhecimento é a única coisa que, depois que você adquire, é para sempre. Por fim, quero dar os parabéns a Costa Júnior e a Edson Benigno por manterem esse jornal que já circula há muitos anos. Eu, como idealizador de alguns jornais, sei a dificuldade, a complicação que é fazer e manter um periódico. É muito louvável essa iniciativa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-Y-xpYcQ9mDs/Tx3lAb1SClI/AAAAAAAAA6M/jT8AqitdY00/s320/DSC02276.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700964498954914386" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 180px; " /&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-GKBmIZpSjSo/Tx3lA2XoM-I/AAAAAAAAA6c/ssjBe6x30VQ/s320/Entrevista%2Bcom%2BAbimael.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700964506078295010" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px; " /&gt;&lt;br class="Apple-interchange-newline"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-5326229922288335667?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/5326229922288335667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2012/01/entrevista-abimael-silva.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5326229922288335667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5326229922288335667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2012/01/entrevista-abimael-silva.html' title='Entrevista: Abimael Silva'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-X6sB8epg-hU/Tx3juIBPQRI/AAAAAAAAA40/O1rYiBG8_dI/s72-c/DSC02278.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-2454660294985840336</id><published>2011-12-17T11:17:00.007-02:00</published><updated>2011-12-17T18:34:07.540-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poesia do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cabeças errantes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Música do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='artista plástico do RN'/><title type='text'>Entrevista: Pedro Pereira</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-v01zNmyjtBE/Tuygp7-4LPI/AAAAAAAAA4o/A5IsQ1HqiBg/s1600/pedropereira7.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;b style="font-size: 27px; "&gt;A ARTE, AS IDEIAS E AS PERALTICES DE PEDRO PEREIRA&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-0CsrY-AW4VA/Tuye_EPS4rI/AAAAAAAAA2w/Vgg-q9rEpVo/s320/pedropereira9.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095235768935090" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;u&gt;&lt;br /&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="CENTER" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-bottom: 0cm"&gt;Ele é poeta. É artista plástico. Foi apelidado de Peralta nos incendiários tempos em que transformava em uma usina de performances os palcos onde a banda Cabeças Errantes se apresentava. Lançou livro. Expôs arte em tela e em camiseta. Sobretudo, nosso entrevistado do mês, se expôs. Nunca se furtou de mostrar a que veio. Inovador, construiu trilhas diferentes do tradicional. Pedro Pereira da Silva nasceu em Passa e Fica, em 1963. Mas ficou por lá apenas seis anos. Natal foi a cidade onde realmente ele passou e ficou. Aqui, construiu sua história e tornou-se reconhecido como ícone de diversas artes. Entrevistar Pedro Pereira, mesmo que via Internet (por meio do Skype), foi um prazer e uma honra. Melhor ainda porque tive ao lado, caprichando nas indagações, o amigo jornalista Roberto Fontes. Diante de dois Robertos, Pedro Pereira não fugiu de nenhuma pergunta. O que ele não lembrava – algumas passagens do período no qual esteve em coma, devido a um acidente vascular cerebral – sua esposa e companheira Alda Pereira gentilmente ofereceu as respostas. O resultado você confere a seguir. As fotos foram cedidas pelo próprio entrevistado, através do seu Facebook. (robertohomem@gmail.com)&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos beber alguma coisa enquanto conversamos, Pedro? Eu e o Roberto Fontes estamos abrindo uma garrafa de vinho...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ô coisa boa! Só que eu não bebo mais. Desde o AVC (acidente vascular cerebral) eu não bebo mais, não. Só tomo água e suco.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Um suquinho de caju também é uma delícia!&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu gosto de qualquer tipo de suco: de caju, manga, mangaba, graviola...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Bebidas à parte, vamos, então, à entrevista? Você morou muito tempo em Passa e Fica?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Somente seis anos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você recorda desse tempo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Recordo pouca coisa. Uma delas é que no quintal da minha casa tinha um pé de imbu muito grande. Eu comia muito imbu. Não lembro de mais muita coisa. Sequer lembro de algum amigo daquela época.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De Passa e Fica você mudou-se para onde? Qual foi o motivo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Para Natal. A mudança foi devido ao famoso êxodo rural. Quando o meu avô morreu, meus pais resolveram fixar residência em Natal. Minha família é de agricultores. Meu avô se chamava Antônio Pereira da Silva. O nome do meu pai era José Pereira da Silva, e o da minha mãe, Damiana Francisca da Conceição. Viemos para Natal morar no bairro de Tirol, na Praça Augusto Leite. Na época, anos 1970, meu pai arrumou um emprego de pedreiro e, a minha mãe, de lavadeira. Eu fui estudar na Escola Estadual Manoel Dantas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais suas primeiras lembranças de Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Cheguei aqui criança. Lembro que me impressionou bastante ver o grande número&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-ZFGX9CsJNuo/Tuye_Y2uOyI/AAAAAAAAA28/5CjHyuBsJTQ/s320/pedropereira2.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095241303014178" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 211px; height: 320px; " /&gt; de carros, nas ruas. Eu também nunca tinha visto aqueles prédios altos. Sofri o impacto natural de quem sai do interior, do mato, e chega na cidade. A diferença é radical, apesar de nem sempre a gente perceber de imediato. A mudança vai se dando devagarzinho, vai se lapidando na mente. Em resumo: o progresso foi o grande impacto que senti. Também me surpreendi com a quantidade de pessoas nas ruas e a diferente forma de comportamento, dos cortes dos cabelos e do vestuário.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa época você já sentia alguma curiosidade com relação à arte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Desde o meu primeiro ano no colégio eu já me destacava por gostar de declamar poemas e pintar quadros com os amigos... Arte já era comigo, desde aquela época. Apear de eu não ter, naquela época, nenhum conhecimento de nada, já se percebia meu interesse pela poesia e pela pintura.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Algum antepassado seu enveredou pelo caminho da arte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que eu saiba, não. Nem repente, nem viola, nem nada. Pode ter havido algum, mas eu não fiquei sabendo. Minha mãe nasceu em Araruna, na Paraíba. Meu pai é natural de Passa e Fica. O meu interesse pela arte se deu em virtude da escola e pela influência que recebi de um artista: Dorian Gray Caldas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você o conheceu? Qual idade tinha?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando tinha onze anos, fui adotado por uma família que morava vizinho a Dorian Gray. Minha mãe lavava roupas na casa dessa família com quem fui morar. Eles pediram que eu fosse morar com eles e a minha mãe me doou. Morei 15 anos nesse novo lar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você achou disso? Ficou triste?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que nada, eu curti muito: passei a ter tudo o que eu não tinha em casa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pelo visto você continuou tendo a sua família original e ganhou mais uma.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Exatamente. Passei a ter duas famílias. Eu sempre voltava em casa para ver a minha mãe. Vera Montenegro Pires e Afrânio Pires foram as pessoas que me adotaram. Ele era comerciante, tinha uma distribuidora de livros lá na Ribeira. Também vendia caneta, papel...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Após ser adotado você continuou estudando na mesma escola?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Estudei até a quarta série na escola Manoel Dantas, depois fui para a Escola Estadual Alberto Torres, perto da Praça das Flores.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que mudou na sua vida, após a troca de família?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mudou para melhor: passei a ter maior facilidade e condições para sair de casa e visitar outros lugares que eu não conhecia. Deixei de me limitar a um só reduto. Passei a frequentar lugares como uma granja, em Extremoz, e a praia de Muriú, no veraneio.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Talvez, para sua futura carreira, o decisivo mesmo nessa época tenha sido você conhecer o vizinho, Dorian Gray. Como foi esse encontro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Perfeito! Sou da idade da filha de Dorian, a Dione Caldas. Minha mãe de criação, &lt;/div&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-sgZT26W4z_s/Tuyfmm6uVmI/AAAAAAAAA3g/5ggI77plpLc/s320/pedropereira1.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095915092792930" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 306px; " /&gt;&lt;div&gt;Vera, era amiga da mulher de Dorian, Vanda. Eu ia lá dar recado de Vera para Vanda. Quando eu entrava, via as tapeçarias de Dorian e também observava ele trabalhar. Um dia ele me percebeu e disse que eu podia entrar, podia olhar ele trabalhando. A partir daí passei a ter acesso livre à casa dele. Eu nem sabia ainda que Dorian era o artista famoso que é até hoje. Mesmo assim, eu achava aquele trabalho muito bonito e inspirador. O ambiente era bastante agradável. Dorian é uma pessoa muito educada, doce, amável e gentil. Ele sempre me tratou muito bem.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dorian chegou a lhe ensinar as primeiras lições das artes plásticas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não formalmente, mas, em compensação, ele abriu as portas para eu observá-lo trabalhar. Depois de algum tempo comecei a trabalhar na Construtora Serra Negra. Certamente influenciado pelos trabalhos que vi na casa de Dorian Gray, passei a investir parte do meu salário em arte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você fazia nessa construtora?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu era apontador. Sabe o que é isso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você anotava, enquanto os outros trabalhavam...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – (risos) É isso mesmo! Eu media a produção dos operários, passava essa informação para as planilhas e enviava relatórios para o escritório. Minha carteira era assinada. Eu investia o salário em mim: comprava livros, discos e objetos de arte, para o meu deleite. Também ajudava em casa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você gostava de ler, nessa época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não apenas livros relacionados às artes plásticas, mas também biografias de poetas e escritores como Castro Alves, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto. Com relação a música, eu costumava ouvir os discos de Tim Maia, Beatles, Fagner, Ednardo e toda aquela turma do final dos anos 1970, início dos anos 1980.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você também gostava de ouvir rádio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. Por incrível que pareça, eu gostava de escutar “A Voz do Brasil”. Falando sério! Lá tinha muita informação. Era curioso ouvir. No rádio eu ouvia muito, aos domingos, um programa só de MPB que tocava artistas como Luiz Airão, João Nogueira, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Caetano... Escutava também algumas coisas em ondas curtas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Voltando ao trabalho como apontador: você aproveitou esse emprego para se qualificar intelectualmente e culturalmente, não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Perfeito. Na verdade, nunca tive – nem na época de criança – brinquedos ou bicicletas. Sempre me interessei mais por outros horizontes.&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;ZONA SUL&lt;/u&gt;&lt;/b&gt; – Você não brincava com as outras crianças? Não jogava futebol, por exemplo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Jogava sim, fui goleiro. Só levava pancada. Eu era perna de pau demais.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era tão ruim que escalaram você para o gol...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – (risos) É isso aí mesmo!&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa época em que você passou a gastar seu salário com arte, teve contato também com os artistas locais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De 1980 em diante, passei a ter contato com vários poetas. Em 1981, lancei um livrinho: “Lutar pela paz”. Era um livro de poesias bem livres, sem preocupação... Não tinha preocupação teórica com nada. O objetivo foi mais de me manter vivo na história, com o pessoal. Foi editado em mimeógrafo. Fiz parte daquela geração com Dorian Lima, Carlos Gurgel, Aloísio Matias, Sofia Gosson, Venâncio Pinheiro e muitos outros que publicavam poemas em cópias mimeografadas ou xerografadas. Era só a nata.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como Natal recebeu o trabalho dessa “geração mimeógrafo”?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Éramos os únicos a fazer arte independente. Nosso trabalho era anarquista. Somente nós fazíamos aquela arte não tradicional. Éramos os loucos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E na música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O grande guru da música, na época, era Raul Andrade, da Alcateia Maldita. Era o papa, o guru de todos. Ele puxava o bonde. Me inspirei bastante, e até hoje me inspiro nele. Raul não tinha papas na língua, nem era cópia de ninguém: era único, singular, autêntico e muito criativo. Os outros não apresentavam aquela força performática que ele tinha. Paralelo a Raul, tinha também o Gato Lúdico, de Vicente Vitoriano. Nessa mesma época foi que surgiu o Cabeças Errantes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como apareceu a ideia de criar o Cabeças Errantes?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De uma só vez surgiram várias bandas: Fluidos, Modus Vivendi, Cabeças Errantes...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Cabeças Errantes foi a primeira banda da qual você participou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi. Eu fazia as performances e tocava um parangolé lá, uma percussão. Mas eu dizia que o Cabeças Errantes surgiu a partir de uma proposta de Vlamir Cruz, meu grande amigo. Ele tinha retornado para Natal, depois de passar um tempo trabalhando na Petrobras, no Rio. Vlamir juntou os amigos – eu, Ricardo Menezes e Piragibe – e formou a banda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual era a proposta inicial da banda?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fazer música sem se preocupar se iria fazer sucesso ou não. Queríamos mostrar a cara através da participação em shows, festivais e eventos. Não era para gravar disco.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Desde o início vocês já definiram que, além do som, a banda teria um lado performático?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse lado das performances surgiu comigo, no Festival do Forte, em 1984. Para não&lt;/div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-9VbhBP7_kO0/TuygFdQdOtI/AAAAAAAAA4Q/Odb4E5PB7FE/s320/pedropereira8.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687096445075536594" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 218px; height: 320px; " /&gt;&lt;div&gt; ficar aquela coisa de só blem-blem-blem-blem, eu desci do palco e fiz uma performance poética. Montamos uma performance com várias poesias minhas, para eu falar durante uma música instrumental. Eles tocavam e eu interagia com o público.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a reação da plateia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Delírio total! Enquanto eu andava de um lado para o outro, no palco, ou então circulava pela plateia, ia falando aqueles poemas que tinha escolhido para o festival.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem também gosta muito de misturar texto com música, nos shows, é Jorge Mautner.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É. Mautner é outro guru. Foi nesse Festival do Forte que a performance foi incorporada à banda Cabeças Errantes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O repertório de vocês era autoral?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Total. No começo, quase todas as músicas eram de André Júnior. Depois, Vlamir passou a compor com ele também. Após o sucesso que foi a apresentação no Festival do Forte, agendamos um show para o Teatro Jesiel Figueiredo. Foi outro sucesso fantástico. Lá lançamos um livro chamado “Artimanha”. Grande parte dos poemas eram as letras das músicas que a banda tocava. A intenção era que a plateia cantasse junto. A aceitação foi maravilhosa. Muitos artistas foram assistir, como Manoca, Carito e Erick. No palco, fiz algumas poesias performáticas. Depois desse show vieram muitos outros. Alguns antológicos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais as principais apresentações dos Cabeças Errantes? Lembro de uma no I Festival de Música da ETFRN.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ali foi fantástico, genial. Durante uma música, eu pintei um quadro. Pintei e depois destruí a pintura. O nome da poesia era “Amor Selvagem”. Eu não destruí o quadro brutalmente, mas pintei por cima do que eu tinha criado. Em outro show, cheguei montado em uma bicicleta. Foi no Festival da Poesia realizado em Candelária. Tiramos o primeiro lugar com meu poema “Pós-Lennon”. O texto é grande, mas o início é assim: “Pós ler / Pós lendo / Pós pós / Pós-Lennon”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vocês usavam algum tipo de aditivo químico - drogas ou bebida - para encarar a plateia e protagonizar essas performances?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Usava melhoral infantil. (risos). Era só água mesmo. Nem Vlamir, nem eu e nem Ricardo usávamos drogas. A gente já era doido de nascença mesmo. Nem maconha a gente tinha experimentado. Nessa época, por volta de 1986, era só o amor pela arte. Lembro de um show em um festival realizado na Cidade da Criança. O maior sucesso foi a apresentação do Cabeças Errantes. Conseguimos, com a Marinha, quatro sinalizadores de navio. Acendemos no palco. No vídeo “Amor Selvagem”, postado no Youtube, tem algumas cenas desse show e de outras performances.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu o artista plástico Pedro Pereira?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em 1988 fui demitido da Construtora Serra Negra, devido a uma redução de pessoal.&lt;/div&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-v01zNmyjtBE/Tuygp7-4LPI/AAAAAAAAA4o/A5IsQ1HqiBg/s320/pedropereira7.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687097071798594802" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 216px; " /&gt;&lt;div&gt; Peguei o dinheiro da rescisão, tudo o que tinha direito, e viajei para Brasília. Passei primeiro por Salvador. Peguei um ônibus para Salvador. Passei 15 dias por lá e depois fui para Brasília. Amei Brasília. Gastei quase tudo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Também gostou de Salvador?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Achei muito parecida com Natal. A diferença foram as mulatas. Minha intenção era conhecer museus, artistas, gente, ir a shows, andar por novos lugares. Enfim, eu queria sair da toca, de Natal, e crescer culturalmente. Em Salvador, por exemplo, fiquei amigo do músico Jorge Papapá. Conheci também Raimundo Sodré. Ele vivia biritando lá na Barra.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você ainda tem contato com esse pessoal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Com Jorge, falo vez por, via Internet. Em Brasília conheci todos aqueles monumentos históricos e estive em bares como o Beirute. Também fui nas boates do Gilberto Salomão. Lembro da Água Mineral e do Shopping Venâncio 2000. Em Brasília comprei muitos discos, livros e um violão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No retorno a Natal você produziu – ou na área da literatura ou das artes plásticas - alguma coisa com relação a essa viagem?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando voltei para Natal vendi os discos, vendi o violão e só guardei os livros. O violão vendi a Abimael Silva, do Sebo Vermelho. Ele comprou para revender.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Enveredamos pelo assunto da viagem, mas você ia falar sobre o seu começo nas artes plásticas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Juntei o dinheiro que sobrou da viagem com o da venda do violão e dos discos e comprei tinta, camisetas, pincéis e papéis.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu a ideia de transformar camisetas em tela?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi porque eu não conseguia vender as minhas telas, era pior que Van Gogh. Nem o meu irmão comprava. Até porque ele era liso. (risos). Descobri por conta própria que a camiseta poderia se transformar em um veículo para produzir arte original - sem perder meu brilho e minha característica - e vender mais rápido. Fui lá para a Rua João Pessoa, na época em que existia a Casa Lux. Na porta da loja, botei um cordão e estendi as camisetas. Com o dono da Casa Lux eu não tinha problema, quem implicava eram os guardas do município. Às vezes sim, às vezes não. Foi uma grande novidade para Natal. As pessoas gostaram muito, recebi elogios e vendi bastante. Foi um “boom”. A camiseta é um veículo ótimo para criar novas ideias. Minha intenção, a princípio, era usar a camiseta para me aperfeiçoar nas artes plásticas. Ao invés de treinar com papel, eu treinei com camiseta. Fiquei lá, naquele ponto, até 1990, quando mudei de rota. Em 1991 resolvi sair da rua. Fui para a galeria. Fiz uma exposição grandiosa com cem camisetas. Expus em um só dia, na AABB. Os jornais – Diário de Natal e Tribuna do Norte – noticiaram. As emissoras de TV também foram lá. No outro dia saiu o noticiário completo. Vendi todas em um dia só. Daí em diante não mais fui à rua. Levei minha exposição de arte camiseta também para Mossoró. Depois fui para Recife e Fortaleza.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fora do Rio Grande do Norte as pessoas também receberam bem o seu trabalho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi tudo maravilhoso. O Diário do Nordeste, em Fortaleza, me entrevistou. Lá a exposição foi em um teatro. Vendi um pouco menos, mas mesmo assim foi legal. Em Recife foi melhor ainda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a temática que você usava, na época, nesse seu trabalho de arte-camiseta?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não tinha temática. Gosto de pintar jardins, temas abstratos... Sou muito eclético.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois do emprego de apontador você passou a se dedicar integralmente à arte ou teve outra profissão?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Passei a me dedicar à arte de corpo e alma, total. Desde lá sobrevivo apenas da arte. Tudo veio de supetão: resolvi não ser mais empregado de ninguém. Decidi que trabalharia para mim. Como eu tinha aptidão para a arte, foi por esse caminho que optei. Foi assim que me descobri artista: eu posso, eu quero e eu sou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As apresentações da banda Cabeças Errantes rendiam alguma grana para vocês?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu pagava por aquilo, eu gastava dinheiro no material das performances. Nenhum de nós lucrou com a música. Era totalmente por prazer. Recebíamos cachês simbólicos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não dava nem para pagar a cerveja e o melhoral infantil...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – (risos). No máximo dava para isso, no máximo! Da mesma forma, a poesia só rendeu&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-azb7X6wlMnI/TuyfAO1oEYI/AAAAAAAAA3M/-dxjl8t0aVU/s320/pedropereira5.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095255793930626" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt; inteligência à minha mente e serviu como um poderoso anti-stress. A poesia também funcionou para o meu deleite. Desenvolvi essas atividades devido ao meu amor pela arte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por que os Cabeças Errantes acabaram?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não é nem que acabou. O tempo lapida as pessoas. As coisas mudam. Um casou, outro foi trabalhar com outras coisas... Um foi ter filhos, outro mudou de cidade... Isso fez com que nos distanciássemos. Esse é o rumo natural da vida.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você sente falta daquela época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi uma época muito boa, mas não sinto falta. Outras ocupações e interesses já preencheram essa lacuna.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A arte-camiseta cumpriu seu objetivo de servir de laboratório para você passar a trabalhar com telas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A arte-camiseta ainda é o meu laboratório, até hoje. Sempre foi. Com o passar do tempo, descobri que a arte em tela ou em camiseta tem o mesmo valor. Hoje pinto em camiseta e em tela. Minha sobrevivência vem dessas duas vertentes das artes plásticas. Talvez a minha missão seja desmistificar a arte convencional.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Alguém já lhe copia na arte-camiseta?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Hoje tem algumas pessoas trabalhando com arte-camiseta. Quando comecei a pintar dessa forma, não tinha conhecimento de nenhuma experiência parecida. Depois de algum tempo, já trabalhando com arte-camiseta, descobri que Pink Wainer (artista plástica filha do jornalista Samuel Wainer e da ex-modelo e escritora Danuza Leão), pintava em tecidos. Ela tornou-se, então, uma fonte de onde eu pude beber.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Incomoda falar sobre o acidente vascular cerebral que você sofreu?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Podemos falar sobre isso, sim, numa boa. Já é passado. Aconteceu quando eu estava no velório da minha mãe. De repente, bateu uma tonturazinha. Eu amoleci, caí e já entrei em coma. Foi em 2002. Só recordo até o momento em que senti a tontura e caí. Daí em diante, não lembro de mais nada. Passei três meses em coma.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você lembra do momento em que acordou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Saí do coma aos pouquinhos. Recordo de Geraldo Carvalho indo lá tocar para mim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Geraldo pediu para ir cantar uma música para Pedro, quando ele ainda estava no coma. Até então, às vezes eu falava e Pedro abria o olho, mas não conseguia se expressar. No dia em que Geraldinho foi, Pedro começou a chorar. A gente via que ele estava emocionado, que estava consciente. Ele escutou. Pedro até lembra da música que Geraldinho cantou.&lt;br /&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-6YgM8DY6YDY/Tuyfm1IdjcI/AAAAAAAAA3s/EhXbL7XR_kQ/s320/pedropereira3.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095918908509634" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Foi Pétala, de Djavan.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Geraldinho também tocou duas músicas dele mesmo. Na UTI do Walfredo, só podia entrar uma pessoa de cada vez. Geraldinho entrou com o violão e eu fiquei esperando lá fora. De repente, a médica veio me chamar. Nessa hora, quase morri. Pensei que tinha acontecido alguma coisa. Mas ela apenas pediu para eu entrar, dizendo que Pedro estava bastante emocionado. Na UTI, segurei a mão dele, enquanto Geraldinho cantava. Desde o começo, quando Pedro tinha entrado no coma, eu conversava muito com ele. Sempre falava o que estava acontecendo na cidade e contava como as pessoas estavam solidárias. Tudo que acontecia, eu falava.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Então ele nunca deixou de estar atualizado...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Ele estava sempre atualizado, apesar de fora do ar. Na hora, eu me enchia de força para falar sem chorar. Procurava agir como se ele estivesse bem. Porém, quando eu saía da UTI, desmontava. Felizmente Pedro não ficou com aparência de uma pessoa que passou três meses na UTI. As pessoas que o visitavam sempre diziam que ele estava muito bem. Realmente, apesar desse tempo todo, ele não ficou com aparência ruim. Ficou magrinho e tudo, mas só isso. As pessoas comentavam que ele estava corado e eu achava que estavam querendo me enganar, porque todo dia que eu chegava, o quadro era o mesmo: Pedro não tinha reagido a nada.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual foi a primeira reação, a primeira mostra de que ele estava recobrando a consciência?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Um dia, quando uma bandeja caiu, Pedro esboçou uma reação ao ouvir o barulho. Esqueci de dizer que, no início, ele também ficou sem ver. Não enxergava nada quando começou a abrir o olho. Pedro saiu da UTI ainda em coma. O médico dizia que ele ia ficar vegetativo, por isso teve que sair da UTI, para ceder o lugar para pacientes em pior situação que ele. Graças a Deus, depois disso ele foi reagindo e se recuperou. Pedro lembra de coisas que aconteceram quando ele ainda estava no hospital. Depois que saiu da UTI, consegui uma vaga no Hospital Onofre Lopes, que tinha uma enfermaria melhor do que a do Walfredo Gurgel. Pedro mistura fatos que ocorreram na enfermaria do Onofre Lopes com outros da UTI do Walfredo. Pedro voltou para casa com traqueostomia, sem se comunicar de forma alguma, a não ser com os olhos. Como ele estava muito frágil, a médica achou melhor ele ir para casa, para não correr o risco de pegar uma infecção.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A recuperação, após chegar em casa, demorou muito?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi lenta. Ele chegou, em casa, em março. Passamos abril e, em maio, conseguimos uma vaga no Hospital Sarah Kubitschek. Primeiro ele foi para o Sarah em Fortaleza. Depois foi encaminhado para Brasília, porque estava com um problema no braço direito, o que ele tem movimento. Foi detectado um problema no nervo. Teve que fazer uma cirurgia. Voltamos de Fortaleza para Natal, até para eu conseguir uma licença do meu trabalho, e fomos para Brasília. Depois do Sarah foi que ele passou a reagir mais e começou a se alimentar normalmente. No período em que saiu do hospital, Pedro ficou ainda um mês com a traqueostomia, em casa. Depois que foi voltando a respirar, a médica tirou. Voltar a falar mesmo, foi lá pro final do ano. Ele falava uma linguagem que só ele entendia.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era russo. (risos)&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; -  A voz ficou esquisita e ele não conseguia articular as palavras. Até hoje está um pouco assim. Você está entendendo o que ele está falando?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Estamos entendendo, sim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Às vezes ele não respira para falar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vocês tem filhos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ALDA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Tivemos uma filha, mas ela não sobreviveu. Chegou a nascer, mas faleceu no dia em que nasceu. Mas isso foi bem antes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Obrigado, Alda. Pedro, você é um expoente da arte potiguar. É uma figura que cabe em qualquer enciclopédia que for escrita sobre o Rio Grande do Norte. Não importa se o tema seja poesia, música, artes plásticas... Certamente você figuraria em qualquer coletânea de arte contemporânea feita no estado. Precisaríamos de muito mais tempo para entrevistar alguém do seu porte. Por isso, muita coisa deixou de lhe ser perguntada. Para suprir, pelo menos parcialmente, essa lacuna, pedimos a sua ajuda: o que de mais significativo faltou ser perguntado?&lt;br /&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-g96KnkJAyv8/Tuyfns2TfAI/AAAAAAAAA34/BGCFtHOgj5A/s320/pedropereira6.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687095933864737794" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 215px; " /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Acho que o básico foi colocado. Mas, talvez tenha faltado eu falar sobre o meu lado de artista autodidata. Muitos menosprezam o autodidata. Mas isso não tem nada a ver. Busquei meus conhecimentos por conta própria, mas sempre procurei absorver o lado mais amplo da criação pictórica. Procurei conhecer os mestres da arte plástica mundial e me colocar em um contexto. Hoje eu sei onde estou, o que eu faço, como eu faço e por que faço. O cara que mais me deixou claro isso foi Salvador Dali, que nunca foi adepto da academia. A academia, para ele, era uma grande merda. Dali foi meu grande mestre na parte teórica, na parte prática, Claude Monet foi meu grande guru.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você classificaria as artes plásticas do Rio Grande do Norte? O que vale a pena apreciar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nós temos pessoas célebres em vários estilos. Por exemplo: Thomé Filgueira – falecido há poucos anos - foi o maior expoente do expressionismo que tivemos. Dorian Gray é um grande astro da arte contemporânea. Newton Navarro foi um baluarte. Tem muitos - como Assis Marinho e outros - que se enquadram no mundo da arte plástica universal. Na verdade, não existe diferença se a pessoa é potiguar ou de outro planeta. O que vale é a arte conceitual, é o valor artístico cultural. Não é apenas melecar uma tela: o trabalho tem que ter contexto e conteúdo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você recomendaria a um jovem que desenha bem e aparentemente tem talento para as artes plásticas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu diria que não se limite ao desenho. O desenho limita a pessoa. Desenhar é importante, mas não se limite a ele. Desenho é só uma parcela da arte, um fragmento. O desenho cria uma redoma e você se fecha. Procure horizontes abertos, criação aberta. Vá também para o abstrato, experimente outras escolas da pintura. Só assim você vai achar a sua.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como o leitor pode ter acesso ao seu trabalho? Como adquirir uma obra em tela ou em camiseta de Pedro Pereira?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Atualmente tenho utilizado o Facebook como minha galeria. Na minha página estão disponíveis fotografias de quadros e também de camisetas que estão à venda. Basta me procurar através do Facebook ou enviar um e-mail para que possamos manter contato: pedropereiranatal@gmail.com Quem quiser ter uma noção da minha arte, também pode me visitar através do Facebook.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Despeça-se do leitor do jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;PEDRO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A todos os amantes e amados pela arte sintam-se convidados a ter, em vida, a arte em suas casas. Deem vida a arte. Ter arte em vida é viver com a arte dentro de casa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Salve, Pedro Pereira!!!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-KxB4spgqvCU/TuygSRaBtMI/AAAAAAAAA4c/CaGEQkAXrXY/s320/pedropereira4.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687096665232749762" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 213px; " /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-2454660294985840336?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/2454660294985840336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/12/entrevista-pedro-pereira.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/2454660294985840336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/2454660294985840336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/12/entrevista-pedro-pereira.html' title='Entrevista: Pedro Pereira'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-0CsrY-AW4VA/Tuye_EPS4rI/AAAAAAAAA2w/Vgg-q9rEpVo/s72-c/pedropereira9.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-5090785831170153773</id><published>2011-11-18T21:13:00.006-02:00</published><updated>2011-11-19T10:04:23.018-02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Música do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='zona sul natal ponta negra roberto homem'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='artista'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ceará-Mirim'/><title type='text'>Entrevista: Marcos Brandão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O HEDONISTA QUE NUNCA DEIXOU DE SER PROFISSIONAL&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-6_QE50td5iY/Tsbo223nWCI/AAAAAAAAA1Q/xv1wPrQULjs/s1600/IMG_0321.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Lembro de Marcos Brandão desde a época do I Festival de Música da Escola Técnica Federal do&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-32U-0V_nDFU/TsbniA7g3lI/AAAAAAAAAz8/pv8aOi1ZQ84/s320/IMG_0294.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676478951898275410" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt; Rio Grande do Norte, realizado, em Natal, no início dos anos 1980. A canção defendida por ele e um grupo de músicos de Ceará-Mirim estava entre as favoritas para ganhar o primeiro prêmio do evento. Devo tê-lo assistido dezenas de meses também no bar da ASFARN (Associação dos Servidores Públicos Fazendários do RN), na Ponta do Morcego. Mas, infelizmente, nunca tinha sido apresentado a ele. A oportunidade surgiu agora, graças ao meu irmão e patrocinador de boas causas, Ronaldo Siqueira. Com ele e os jornalistas Roberto Fontes, Márcia Pinheiro, Fabiana Bagdonas e Costa Júnior,  entrevistei Marcos Brandão no Restaurante Veleiros. O vinho, como sempre, estava na temperatura ideal. A comida servida pela equipe do Veleiros, comandada por Ricardo Menezes, foi o aperitivo ideal para a saborosa conversa. Marcos Brandão contou toda a sua trajetória: um cara que não se acovarda quando é o momento de pegar no pesado, mas que também não abre mão de experimentar todos os prazeres possíveis. (robertohomem@gmail.com)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Diga o seu nome completo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Marcos Antônio Cocentino Brandão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você é das bandas de Ceará-Mirim...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nasci por lá, minha infância foi toda lá. Meus pais também são da região. Minha família, Cocentino, é de origem italiana, mas se estabeleceu em Ceará-Mirim, no início do século passado. Meus pais eram agricultores, tinham propriedades, cultivavam cana-de-açúcar. Eles também tinham hortaliças e mexeram com cerâmica. Por último, entraram no ramo de restaurante. Administraram restaurantes pequenos, mas bem frequentados.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De alguma forma seus pais se envolveram com a música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha mãe, na juventude, foi cantora e tocou violão. Aliás, todas as minhas tias maternas tocam violão. Desde a infância até hoje, vivi em um ambiente de música.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sua mãe tocava violão apenas em casa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No início ela tocou em banda, lá em Ceará-Mirim: fez shows na cidade e tudo. Depois que casou, deixou de tocar. Na casa da minha avó sempre tinha um violão afinado. Como todo mundo da família tocava ou conhecia alguma coisa do instrumento, quem chegava já ia logo fazendo um som. Comumente a gente se reunia, à noite, para tocar. Dos filhos e netos, eu e mais dois ou três, somente, nos interessamos pela música.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale um pouco sobre a sua infância, as primeiras recordações...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Inicialmente a minha infância transcorreu em uma pequena propriedade do meu&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-_WW7qubCC2s/TsbnjVSxABI/AAAAAAAAA0U/oti_IT_ZPEk/s320/IMG_0297.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676478974544379922" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt; avô no distrito chamado Várzea de Dentro. Depois de nascer em Ceará-Mirim, fui morar nesse distrito,  onde sequer tinha energia elétrica! A família ia dormir às sete da noite, nunca esqueci esse detalhe. O jantar era servido às cinco. Depois, ficávamos um tempinho na frente da casa. Às seis e meia todos íamos para a cama. Em compensação, antes das cinco da manhã meu avô chegava da cidade e me levava para o curral, para a ordenha. Lá eu tomava meu copo de leite com Toddy. Depois disso ia tomar banho no rio para, em seguida, ir até Ceará-Mirim estudar. No final da aula voltava para a fazenda, a cavalo, acompanhado de um vaqueiro. Essa era a melhor parte: cavalgar até em casa. Percorríamos nove quilômetros em cerca de 40 minutos. Quando completei dez anos fui morar na cidade, em Ceará-Mirim. Foi uma mudança brusca: o ritmo de vida passou a ser outro, as brincadeiras eram diferentes... Na fazenda era muito mais agradável, embora a cidade foi onde comecei a ter mais curiosidade pela vida.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na fazenda você convivia com outras pessoas da sua faixa etária?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os trabalhadores da fazenda tinham filhos. Eu brincava e convivia com eles. Nosso dia era cheio de atividades, a principal diversão era passar horas tomando banho de rio. O Rio Ceará-Mirim passava no meio da propriedade. Ele ficava a cerca de dois quilômetros da casa onde eu morava. Qualquer tempo livre, corríamos para o rio. Fora isso, a gente também andava a cavalo, observava a ordenha, a separação de gado... A criação era de gado para corte e também de gado para leite. Eu adorava preparar a ração para o gado, auxiliando os trabalhadores. Porém eu preferia mesmo era andar a cavalo e tomar banho no rio.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E na cidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando viemos morar na zona urbana, Ceará-Mirim ainda era uma cidade muito provinciana. Ainda era a época da ditadura. Só existiam dois partidos políticos. O que mais animava a cidade era a festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, que ocorria em dezembro. O São João e a época da campanha política também agitavam a população. Ceará-Mirim tem - e já tinha naquela época - uma biblioteca muito boa, chamada Dr. José Pacheco Dantas. Desde que fui morar na cidade, me tornei assíduo frequentador de lá, apesar de ter apenas 10 ou 11 anos de idade. Na verdade, sempre gostei muito de ler.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O gosto pela leitura foi incentivado pelos seus pais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem mais me incentivou foi uma tia, a tia Darilene, que, infelizmente, já faleceu. Ela era professora. Aliás, duas tias maternas foram professoras: tia Dilma e tia Darilene. Tia Darilene tinha uma ânsia de ensinar muito grande. Então ela incentivou bastante esse meu gosto pela leitura.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você lia nessa época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu gostava de ler Neimar de Barros, alguns livros clássicos e Machado de Assis. Li &lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-X30rNbokcHU/TsboQ5q2KxI/AAAAAAAAA04/ha5oI41BDhU/s320/IMG_0315.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676479757403171602" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;também muitas obras filosóficas. Por incrível que pareça, meu gosto era voltado para esse lado. Meus irmãos e irmãs não se interessaram por essa área, a filosofia, que foi uma leitura que muito me agradou naquela época. Eu também gostava de ler o trivial, como os livros de romance e os de aventura. Na verdade, eu gostava mesmo era de ler. Lia até bula de remédio, rótulo de desinfetante e tudo o mais que fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Também ouvia muita música? O que costumava ouvir?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, ouvia muita música. Na época lembro que escutei muito Roberto Carlos, aprendi a cantar dezenas de canções dele. Sempre gostei da boa música brasileira: Noel Rosa, Sílvio Caldas, Sinhô... Também ouvia a jovem guarda: eu gostava de Celly Campelo. Outros que me agradavam  eram Erasmo Carlos e Raul Seixas, entre tantos outros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pelo visto, você gostava de músicas  mais antigas do que as de sua geração...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Realmente o meu gosto é mais antigo. Talvez por ter sido o primeiro neto, eu andava muito com o meu avô, Danilo Brandão. Eu ia com ele, de jipe, comprar farelo em João Câmara. O jipe não tinha som, então ele cantava a viagem inteira. O detalhe é que ele andava a 30 quilômetros por hora. De Ceará-Mirim para João Câmara são 48 km. Nós gastávamos quase uma hora e meia para chegar lá. Nesse percurso, ele ia cantando. Então, eu ouvia muita coisa. Também contribuiu para esse meu gosto o fato de na casa da minha avó paterna haver muitos discos antigos de intérpretes como Nélson Gonçalves, Carlos Gardel, Milton Carlos e Paulo Sérgio. Até morei uma época com os meus avôs.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No colégio você participou de manifestações culturais? Havia algum movimento musical?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Desde o jardim de infância, de cara, quando entrava em uma escola eu já procurava a bandinha. Eu ensaiava para tocar corneta no desfile de 7 de Setembro. No Grupo Escolar Barão de Ceará-Mirim eu fiz parte de uma bandinha de fanfarra que tinha.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual o instrumento?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sempre corneta, sempre instrumento de sopro. Também estudei pistom na banda de música, porém, sofri um acidente de carro e fiquei com uma sequela no lábio. O resultado é que perdi a embocadura. Foi por isso que deixei de tocar pistom. Mas sempre a minha atenção foi voltada para a música. Quando chegava em qualquer escola procurava me informar se havia banda. Se a resposta fosse positiva, eu procurava logo fazer parte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quer dizer que o violão foi uma alternativa quando você perdeu a condição de tocar instrumentos de sopro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi. É bom ressaltar que antes do violão eu já cantava. Antes de tocar eu tive bons parceiros para me acompanhar. Só que às vezes acontecia algum imprevisto de aquele músico faltar e eu ser obrigado a ter que conseguir outra pessoa, de última hora, sem sequer ter ensaiado. Isso contribuiu para eu desenvolver o interesse pelo violão. No começo eu tocava com o violão emprestado por um vizinho. Aprendi olhando aquelas revistinhas de acordes. Foi assim até o dia em que, ao chegar em casa, meu pai tinha comprado um violão usado. A partir daí me interessei realmente pelo instrumento. Na sequencia montei um repertório com o qual eu tinha condições de me apresentar em qualquer lugar, para os amigos. Posteriormente virei músico profissional.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que incluía esse seu primeiro repertório?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até hoje gosto muito mais das coisas antigas do que das novas. Na época eu já&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-JRzAKLSjItE/Tsbo2r9sYtI/AAAAAAAAA1E/xRtbKoiZitQ/s320/IMG_0320.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676480406559154898" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt; curtia Chico Buarque, Caetano Veloso, Alceu Valença... Isso era a década de 1980. Foi quando desenvolvi um repertório para tocar de forma profissional. O auge daquele tempo eram as canções estilo Cazuza e as daquelas bandas de rock, como Titãs e Paralamas do Sucesso. Porém eu estava voltado para Chico Buarque, Caetano, Tom Jobim, Vinicius de Moraes... Posso voltar um pouco no tempo para contar uma coisa que eu esqueci de dizer antes?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Claro, a entrevista é sua.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nas férias escolares da minha infância – que iam de dezembro até o início de março – a tia sobre quem falei, Darilene, me pegava em Ceará-Mirim e me levava para a casa dela, em Natal, na Rua Jundiaí. Lá tinha muitos discos, como, por exemplo, de Luiz Gonzaga, Chico Buarque. Tudo o que saía, ela comprava. Então eu passava esses três meses de férias ouvindo música da melhor qualidade. O esposo dela, Edgar, que também me influenciou muito, da mesma forma tinha um gosto musical fantástico. Sua paixão pela leitura era maior ainda. Na casa desses tios foi onde realmente conheci muita coisa boa da música. Na época eu tinha uns 13 anos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você começou a compor antes de passar a tocar nos bares?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Então, antes de entrar na fase das composições, explique como se deu a transição de tocar para os amigos para se apresentar em bares.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meu pai tinha uma indústria de cerâmica em sociedade com o meu avô e com esse tio por afinidade, Edgar. A cerâmica enfrentou dificuldades financeiras, em 1982, e acabou fechando. A cerâmica foi vendida e houve um rolo. Meu pai acabou perdendo tudo. Então ele resolveu abrir um bar. Foi nesse bar que fiz minhas primeiras apresentações. Eu tocava junto com Jean Carlos – que hoje é do Grogs e é um grande cantor. Na época ele cantava somente músicas dos Beatles. A irmã dele, Giane, que hoje é professora, também cantava. Seu repertório eram músicas de Simone, Gal Costa e Maria Bethânia. Eu cantava Chico, Caetano, João Bosco... Um dos gêneros fortes do bar era a seresta. Lá tocava muito Noel Rosa, Bororó, Lupicínio... A música ao vivo durava umas oito horas: de meio-dia às 8 da noite. Era um bar e restaurante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem frequentava?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Naquela época ainda não tinha a rodovia nova, que vai para o litoral norte. Então, quem ia para as praias do litoral norte tinha que passar por Extremoz (se fosse para as praias mais próximas), ou por Ceará-Mirim. Muitos dos que pretendiam ir para as praias mais longe, ao passar no bar, paravam lá mesmo ficavam, nem seguiam viagem. Preferiam ficar ouvindo a música, que, como eu já disse, ia até 8 da noite. Nós, os músicos, íamos nos revezando. A partir daí surgiu a oportunidade para eu vir cantar em Natal, pela primeira vez, no Restaurante ASFARN, lá na Ponta do Morcego. Toquei lá um bom tempo. A partir daí fui me profissionalizando cada vez mais. Na verdade, esse termo profissional eu utilizo com pouca propriedade, já que nunca fui um bom profissional. Sempre fui aquela pessoa que agradava bastante cantando, mas nunca fui aquele músico profissional ao pé da letra. Por exemplo: meu repertório nunca foi fechado. Eu chegava chegava e cantava uma aqui, outra acolá, até descobrir o fio da meada. Era nesse filão que eu investia. Eu também bebia e fumava no palco. Quer dizer, nunca fui um músico exemplar. Em minha defesa tem a explicação de que, naquela época, anos 1980, a boemia era muito ligada à produção musical. Era diferente de hoje, que ainda aceita os boêmios no palco, mas exige uma certa discrição.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando você veio tocar em Natal já tinha concluído os estudos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tinha terminado o segundo grau, mas ainda não havia começado o ensino superior.&lt;div&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-6_QE50td5iY/Tsbo223nWCI/AAAAAAAAA1Q/xv1wPrQULjs/s320/IMG_0321.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676480409486448674" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt; O negócio é que casei muito cedo. De fato eu casei duas vezes. A terceira foi praticamente um casamento. Casar precocemente fez com que eu parasse os estudos e começasse a tentar ganhar dinheiro. Eu sempre trabalhei.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual seu primeiro emprego?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meu primeiro emprego fora de um negócio da família foi em uma empresa subsidiária da Petrobras. Lá eu fui almoxarife. Trabalhava durante o dia e tocava à noite, de domingo a domingo. Foi uma época muito boa da minha vida, apesar de bastante cansativa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;- Quando você resolveu retomar os estudos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vivi, na noite, 22 anos tocando como profissional. Em uma casa só, passei 14 anos. Isso foi em um bar lá na Praia dos Artistas que começou como “Trampolim” e depois passou a ser “Trem de Minas”. Comecei lá em 1991 e saí em 2005, quando parei de tocar em barzinhos. Eu tocava e cantava. Às vezes era acompanhado por uma percussão ou outro músico.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Destaque alguns artistas que se apresentaram com você nesses anos todos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Alexandre Lacerda, que é um grande compositor de Ceará-Mirim, foi um deles. Toquei também com João Maria Varela, um violonista também de Ceará-Mirim. Aqui em Natal me apresentei com Marcelo Randemarck, com Edmar (da Banda Anos 60), com Romildo Soaress, com o baterista Carlinhos... Também fiz shows em bares e participei de festivais com Galvão Filho. Enfim, toquei com praticamente toda a turma da década de 1980 até o final dos anos 1990.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiram as primeiras composições?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meu parceiro Alexandre Lacerda foi a pessoa que mais me influenciou. Ele &lt;div&gt;compunha compulsivamente, não parava de compor: sempre estava com uma ideia na cabeça. Alexandre me mostrava, eu dava uma opinião. Algumas de nossas parcerias eu fiz a melodia e ele colocou a letra. Em outras participei, com ele, na letra da música. Compus também com Zeca Brasil. Inclusive, Zeca gravou “Jura”. Compus com Ivando Monte, com Michelle Lima... Ivando Monte é, pra mim, atualmente, um dos melhores compositores de Natal. O meu lado musical foi mais para a interpretação do que para a composição. Todas as minhas músicas são em parceria. Tenho alguns poemas que aos poucos estou levando ao conhecimento de colegas para musicar. Tenho uma dificuldade terrível em musicar. Prefiro fazer a música e depois colocar a letra do que o contrário. Tenho muito mais facilidade em compor a letra do que a música.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Suas composições têm algum tema específico?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Por exemplo: em parceria com Alexandre Lacerda fiz uma música baseada naquele livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Com Zeca Brasil fiz uma canção retratando uma paixão que estava sentindo por determinada pessoa, naquele instante. Com Michelle Lima e Ivando Monte também fiz músicas sentimentais. Quer dizer, não existe um tema específico.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você senta e escreve uma música ou espera a inspiração chegar para poder compor?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Normalmente a música vem pra mim como um sentimento. Ela nunca me vem como uma história. Geralmente ela vem mais pelo que estou sentindo, pelo que estou passando. &lt;/div&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-gsQjKpf9iN8/TsboO5K-lkI/AAAAAAAAA0g/UZctlaglEnE/s320/IMG_0313.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676479722909767234" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;div&gt;As coisas me ocorrem quando estou caminhando pela manhã, quando começo a pensar... Eu deveria gravar essas ideias. Hoje em dia todo celular grava, mas nunca fiz isso. Depois é que tento relembrar e vou escrevendo aos poucos. Hoje escrevo um pouquinho, amanhã lembro e retomo o que escrevi, ou modifico tudo.  Comigo acontece assim, mas pode até ser que saia alguma coisa se decidir fazer uma música a qualquer momento. Mas normalmente não funciona assim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos falar de sua fase participando de festivais.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O primeiro festival do qual participei foi um da UFRN, no começo dos anos 1980. A música não era minha, era de Alexandre Lacerda. Conseguimos classificar duas músicas para esse festival. Uma chamava-se “Terceiro mundo”, uma crítica ao sistema político-econômico brasileiro.  A outra era “Sarjai o Apartheid”. Estava na época de Mandela e do Apartheid na África do Sul. Nesse festival ficamos em terceiro lugar com “Sarjai o apartheid”. Aconteceram alguns fatos curiosos. O primeiro foi que estava combinado para, no início da música “Sarjai o apartheid”, por se tratar de um tema afro, eu dizer: “um axé para todos”. Na hora embolei a língua e pronunciei “um axê”. Um elemento lá da plateia olhou e disse: “o nome não é axê, não, animal: o nome é axé”. Pouco tempo depois, quando subi ao palco para defender uma música no festival da ETFRN, o camarada estava lá e me reconheceu: “diga aí, Axê”. Era um gordão, bonachão, daqueles caras divertidos. Quase morro de vergonha. Outro fato curioso é que a música ficou empatada com o segundo lugar. No dia do festival, trouxemos, de Ceará-Mirim, uma torcida maravilhosa para nos aplaudir. No meio veio o meu irmão mais novo, Renato. Ele tinha ido mais pela farra do que pelo festival. Quando saiu o resultado de empate, pediram que uma pessoa da plateia que escolhesse o vencedor, que desempatasse. Pediram ao meu irmão e ele votou na música do concorrente. Por isso ficamos em terceiro. (risos)&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse foi o da UFRN. E depois?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois participamos do Festival do SESI. Houve um fato curioso com a música “Veias abertas da América do Sul”, baseada no livro do Eduardo Galeano. A música ficou em quarto lugar. O curioso é que o apresentador, famoso em Natal, na hora de nos apresentar, disse: “agora vamos convidar Marcos Brandão para interpretar a música “Véias (de velhas) abertas da América do Sul'”. Todo mundo caiu na gargalhada. Quando cheguei no palco tive que corrigir aquela gafe. Depois teve o festival da ETFRN, que foi muito bom, apesar do problema que foi a acústica do ginásio. Ficamos em terceiro lugar. Ao todo, participamos de três festivais do SESI. Ganhamos o prêmio de melhor intérprete com Sueldo, que fazia parte do nosso grupo. Em um desses festivais também ficamos em primeiro lugar com a música “Natureza”, de Alexandre Lacerda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fora de Natal você se apresentou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em festivais, não. Mas toquei em São Luís, do Maranhão. A empresa que sempre trabalhei, Transpel - Transportes de Petróleo, tem negócios em São Luís. Fui lá substituir um gerente nosso que estava com problema de saúde e acabei ficando alguns meses. Naturalmente levei o violão e lá surgiram vários contatos. Trabalhei bastante em São Luís. Também fiz shows em Recife.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em São Luís você conheceu alguns músicos que aconselharia o leitor a procurar se inteirar do trabalho dele?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fiz vários shows, lá, sozinho. Mas conheci muita gente boa. Para não correr o rico de esquecer alguns deles, vou citar o nome de apenas um que me agradou bastante: Beto Pereira. Ele já está mais ou menos no cenário nacional. É um dos que eu recomendo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No Maranhão, se apresentando em São Luís, você chegou a incluir no seu repertório canções de artistas potiguares?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, principalmente de Alexandre Lacerda. Trabalhamos juntos uns dez anos. Apresentei muitas canções dele, tenho boas músicas dele no meu repertório que apresento em qualquer lugar. Sempre procuro mostrar as músicas de Alexandre, que são muito boas. Também cantei Ivando Monte e algumas canções antigas, como “Praieira”. Gosto muito de Chico Eliont e Elino Julião, por exemplo. Certa vez jantei na casa de Elino, foi maravilhoso.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi? Como era Elino Julião na intimidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi maravilhoso. O cardápio incluiu batata-doce, linguiça do sertão... Elino era uma pessoa tão simples que pedia desculpas para falar. Ele dizia: “desculpa aí, deixa eu falar aqui uma coisa...”. Participei de um jantar organizado por dois amigos. Estivemos lá eu, Lene Macedo, Jô Fernandes, Marcelo, Carlos... Levamos o som. Era aniversário de Elino. O jantar era comida do sertão. Aquela coisa de você comer e passar a semana cheio. Foi divertido demais. Ele, na janela, pegou um gravadorzinho de fita cassete e ficou lá gravando a gente cantar. A simplicidade nasceu dele. Elino Julião era um compositor fantástico.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Infelizmente, como tantos outros, Elino Julião morreu quase que esquecido. Por que, no geral, o artista potiguar não tem o reconhecimento que merece?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Há uma lacuna enorme, mas eu responderia com uma pergunta: qual a característica do povo potiguar? Qual a característica que marca? O que o faz reconhecer um potiguar fora de Natal? Se você chegar no Rio de Janeiro, facilmente identificará um cearense, um pernambucano, um baiano, um paraibano... E o potiguar? Já busquei essa característica e não encontrei. Não há essa característica exclusiva que faça o potiguar ser reconhecido onde vá, como ocorre com os nascidos nos outros estados que citei. Outra coisa: qual o prato típico potiguar? Qual a comida originária do Rio Grande do Norte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A carne de sol do Seridó é espetacular.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É, mas quando se chega no centro sul do país, só se fala na carne de sol da Paraíba. O povo potiguar, talvez por ser extremamente hospitaleiro, valoriza mais os que vêm de fora do que os da sua própria terra. Talvez até pela influência americana no país, na época da segunda guerra mundial. Então, não há valorização do conterrâneo. Houve uma época em que eu tinha uma bandinha, que não tinha nome, mas que tocava todo tipo de festa. O repertório ia desde o Trio Irakitan até Chico Buarque, incluindo a música dos anos 60.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem fazia parte dessa banda?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu tocava violão de seis cordas, Alexandre Lacerda uma viola de 12 cordas, a &lt;/div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-Ffc2odB3k4A/TsbnjMBEAHI/AAAAAAAAA0I/tAsuEAFkA4Q/s320/IMG_0295.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676478972054208626" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;div&gt;percussão ficava por conta de Arimatéia e Zé Maria. Era uma banda bem eclética. Qualquer tipo de festa que você quisesse fazer, a gente tocava. Uma vez, lá em Ceará-Mirim, contrataram uma banda para fazer uma festa. Ceará-Mirim, mesmo tendo grandes músicos, trazia gente de Natal pra tocar. Já Natal trazia de outros estados. Mas eu dizia que esse grupo contratado cobrou o triplo do que nós cobraríamos e, sem falsa modéstia, talvez tivéssemos a mesma qualidade deles. Mas o grupo faltou no dia da festa. O clube municipal, lotado, e nada do conjunto para tocar. Como eu morava vizinho ao clube, o organizador do evento foi me procurar. Eu disse que topava tocar, mas cobrei seis vezes mais do que o cachê acertado com o grupo de Natal. Ele quis reclamar, mas eu falei: “se você tivesse nos procurado antes, teria um grupo lá agora, nesse momento”. Coisa parecida acontece com o Carnatal, que poderia ser muito bem feito só com músicos da terra. Temos artistas excelentes que fariam com a mesma animação. O problema é que não se valoriza. Basta ver os shows do Projeto Seis e Meia. As pessoas entram no teatro no meio do show da atração local. Quando entra o artista nacional, o teatro está lotado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O pior de tudo é que o artista de fora recebe antes e o daqui pena para receber seu cachê. Outro dia li Isaque Galvão cobrando, no Facebook, o cachê do São João do ano passado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Conheço vários casos desse. Outro problema é a diferença enorme de cachê. O artista local, além de receber bem menos, às vezes nem recebe.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você nunca pensou em gravar um CD para registrar o seu trabalho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sou uma pessoa niilista. Esse é um termo muito abrangente que resume-se no seguinte: é aquela pessoa pra quem nada tem valor. Nada é importante, a não ser aquilo que estou vivendo naquele momento. Então, não gravei Cds sozinho. Gravei em bar e participando de discos de outros artistas. Gravei, por exemplo, com Ivando Monte. Porém, passei todas as cópias que ele me deu para pessoas queridas de quem gosto. Gravei com Lene Macedo, mas também não tenho o disco. Gravei um CD do “Estação de Minas”. Nesse gravei três músicas, mas, da mesma forma, não tenho uma cópia. Se você me pedir que eu mostre algum desses trabalhos, não tenho como. Agora, quando chego na casa dos meus amigos, todos têm. Também praticamente não tenho fotografias minhas em casa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Youtube, Facebook, Myspace... Você utiliza algum desses recursos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tenho Youtube e Facebook, mas alimento muito raramente, até por falta de estímulo. De fato, esses são instrumentos viciantes. Se você se envolver, acaba demandando muito tempo. E eu exerço várias atividades simultaneamente. Essas coisas fazem com que o meu tempo se torne bem curto. Prezo muito pela qualidade de vida. Sempre destinei, prioritariamente, um tempo para o lazer, para o prazer. Trabalho desde os onze anos de idade. Apesar de o trabalho me fascinar, entre a qualidade de vida e desenvolver uma obra fantástica, inesquecível ou memorável, prefiro a primeira opção.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como encontrar você nessas redes sociais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Basta procurar Marcos Brandão. Vai achar alguma coisa no Youtube, Orkut, Facebook... Se digitar Marcos Brandão, surgirão alguns. Eu estarei lá, no meio.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Hoje em dia qual a sua relação com a música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sou um eterno apaixonado pela música. Tenho dois violões e não me separo deles. Toco violão praticamente todo dia, nem que seja por 30 segundos. Meu violão fica desencapado. Mesmo que eu chegue tarde da noite, toco nem que seja 30 segundos. Não ando sem o violão na mala do carro. Digo muito que a música deveria ser uma disciplina obrigatória: desde o ensino fundamental até o superior. Em qualquer curso que se fizesse, devia ter uma cadeira chamada música. Em todas as escolas, na minha infância, tinha música. Pelo menos em educação artística se pagava um crédito de música. Comecei estudando pistom, como falei. A música é matemática pura e simples. Todos os compassos e notas têm uma divisão. A música ajuda no desenvolvimento do intelecto. Muito do que aprendi na vida foi por causa da música. Se a música fosse obrigatória,  teríamos uma sociedade mais culta e certamente menos violenta.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi a sua vida acadêmica?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como falei, comecei a trabalhar aos onze anos. Meu pai tinha uma indústria de &lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-gbj1HRoBmxs/TsboQsVENTI/AAAAAAAAA0s/Skf-leUytvk/s320/IMG_0314.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676479753822156082" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;cerâmica em Ceará-Mirim. Eu queria ter salário, mas não de graça. Queria fazer alguma coisa. Por isso, fui trabalhar. Ganhava 30 cruzeiros por semana, enquanto a maioria dos jovens da minha idade recebia um cruzeiro para ir ao cinema. Depois, aos 18, comecei a trabalhar na empresa subsidiária da Petrobras a qual me referi. Casei muito novo e tive uma filha. No segundo casamento tive outra filha. Como eu tocava e queria ver minha filha crescer, optei por não estudar. Dessa forma também pude curtir a vida que eu tinha na época. Somente depois foi que voltei a estudar e fiz o curso de Direito. Me graduei e me tornei advogado. Hoje trabalho nessa empresa e advogo. Todos os dias chego em casa às onze da noite. Antes vou ao escritório fazer também o meu trabalho de advocacia. Só que na sexta, sábado e domingo não existe mais nada pra mim a não ser a vida, a não ser a noite. Já era assim quando eu estudava.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fala-se muito em acabar o exame da OAB por supostamente ele ser uma prova muito difícil de passar. O que você acha disso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Realmente há uma polêmica grande com relação à OAB. No meu caso, nunca perdi um final de semana por causa desse exame. Passei na OAB antes de terminar o curso de Direito, no décimo período. É só uma questão de determinação ou de necessidade para passar. No eu caso foi de necessidade. Muitas pessoas fazem Direito apenas para adquirir conhecimento. Algumas dessas pessoas até já estão bem empregadas. Na minha turma a maioria tinha mais de uma graduação. Nem todos se interessavam muito. Minha primeira paixão é a música, mas a segunda é a advocacia. Minha vida profissional hoje resume-se ao trabalho na empresa que gerencio e à advocacia. Posso dizer que sou um advogado praticamente em início de carreira. Não sou um velho advogado, sou um advogado velho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se tivéssemos que fazer mais uma pergunta a você, qual seria ela?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vocês perguntariam como eu sou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tudo bem. Então, como você é?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Gosto de me descrever assim: sou um cara extremamente espontâneo, que não temvergonha de absolutamente nada. Não há nada que eu não possa fazer, se eu quiser. Sou uma pessoa muito prestativa. Às vezes os outros se incomodam, mas me dá prazer servir às pessoas. Vivi minha vida inteira desse jeito. Também posso dizer que não tenho apego a nada material e que sou um hedonista. Sou capaz de sair daqui pra Baía Formosa pra comer um goiamum. Cansei de sair daqui pra lá, de andar 90 quilômetros, pra sentar, comer um goiamum e voltar. O prazer me move.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tem um diferencial no seu repertório: canta muito lado B, ou seja, as canções que não fizeram tanto sucesso. Isso é proposital? É seu gosto pessoal ou foi uma demanda do público?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Isso advém de um desejo incontrolável que tenho de descobrir o desconhecido. Gosto de pesquisar, sou apaixonado pela pesquisa. Às vezes descubro uma música que ninguém ouviu falar. Nesses casos, procuro apresentar essa nova canção ao maior número possível de pessoas. Tenho duas filhas: Maria Claria, que tem um gosto mais parecido com o meu, e Luiza Helena, que prefere as músicas mais modernas. Quando descubro algo diferente, mostro primeiro a elas.  Eu acho que deveria ter feito História, antes de Direito. Quem sabe um dia anda não concluo esse curso... A História ensina muita coisa. A própria música pode ser instrutiva. Por exemplo: Em “Alfonsina e el mar” Mercedes Sosa canta a história de Alfonsina Storni, filha de pais argentinos que nasceu na Suiça. Era uma poetisa que descobriu que estava com câncer de mama e suicidou-se andando para dentro do mar. Imagine que dor ela sentiu pra cometer um gesto desses. Descobri pesquisando, após ouvir a música. Quando descubro uma nova canção fico igual a um menino que ganhou um brinquedo novo. Onde chego quero mostrar. Descobrir o novo é muito interessante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Recentemente Amy Whinehouse morreu. O que você falaria sobre ela?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Antes de falar sobre essa intérprete, gostaria de dizer que o sucesso é um mar bravio&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-wC5vxPWuayk/Tsbnh5RVCBI/AAAAAAAAAzw/EXYEhKyNsX4/s320/IMG_0293.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676478949842290706" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt; difícil de atravessar. São poucos os que conseguem atravessar, incólumes, o esplendor do sucesso. A história comprova isso. Vários roqueiros morreram aos 27 anos, e aos 30, aos 50, enfim... Amy tinha uma voz belíssima, uma interpretação fantástica. Seu repertório era ótimo. Ela tinha uma expressão fora de série. Acredito que um dos atributos fundamentais dela era a espontaneidade. Era espontânea até demais. Gosto das pessoas que não se preocupam. Faço a barba todos os dias por necessidade, pelo meu trabalho. Mas admiro a pessoa que sai de casa com a barba por fazer, que não usa roupas de marca, que usa palito de dentes. Admiro as coisas espontâneas, que você faz sem querer, faz por fazer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chegou a hora de você se despedir do leitor do jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;MARCOS&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Agradeço demais por essa oportunidade. Era um sonho antigo fazer parte desse sucesso que é o trabalho desenvolvido pelo jornal Zona Sul. Sou uma pessoa que pouco falo de mim. Muitos dizem que sou trancado, que não exprimo sentimento. Aprendi que os sentimentos devem ficar dentro de cada pessoa. Porém, essa oportunidade foi muito boa. Falei tanto sobre mim como nunca tinha falado na vida. Gostaria de agradecer a todos vocês, especialmente a Ronaldo Siqueira, que é uma pessoa por quem tenho grande carinho. Todos vocês me deixarão tão à vontade que eu consegui dizer tudo o que gostaria. Talvez eu também tenha dito algumas besteiras. Se for o caso, peço desculpas por isso. Mas é bom lembrar que não há quem não diga as suas bobagens. Agora o que me resta é esperar essa entrevista ser publicada. Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-H7H3AkvNf-Q/Tsbpkg4-BRI/AAAAAAAAA1c/NTWGWAukYts/s320/IMG_0316.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676481193860531474" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-0fW5oN_UfNA/TsbpkymDlCI/AAAAAAAAA1o/sgilxau6seE/s320/IMG_0298.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676481198613042210" style="color: rgb(0, 0, 238); text-decoration: underline; display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-5090785831170153773?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/5090785831170153773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/11/entrevista-marcos-brandao.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5090785831170153773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5090785831170153773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/11/entrevista-marcos-brandao.html' title='Entrevista: Marcos Brandão'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-32U-0V_nDFU/TsbniA7g3lI/AAAAAAAAAz8/pv8aOi1ZQ84/s72-c/IMG_0294.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-5043185181921855892</id><published>2011-10-19T22:03:00.007-02:00</published><updated>2011-10-19T22:20:21.654-02:00</updated><title type='text'>Entrevista: Sérgio Farias</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-w16UGSMt_VI/Tp9nIsGVPdI/AAAAAAAAAzM/fVSNiUJbkWA/s1600/IMG_0338.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;DE VOLTA AO VELHO CONTINENTE&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/--fneLayzW6c/Tp9mJVmOX_I/AAAAAAAAAyQ/XDRqAESZYSY/s320/IMG_0345.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665359166857699314" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Incluído em qualquer relação dos melhores músicos potiguares, o violonista e compositor Sérgio Gondim Miranda de Farias nasceu no Rio de Janeiro. Algumas semanas antes de embarcar para uma longa temporada na França, ele conversou comigo, com o jornalista Roberto Fontes e com o advogado Ronaldo Siqueira. O anfitrião, como não poderia deixar de ser quando as entrevistas são realizadas em Natal, foi o Veleiros Restaurante, de Ricardo Menezes. Durante pouco mais de uma hora, Sérgio Farias traçou um resumo de sua trajetória. Falou sobre os irmãos músicos, as precoces apresentações nos barzinhos de Natal, o retorno ao Rio para se aperfeiçoar no violão, o festival de música da Rede Globo e sua primeira ida à França. Vamos acompanhar o que Sérgio tem para contar. (robertohomem@gmail.com)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você não nasceu no Rio Grande do Norte...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nasci no Rio de Janeiro. Meu pai, José Miranda de Farias, era militar da Marinha: vivia viajando. A vida de militar era itinerante. Minha família morou em Belém, Recife, Rio de Janeiro e em Natal. Mamãe era daqui de Natal. Somos sete irmãos. Fui o único que nasci fora. Todos os outros são de Natal. Passei só dois anos e pouco no Rio, não assimilei nada. De lá, meu pai fixou-se com a família em Natal. Só voltei ao Rio já velho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quer dizer que você não acompanhou a vida itinerante do seu pai.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Peguei o final, quase a aposentadoria dele. Meu pai era militar da parte médica, era dentista. Sua participação nas Forças Armadas era mais leve. Nunca senti papai militar, até porque ele deixava essa faceta na Marinha. Fora alguns stress, ele não trazia para dentro de casa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sua mãe tinha alguma ocupação?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mamãe, Guacyra Gondim Miranda de Farias, é uma heroína, como toda mãe. Além de ter criado os sete filhos, quando completei uns sete anos ela voltou à faculdade. Concluiu e passou a atuar como professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi engraçado porque eu acompanhava, como criança, essa participação científica dela. Os outros curtiram mais o lado dela de mãe. Na minha época ela passava o dia todo na universidade, pesquisando.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ela pesquisava em qual área?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Bioquímica. Começou a pesquisar nessa área numa época em que não havia nem&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;centro de pesquisa. Os equipamentos eram adaptados. Quando os pesquisadores de São Paulo vinham a Natal, achavam surpreendente a maneira como os pesquisadores daqui trabalhavam, sem aquele apoio tecnológico ao qual eles estavam habituados. Hoje - graças a esse desbravamento feito por ela e por uma geração de pesquisadores – a bioquímica de Natal é superequipada. Logicamente ainda não é comparada a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, mas já atingiu um nível importante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seus pais tinham alguma ligação com a música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tanto a família da minha mãe como a do meu pai gostavam muito de música. Eu tinha menos contato com a família do meu pai, que é de Pernambuco. Às vezes a gente passava anos sem se ver, mas quando se reencontrava, parecia que tinha acabado de se deixar. O pernambucano têm um espírito muito vivo e alegre. Não é a toa que o frevo nasceu lá. Meu avô, Mário Henrique de Farias, gostava de cantar e de dançar. Contam que ele saía de casa para dançar. Mas não era em clubes, como hoje. Ele morava no interior, no distrito de Casinhas, em Surubim. Saía de noite para cantar e dançar ciranda com as crianças, na rua. Nem precisava de acompanhamento: era só o canto e as palmas. Quando a gente chegava em Pernambuco, sempre tinha uma ciranda da família nas nossas reuniões.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E na família da sua mãe?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dois tios gostavam muito de música e de boemia: Carlos Gondim, o filho, e Tota, o Fernando Antônio. Dentro da minha casa também tinha música. Meu irmão mais velho, Mário Henrique (as pessoas o conhecem pelo trabalho que fez na Banda Anos 60), é um compositor fantástico. É impressionante a tranquilidade com a qual ele toca bossa nova. Ele tem uma facilidade enorme de acompanhar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mário Henrique foi a fonte através da qual você se inspirou para ingressar no caminho da música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não sei. De qualquer forma era uma facilidade muito grande ter, dentro de casa, uma referência ótima de violão. No começo eu queria tocar como ele. Mas não havia disputa, porque além de ele tocar muito mais do que eu, na verdade comecei estudando bandolim. Por tocarmos instrumentos diferentes, ele geralmente me acompanhava. Outro irmão, Carlos Gondim, também me acompanhou muito, tocando violão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nas suas brincadeiras de criança a música entrava de alguma maneira?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dividi muitas brincadeiras com meus primos. A família pra mim era uma coisa&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-Z5V_LS_Ah5I/Tp9nId4lv4I/AAAAAAAAAy8/gtLQ2JNeibs/s320/IMG_0337.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665360251413970818" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; muito legal. Tive muitos primos praticamente da mesma idade. Às vezes juntávamos uns oito, todos na mesma sintonia. Naquela época a gente era mais solto, tudo era mais natural. Sem jogos eletrônicos, o negócio era a criatividade. Brincávamos de forte apache, de jogar bola ou outros jogos coletivos, como esconde-esconde, 31 alerta... Nunca esqueci certa ocasião quando, ao término das férias, comecei a pensar que a volta às aulas significaria uma diminuição no ritmo daqueles encontros. Eu tinha uns sete anos. Foi quando Elis Regina interpretou: “O bêbado e o equilibrista”. Um mês depois de aquelas férias acabarem, bastava eu escutar aquela música que eu caía no choro. A dose emocional era duplicada: o fato das férias terem acabado e própria música, que de tão bonita mexia lá no fundo. Quando a música acabava, eu repetia e chorava de novo. Apesar de naquela época eu já escutar muita música, foi essa a primeira pancada musical que recebi.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você ouvia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Carlinhos, meu irmão, brincava dizendo: “Serginho, você gosta de escutar esse tipo de música para agradar papai”. Senti uma empatia muito grande com algumas músicas de compositores que saíram em uma coleção de música popular brasileira. Nela vinham discos encartados com seis músicas. Eram de um tamanho intermediário: nem compacto simples, nem longplay. Nessa coleção descobri João de Barro e Alberto Ribeiro, Ismael Silva, Ary Barroso. Gostava mais deles do que dos mais modernos, como Caetano Veloso. Uma das músicas que eu mais gostava era “Antonico”. Quando comecei a tocar violão, com oito ou nove anos de idade, eu já sabia essas músicas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você começou a tocar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Aprendi o básico e pouco a pouco passei a conhecer um acorde ou outro mais complexo com meu irmão Mário Henrique. Os sambas que eu gostava não eram tão difíceis como a bossa nova, que tem acordes demais. Não tinham harmonia nem melodia difíceis, nem enorme sofisticação. Mas a letra e a melodia eram bem feitas. Outra música ótima que recordo é “Seu Libório”, de Alberto Ribeiro e João de Barro. Ainda tenho vontade de criar um grupo chamado “Lado B”, pois sempre gostei dessas músicas que ficavam do lado menos interessante do disco. Antigamente o lado A do disco tinha as músicas mais populares. No segundo lado as gravadoras deviam dizer para o artista: “nesse aí você faz o que quiser”. O primeiro lado era para vender o produto. Eu sempre gostei do segundo lado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas você estava contando como começou a tocar... Você participou de algum grupo musical na escola?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha participação na escola, sobretudo até o ginásio, não teve nada a ver com música. As pessoas só sabiam que eu tocava quando tinha, por exemplo, um encontro. Até porque estudei no Colégio Marista no finalzinho da ditadura. Ainda tinha um ranço danado. Não foi uma época boa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você foi bom aluno?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nunca fui bom aluno. Engraçada essa coisa de ser bom aluno. Somente quando fui convidado pela UFRN para participar de uma banca, de um júri, e para falar sobre a minha experiência na França, foi que me dei conta que nunca tinha gostado de estudar. Apesar disso, fiz uma quantidade enorme de cursos musicais. Só pós-graduações, fiz umas três. Apesar de não ser tão dedicado, enquanto estudava, procurei sempre aprender e absorver alguma coisa. Sobretudo depois de mais velho. Até a universidade, eu estudava para me livrar daquela obrigação.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você foi aluno da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, fiz mecânica na ETFRN. Se pagassem bem, naquela época, a um técnico de mecânica, eu teria seguido carreira. Adorava abrir um motor, regular um carburador. Depois fiz até o terceiro ano de engenharia mecânica. Vi que não queria aquilo quando fui fazer um estágio. Descobri que o engenheiro tinha que ficar em uma mesa, desenvolvendo projetos, sem se sujar com nada. Eu não queria ser o engomadinho da mecânica. Tive o bom senso de desistir na metade do curso. Depois fiz educação artística, com habilitação em música. Eu queria fazer música, mas não tinha.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que veio primeiro: suas composições ou as apresentações?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Comecei acompanhando alguns artistas. Na época foi difícil, pois eu era bem novinho, tinha 16 anos. As primeiras apresentações fiz com Edimar Costa, da Caixa Econômica. Ele também era um cara novo e tinha a versatilidade de acompanhar vários estilos. Edimar gostava muito de Gonzaguinha. Antes de a gente se apresentar, ele teve que ir conversar com o meu pai, assegurar que eu não me envolveria com bebida...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi quase como um pedido de noivado...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi. Papai achava a música legal em casa. Mas ele tinha um medo danado da boemia, sobretudo de os filhos passarem a beber. Como eu era o mais novo, a preocupação crescia. Papai não tinha medo de a gente entrar no mundo da droga. Até porque a droga era um negócio escondido e distante da vida de todos nós. Não havia nem recomendação com relação a isso.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Onde foram suas primeiras apresentações?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nos bares em Ponta Negra, como “Casa da Sogra”. Tocávamos eu, Edimar, Fábio Fernandez, no baixo, e Carlinhos, na bateria. Depois dessa fase, comecei a fazer uns cursos de harmonia. Não lembro se eu paguei integralmente esses cursos, mas sei que no começo papai não queria ajudar. Usei os cachês com essa finalidade. O professor era Manoca Barreto. Logo que ele voltou do Rio, colocou um cursinho. Devo ter bancado uns dois meses. A partir daí, vendo o meu interesse, papai e mamãe devem ter passado a ajudar. Não lembro exatamente, mas sei que na época foi difícil, houve resistência. Através de Manoca, em pouco tempo apareceram outros trabalhos. Éramos poucos os músicos de Natal que, naquela época, líamos cifra. Contavam-se nos dedos os guitarristas que liam cifras e que moravam em Natal. Apesar de eu ser muito novo, já era requisitado. Manoca foi super importante para Natal: ele ensinou vários músicos a ler cifra e muitas outras coisas. Eu, Erick (que passou mais de 15 anos tocando com Margareth Menezes) e Wallid fomos alguns dos que aprendemos com ele. Toda uma geração foi pegar essa informação que Manoca buscou lá fora. Alexandre Siqueira e Ricardo Menezes foram outros alunos dele. Manoca, quando não podia fazer alguns trabalhos, passava para mim. Foi assim que surgiu a oportunidade de trabalhar com Pedrinho Mendes. Fiz trabalhos com outros artistas que gostavam da praticidade que a banda da gente tinha de ler partituras e cifras, de fazer dois ou três ensaios e não esquecer no próximo encontro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tocou com Pedrinho naquela fase do “Boteco”?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não, já peguei Pedrinho na época de campanha, dos carnavais. Fizemos o primeiro Carnatal. Pedrinho era o máximo. Natal mal conhecia as bandas de Salvador. Poucas rádios tocavam uma ou outra música, mas, no geral, ninguém conhecia, com exceção de Luiz Caldas, Banda Mel e duas ou três outras. No primeiro Carnatal, a apoteose do evento foi Pedrinho Mendes e Moraes Moreira. A gente olhava para a Prudente de Moraes, da Praça Cívica, e via &lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-7cBHTytSoQ4/Tp9mJFchm9I/AAAAAAAAAyA/-reRamFfBdE/s320/IMG_0346.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665359162522049490" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;gente entupida até a Apodi. Foi uma grande novidade para Natal, aquele povo todo e os trios elétricos passando. Era enorme a quantidade de pessoas ali. As pessoas tinham uma idolatria por Pedrinho. Fiquei morto de nervoso quando fui ensaiar com ele. Pedrinho era um grande astro e talvez ainda seja para muita gente, ainda hoje. Tenho grande respeito pelo trabalho dele. O brasileiro, de uma maneira geral, não tem muito sentimento de patriotismo, de bairrismo. A gente sempre acha legal o que vem de fora.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Talvez seja uma característica do potiguar. Pernambucano, por exemplo, se adora. O paraense e o paraibano também curtem seus artistas. O Ceará, do mesmo jeito.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não sei, mas acho que se Pedrinho tivesse nascido na Bahia, teria sido mais do que Gilberto Gil. No mínimo ele deveria ser para o potiguar como Gilberto Gil é para o baiano. Babal também é outra fera. Tem alguns outros. Era para o potiguar ver Pedrinho em um restaurante e pedir um autógrafo. O cara devia entrar em um bar, ver Pedrinho e sentir orgulho de ter um cara como aquele na nossa terra. Mas vejo o pessoal desrespeitar até Câmara Cascudo! Quantas vezes ouvi comentários de que Câmara Cascudo inventava, quando não sabia determinada história. Quantas vezes escutei essa imbecilidade. Câmara Cascudo é o maior expoente da cultura popular no mundo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E ele construiu sua obra sem internet, com os meios de comunicação precários da época, recorrendo a cartas e bibliotecas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não existe um paralelo para ele. Não existe pesquisador americano ou francês que tenha feito o que ele fez. E ele recebia a todos na sua casa. Mas a gente não idolatra nem Câmara Cascudo. Tem gente que fica procurando defeitos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que outros artistas você acompanhou nessa época em que dava seus primeiros passos na música? Você já compunha?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ainda não. Acompanhei vários artistas: Sueldo Soaress, Cleudo Freire, Tarcísio Flor,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-w16UGSMt_VI/Tp9nIsGVPdI/AAAAAAAAAzM/fVSNiUJbkWA/s320/IMG_0338.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665360255229705682" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; Valéria Oliveira, Galvão, Babal... Naquela época as pessoas gostavam do nosso núcleo de instrumentistas. Esse grupo variava alguns integrantes: Manoca (depois ele parou um pouco), eu na guitarra, no baixo Erick (tocava com 100% dos artistas), Eduardo Taufic nos teclados, e Sílvio, na bateria. Depois entraram Distéfano (bateria) e outros artistas. O grupo começou a aumentar até se dividir. Mas foi um núcleo de músicos que acompanhou muita gente, como Antônio Ronaldo, Manassés Campos e o pessoal do Trampo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi nessa época sua ida para o Rio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois que trabalhei com Joca Costa resolvi fazer um curso de arranjo. Quando fui assumir a direção do Instituto Waldemar de Almeida, da Fundação José Augusto, tive oportunidade de dizer a Joca – que é professor de lá – que devo a ele parte da minha vontade de ser músico.  Minha trajetória mudou muito quando o conheci. Ele fazia arranjos belíssimos. Escrevia para cordas, para metais, para flauta... Construía a grade de partitura... Eu queria aprender aquilo. Assim, aos 20 anos, resolvi fazer um curso de arranjo no Rio de Janeiro. Quando concluí, com menos de um ano, surgiram as composições. Por causa do curso, tive que fazer arranjos e composições também. Comecei a compor uma música, duas, três... Quando voltei para Natal um ano e meio depois, estava com umas 14 músicas. Me deu aquela vontade louca de fazer um disco. Foi quando surgiu “Palmyra”, o primeiro CD.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O disco foi gravado em Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, mas a qualidade na época não era boa, a cidade só tinha um estúdio. No Rio fiz o curso de harmonia com o maestro Yan Gest, acho que ele é até húngaro. Ele representou para&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; o Rio o que Manoca significou para Natal: trouxe um curso de arranjo para o Rio de Janeiro. Os compositores e arranjadores tinham que estudar com ele. Até hoje ele é referência. Por isso fui lá fazer com ele. Depois de gravar “Palmyra”, voltei com o disco debaixo do braço para o Rio. Visitei as gravadoras que trabalhavam com música instrumental. Gostavam do disco, mas por serem pequenas, não tinham condições de fazer nada. O cara da Perfil Musical disse que também tinha gostado, mas a gravadora havia acabado de investir em Romero Lubambo e na diva do jazz brasileiro, Leny Andrade. Levei também na Vison e voltei achando que não tinha conseguido nada. Mas no outro dia me ligaram dizendo que se eu gravasse de novo, eles lançavam. Avaliaram que as composições eram ótimas, mas que a qualidade de gravação não era nada boa. Fiz um projeto dentro do Profinc e regravei no Rio. Interagi com muitos músicos, conheci Rildo Hora, Sérgio Galvão (irmão do Lula Galvão). Gravei com a Companhia de Cordas do Rio de Janeiro. Conheci Iura Ranevisky, outra figura importante. Em estúdio você conhece muitas pessoas. Foi mais fácil depois voltar pro Rio e começar a trabalhar. Quem também deu muita força foi um amigo daqui, Murilo, que tinha tocado um tempo com o MPB-4. Ele facilitou esse contato. Depois do disco, pude começar a trabalhar no Rio, pouco a pouco.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você fez de mais importante nessa passagem pelo Rio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pra mim o mais importante Rio foi mudar minha maneira de tocar. Eu tocava muito  pra mim, solava demais. Era igual aquela pessoa que, numa conversa, fala muito e ouve pouco. Então, comecei a relaxar mais. Percebi que a minha participação tinha que ser menor em todas as músicas. Pra mim foi difícil. Você pode ser o artista principal, mas está tocando em um grupo. Esse comportamento você tem que guardar para o resto da vida. A música é um trabalho em equipe. A dúvida entre um ser humano e outro é grande, imagine entre vários músicos tocando uma peça. A música suscita esse descobrimento interior. A prática musical leva você a algumas reflexões e atitudes. Ao mesmo tempo, é como criar um filho. Estou criando um filho agora. Estou com um menino lá em casa. Você nunca sabe bem como vai proceder. Você tem que refletir o tempo todo. São sempre situações novas, nunca é a mesma situação. As músicas que aparecem para a gente tocar dão isso pra gente. Quanto mais experiência você tem para tratar com a música, melhor. A música é muito exigente, ela lhe obriga a ficar em forma, sobretudo intelectualmente. A música é como um diálogo. Se você está falando com uma pessoa e ela começa a olhar para o lado, ela perde o fio da meada um pouquinho, quando volta, não está mais por dentro daquele assunto. Se é em grupo, pior. Se tem várias pessoas interagindo dentro de uma peça sonora, aí é que é complicado mesmo. Tem gente que é muito desleixado tocando. Bota as notas dentro do compasso e nem escuta. A música é uma exigência profunda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você se apresentou com quem nessa primeira temporada no Rio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Toquei com vários artistas. Tive um parceiro que foi muito legal pra mim, o Miltinho, do MPB-4. Ele é um excelente compositor, apesar de o Brasil pouco conhecer. E olhe que tem muitas músicas consagradas, como “Cicatrizes”, que Roberta Sá gravou agora. Ele tem um trabalho fantástico. E como integrante do MPB-4, nem precisa ser apresentado. A gente fez um trabalho instrumental e cantado muito íntimo. Eu tocava bandolim e violão com ele. Teve &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-TBLQF1xdsg4/Tp9mKCuSy4I/AAAAAAAAAyY/Biy9OKbviZ4/s320/IMG_0340.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665359178971138946" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;também a Dora Vergueiro, filha do Carlinhos Vergueiro. Também toquei com a Carol Saboya, filha do Antonio Adolfo. Teve uma temporada que integrei o Quarteto em Cy, quando a Celinha não pôde tocar. Tive um trabalho de parceria com a Simone Guimarães, com quem toquei um tempo. Eu era do Rio Grande do Norte e ela de Santa Rosa de Virtebo, interiorzão brabo de São Paulo. Ambos chegando ao Rio de Janeiro, àquela coisa grande. Também interagi com o Mauro Aguiar, que hoje é parceiro do Guinga. Foi o Guinga quem me apresentou a ele. Gravei um filme cujos arranjos foram de Maurício Maestro e, dessa forma, fiquei amigo dele. Quando houve aquela classificação minha no Festival da Rede Globo, em 2000, ele fez os arranjos. Uma coisa vai puxando outra.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi a história desse festival?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Escolheram a minha música entre 24 mil e poucos candidatos inscritos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tinha esperança de classificar alguma música para a fase final do festival?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tive um pouco de esperança porque a Simone Guimarães, que tem uma belíssima voz, cantou na gravação. Tinha uma possibilidade, de repente. Mas não achei que tivesse uma forte chance.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você estava morando no Rio ou em Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em Natal. Antes do festival começar, fizeram quatro ou cinco reuniões. Na primeira, um diretor da Globo chegou pra gente e disse: “quem acha que isso é um festival de música, está enganado. Isso é um festival de imagem, é um festival da Rede Globo”. Foi a primeira coisa que ele falou. O que valia era a imagem, as performances, os aspectos. Ali eu vi logo o que aquele festival seria. Mas, como eu dizia, passei uns quatro ou cinco anos morando no Rio, tocando com esse pessoal. Coloquei a cara entre os violonistas do Rio de Janeiro daquela época. Pensei que chegaria lá e seria apenas mais um violonista desapercebido. Mas notei que a música é uma coisa especial mesmo, sobretudo dentro de uma área específica. Na área da bossa nova, disponível para trabalhar, com gás para acompanhar um novo cantor e também com um cachê acessível, não tinha 500 violonistas. No final, mesmo longe de ser um violonista famoso no Rio, me tornei uma pessoa conhecida em todos os meios. Fui indicado para tocar com vários artistas, entre eles Ivan Lins.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos falar na sua fase da França.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Voltei do Rio para Natal, e, depois que fiz meu curso superior, surgiu a oportunidade de uma bolsa da CAPES. Eu já estava praticamente noivo, minha esposa é cantora lírica. Nós dois fizemos projetos para uma bolsa de estudos da CAPES pra França, na mesma escola. Na época eu já era parceiro de Hermínio Belo de Carvalho, que fez uma carta de apresentação para mim. Acho que Miltinho também fez. Eu tinha várias cartas de recomendação de músicos da MPB, um belo currículo e dois discos publicados: “Palmyra” e “A nuvem acende”. Minha esposa fez também e o projeto dela foi aceito. Fomos para a França começar tudo do zero. Lá a linguagem musical é muito diferente. O francês tem uma paixão pelo som enorme. Se o músico tem uma grande virtude - que ele chama virtuose - no instrumento, tem uma velocidade muto grande, mas as notas não são muito bem explicadas, se o tempo não é precisamente controlado, se a emoção daquela pessoa não está na mão daquele artista, e se ele não dá o máximo de si e o som dele não é belíssimo, esse artista não terá muito futuro. Mas de todas as exigências, as maiores são o som e a afinação. Você tendo um belo som e uma bela afinação, eles perdoam um pouco o resto. No Brasil a gente é muito emotivo, gosta muito da cena, do palco, da performance da pessoa. O artista tem que dar um show, um espetáculo. Percebi morando na França que a grande referência do brasileiro são os Estados Unidos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na França você tocou profissionalmente?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Lá fiz curso de composição para música de filme e também fiz várias apresentações. Uma semana depois que toquei pela primeira vez na França, meu telefone tocou. “Estou ligando porque um amigo músico viu você tocar e me recomendou, pois estou precisando de alguém que toque jazz, algumas coisas latinas e tal”. Depois desse segundo show, outro telefonema. No terceiro ano em que eu estava na França, meu telefone tocava três ou quatro vezes por semana. Eram pessoas diferentes procurando músico. No meu penúltimo ano na França fiz 67 concertos com artistas brasileiros, franceses e também apresentando meu trabalho. Aqui, pra fazer uma quantidade de show dessa tem que ser um artista de muito nome. Lógico que o fato de ser violonista é bom porque você se integra a vários grupos, mas pra um mercado musical, é fantástico.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Além disso, pelo que você mesmo falou, é fantástico pelo fato de o mercado ser superexigente. E de você ser um estrangeiro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por falar nisso, é um mito terrível que eles tenham alguma coisa contra contra brasileiro. Quando a gente vai para um lugar acaba entendendo algumas coisas, mesmo que não apoiando. Por exemplo: quando um estrangeiro vem ao Brasil e observa a violência e a miséria, ele não vai defender, mas vai entender o que são esses fenômenos. Vai saber que o brasileiro pode ir com certa tranquilidade a um restaurante à beira-mar sem sentir pavor de ser assaltado. Pelo menos a maioria das pessoas não sentem esse pânico. Para o estrangeiro a visão é mais ameaçadora. Já na visão do brasileiro, o estrangeiro é o cara que trás o dinheiro. Porém, de uns três anos para cá o brasileiro está percebendo que o estrangeiro também pode representar um problema. Ele pode estar aqui pelo turismo sexual, ou porque é trambiqueiro, ou até por estar usando dinheiro de maneira ilegal... Em suma, ele traz muita coisa positiva, mas também tem seus probleminhas. Na França é o contrário. O estrangeiro que se instala lá traz, na visão do francês, um problemão. Acima de tudo, ele vai usufruir de alguns direitos sociais concedidos no país. Independente de ser francês ou não, na França todo mundo tem. Então, na medida em que chega um a mais, vão ter que repartir a mais um bolo que continuará do mesmo tamanho. O francês também está perdendo poder aquisitivo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Com todas essas oportunidades na França, porque você retornou para Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meus pais estavam doentes e eu estava cansado. Não morar no seu país é muito. Chega um momento em que a pessoa se estafa, fica estressada. É muito tempo você desconectado de tudo, até da maneira de falar. Eu falava português com a minha esposa, mas tinha todo um universo de amigos franceses. Consegui amigos fantásticos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como é hoje sua relação com a música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; –  O principal de uma música é a mensagem. Se eu vou dizer uma mensagem que você &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-mqV5Lb_u3vo/Tp9muwJxCqI/AAAAAAAAAyw/nWuJRYMbopY/s320/IMG_0344.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665359809641253538" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;não é sensível a ela, é a mesma coisa de eu estar falando com uma parede. Se o povo hoje só abre o canal do seu coração pra se liberar, para dançar - que é bom também, faz parte – ele só vai receber aquilo. O processo de mudança ao qual me submeti no Rio de Janeiro e também na França me fez melhorar um bocado. Fiquei mais atento com o meu som, passei a me olhar mais. Não melhorei porque estou tocando melhor, mas por ter ficado mais crítico comigo mesmo. Estou cada vez mais exigente e vigilante comigo mesmo e sobretudo isso: eu acho cada vez mais importante o que eu faço. Engraçado, tem tanta gente com profissões tão importantes, mas as minhas notas musicais já me levaram para tanto canto... Já fui para Nova Caledônia (arquipélago da Oceania), para o Caribe, França, Portugal, Itália, Espanha, passando muitas vezes dois ou três meses em cada lugar. Passei dois meses e meio na Itália, conhecendo cada lugarejo. Passamos quase um mês na Espanha, degustando os vinhos, comendo jambon, o presunto.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale um pouco do trabalho da sua esposa, a cantora lírica Alzeny Nelo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ela foi uma coisa fantástica na minha vida porque sou músico popular. Não somente a música que ela gosta é erudita, como ela própria é erudita. Alzeny é uma personalidade assim: ela combina demais com a França, é impressionante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ela é de Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, ela é da Cidade da Esperança. Alzeny tem um temperamento bem adequado ao tipo de música que escolheu. Termina me complementando, pois sou bem alvoroçado. A música popular tem um lado rítmico muito forte: o bolero, o samba, o chorinho... Quando a gente fala em música popular, o ritmo vem logo junto. Na música erudita a percussão é um detalhe. Só “Bolero”, de Ravel, que tem aquela marcação contínua. No resto das músicas a percussão é um detalhe, um bolo na cereja. O cara fica um ano esperando um prato. A harmonia, o ritmo são as cordas. Você imagina 80 músicos tocando juntos. Aquele ritmo é muito flutuante. É preciso e não é. São vários músicos que vão dar o ritmo, e geralmente de natureza diferente. Às vezes é a flauta que dá o ritmo, noutras é o violoncelo, a corda grave. Esse bando de instrumentos tocando juntos é uma loucura. A noção de tempo de cada um é diferente. Já começa daí o grande aprendizado. E pra você tocar no tempo tem que ouvir aquele bando de instrumentos e jogar a nota naquele exato instante. Diferente do violão, que o cara toca a corda e o outro responde no baixo e o outro na bateria. Em um grupinho pequeno, a mensagem é rápida. A música erudita é delicada pela sua própria formação. Então, acabei assumindo esse mundo de Alzeny também. Compus uma sinfonia na época em que estudei na França. Fiz em homenagem a um músico de Natal que tinha falecido, Carlão, da Orquestra Sinfônica. A sinfonia chama-se “No tempo das árvores”. Foi apresentada uma vez. Estudei música erudita e análise musical durante quatro anos, na França.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu a oportunidade de voltar a morar na França.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Agora vamos em outras circunstâncias. Já fiz um belo núcleo de amigos, que é o principal na vida. Já volto tocando em grupos musicais, e tenho até show marcado lá. Tenho coisa marcada até em novembro de 2012! Esse show será em uma casa de jazz, acompanhando uma cantora. É muito raro conseguir espaço lá. Eles dão oportunidade de você ensaiar cinco dias no lugar, antes do show. A cantora me disse que a agenda desse local está completa até 2015.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A França será a sua base, mas você deverá tocar na Europa toda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É, com certeza. A base é a França. E é uma base fantástica e legal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você já domina o francês.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Falo fluentemente. Lógico que aqui e acolá posso cometer um erro. Mas isso é comum &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;até no português. Para viver na França é diferente. O brasileiro é muito mais acolhedor, ele aceita que o estrangeiro passe a vida toda sem aprender o português. O espanhol ou o alemão vem para o Brasil e não domina a pronúncia de algumas palavras e não aparece um brasileiro para corrigi-lo, não liga muito para isso. Mas, para o francês, a linguagem é muito importante. A gente tem que respeitar essa diferença. Você deve aceitar o francês como ele é e não criar um gueto e se juntar com um bando de outros brasileiros. Ainda mais você como visitante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seria a mesma coisa de ir a uma festa e se juntar em um grupinho para falar mal do dono.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É, estou indo para a casa deles. Se a gente colocar dentro dessa maneira, eu estou indo para a casa de uma pessoa. Então tenho que respeitar o dono.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você vai ficar em Paris?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, em Paris.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chegou a hora de partir para os finalmentes: você tem algum plano específico, pensa em gravar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Desde 2005 estou compondo para o terceiro disco. Fiz vários experimentos em estúdio. Gravei três, quatro músicas e vi que não era aquilo que eu queria. Agora, depois desse tempo todo, é que estou voltando uma ideia que tive em 2005. Acho que naquela época eu não tinha habilidade para tocá-la. Eu não estava satisfeito. É uma coisa muito delicada você formar um grupo para gravar um disco. Na época eu gostaria de ter feito violão, baixo acústico e percussão. Eu queria menos ritmo no meu trabalho. Queria uma coisa bem silenciosa, para que a escuta do violão fosse bem presente. Quando o violão vai tocar com o piano na mesma hora, é muita frequência. Acusticamente já é difícil de equilibrar esses dois instrumentos. Quando você vai tocar com outro instrumentista, tem que ser muito planejado. Dois violões, um violão e uma guitarra... Tem que ser tudo muito combinadinho. Na medida em que você não tem esse outro instrumento harmônico e o solista, é só o violão, você tem muito espaço. Mas aí você tem que ser muito sintético também, porque se você tocar demais, acaba anulando os outros instrumentos que também tem que falar. Na época eu tentei e não consegui. Agora estou mais satisfeito. Já fiz umas gravações aqui...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A tecnologia em Natal já melhorou ao ponto de ser possível gravar um disco com qualidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Já, agora está tranquilo. Pode gravar aqui e lançar até na França, sem problema nenhum.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como seus fãs aqui em Natal e no restante do país poderão acompanhar suas aventuras nessa nova temporada que você passará na Europa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Acho que pelo Facebook. Agora, pela primeira vez, estou dando mais atenção à &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;internet. Talvez porque a internet esteja mais interessante. No começo era um negócio aberto onde as pessoas escreviam o que queriam... Hoje está mais regulamentado e os sites estão mais interessantes. Por outro lado, em ferramentas como o Facebook a gente termina encontrando pessoas com afinidades parecidas e dizendo coisas interessantes também. No Facebook publico pouca coisa. Por exemplo, não publiquei nenhuma música minha. Vou começar a explorar o Youtube também. No Facebook as pessoas podem me encontrar pesquisando Sérgio Farias. Mas penso em fazer um site. Logo que ele esteja pronto, divulgarei pelo Facebook. Meu irmão Carlos Gondim é o grande incentivador.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sua esposa também vai para a França?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, e meu filho, Paulo Henrique, que tem três anos. Ele já toca bateria. Paulinho começou a tocar bateria com um ano e meio. Eu toco violão, o último instrumento que eu o estimularia a tocar seria a bateria. Mas ele acordava de madrugada e pegava várias bacias, com um ano e meio, e ficava tocando. E dizia: “bateria, bateria”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Para o pai deve ser uma “maravilha” acordar de madrugada com o filho tocando bateria...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Já me acostumei. Dois meses depois de ver essa coisa natural dele, comprei uma bateria.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deixe uma mensagem para o leitor do jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;SÉRGIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sinto, com os 39 anos que tenho hoje, que a vida é muito boa. A ideia original da &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-NoObl9EnI7o/Tp9mKZrtYLI/AAAAAAAAAyg/L1D8DyLrGfc/s320/IMG_0341.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5665359185134313650" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;vida, eu sinto isso, é perfeita. A gente tem um planeta belíssimo, eu sinto que a missão que temos no mundo é muito simples: é se relacionar. Essa é a coisa mais importante que temos que aprender: se relacionar bem com a natureza e com o ser humano. O que estou buscando é não atrapalhar o fluxo natural da vida. Ou seja, fazer as coisas que vão contribuir para o meu crescimento. Luto muito para procurar não me sentir especial. Especial de verdade, para mim, é ser mais um. É ser uma pessoa que, se não atrapalhar, já está bom. Essa mania de que a gente tem que ser grande atrapalha muito. A gente se envolve demais com os problemas cotidianos, fica fixado naquela vida pequena, voltado para nosso núcleo, nossa família, para meu filho, minha mulher, para o meu, o meu... E vai dando as migalhas para o próximo. O que sobra do estresse do dia a dia é o que a gente dedica ao próximo. Precisamos reverter esse quadro, a família é importante, mas a grande família é mais importante.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-5043185181921855892?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/5043185181921855892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/10/entrevista-sergio-farias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5043185181921855892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/5043185181921855892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/10/entrevista-sergio-farias.html' title='Entrevista: Sérgio Farias'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/--fneLayzW6c/Tp9mJVmOX_I/AAAAAAAAAyQ/XDRqAESZYSY/s72-c/IMG_0345.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-4331417729727145075</id><published>2011-09-16T10:19:00.021-03:00</published><updated>2011-09-16T18:19:43.541-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inri Cristo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gente do Brasil'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='SC'/><title type='text'>Entrevista: Inri Cristo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;u&gt;&lt;p class="western" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;span &gt;&lt;b&gt;&lt;span &gt;&lt;span style="font-size: 26pt"&gt;INRI&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;: o filho do &lt;span &gt;&lt;span style="font-size: 40pt"&gt;PAI&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/u&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;No meio da tarde de uma sexta-feira, fui com o&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-NxqPRIKA7co/TnOSypcyFKI/AAAAAAAAAvg/x6hvzM8Hetw/s320/IC5.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653023356097795234" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; jornalista Daniel Dutra e o repórter fotográfico Nicolas Gomes à sede da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade (SOUST), em Brasília, entrevistar Iuri Thais, o Inri Cristo. Nascido em Indaial, Santa Catarina, em 22 de março de 1948, Iuri somente recebeu a revelação de que era Cristo em 1979, quando estava jejuando em Santiago, no Chile. Meses depois, no México, ele passou a ser chamado de Inri Cristo. Em 28 de fevereiro de 1982, acompanhado por milhares de seguidores, Inri invadiu a catedral de Belém (PA) durante a realização de uma missa, subiu no altar e arrancou um Cristo da cruz. Ele considera esse acontecimento como “O ato libertário”. No link http://www.inricristo.org.br estão disponíveis vídeos, fotografias e muitas informações oficiais sobre Inri Cristo. Na entrevista que concedeu ao Zona Sul, o “Filho do PAI” contou algumas histórias e passagens até então inéditas sobre a sua vida. Confira, a seguir, essa conversa exclusiva. A cobertura fotográfica é de Nicolas Gomes. (robertohomem@gmail.com)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - “Oh, PAI! Eterno e inefável. Deus infalível Criador do Universo. Das culminâncias do Teu reino, do trono do Teu poder, do alto do qual Teus olhos temíveis tudo descobrem, tudo veem. Abençoe Teus filhos com saúde, luz e justiça. Porque Tua é toda a glória para todo o sempre, oh, PAI!”. Após ter invocado o meu PAI, vou proceder com uma dissertação facultando assimilação de minhas palavras e de minha realidade. Eu sou o emissário do PAI. Reconheço o vosso direito de pensar e dizer o que quiserdes, desde que me respeiteis o direito de dizer-lhes e esclarecer quem sou. Não escolhi ser Cristo, não posso vos obrigar a saber quem sou, mas isto não altera a minha realidade. Pensais que é fácil, obediente ao meu PAI, andar indumentado assim, os &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;ignorantes zombando de mim? Ainda que os malignos condenaram Galileu, a terra continuou gravitando em torno do sol. O sol brilha, e mesmo que todos duvidassem, ele não deixaria de ser sol. Assim também, ainda que a maioria dos terráqueos não creiam que sou Cristo, continuo sendo o mesmo que crucificaram. Não me é facultado abrir a cabeça do néscio com um serrote e introduzir um bilhetinho dizendo “acorda-te, ignorante, desperta-te: sou Inri Cristo, o filho do Homem”. O maligno disse, enquanto eu jejuava, há 2 mil anos: “se és o filho de Deus, transforma estas pedras em pão”. Ao que lhe respondi: “nem só de pão vive o homem”. Em verdade, em verdade eu vos digo: eu não preciso provar nada a ninguém, porque o óbvio é ululante e não carece de provas. Vós, meus filhos, é que necessitais provar que sois dignos do meu PAI, Supremo Criador, único ser incriado, único eterno, único ser digno de adoração e veneração, onisciente, onipresente e onipotente, único Senhor do Universo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O senhor está de volta ao planeta terra desta vez com qual missão?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Eu sou o libertador. Voltei a este mundo para libertar o meu povo do jugo dos falsos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-0T0__vPY0wA/TnOSy9oRQVI/AAAAAAAAAvo/Z_aywMmx5QI/s320/IC6.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653023361514684754" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; religiosos, dos grilhões da idolatria, da fantasia e da mentira. Amo a liberdade, por isso deixo livres os seres que amo. Se voltam, é porque me reconheceram e são meus filhos, dignos do meu PAI, Senhor e Deus. Se não voltam é porque jamais tiveram parte comigo. Se vedes em mim alguma coisa, um ato aparentemente faltoso e injustificável, o erro não está em mim, e sim na maldosa ótica de vossa visão. Em mim não pode haver erro, porque sou puro e vim sem livre arbítrio a este mundo só para executar a vontade do Ser Supremo e perfeito que me reenviou. Quando ousais julgar-me, estareis sendo julgado por Ele. Benditos são os olhos que me veem e veem quem sou. Benditos são os ouvidos que me ouvem e me reconhecem pela minha voz. Bem-aventurados sois vós, vós que me escutais, porque eu só vos falo o que escuto do meu PAI, que é em mim. Eu sou o primogênito de Deus, o alfa e o ômega, o começo e o fim, a estrela resplandescente da manhã. Meu PAI e eu somos uma só coisa. Eu sou a luz do mundo, a verdade e a vida. Eu sou o caminho, ninguém vem ao meu PAI senão por mim. Antes de ser crucificado, eu disse: “pela minha voz o meu rebanho me reconhecerá”. Voltei, como havia prometido, para, no cumprimento das escrituras, julgar a humanidade e instituir na terra o reino do meu PAI, Senhor e Deus. Sou o primogênito de Deus: Adão, que reencarnei como Noé, Abraão, Moisés, Davi, etc, depois como Jesus e agora como Inri. Inri é o meu novo nome. Inri é o nome que eu paguei com o meu sangue na cruz. Inri, o nome que Pilatos escreveu acima de minha cabeça quando eu agonizava na cruz, quando cuspiam no meu rosto, quando me humilhavam, quando se cumpriam as escrituras. Inri é o nome que custou o preço do sangue. Guardai-o em vossas cabeças e sereis fortes e felizes, meus filhos. Meu coração bate forte de amor por todos vós. Que a paz esteja convosco. Podem continuar as perguntas, fiquem à vontade.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais as primeiras recordações que o senhor tem dessa sua atual passagem pelo nosso planeta?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dessa vida?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, dessa vida. Como foi a sua infância?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ai, meu filho, pergunta diferente e muito interessante. Nasci em uma pequena aldeia do interior de Santa Catarina chamada Indaial. Fui alfabetizado em três anos de escola. O menino que vivia na mesma casa que eu tinha um ano e quatro meses a mais. Quando ele foi matriculado para ir na Escola Pedro II, lá em Blumenau, eu também queria ir. Mas naquele tempo a lei não permitia alguém com menos de sete anos entrar na escola. Bati o pé até que Madalena, a mulher que me criou, conseguiu a permissão da professora.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse menino era filho de Madalena, a sua mãe de criação?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. Entrei na escola, mas claro que não passei de ano. Sempre fui um péssimo aluno. Eu ficava olhando pro teto... Mas queria estar no meio das outras crianças. Quebrei um braço no primeiro ano, já de cara. No segundo ano, quando completei sete anos, aí, sim, passei de ano. Esse foi o melhor período da minha vida, até os dez anos. A gente morava em um lugar chamado Bom Retiro. Vivia em contato com a natureza, com o mato.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As brincadeiras deviam ser bem saudáveis.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Já que você fez essa pergunta sobre o meu tempo de criança, lembrei de coisas deveras interessantes. Um dia estávamos voltando da escola quando uma cachorra chamada Diana pegou o calcanhar daquele menino. Madalena foi lá e comprou a cachorra. Eu não gostei de ver quando ela amarrou Diana em uma goiabeira e a dizimou. A coisa começou a complicar quando a gente mudou de bairro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Isso tudo em Blumenau...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É. Nós moramos em uma casa em um lugar chamado Morro Oswaldo Otte, que era a &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-pcCuwvqoWIU/TnOnB351nXI/AAAAAAAAAxQ/_aPrJQY5itc/s320/IC.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653045607908351346" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;casa que pertencia ao Curtume Oswaldo Otte, onde Wilhelm Thais (pai de criação de Inri) era operário. Ele caiu dentro de um tanque de química, onde se curtia o couro, e ficou tuberculoso. Como eles eram muito ignorantes, não sabiam que tinham direito de ficar naquela casa. Com vergonha dos comentários dos vizinhos a respeito de Wilhelm Thais estar impedido de trabalhar, eles foram para outro bairro. Madalena foi trabalhar como lavadeira. O médico disse que Wilhelm Thais não podia ficar conosco, por ser tuberculoso. Mas como não tinha para onde ir, ele ficou e não aconteceu nada. Em resposta ao doutor Krueger – que disse que ele teria tantos anos de vida, Wilhelm Thais sempre dizia, até meio debochando: “doutor Krueger foi e eu estou aqui”. Às vezes a metafísica pode contrariar as leis naturais e falar mais alto do que a medicina.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Continue, por favor, a falar sobre sua vida de estudante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Depois fui para o colégio Adolpho Konder, onde estudei o segundo ano. Quando passei para o terceiro ano, como a Madalena tinha que pagar o aluguel, as coisas ficaram mais difíceis. Deus me permitiu viver em um ambiente propício para eu compreender os problemas sociais. Em um mês, ela pagava o aluguel. No outro, pagava o armazém. As compras eram anotadas em um caderno. Hoje eu sei que os comerciantes sabiam que no mês seguinte ela não ia poder pagar a ele, pois tinha que pagar o aluguel. Nessas ocasiões Madalena fazia as compras em outro armazém que tinha lá na rua. Para pagar as contas ela carregava sacos de roupa nas costas para lavar. Eu ajudava carregando água: em cada mão uma lata de 20 litros. A água do poço da casa não era suficiente, eu tinha que ir buscar nas proximidades. Hoje eu sei que Deus queria que eu visse bem de perto as vicissitudes, as dificuldades que enfrentam as pessoas humildes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que motivou o senhor a deixar sua casa aos 13 anos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa altura eu já tinha trabalhado como entregador de alimentos, como verdureiro... Desde criança eu obedecia uma voz que dizia que eu não podia falar pra ninguém. Certa tarde, minha roupa estava no quarador quando recebi a ordem de pegar tudo, botar dentro de um plástico e ir embora. Quando cheguei em Curitiba mandei uma carta.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por que o senhor não podia dizer que ouvia essa voz?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se eu falasse, óbvio que me internavam. Tive a oportunidade de ser oficialmente psiquiatrizado, em Belém do Pará, por uma junta médica. Eles concluíram que não poderiam dar um diagnóstico sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como o senhor fez para sobreviver em Curitiba?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ah, interessante! Antes eu passei por Joinville... Vamos ver o que vocês vão aproveitar. Espero que não distorçam as minhas palavras.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Estamos gravando a entrevista para reproduzirmos as suas palavras da maneira mais fiel possível.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chegando em Joinville, já que você fez a pergunta... Deus me propiciou a ocasião de &lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-_NtfGjhc5Lw/TnOnCo1NefI/AAAAAAAAAxg/qxNMF7kSWag/s320/IC16.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653045621042280946" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;conhecer bem o frio, a dor e a miséria. Em Blumenau conheci um cidadão chamado Antônio Domingos Alves. Ele era uma espécie de empreiteiro: alugava o nome de uma igreja e fazia rifa para arrecadar fundos. Trabalhei com ele em Blumenau. Depois que deixei a profissão de verdureiro, passei a ganhar comissão para vender as rifas. Chegando em Joinville, depois dessa minha saída de casa, eu estava sobrevivendo disso. Quando decidi ir para Curitiba, roubaram minha roupa, na pensão. Não pude esperar para descobrir quem foi. Cheguei em Curitiba, cerca de seis da tarde, batendo o queixo. Desembarquei naquele frio, sem ter sequer um casaco. Na frente da rodoviária antiga de Curitiba, vi dois gordinis estacionados, com uma faixa grande dizendo assim: “Rifa para a construção da Igreja Nossa Senhora de Guadalupe”. Essa igreja que hoje tem lá em Curitiba foi construída com a minha ajuda, já que vendi muita rifa para ela. Quando vi aquilo, como já tinha experiência, fui direto no rapaz que estava vendendo. Ele me apontou o responsável. Fui lá correndo explicar minha situação. Ele disse que dava 20%. Antônio Domingos me pagava 40%.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você já começou a vender rifas ali mesmo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Na mesma noite eu vendi todo o talãozinho, que tinha dez folhas. Consegui 200, mas para eu me hospedar no Hotel Maia, precisaria de 220. Foi então que apareceu um cidadão de uns 40 anos, com uma pasta grande. Ao me ver tremer de frio, perguntou: “o que estás fazendo, menino, por que tu não vais pra casa?”. Respondi que não podia ir para o hotel porque estava faltando 20. Ele coçou o bolso e me deu os 20 que faltavam. Perguntei quando eu podia pagar. “Um dia tu pagas, em algum lugar, para alguém”. No dia seguinte, domingo, fui com o encarregado da rifa muito cedo para Campo Largo, no gordini, para pegar a primeira missa. Mal dormi, pensando nisso. Esqueci de dizer que aquele cidadão também me ofereceu um café e uma taça de leite com pão. Nunca ninguém me fez essa pergunta, agora eu vejo. Chamava de festeiro aquele que era responsável pela rifa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi esse primeiro dia vendendo rifa na porta da igreja?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Os outros que estava junto comigo para vender as rifas lá em Campo Largo iam num passo de tartaruga. Tinha até uma freira. Quando vi um caminhão cheio de polaco, vindo para a missa, nem esperei eles descerem do caminhão. Subi e já fui enfiando no bolso de cada um uma rifa, explicando para o que era e tal. Na segunda-feira fui em uma loja dessas de turco, de árabe, e comprei um casaco com pele de coelho. Um dia vou escrever algumas coisas sobre a minha infância... Minha história é muito comprida. Fui garçom, também, a profissão que mais gostei.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O senhor foi garçom em Curitiba?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não, em Passo Fundo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De Curitiba o senhor foi para onde?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui para o interior, depois voltei para Blumenau. Eu voltava sempre naquele Antonio Domingos. Ele era esperto. Era um homem gordo. Geralmente andava de calção, com uma &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-Ag5orQTKyAc/TnOnCcm4OoI/AAAAAAAAAxY/itu-t7HXKTY/s320/IC1.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653045617760942722" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;toalha. O irmão dele disse que Antonio era praticamente analfabeto. Ele fazia um contrato com as igrejas do interior, oferecia uma certa quantia a elas e depois realizava as rifas. Ele tinha vários automóveis. Como ele viu que eu produzia, me mandava ir em um dos seus automóveis com os outros vendedores. Dessa forma fui aprendendo cada vez mais. Mas, resumindo, com 18 anos eu já estava em Passo Fundo, trabalhando de garçom.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que fez o senhor gostar tanto da profissão de garçom?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As duas profissões que gostei mais foram as de garçom e verdureiro. É que nesses trabalhos eu tinha bastante contato com o público. (Nesse instante, uma abelha se enrosca nos cabelos de Inri. Avisado pelas suas discípulas, ele não manifesta nenhuma reação de susto, nem tenta aniquilar o inseto. Quando percebe que a abelha consegue escapar de suas tranças, a abençoa: “vai embora, em paz”). Conheço o Brasil todo. Em cada lugar aconteciam coisas na minha vida. Vou falar uma das mensagens que eu recebia daquela voz. Eu levantava cedo, aos domingos, pra ir na missa. Wilhelm Thais, católico bem fervoroso, me levava sempre. Eu estava ajoelhado na fila para tomar a hóstia. Foi na Igreja Matriz São Paulo Apóstolo, lá em Blumenau. Eu ajoelhado e o padreco lá com a hóstia. De repente eu olhei... Loucura: se eu não fosse quem sou. Olhei e vi o padreco com a hóstia. Por um furtivo momento, vi que a hóstia era eu. Imediatamente recebi a ordem de não falar aquilo pra ninguém. Se eu falasse, me internavam.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até então o senhor nem sabia quem era.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Isso. E se eu falasse, o padreco seria o primeiro que iria mandar me internar. Já que vocês me abordaram, contarei outra experiência terrível dessas.... Em União da Vitória, no Paraná – eu já tinha 18, 19 anos – me roubaram a roupa. Parecia que era uma coisa: tinha sempre alguém para roubar minha roupa. Parece um absurdo. Eu estava hospedado no Hotel Flórida. Pedi para a dona do hotel a roupa que eu tinha mandado para a lavanderia. Ela foi e o tintureiro disse que não estava lá, que alguém já tinha apanhado. A polícia registrou um boletim de ocorrência... Óbvio que no documento foi registrado meu nome e a minha condição de vítima. Resolvi ir de trem para Rio Negro. Fui com o meu lugar-tenente: eu tinha um auxiliar que andava comigo. Esqueci de contar que vendi roupa de porta em porta quando criança. Uma tia costurava. Contratei um jovem mais velho e mais forte do que eu para carregar a mala com as roupas. Tirava 10% do que arrecadava vendendo as roupas para pagar a ele. Desde criança sempre tive facilidade de comunicar-me com as pessoas. Mas eu dizia que tinha ido para Rio Negro com o meu lugar-tenente, o Ventura Martins. Quando estávamos saindo da sessão, chegou aquela presença macabra, um policial fardado, dando logo uma carteirada. “Você está preso”. Me levou para a prisão. Era o tempo dos militares...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As prisões nem precisavam ser explicadas...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui para uma cela com o Martins. Ficamos detidos durante uma semana. Comíamos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-czHIF1EptLg/TnOb7SVkNBI/AAAAAAAAAwI/XPqsV0TwTPI/s320/IC9.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653033400116982802" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; naquelas latas de óleo de milho, partidas ao meio. Era farinha de milho com água. Eu usava os pés do Martins como travesseiro e ele usava os meus. Pedroso, o policial que me prendeu, de vez em quando aparecia lá para dar umas risadas. Uma semana depois Pedroso foi na Rádio São José, de Rio Negro, e disse que ia recambiar para União da Vitória dois bandidos muito perigosos que ele tinha capturado. Durante a semana que passei ali constatei porque ele tinha tanto poder. Ouvi os murmúrios nos corredores da prisão que ele espoliava os presos. Também escutei que ele chefiava um sistema nos cabarés para conseguir dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E a experiência mística?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - O policial encarregado de me custodiar até União da Vitória – eu não conhecia ele pelo nome, mas pelo apelido de Tucum – era um homem fortão e escuro. Pedroso me levou algemado no Martins... Deus há de inspirar para você não mentir, há de lhe dar luz para não publicar nenhuma inverdade. Quando cheguei na estação de trem, em Rio Negro, tinha uma enormidade de pessoas simples. O mesmo tipo de gente a quem eu vendia rifa lá em Campo Largo. Estavam me olhando. Eu, algemado no Martins, mas com meu espírito elevado. Vi o povo ali, todos me olhando como se eu fosse um bandido. Tive que passar por essa experiência amarga para ter essa visão. Por um furtivo momento eu olhei para eles e vi lá em Jerusalém o povo gritando: “crucifique, crucifique”. Foi tudo muito rápido. Nem para o Martins eu falei o que vi. Fiquei com o espírito mais elevado pensando: “pelo menos alguém está vendo que eu não tenho culpa, que sou inocente”. Dentro do trem, Tucum, a cada meia hora, olhava pra mim e dizia: “eu não tenho nada a ver com isso, eu não tenho nada a ver com isso, apenas estou cumprindo ordens”. Parecia que ele via alguma coisa que fazia pesar a sua consciência.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando se desfez o engano e você, a vítima do assalto, foi solto pela polícia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - De madrugada, quando cheguei em União da Vitória, um cidadão chamado João Farmácia - que era um policial barbudo, com a barba por fazer - me recepcionou lá. Tucum nos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-dailNeTtV18/TnOb78-ldYI/AAAAAAAAAwY/LNmgo0x7YiQ/s320/IC14.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653033411563320706" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; entregou para ele. Fomos para uma cela em Rio Negro. Quando o dia amanheceu, escutei o barulho de grades abrindo e de vozes. Numa prisão, pra quem já esteve preso, é quase sempre a mesma coisa. Fui preso mais de 40 vezes. Só em Paris fui preso três vezes em um dia. Na prisão política de Asunción, fiquei sete dias. Curti o “hotel” do Stroessner muito bem curtido. Lá fiz uma pós-graduação em sociologia. Mas vou completar essa parte. O dia amanheceu, escutei as grades abrindo e uma voz de mulher. Quando ela chegou na frente da minha cela, que me viu, gritou: “ele não, ele é a vítima!!!”. Era a dona da lavanderia. (risos). O delegado me deu tapinhas nas costas e disse que tinha havido um equívoco, tinham mandado meus dados por engano, sei lá.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E essa prisão na ditadura de Stroessner?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Em Asunción tive experiências magníficas. Aprendi coisas que não dá para aprender em livros, é impossível. Em Asunción fui do aeroporto direto para a prisão. Eu vinha de Santa Cruz de la Sierra. Eu tinha que passar pela prisão de Assunción para encontrar um cidadão chamado Gustavo. Naquele tempo eu era ateu e profeta de um deus desconhecido. Comecei minha vida pública na Rádio Princesa, de Francisco Beltrão, no Paraná, em março de 1969. A prisão de Asunción foi a mais horrível que conheci na minha vida toda. Gustavo era um cidadão argentino que tinha sido reitor de uma faculdade de Economia, em seu país. Eu era tão ateu ao ponto de debochar de qualquer pessoa que falasse desse deusinho que tem por aí. Gustavo me disse uma coisa muito interessante. Como eu era ateu, aquilo entrou na minha cabeça e ficou. Ele contou o motivo para estar preso. Tinha dado um golpe na universidade da qual era reitor. Foi para o Paraguai como refugiado, com todo o dinheiro que roubou. Lá cometeu um segundo delito, comprou uma identidade falsa. Quem vendeu a identidade o denunciou. O coronel que dirigia o presídio fez ele telefonar para a mulher, em Buenos Aires, dizendo que estava tudo bem, e ficou com o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O diretor do presídio ficou com o dinheiro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. Gustavo contou que era ateu até chegar na prisão. “Eu precisava vir aqui nessa&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-4Sud8vPnhgc/TnOb8UKcG7I/AAAAAAAAAwg/hkHcN_2-EFI/s320/IC11.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653033417787055026" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; prisão. Eu era reitor da faculdade, aqui eu varro o chão. Eu fiquei rico aqui. Eu tinha que vir aqui para ficar rico. Eu roubei muito dinheiro, mas aqui eu descobri Deus. Aqui só sobrou Deus pra mim”. Foi muito forte ouvir aquilo. Pedi ao Gustavo que ele se explicasse melhor. Ele contou que estava lá há quatro anos, que tinham roubado o dinheiro dele, que não deixavam nem ele falar com a mãe, com a mulher ou algum parente. Só sobrou Deus pra ele. Ele foi mais um mensageiro que cruzou o meu caminho. Eu tinha que tornar-me ateu para escapar dos malditos dogmas que são um cadeado para o raciocínio, para poder estar limpo, sem nenhum resquício, sem pegar nada das religiões. Quando cheguei ao jejum em Santiago do Chile, eu era ateu, graças a Deus. Lá tive a revelação.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando o senhor descobriu que era Cristo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando saí do Brasil, após receber ordem para deixar o país, percorri vários países até chegar em Mendonza, na Argentina. Em Buenos Aires falei em um salão de beleza para muitas mulheres, porque a mídia me boicotou. Elas tiravam a cabeça de dentro daqueles secadores para me ouvir. Houve um boicote. Alguém deve ter ouvido alguma coisa que eu falei que não foi do agrado. Nem todo mundo gosta da verdade. Quase ninguém gosta, nos tempos atuais. De La Paz, providenciei minha ida para Santiago. Eu já sabia que quando fosse em Santiago ia acontecer alguma coisa, mas não sabia o que era. Impressionante isso. Eu e meu secretário da época, Antonio Marques de Oliveira, embarcamos com destino a Santiago. Paramos em Los Andes para tomar um café. Muitas vezes o Senhor regulou meus passos através da moeda. Eu tinha programado ir direto para Santiago. Sempre que eu chegava em um local, procurava falar em uma rádio, para o povo saber da minha presença. Eu via o futuro das pessoas. As pessoas vinham com seus problemas... Foi assim que eu vivi desde que comecei a minha vida pública. Antes de eu revelar que sou Inri Cristo, a mídia toda me anunciava, não tinha boicote. Agora é uma outra realidade: Cristo? Louco? A loucura e a sabedoria são irmãs gêmeas. Uma caminha tão paralelamente à outra que não dá para distinguir.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O senhor poderia explicar melhor?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Por exemplo: os inventores do avião, os inventores até da luz elétrica foram considerados loucos. Louco é aquela pessoa que tem uma ideia que ainda ninguém conhece. Enquanto a ideia não é colocada em prática, ele é louco. Mas voltando ao que eu dizia. Quando cheguei em Los&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-bF1vgTrqjak/TnOb8zDjIsI/AAAAAAAAAwo/m8ENALuP66g/s320/IC12.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653033426079654594" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; Andes, recebi a ordem de ficar por lá. Naquele momento, ficar em Los Andes sem dinheiro foi a pior coisa que aconteceu comigo. Mas cumpri a ordem e fui direto para o Hotel Plaza. Como a situação pecuniária me obrigava a começar logo a me mexer, procurei o único jornal periódico da cidade. Parece coisa programada. Cheguei e disse ao diretor do jornal que precisava me comunicar com as pessoas da cidade. Desde 20 de março de 1969 eu dependo sempre do povo. Nessa data comecei minha vida pública. O diretor olhou pra mim como se já estivesse me esperando. Ele perguntou se eu não gostaria de fazer uma viagem para representar o seu jornal. Parece coisa de louco. Perguntei o que era. Ele disse que ia haver a inauguração de um hotel de luxo na Cordilheira. Pediu para eu representar o jornal no evento. Eu tinha dito a ele que tinha urgência de me comunicar. Ele disse que lá eu apareceria para todos os chilenos. Aceitei. Um ônibus alemão, muito confortável, foi me apanhar no hotel, com os jornalistas e cinegrafistas de Santiago. Entendi porque ele não quis ir. Ele era o dono de um jornal interiorano e ia se sentir denegrido no meio dos orgulhosos da capital. Então ele quis humilhar os outros colocando um estrangeiro em seu lugar. No ônibus, os jornalistas diziam assim: “como é possível um estrangeiro representando um periódico chileno?”. Isso faz 30 anos. Quando chegamos lá, tinha uma espécie de comitê de recepção. A mídia tinha sido contratada para divulgar o lançamento do hotel. Mas como o dono do jornal de Los Andes disse que eu podia representá-lo do jeito que me aprouvesse, subi em uma mesa na frente de todos aqueles engravatados e dei um sermão. Eu, que recém tinha começado a falar espanhol, falei sobre o fim do mundo. Quando terminei, o dono do hotel perguntou se poderíamos começar os trabalhos da inauguração. (risos).&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os chilenos não devem ter entendido nada!&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O fato é que, depois, quando cheguei em Santiago a minha imagem já estava lá. O periódico “La Tercera” colocou na primeira página. Não cheguei mais como desconhecido. Se eu for contar com mais detalhes a minha história, vou até o mês que vem. Se um dia vocês voltarem à minha presença, poderemos continuar a conversar. Minhas portas estão abertas para todos os seres humanos sinceros e honestos. Se eu for falar, meus filhos, vou longe.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi o retorno para Los Andes?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Passei um momento muito difícil em Los Andes porque lá só tem duas classes sociais. Ou seja, não tem espaço para um profeta. Traduzindo por miúdo, tive que logo ir para Santiago. Em Los Andes ouvi falar muito em Patrício Varela. Disseram que eu tinha que ir para Santiago falar&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-j-8NOwo8g2s/TnOb7oBsxhI/AAAAAAAAAwQ/RECjim2C6e0/s320/IC10.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653033405939238418" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; com ele. Quando cheguei em Santiago, já sabia com quem eu tinha que falar. Mas Pinochet - que os infernos lhe sejam leves - não me deixou falar na televisão chilena. Falei só na Radio Portales, que é a maior emissora do Chile. O principal representante da emissora, na época, era o Patrício Varela. Quando o procurei, parecia que ele também estava me esperando. Fiquei mais de uma hora no ar, e todo o Chile pode me escutar. Depois de passar dois meses no Hotel Imperador recebendo pessoas em audiência, cumpriu-se o que a voz – que hoje eu sei que é do Senhor - já vinha me dizendo desde Los Andes. A voz dizia que as mulheres iam me mostrar algo. Foi quando apareceu uma mulher dizendo que representava um grupo esotérico em Santiago. Ela era a mais nova da turma, que estava na faixa dos 70 anos. Ela disse que seu grupo estava acompanhando pela Rádio Portales desde que eu tinha chegado no Chile. Falou também que dois meses antes de eu chegar lá, a líder delas tinha dito que eu iria para o Chile. A história é comprida, vou resumir. Fui me encontrar com esse grupo de 12 pessoas. Eles se reuniam em uma casa bem rústica que tinham construído. Eram pessoas de diferentes bairros, mas todos eles com uma visão metafísica. A pessoa que me procurou se chamava Berta Segura Sanchez. Ela me deu a chave dessa casa que o grupo tinha construído. Tinham marcado para eu jantar com eles. Como achei aquilo tudo muito estranho, devolvi a chave para ela. Disse que se um dia eu precisasse, pediria. Eu não sabia ainda que eu iria jejuar naquela casa. Botaram uma mesa para 12 pessoas e disseram que o meu lugar era na cabeceira. Como eu era ateu, achei tudo uma bobagem. Sinceramente falando, olhei para eles todos como se fossem pessoas lunáticas, mas bem educadas. Patrício Varela, que me levou lá em sua limousine, ficou na antessala. Depois voltei para o Hotel Imperador. Quando terminei a minha temporada lá, a mão do Senhor fez com que eu saísse do hotel e fosse para a casa de Berta Sanchez.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No seu site tem a informação de que Berta Sanchez foi quem fez a sua primeira túnica.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, foi ela. A casa de Berta Sanchez ficava no bairro de Maipu, em Santiago. O Senhor já tinha me dito que um dia eu precisaria da chave da casa construída pelo grupo do qual a&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-a-73yxtDS4o/TnOVRbNed2I/AAAAAAAAAwA/bdGO60zWyZE/s320/IC2.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653026083874699106" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; minha anfitriã fazia parte. Foi quando eu soube que teria que jejuar lá. Aí é que aconteceu tudo. Entrei naquela casa como ateu. A história é muito comprida, mas, resumindo, Berta Sanchez confeccionou minha primeira túnica. Para jejuar eu teria que estar com aquela túnica. Na casa só estávamos eu e o Carrasquito. Carrasquito é o nome da pessoa que veio dormir lá comigo. Ele era um bancário. Carrasquito insistiu para ir dormir lá. Ainda bem que ele foi. Eu estava jejuando, olhando para as paredes e pensando: “o que eu vim fazer aqui?”. Não via nada, não acontecia nada. Nos filmes, às vezes aparece um espírito. Eu não via nada. Mas percebia que alguém saía do meu corpo. Como eu não estava comendo nada, nem bebendo, fiquei frágil. À noite, recebi a ordem imperativa: “levanta-te”. A ordem foi dada por aquela mesma voz que eu sempre escutei. Levantei de supetão. Como, devido ao processo de inanição, o sangue não subiu para a cabeça, como deveria, eu caí. Quando caí, minhas mãos não me ampararam. Caí de nariz no chão, inclusive quebrei o nariz. Na hora da dor, do sangue, escutei aquela voz: “as dores são necessárias, o sangue é necessário para que quando te negarem, tu lembrarás que é o mesmo que derramaste na cruz. Tu és meu filho primogênito, tu és o mesmo que crucificaram. Eu sou o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Eu sou teu Senhor e Deus. Não penses que essa revelação será muito favorável. Serás prisioneiro, expulso. Pagarás para comer e não te deixarão comer. Mas esta é a tua condição”, disse o Senhor.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Então a partir daí você assumiu a identidade de Inri Cristo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ainda não. Nessa mesma noite Ele disse que eu não podia falar pra ninguém. Eu só&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-0T4_xJVQkVM/TnOVRNlRLPI/AAAAAAAAAv4/6igTspcVf5o/s320/IC4.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653026080216394994" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; poderia revelar depois que um jornal - por acaso, como que por engano - escrevesse meu nome como INRI. Percorri a América Central inteira, estive, inclusive, em Tegucigalpa. Quando estava no México, depois que falei ao povo no Quiosque da Alameda, o jornal Ovaciones escreveu: “INRI, el Cristo, Hijo de DIOS, habla al pueblo y cura a los enfermos em el Quiosque de la Alameda”. Foi quando Ele me mandou trocar de hotel e me registrar como Inri, ao invés de Iuri. A partir daí comecei a perceber o ódio dos donos das igrejas, o ódio dos que se dizem servos de Cristo. Até então, para eles eu era apenas um profeta. Quando assumi o nome de Inri, tudo mudou. Fiquei quatro meses no México. Em Guadalajara fui convidado para entrar em um templo. Um garçom insistiu porque queria que eu fosse na igreja evangélica dele. Eu dizia a ele que não ia, que só falava em praça pública. Mas ele veio tantas vezes falar comigo, que um dia eu disse: “olha, meu filho – ele era o garçom que me servia – fale para o chefe da sua igreja, para o líder, para o pastor, que se ele vier aqui pessoalmente me buscar, eu aceito o convite”. Eu achava que ele não viria. Não veio mesmo, mas mandou outro pastor para dizer que eu fosse, que estavam todos me esperando, que eu falaria para 5 mil pessoas. Quando cheguei lá, por um instante pensei que aquilo era a casa de Deus. Entrei e vi que só tinha um púlpito e tinha espécie de placa com a palavra Jeová. Jeová quer dizer Senhor.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como o senhor foi recebido pelos fiéis dessa igreja?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Bem, me virei para o microfone, que tinha um som perfeito, e comecei a falar. Na metade do sermão o povo começou a murmurar: “Jesus, Jesus”. Alguns começaram a chorar.&lt;br /&gt;Nesse instante, o som começou a baixar até que não ficou som nenhum mais. Então veio um leão de chácara enorme, calçado com botas. Não esqueço o barulho daquelas botas. Dirigindo-se a mim, disse que estava na hora de eu sair. Pegaram-me no braço e me levaram para fora. Na saída ainda pude ver o povo dizendo “Jesus” e “Cristo”. Saí e entendi que ali não era a casa do meu PAI. Depois tive outra experiência parecida e nunca mais aceitei convite para nenhuma igreja.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi essa outra experiência?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Foi em Ajaccio, na Ilha da Córsega, na França. Eu estava hospedado em um hotel na&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-Y5Z-pCoU1XA/TnOSzEBOXrI/AAAAAAAAAvw/cBB5qHWZtr8/s320/IC7.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653023363229966002" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; frente de um colégio. As crianças me viam e falavam em casa: “Cristo, Cristo, Cristo...”. Recebi o convite para falar na Igreja Evangélica Livre. Fiz essa última tentativa. A filha do pastor, o namorado e os amigos deles vieram falar comigo. Ela disse que a igreja era pequena, mas que todos tinham muito amor por mim. A filha do pastor percebeu quem eu era. Respondi que só iria se o pai dela viesse me buscar. Ele veio. Porém, logo que entrei no carro, quando vi o jeito que o colega dele pegou a bíblia, percebi que eles não iam se entender comigo. Ele pegou a bíblia fanaticamente. Cheguei na igreja e entrei. Estavam todos sentados, esperando. Botei meu manto em cima da poltrona e comecei a falar. Eu não falo francês muito bem. Falei na França para não morrer de fome, quando fui expulso da Inglaterra. Quinze dias depois que cheguei na França fui obrigado a falar na praça pública. Do contrário eu ia morrer de fome. Essa é a minha realidade, eu não posso pedir nada a ninguém. Mas eu dizia que quando comecei a falar, o pastor começou a ver no rosto das pessoas que elas estavam mudando. O pastor pegou o meu manto, me entregou e disse que estava na hora de eu partir. Como já conhecia esse argumento, levantei, virei as costas e saí. A filha dele e os jovens vieram atrás de mim e me levaram no hotel. A filha disse que estava muito triste pelo seu pai. Nunca mais vou entrar em nenhuma igreja.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O senhor já andou pelo Rio Grande do Norte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;INRI&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Estive duas vezes em Natal. A primeira foi em 1981, quando estava percorrendo o Brasil todo. Em cada cidade que chegava, procurava uma praça para falar. Se as pessoas me davam ressonância, se alguém acercava-se, eu deixava a minha palavra. Se não, a minha missão estava cumprida. Para ser sincero, na primeira vez em Natal foi assim. A segunda vez eu estava de passagem. Cheguei a falar em algum jornal. Acho que no Diário de Natal. O que lembro da vossa terra, que é muito linda, é que minhas discípulas queriam desfrutar daquelas belezas, mas não puderam. Passamos em um lugar onde havia uma água muito linda. Elas queriam tomar banho, mas eu estava só de passagem. Um dia elas voltarão. Antes de deixar uma oração final, quero dizer que serão muito bem vindos se um dia voltarem aqui. Vou pedir ao PAI a benção. “Oh, PAI! Eterno e inefável, Deus infalível Criador do Universo. Das culminâncias do Teu reino, do trono do Teu poder, do alto do qual Teus olhos temíveis tudo descobrem, tudo veem, abençoe Teus filhos com saúde, luz e justiça. Porque Tua é toda a glória para todo o sempre, oh, PAI! Que a paz esteja com todos”.&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-8N-SSsxh6oc/TnOmiEyNbLI/AAAAAAAAAxA/jNRFAgLm-h8/s320/IC15.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5653045061610204338" style="display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 214px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-4331417729727145075?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/4331417729727145075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/09/entrevista-inri-cristo.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/4331417729727145075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/4331417729727145075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/09/entrevista-inri-cristo.html' title='Entrevista: Inri Cristo'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-NxqPRIKA7co/TnOSypcyFKI/AAAAAAAAAvg/x6hvzM8Hetw/s72-c/IC5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-235887596893309464</id><published>2011-08-22T08:21:00.009-03:00</published><updated>2011-08-22T08:57:55.113-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='titina medeiros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jornalismo do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='atriz do RN'/><title type='text'>Entrevista: Titina Medeiros</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span &gt;&lt;strong&gt;CONTRACENANDO COM A VIDA E VIVENDO DE ARTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;A acariense Titina Medeiros nasceu Isabel Cristina de &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-sAJZ1jXA4tI/TlI_ov32tBI/AAAAAAAAAsY/8NzBgJdcmcg/s1600/IMG_0085.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 239px; height: 320px; float: right; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643643252326708242" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-sAJZ1jXA4tI/TlI_ov32tBI/AAAAAAAAAsY/8NzBgJdcmcg/s320/IMG_0085.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;Medeiros, em Currais Novos. Atriz, palhaça e jornalista, ela esteve recentemente em Brasília encenando o espetáculo “A mulher revoltada”, produzido pela Fomenta. A peça faz parte do projeto do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) “Novas Dramaturgias Brasileiras”. Na véspera de retornar à Natal, Titina concordou em falar para o Zona Sul. Em pouco mais de uma hora ela fez um resumo de sua trajetória, falou sobre sonhos e planos e também cobrou do Poder Público mais atenção com a arte potiguar. Vale a pena acompanhar o que Titina tem para dizer. (robertohomem@gmail.com)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você nasceu em Currais Novos, apesar de se considerar acariense...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA &lt;/strong&gt;&lt;/u&gt;– Só nasci em Currais Novos, mas sou de Acari. A verdade é a seguinte: minha mãe estava decidida a fazer ligadura de trompas no meu parto. Tive que nascer em Currais Novos porque não tinha essa cirurgia em Acari.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que seus pais faziam?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;u&gt;TITINA&lt;/u&gt; &lt;/strong&gt;– Meus pais eram comerciantes. Minha mãe, além disso, era professora do estado. Quando iniciou a carreira, eu ainda não tinha nascido. Ela lecionou no Mobral, depois atuou no supletivo. Ela ensinava o que se refere à sétima e oitava séries.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual o tipo de comércio da família?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Meu pai tinha uma bodega. Minha mãe bordava e preparava doces, bolo e dindim para vender na bodega.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual o nome dos seus pais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Maria Isabel de Medeiros e Francisco Torres de Medeiros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quais suas primeiras lembranças da vida?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Lembro de tudo: da rua da Matriz, onde fui criada; dos riscos das calçadas; dos vizinhos; das brincadeiras... As brincadeiras eram sazonais, dependendo da estação do ano, elas eram as mesmas. Tinha a época da corda, a do elástico, da academia, da barra-bandeira, da bila – que em Brasília chama bola de gude e em Natal é conhecida como biloca... Também brincávamos de “tô no poço”, queimada e de contar história de assombração quando faltava energia. Tenho um imaginário infantil muito fértil e devo isso a Acari. Adorava tomar banho no rio ou no açude e passar férias na zona rural. Para a minha profissão, tudo isso foi uma herança valiosa. Fui uma menina que estava o tempo todo na rua.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – E as brincadeiras de boneca?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Vixe, também brinquei muito! As brincadeiras pareciam novelas. Na minha casa e na das outras amigas tinha um quarto no quintal. Lá a gente criava as famílias das bonecas. Eu não tinha barbies, mas também não era como a minha mãe, que dizia que brincava com sabugo de milho. Não fui dessa fase, mas na minha época qualquer ursinho virava o pai. A gente emendava caixas de fósforo para fazer sofá. Customizava, o sofá ficava lindo. A gente construía núcleos familiares que tinham nomes. Essas casas de boneca ficavam armadas nos quartos dos quintais. Ninguém mexia, e era como se fossem cidades.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – A brincadeira era por capítulos, como nas novelas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Completamente por capítulos. E mais, elas duravam como as novelas. Sofríamos a influência da televisão da década de 1980. As histórias eram criadas no improviso.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – A novela influenciava na história, no enredo da brincadeira?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não me lembro de ver um assunto na novela e ele passar para a brincadeira de boneca. Mas, com certeza, influenciava. Até homossexualismo era assunto.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você assistiu muita TV?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Eu achava que tinha assistido, mas cheguei à conclusão de que não. Tenho convivido &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-VThSQBjPEYo/TlI_o-zanFI/AAAAAAAAAsg/u9PYtGtj3IQ/s1600/IMG_0089.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 239px; height: 320px; float: right; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643643256334621778" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-VThSQBjPEYo/TlI_o-zanFI/AAAAAAAAAsg/u9PYtGtj3IQ/s320/IMG_0089.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;com uns amigos que sabem tudo de televisão. E eu não assisti a muitos dos programas que eles comentam. A rua tomava muito mais do meu tempo. Lembro de algumas novelas: “A gata comeu”, “Pão pão, beijo beijo”, “Vale tudo”, “Dona Beija”, “Que rei sou eu”, “Rainha da sucata”, “Ti-ti-ti”. Hoje tenho uma péssima relação com a televisão. Chego a passar meses sem ligá-la. Sou hiperativa: descobri que tenho dificuldade de parar e assistir. Até a Xuxa, de quem eu gostava quando tinha nove anos, eu larguei muito rápido: quando completei onze.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Algum ator ou atriz lhe chamou atenção nessa época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nessa época eu não pensava em ser atriz. Mas fui fã de Lucinha Lins por causa daquele programa “Pirlimpimpim”. Você vai se surpreender, mas fui fã mesmo, aos nove anos de idade, de Maria Bethânia. Sabia cantar todas as músicas. Eu tinha uma relação muito mais forte com a música do que com a telenovela.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você teve oportunidade de conhecer o teatro na sua fase de colégio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não. Só conheci o teatro aos 16 anos. Não me alfabetizei na escola, mas no sítio de minha tia Luzia, aos cinco anos. Ela tinha uma biblioteca em casa e era diretora da escola do sítio. Tive acesso a livros na casa dela. Aprendi a ler e a nadar no sítio dessa minha tia. Estudei em Acari até a terceira série em uma escola perto da minha casa. Na quarta série fui estudar em Currais Novos. Minha primeira escola foi a Escola Estadual Tomaz de Araújo. Depois fui para uma escola particular, o Educandário Jesus Menino.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você foi uma boa aluna?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Fui boa aluna em algumas disciplinas, como literatura, geografia, história e as relacionadas à comunicação e expressão. Nas matérias da área de exatas, sempre tive dificuldades e costumava ficar em recuperação. Apesar de tímida, sempre fui de extremos: muito calada em alguns lugares, hiperativa em outros. Eu conversava muito e sempre sentei no fundão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quando você foi a Natal pela primeira vez?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Comecei a ir a Natal cedo. Meus avós e alguns primos moravam lá. Lembranças infantis de Natal tenho da praia de Ponta Negra. Depois disso lembro que passei a veranear na praia de Búzios, já com dez anos. Mesmo morando em Acari, aos 12 anos eu já pegava ônibus em Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Na época de colégio em Acari você imaginava o que para o seu futuro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Eu queria ser musicista e também imaginava algo relacionado à comunicação, como jornalismo. Sempre gostei de notícia. Aos 11 anos entrei na Banda Filarmônica Maestro Felinto Lúcio Dantas, de Acari, para estudar trompete. Eu queria ser trompetista. Aos 15 anos fui morar em Parnamirim durante um ano. Em seguida voltei para Acari e reingressei na banda. Só depois, quando fui morar em Natal para fazer o segundo grau, conheci o teatro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em qual circunstância se deu essa mudança para Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Minha mãe já morava lá. Meu pai morava em Acari. Eles não eram separados, mas meu pai, nessa época, era vereador em Acari e morava na cidade. Eu não gostava de Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Por que?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em Acari eu morava numa casa imensa e estudava em uma escola linda e maravilhosa. Em Natal, o apartamento onde fui morar e a escola eram cubículos. Fui estudar no Dinâmico, o &lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-YF2NAlU5YWU/TlI-MIwfyXI/AAAAAAAAAro/lGowKrMNwwE/s1600/IMG_0091.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 239px; height: 320px; float: left; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643641661278898546" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-YF2NAlU5YWU/TlI-MIwfyXI/AAAAAAAAAro/lGowKrMNwwE/s320/IMG_0091.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;antigo Colégio São Luiz. Eu achava a escola feia. Só tinha prédio, não tinha uma árvore. A escola de Acari era  o contrário. Em Acari também estavam os meus amigos e a banda de música. Todo final de semana eu viajava para lá, com o objetivo de ensaiar na banda. Eu não tinha motivo para gostar de Natal, até porque eu nem era apaixonada pelo mar. Não sou uma pessoa do mar, sou uma sertaneja. A praia nunca me fez falta. Acho lindo, mas o mar não me faz falta. O campo, sim, me faz falta. Voltei para Acari. Quando fui ficando maior, que chegou o primeiro ano do segundo grau, aí foi o jeito ir. Minha mãe e minhas irmãs já moravam em Natal. Foi quando aceitei na minha cabeça que era a hora. Me senti preparada para ir morar na capital.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Por que você não seguiu estudando música em Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Porque minha mãe nunca quis comprar o instrumento. Em Acari eu tinha o trompete da Filarmônica, que permanecia sob meus cuidados. Sem instrumento para estudar e dependendo financeiramente dos meus pais, tive que largar a música. A sorte foi que logo em seguida conheci o teatro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Como foi?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Foi uma experiência epifânica. Eu nunca tinha pensando em ser atriz. No máximo tinha vivido aquele imaginário de criança, de querer ser levada pelo circo. Mas nunca tinha passado pela minha cabeça ser atriz. O mundo da arte já me encantava, mas não tinha se consumado. Até que Tião (o jornalista Sebastião Vicente) e Nane (Rejane Medeiros, jornalista esposa de Tião e irmã de Titina) me levaram para um festival que teve em Natal, em março de 1992, chamado “Cumplicidades”. O projeto levava espetáculos de Natal para serem exibidos em Portugal e trazia peças portugueses para serem encenados em Natal. Lembro dessa experiência como um clarão na minha vida. Como se tudo tivesse ficado nítido, a partir dali. Foi a primeira vez em que pisei num teatro, no caso o Alberto Maranhão. Fui ver o monólogo da grande atriz portuguesa Maria do Céu Guerra. O espetáculo era “O pranto de Maria Parda”, de Gil Vicente.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que mais a impressionou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Primeiro, aquele espaço, que, por si só, é mítico. Eu nunca tinha frequentado. Quando entrei, as cortinas já estavam abertas e a luz muito baixa. Tinha um amontoado no meio do palco, parecia um saco de juta. Fiquei, na penumbra, olhando para aquele saco. Soaram os toques. De repente, o negócio começou a se mexer. Eu achava que era um saco de batatas, ou algo pesado. Daquele saco saiu a atriz. Essa mulher me levou para Portugal, para a França, me fez ver coisas... Nunca nenhum mágico tinha feito uma mágica daquela na minha vida. Meu universo das brincadeiras de Acari se revelou ali em forma de profissão. Achei que a atriz era uma velha. Ela era sozinha, mas vi muitos personagens. Quando tirou a roupa, vi que não era uma velha. Foi muito louco na minha cabeça. Tão louco que, quando voltei pra casa, Natal tinha se tornado diferente para mim. Nessa volta pra casa, decidi que era aquilo que eu queria fazer na vida. Não foi fácil. Eu não sabia se tinha vocação. Desejava, mas não sabia se podia. Não foi o cinema nem a televisão que me fez ter vontade de ser atriz, foi o teatro. Especialmente essa primeira peça.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual seu primeiro passo na busca de concretizar esse desejo?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;u&gt;TITINA&lt;/u&gt;&lt;/strong&gt; – Procurar oficinas de teatro no jornal. Encontrei a escola de Jesiel Figueiredo, na Capitão-Mór Gouveia. Fui lá. Era uma escola gratuita, mantida pelo SESI. Minha família não tinha dinheiro, jamais eu ia poder pagar uma oficina de teatro. Meu primeiro espetáculo foi com Jesiel Figueiredo, “A Bela Adormecida”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você encontrou alguma dificuldade para se adaptar ao teatro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Sim, sobretudo porque o que vi em Maria do Céu Guerra foi algo muito sublime. Vi o&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-q0VEap6HObw/TlI_pCAE5FI/AAAAAAAAAso/kEdImSeS52o/s1600/IMG_0099.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 214px; height: 320px; float: right; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643643257193030738" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-q0VEap6HObw/TlI_pCAE5FI/AAAAAAAAAso/kEdImSeS52o/s320/IMG_0099.JPG" /&gt;&lt;/a&gt; ouro mesmo, algo muito apurado da linguagem do teatro. Eu buscava aquela linguagem. Quando fui para Jesiel, não encontrei aquela mágica. Não quero ser injusta com o teatro de Jesiel, mas lá, por exemplo, a roupa da fadinha que eu interpretava era muito ipsis litteris. Já o figurino da Maria Parda, não era real. O teatro trabalha com os signos, com os símbolos. Para mim, quanto mais o teatro se aproxima da realidade, mais frágil ele fica. Mas isso eu consigo explicar hoje, depois de tantos anos de profissão. Antes, era apenas uma sensação, sem nenhuma explicação. Eu não sabia nem o que era teatro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O RN deve a Jesiel mais pelo esforço e por sua dedicação do que pelo talento que tinha?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não digo isso, até porque o tempo era outro. Mas é inegável que ele foi um operário do teatro. Mas, olhe a minha idade: não tenho cacife para analisar a importância de Jesiel Figueiredo. Quando convivi com ele, eu tinha 17 anos. Para complicar, a memória do teatro potiguar é perdida. Não posso falar de algo que não sei. De qualquer forma, considero que tive sorte de participar de um espetáculo com ele. Eu era super imatura e talvez sequer tenha entendido o teatro de Jesiel. Mas se você me perguntar quem é o maior encenador do Rio Grande do Norte, responderei na hora: João Marcelino. Fui discípula de João Marcelino. No trabalho dele achei o que tinha encontrado em Maria do Céu Guerra.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual o próximo passo que você deu após a participação no teatro de Jesiel?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Parei porque tinha que estudar para o vestibular de jornalismo, curso no qual tinha pensado a vida inteira. Paralelo, fiz uma oficina com um cara chamado André de Oliveira, uma coisinha curta. Depois fiz uma oficina com João Marcelino. Nessa oficina ele chamou minha prima, Nara Kelly, que também é atriz, para entrar no grupo dele, que era o “Grupo Tambor”. Também  entrei na faculdade: prestei vestibular para jornalismo, mas ingressei em artes cênicas, a segunda opção. Não fiquei porque era licenciatura. Fiz o primeiro ano de artes cênicas, mas não me identifiquei com o curso porque não tinha teatro, era arte educação. Se eu tivesse a maturidade que tenho hoje, teria terminado esse curso. Tentei vestibular de novo e passei para jornalismo. Nessa época pedi a minha prima para falar, lá no “Tambor”, para eu assistir aos ensaios. Ela falou e João Marcelino concordou. Era na Vila de Ponta Negra, e eu morava na Cidade Satélite, mas passei a ir todos os dias porque lá tinha o que havia me encantado. Não conseguia me desgrudar deles. Depois de bem um mês indo pra lá todo dia, só para assistir, João Marcelino perguntou: “amanhã você vem?”. Respondi que sim. Eu nem tinha me tocado que eles não me chamavam para voltar: eu simplesmente chegava lá e assistia. Ele completou: “então amanhã traga roupa de trabalho”. Roupa de trabalho é calça leve, blusa velha... Comecei a participar com eles, até que uma atriz teve que viajar e a substituí no espetáculo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual era o espetáculo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – “O Moço que Casou com Mulher Braba”, adaptação de um texto medieval. Entrei no grupo e depois montamos um espetáculo lindo chamado “O Príncipe do Barro Branco”. Permaneci durante três anos no “Tambor”. Foi minha escola de teatro. O grupo me fez ter a devoção pelo teatro. Trabalhávamos de segunda à sexta, às vezes até aos sábados, das seis e meia às dez da noite. Passei três anos indo todo dia para o grupo de teatro trabalhar como quem vai para a escola. Nesse período montamos dois espetáculos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Sem remuneração.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Sem remuneração. Mas no tempo do Profinc (Projeto de Financiamento à Cultura), a &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-3IWoV9HvY50/TlJBkiz8z_I/AAAAAAAAAtI/53pOQ8T5B3E/s1600/IMG_0093.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 0px 10px 10px; width: 239px; height: 320px; float: right; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643645379124449266" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-3IWoV9HvY50/TlJBkiz8z_I/AAAAAAAAAtI/53pOQ8T5B3E/s320/IMG_0093.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;chamada “Lei Mineiro”, conseguimos verba para “O Príncipe do Barro Branco”. Essa montagem durou um ano e meio. Graças a essa verba, durante seis meses eu tive um salário até razoável. Pra quem nunca tinha ganho nada, receber para fazer teatro me deixou muito satisfeita. Esse espetáculo me abriu portas e pensamentos sobre a cultura popular, a cultura do Nordeste, a cultura do meu próprio lugar. Me fez não largar esse osso nunca mais. Me fez entender que era aquilo que eu queria: a relação de ator de teatro de grupo. Eu achava que ia completar 50 anos e nunca ia sair desse grupo. Infelizmente o grupo acabou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quando concluiu jornalismo, o que você resolveu fazer?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quando concluí jornalismo eu já sabia que não ia ser jornalista. Já tinha desistido.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;u&gt;ZONA SUL&lt;/u&gt;&lt;/strong&gt; – O motivo da desistência foi a paixão pelo teatro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Claro. Fiz jornalismo para satisfazer um desejo que vinha desde a infância. Mesmo o teatro vindo depois, eu antes de atuar como jornalista trabalhei como atriz. Trabalhei dois anos com Tácito Costa na assessoria da FIERN (Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte). Desisti do jornalismo sem peso na consciência.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual era sua preferência dentro do jornalismo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Desisti do curso muito rápido, apesar de ter demorado seis anos para concluí-lo. Eu largava as aulas para qualquer coisa. Qualquer montagem de espetáculo que precisasse ter ensaio, eu não ia para a UFRN. Já sobrevivia de teatro. Era ele que pagava meu aluguel e as minhas contas. Nunca pensei se escolheria rádio, televisão ou jornal. Do jornalismo eu só queria o diploma. Porém, o professor de radiojornalismo, Maurício Pandolphi, disse que eu tinha talento para rádio e muito poder de comunicação. Só que pra mim serviu apenas como bom elogio de professor. Quando gravei umas matérias para a Globo foi que entendi o que o professor havia falado. Ele entendeu antes de mim que eu levava jeito para a comunicação.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu a oportunidade de você gravar matérias para a Rede Globo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Um jornalista da TV Cabugi, Geider Henrique, era meu fã. Assistia todas as peças que eu fazia. Eu e ele frequentávamos a casa de amigas em comum, em Pium. Naquela época, tramitava um projeto de Lei no Congresso que obrigava as retransmissoras a reservarem 15% ou 30% de sua programação para produções locais. A Globo, preocupada com a possibilidade de essa determinação ser aprovada, e também em manter o seu padrão, resolveu investir para descobrir novos talentos. Regina Casé apresentava um programa chamado “Brasil Legal” e, ao que consta, já estava cansada de viajar pelo país. Pela via do “Brasil Legal”, a Globo lançou para as afiliadas o desafio de elas encontrarem pessoas com capacidade para fazer aquilo que Regina Casé fazia, nos seus locais de origem. Cada estado teria uma pessoa fazendo matéria no seu próprio território. Com isso, a Globo também treinava os engenheiros de som e de iluminação, os cinegrafistas, roteiristas, enfim, dava um suporte para toda essa equipe das afiliadas. Na TV Cabugi, três núcleos se formaram pra fazer os testes e mandar pra Globo. Geider se animou com a possibilidade e me convidou, achando que eu tinha jeito pro negócio. Só que eu nunca tinha feito nada na TV. Inclusive, já tinha feito muito teste para comercial e nunca tinha passado. Geider ligou dizendo que gostaria de fazer um teste comigo. Respondi que achava que eu não levava jeito pra coisa. Ele insistiu e me incentivou: “fazer o teste não custa nada”. Topei. Eu só pensava em ganhar algum dinheiro pra sobreviver. Na minha cabeça não era nem fazer um teste, mas algum dinheiro que poderia pingar. Vivia literalmente de teatro em Natal, então, era muito dura. Só tinha roupa que Nane (a irmã Rejane Medeiros) mandava pra mim. Só usava roupa usada. Fiz o teste, achei minha performance péssima. Fiz um monte de burrada.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual era o teste?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Criatura, me botaram pra cobrir um dia antitabagismo na AABB. Os meninos fazendo natação, um dia de divertimento. Chico Daniel também estava lá.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Chico Daniel é o maior da história do mamulengo brasileiro. Infelizmente morreu sem o devido reconhecimento.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Concordo. Chico Daniel é a coisa mais bonita que nasceu no solo do Rio Grande do Norte. Mas Geider viu que a minha matéria tinha ficado muito ruim e propôs a gente fazer uma gravação com Chico Daniel. Fomos gravar na casa dele. Novamente me achei péssima, mas um mês depois, Geider falou que tinham adorado. Nem existia programa, apenas havia a ideia. A Globo pediu que fosse gravado um piloto. Se desse certo, seria expandido para os demais estados. O piloto rolou, foi bom, e eu fiz quatro matérias. Mas depois eles abortaram o programa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que você fez nesses quatro programas para a Globo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – No primeiro mostrei como se fazia o doce de sangue de porco, o chouriço, lá em Carnaúba. A segunda matéria foi a Paixão de Cristo lá no Sítio Góes, em Apodi. A comunidade inteira faz esse espetáculo, é muito lindo. Tudo isso passou no Fantástico. O terceiro programa foi a facheada, a pesca de siri em Ponta Negra, em Alagamar. A quarta matéria foi exibida no programa do Luciano Huck. Gravei no Rio Grande do Sul mostrando a fabricação de um prato típico da colônia italiana de lá. A Globo escolheu os quatro apresentadores que mais se destacaram no “Brasil Total” daquele ano: eu, um de Recife, outro do Rio Grande do Sul e um travesti de Juazeiro do Norte. O menino do RS foi pra Natal, eu fui para o RS, o de Juazeiro para Recife e o de lá para Juazeiro. Cada um foi encarregado de fazer um prato típico esquisito daquele lugar para o qual tinha ido. Pra conseguir fazer o prato, tinha que cumprir provas. Por exemplo, para eu conseguir o trigo, tive que fazer rafting. Depois tive que subir uma serra gaúcha para encontrar outro ingrediente.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você cozinhava o prato?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não, era uma grande brincadeira. Meu papel era participar das provas e encontrar os produtos para que uma italiana fizesse o prato. Foi apresentado no programa de Natal do Luciano Huck.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você foi remunerada por esse trabalho na Globo?&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-pGBwinrbTe0/TlI-L6TjHmI/AAAAAAAAArg/oSZrXIoM-9s/s1600/IMG_0087.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 239px; height: 320px; float: left; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643641657399385698" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-pGBwinrbTe0/TlI-L6TjHmI/AAAAAAAAArg/oSZrXIoM-9s/s320/IMG_0087.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Acho que na época fui bem remunerada. Isso não significa ficar rica com o programa, mas recebi uma graninha legal. Para dois dias de trabalho, não era uma grana que eu ganharia facilmente em Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quando esse projeto nacional naufragou não surgiu a possibilidade de você ser encaixada em outra área da própria Globo ou da TV Cabugi?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não recebi nenhum convite nesse sentido.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – E se tivesse surgido, você toparia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nem surgiu convite e eu também não fui atrás. Não mexi uma palha pra isso. Eu era muito satisfeita com a minha vida. Eu sou meio paradona.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Se tivesse surgido a possibilidade de você ser contratada, por exemplo, como repórter especial da então TV Cabugi, você teria topado?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Acho que sim. Por uma questão muito simples de sobrevivência.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você não estaria se realizando nesse trabalho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não é por isso. No “Brasil Total” eu me realizava muito. Nem entendia aquilo como jornalismo. Simplesmente o meu trabalho era revelar essas pessoas, deixá-las à vontade. Fui a lugares que me enriqueceram muito. Por exemplo: o sistema social que o Sítio do Góes vive, não existe similar no Brasil. As pessoas usam roupas umas das outras, ninguém é dono das bicicletas, elas são de todos. Só os índios vivem assim. Não encarava aqueles programas como uma chateação ou um mero cumprimento de obrigação. Para mim também era um respiro do teatro. Aquele tipo de trabalho eu faria com prazer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quem nunca viu essas gravações têm a possibilidade de assistir pelo Youtube?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Se buscar por Titina Medeiros vai achar um clipe com alguns trabalhos que eu fiz, incluindo alguma coisa do “Brasil Total”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você tem algum site para divulgar o seu trabalho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Acho tão estranho isso... Não saberia ter um site Titina Medeiros. Acho que é porque nasci dentro dos coletivos, dos grupos. Porém, tenho um blog &lt;a href="http://titinamedeiros.blogspot.com/"&gt;http://titinamedeiros.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você hoje ainda se sente fazendo parte de algum coletivo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – É uma resposta bem particular. Desde 2003 trabalho com o grupo “Clowns de Shakespeare”. Sou contemporânea dos meninos: Fernando Yamamoto, Marco França, César Ferrario, Renata Kaiser e mais alguns outros. Trabalho como atriz convidada desde 2003. Nesse ínterim, também fiz parte do “Grupo Carmin”. Éramos eu e Quitéria Kelly. O grupo acabou e voltei a trabalhar com os “Clows”, de novo. Minha parceria com os “Clowns” é muito positiva. Apesar de eu não ser do grupo, foi lá onde tive a chance de exercer mais profissionalmente o teatro. Com eles viajei o país inteiro apresentando “Muito barulho por quase nada”, “Roda Chico” e agora o “Sua Incelença, Ricardo III”. Fizemos temporada em São Paulo, saiu matéria na Folha. Os “Clowns” ganharam Prêmio Shell. Mesmo radicado em Natal, é um dos grupos de teatro mais bem sucedidos do Nordeste e do país. Sou atriz convidada do grupo e tenho seguido junto com ele.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual o espetáculo do grupo que teve mais destaque nacional com a sua participação?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O espetáculo que fez o grupo ser o que ele é hoje foi “Muito barulho por quase nada”. É uma adaptação de “Muito barulho por nada”, de Shakespeare. Com esse espetáculo o grupo fez duas temporadas em São Paulo, no SESC Anchieta, na Consolação; e no TUSP (Teatro da Universidade de São Paulo). O espetáculo rodou 21 estados do país. Foi eleito pela Folha de São Paulo o terceiro melhor espetáculo apresentado na cidade de São Paulo, no ano de 2005. O grupo agora está com um espetáculo que ainda não viajou tanto, mas vai começar a viajar. É o “Sua Incelença, Ricardo III”. Ele vai abrir o “Brasília Cena Contemporânea”, em setembro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Hoje é possível viver do teatro em Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nos “Clowns de Shakespeare”, sim. Outras pessoas em Natal também vivem de teatro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você teve participação na conquista do Prêmio Shell?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não. Foi com o espetáculo “O capitão e a sereia”, do qual não participei. O “Clowns de Shakespeare” hoje é patrocinado pela Petrobras. Os atores têm salário. Eu não tenho porque não sou do grupo. A Petrobras tem um projeto para manter grupos de teatro. O grupo precisa ter mais de cinco anos e já ter provado, pelo seu currículo, que consegue sobreviver. Esse projeto dura dois anos. Depois desse período, tem outra concorrência. A sede é toda estruturada para receber espetáculos. Os “Clowns” não dependem mais do Teatro Alberto Maranhão ou da Casa da Ribeira para apresentar seus espetáculos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que você projeta na sua vida profissional para, por exemplo, os próximos dez anos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Eu gostaria de me firmar como palhaça. Estou bem longe disso, mas meu desejo pessoal é morrer palhaça. O palhaço é a única profissão que, quanto mais velho, melhor você fica. É incrível, mas é fato. Mesmo se o palhaço não tiver alguém para trabalhar com ele, consegue sobreviver de sua profissão. O que eu desejo é que o meu trabalho no teatro seja uma representação da própria humanidade. Quero servir de alguma forma à humanidade. Mesmo que seja trabalhando para ela se ver, se enxergar. O palhaço é um ser muito potente, nesse sentido, quando lida com o ridículo ou com o impossível que é possível. Gostaria que a minha arte tivesse muito clara no ofício as questões humanas. Não quero necessariamente que as pessoas sejam felizes com o que eu faço, mas, sobretudo, quero ser feliz fazendo. Desejo ainda aprender muito. Essa é uma profissão que permite que a gente aprenda muito o tempo inteiro. Nem sempre é fácil, às vezes é doloroso. Minha profissão tem muita dor, talvez por isso seja tão prazerosa. Cada superação de uma dor é como se fosse  a superação de si, uma conquista. Se daqui a dez anos eu estiver como estou hoje, para mim já vai estar bom: trabalhando com as pessoas de quem gosto e amo; fazendo o que acredito; tendo o meu café, meu almoço e minha janta; mantendo minha casa; tendo saúde; lendo, aprendendo e conhecendo pessoas e os grandes mestres e atores.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Fale um pouco do espetáculo que você apresentou agora em junho, em Brasília.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O espetáculo é de uma produtora do Rio de Janeiro chamada “Fomenta”. Ela aprovou um projeto no CCBB chamado “Novas Dramaturgias Brasileiras”, e convidou quatro novos dramaturgos e quatro jovens diretores. Colocou cada texto desses dramaturgos para um dos diretores. No nosso caso, convidaram Fernando Yamamoto, que é de Natal, e Xico Sá, jornalista do Crato, colunista da Folha. Xico escreveu um texto e Fernando dirigiu. Fernando escolheu os quatro atores convidados dos “Clowns” para fazer esse projeto. Parte do espetáculo foi montado em Natal, parte no Rio. A “Fomenta” fez questão que uma parcela do projeto fosse criada no Rio para eles poderem acompanhar os ensaios, estar mais perto. A estreia foi em Brasília. Fizemos cinco apresentações de “A mulher revoltada”. A “Fomenta”, que é dona do espetáculo, está agendando temporadas em São Paulo e em outros lugares.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Natal está nessa lista?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Natal está na lista dos desejos. Provavelmente o espetáculo será encenado em Natal porque o elenco é de lá, tudo é de lá e a gente tem o espaço. É só achar brecha junto à “Fomenta”. Só vai ter o custo de levar o cenário, que é do Rio, porque o espetáculo deverá ser exibido na sede do grupo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Do que trata o espetáculo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – É um texto leve. Trata de uma mulher que se revolta porque morreu o último canalha e &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-yRkOurWQ72o/TlI-MguXecI/AAAAAAAAAr4/O5v4BR3ydNg/s1600/IMG_0100.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="margin: 0px 10px 10px 0px; width: 214px; height: 320px; float: left; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643641667712416194" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-yRkOurWQ72o/TlI-MguXecI/AAAAAAAAAr4/O5v4BR3ydNg/s320/IMG_0100.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;só restou homem frouxo. Esse último canalha ressuscita no corpo de um foca e tenta de todo jeito reencarnar para ver se salva o macho. Os machos estão virando todos metrossexuais. É uma história engraçada, boba. Não tem nenhuma ideologia. Voltaremos em Brasília em setembro para encenar “Sua Incelença, Ricardo III”, baseado no “Ricardo III” de Shakespeare. Esse é o espetáculo que, sinceramente, acho a coisa mais linda que já fiz. Nele me realizo completamente como atriz. A direção é de um mineiro chamado Gabriel Vilella, um puta diretor brasileiro que tem espetáculos ícones como “Romeu e Julieta”, do “Grupo Galpão”. Pra mim foi uma honra sem tamanho ser dirigida por esse diretor e voltar a trabalhar com os “Clowns”. Fazia três anos que não atuava com eles. Foi uma volta muito bonita, gostosa. É um circo, é picadeiro, é circense, é cigano, é mundano, é musical. É muito bom.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que deixei de perguntar?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nem sei, não tenho a cabeça muito boa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que você gostaria de ter falado?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Gostaria de registrar que a política cultural do Rio Grande do Norte está muito sofrida. Estamos numa situação muito difícil, muito aquém do Brasil. Enquanto o Brasil, nacionalmente, tem dado uma guinada, culturalmente falando, o Rio Grande do Norte não tem se atentado a isso. Nossos políticos são muito insensíveis. As coisas que circulam no restante do país não chegam no Rio Grande do Norte e a gente está ficando para trás. Isso dá muita pena porque é só uma questão político-administrativa. Nosso estado tem uma história linda, têm pessoas muito potentes, ótimos artistas, tem um povo muito lindo. Mas os nossos políticos são muito insensíveis, são muito emergentes, são muito brutos, artisticamente. Não são apreciadores, não consomem cultura.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – A arte depende do poder público?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Só depende. Sobretudo a arte de pesquisa e essa arte que a gente faz. E não depende só hoje, sempre dependeu. E precisa depender. O Estado precisa oferecer à sociedade o que a indústria não oferece. Ele tem que garantir o respiro, dar o direito à humanidade da diversidade. No mundo capitalista em que a gente vive, se o estado não subsidia a cultura diversa - seja a performance, seja a dança contemporânea ou clássica, seja o que for - essas manifestações artísticas acabam, sucumbem. Dessa forma, o ser humano não vai ter como se manifestar. O Estado tem obrigação de subsidiar as manifestações artísticas que não sejam de nível industrial. Essas manifestações precisam existir. Se não estão dentro da indústria e não recebem o apoio dos governos, elas morrem. Aí a humanidade empobrece de vez.  Não é de hoje, os mecenas sempre existiram. Sempre foi o Estado e o poderes que criaram seus Da Vinci, Michelangelo, Mozart ou quem quer que seja. Está muito enganado quem pensa que a commedia dell'arte vivia só de o povo jogar doce de goiaba e de banana na cara dos artistas na rua. Eles se apresentavam nas ruas, mas também nas cortes. Eles eram mantidos pelas cortes e eram esperados por elas. O Estado tem que manter, sim, o que é diverso. Não pode é bancar Ivete Sangalo. E o engraçado é que o Estado banca Ivete Sangalo! Não está certo, pois ela já se banca por si só, a indústria já paga. O carinha já reserva 50 reais para assisti-la. Ela não precisa de dinheiro público e mais os 50 reais da bilheteria. Um trio de sanfoneiros ou qualquer outra manifestação folclórica que não tem quem pague os 50 reais, precisa sobreviver da mesma forma que Ivete Sangalo. Não estou dizendo que precisa ganhar o que ela ganha, mas precisa existir.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado para o leitor do jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – É complicado deixar recado. Mas, vamos lá. O potiguar tem que se amar mais, se valorizar mais. Não quero sair de Natal. O potiguar tem, por exemplo, um cenário musical que está faltando ao Brasil: Simona Talma, Rosa de Pedra, Valéria Oliveira, Isaque Galvão, Babal, Mirabô, Mingo Araújo, Luiz Gadelha, Joca Costa... A música instrumental do Rio Grande do Norte é uma coisa absurda, é um abuso, de tão boa. Na música é que essa qualidade se aflora com mais força. O potiguar sai pouco do seu estado. O artista natalense parece que não tem vontade de ir para outros lugares. O cearense vive no mundo. O potiguar não, ele se basta.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Pode até se bastar, mas parece que o povo potiguar não dá ao artista da terra o reconhecimento que ele merece.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;TITINA&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O problema é que o povo não tem mecanismos de acessar. Simona Talma leva 2 mil pessoas no seu show. O “Retrovisor” leva isso também, quando tem show público na rua. Acho que quem tem acesso, gosta. A população sequer sabe que essas pessoas existem. Quem sabe, valoriza. Os administradores públicos precisam ser mais sensíveis, mais inteligentes. &lt;/div&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 183px; height: 303px; text-align: center; display: block; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5643644218607934882" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-2kM82yesvE8/TlJAg_jQHaI/AAAAAAAAAtA/zv4gfAoQ4gk/s320/IMG_0101.JPG" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-235887596893309464?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/235887596893309464/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/08/entrevista-titina-medeiros.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/235887596893309464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/235887596893309464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/08/entrevista-titina-medeiros.html' title='Entrevista: Titina Medeiros'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-sAJZ1jXA4tI/TlI_ov32tBI/AAAAAAAAAsY/8NzBgJdcmcg/s72-c/IMG_0085.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-1507031196873765695</id><published>2011-07-21T10:23:00.004-03:00</published><updated>2011-07-22T10:41:10.021-03:00</updated><title type='text'>Entrevista: Josenir Melo</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-hwkavJX2v-c/Til9oDy9H3I/AAAAAAAAArQ/c1BR1xxqJLA/s1600/DSC03831_2.JPG" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O CINEGRAFISTA DE CHICO MENDES&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Luiz Josenir Melo da Silva nasceu no ano de 1966, mais precisamente no dia 11 de abril, na&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-efbqUhCbycU/Til7ysKjGdI/AAAAAAAAAqA/p3MDx7hmvmc/s320/fotos%2Bacre%2B%252825%2529.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632168919782595026" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;div&gt; cidade de Tarauacá, na fronteira do Acre com o Peru e a Bolívia. Repórter cinematográfico responsável pela maior parte das imagens gravadas com o seringalista Chico Mendes, Josenir foi sabatinado para essa entrevista por uma equipe já conhecida do leitor do Zona Sul. De Brasília: eu, a jornalista Myriam Violeta e os repórteres fotográficos Waldemir Rodrigues e Roque de Sá. De Natal, ao vivo pelo Twitcam, Roberto Fontes. Os hoje entrevistadores Waldemir (junho/07), Roque (maio/11), Myriam (janeiro/10) e o meu xará Roberto (maio/09) já sentaram na cadeira de entrevistado do jornal. Josenir se esquivou bastante até ser convencido a falar para o Zona Sul. Mas quando ele abriu a boca, quase não parou mais de falar. A transcrição dessa e das demais entrevistas pode ser encontrado no site http://zonasulnatal.blogspot.com/ (robertohomem@gmail.com) &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se eu soubesse que tinha esses salgadinhos, sucos de várias frutas, vinho e cerveja tinha vindo antes...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pode ir comendo e bebendo enquanto conversamos...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pois não, meu rei, estou à disposição.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sua família é de onde?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meus avós são do Ceará. Meus pais nasceram no Acre. Meu avô foi soldado da borracha. Deixou sua terra para trabalhar nos seringais da região Norte. Na II Guerra o Brasil assinou um acordo com os Estados Unidos para fornecer borracha. Meu avô foi um daqueles homens que, entre os anos de 1943 e 1945, foram alistados e transportados para a Amazônia para trabalhar nos seringais. Meus avós achavam que um dia retornariam ao Nordeste. Naquela época, a propaganda do governo dava duas opções: ir para a guerra, para o fronte de batalha, ou ir cortar seringa na região Norte. Minha avó chegou no Acre novinha. Naquela região tinha&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-UptygLBURRc/Til7zHVCTkI/AAAAAAAAAqQ/IQig823riTE/s320/DSC00182.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632168927074340418" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; muitos índios. Os soldados da borracha desbravaram grande parte da Amazônia. Diferente de hoje, que a borracha é prensada, naquele tempo ela era defumada. Era um processo complicado. O combustível que se usava para produzir a fumaça era o coco do mato. O carvão dele tem mais resistência que o carvão comum. Só que essa fumaça é mais prejudicial à saúde, exala uma substância muito tóxica. Vários seringueiros ficaram cegos sem nem saber que a causa foi a fumaça. Naquela época, nos seringais, não se usava dinheiro. Tudo era na base da troca. Isso impedia o seringueiro de voltar para a sua terra, pois quando ele chegava com a borracha, já estava precisando de óleo, sal, pólvora, chumbo e munição para poder matar sua caça e sustentar a família. Meu pai, Francisco Porfírio da Silva, também foi seringueiro e vítima desse sistema.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E a sua mãe?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O pai de minha mãe era seringalista, era o patrão. Minha mãe, Teresinha Melo da Silva, estudou: se formou em Pedagogia... Meu pai é analfabeto. Meus pais viveram aquela história de amor comum na literatura: a filha do rico com o filho de um pobre. Fugiram para ficar juntos. Naquela época era comum o casal fugir quando os pais não aceitavam o relacionamento. A convivência normal só voltava com o passar do tempo. Meu pai costumava caçar na floresta. Mesmo sem bússola e sem GPS, nunca se perdeu. Minha mãe se apaixonou quando o viu tocar violão em uma festa, no seringal. Sou o filho mais velho. Os outros são Gilsenir, Samuel (Samuca), Suely e Ismael. Meu pai acordava às 4 da manhã, comia uma farofa de carne, pegava sua faquinha de seringa, o balde de leite, o sapato de seringa e saía pra estrada. Nós permanecíamos dormindo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais suas primeiras lembranças da época de criança?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu tinha 12 anos quando a televisão chegou em Tarauacá. Tínhamos chegado há pouco tempo na cidade.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas você não nasceu em Tarauacá?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nasci. Meus pais moravam em um município chamado Jordão. Quando eu estava para nascer, minha mãe, como filha de seringalista, resolveu que o parto seria em um hospital. Em Jordão as crianças nasciam das mãos das parteiras, não tinha hospital. Só que não deu tempo: antes de chegar no hospital de Tarauacá, no meio do rio, em um barco, nasci através das mãos de uma parteira.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A sua primeira lembrança foi quando chegou a TV em Tarauacá? Não lembra das brincadeiras de criança?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Lembro, mas a televisão me marcou mais. Minha família era humilde, pobre mesmo. Brincar com outras crianças significava pegar uma lata de leite em pó, encher de barro, furar a tampa e o fundo, colocar um arame por dentro, amarrar, e sair puxando. Não tive bicicleta ou velocípede... Brinquei de cavalo de pau com o cabo de vassoura. Encontrar uma jante de bicicleta era uma festa. Com uma vareta, saía empurrando a jante, correndo, feliz da vida. Meus pais foram bastante rígidos. Se minha mãe estivesse conversando com uma vizinha, a gente não podia passar no meio das duas. Até hoje a gente toma a benção. Apanhei muito. Agradeço à minha mãe, que foi quem me bateu mais. Agradeço mesmo. Se os filhos de hoje soubessem o resultado que tem a disciplina, como eu tive, dariam muito valor a levar uma surra e talvez até lutassem por isso. (risos).&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você morou em Tarauacá até qual idade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até os 15 anos. Quando minha mãe viu os filhos crescendo e percebeu que não tínhamos futuro ali, resolveu vender a casa e, com o dinheiro, mudar para a capital. Meu pai não quis ir. Ela disse: “então você fica: quem quiser me acompanhar, me acompanhe”. Eu fui, meus irmãos todos também. Graças a Deus e à minha mãe hoje estou em Brasília.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seu primeiro emprego, em Rio Branco, foi na área do jornalismo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Antes de responder, me deixe voltar um pouco no tempo. Aos 12 anos, quando descobri a televisão, senti que era aquilo que queria pra mim. Meus pais são evangélicos, da igreja Batista. Meu pai falou logo para eu me afastar da televisão. O pastor tinha dito que “isso é &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-g64Lv3hKouk/Til8ie-9YyI/AAAAAAAAAqw/5jNRoDSnI08/s320/DSC05105.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632169740878045986" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;coisa do demônio, que está chegando para levar as crianças”. Quando a família ia para a igreja, no domingo, eu sentava sempre no último banco. Era só o pastor começar o culto que eu fugia para a emissora, quando todos baixavam a cabeça para orar. O cara que trabalhava lá morava na minha rua. Pedi para ele me ensinar. Nas primeiras idas, meu pai ia me buscar na TV armado com um pedaço de madeira. Quando ele batia na porta, eu já tremia todo. Meu pai me arrastava para casa, puxando pelo braço. Certo dia, meu primo, João Melo, sugeriu que eu fosse trabalhar, pela manhã, em uma olaria. Meus pais saíam de casa antes das seis da manhã. Fui trabalhar escondido. Eu pegava o salário e dava ao meu pai, dizendo que tinha recebido da televisão. A pessoa que morava com minha mãe e tomava conta de nós era minha cúmplice. Eu voltava da olaria às 11 e meia. Tomava banho, almoçava e ia para a escola. Essa moça tirava todo o barro da minha roupa e dos meus chinelos, para ninguém perceber que eu estava trabalhando em uma fábrica de tijolos. Na olaria, na hora do lanche, os outros comiam salgadinho e tudo o mais. Eu ficava pelos cantos, sem comer, para poder sobrar dinheiro e eu dar a meu pai. No primeiro mês, na hora do jantar, fiquei com o salário no bolso da bermuda tentando criar coragem para entregar o dinheiro a ele. Quando mostrei as notas, meu pai perguntou se eu tinha roubado. Respondi que o homem da televisão tinha me pagado para eu trabalhar lá. Pedi permissão para continuar por lá. Ele disse que não, que eu era muito pequeno para trabalhar com aquilo. Mesmo assim, fiquei dos 12 aos 15 anos fazendo isso. Com o tempo ele foi se acostumando e deixando. Mas apanhei muito do meu pai pra poder seguir essa profissão que eu sempre quis. De manhã eu ia para a olaria, à tarde para a escola e à noite para a TV.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você seguiu a religião dos seus pais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, mas não deixei de ir à televisão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que lhe encantou na televisão?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Aquelas pessoas andando e falando dentro daquela caixa. Eu quase colava minha vista na tela da TV para tentar descobrir aquela mágica.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando sua situação na TV engrenou mesmo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A Globo gerava sua programação para a Rede Amazônica, que retransmitia para a TV Acre, em Rio Branco. Lá eram feitas cópias das fitas e enviadas para o interior. Eu recebia essas cópias para passar na TV de Tarauacá. Às vezes acontecia de a fita não chegar e a gente ter que passar durante vários dias o mesmo capítulo de uma novela, por exemplo. Na emissora eu fazia o controle mestre: pegava a fita U-matic e colocava no ponto. Até o cheiro da fita que saía de dentro da máquina, quando o cabeçote girava, era gostoso. Era emocionante saber que um monte de gente estava assistindo aquilo. Compensava o fato de eu não receber nada por aquele trabalho. Eu trabalhava porque queria aprender. Depois que desmistifiquei a mágica de como era transmitida a imagem, eu quis mais: saber como era o processo para produzir aquela fita. Quando minha mãe falou que íamos pra Rio Branco, fiquei muito feliz. Era a chance de eu descobrir o que queria. Em Tarauacá nunca ninguém tinha aparecido sequer com uma filmadora.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi fácil conseguir alguma coisa na TV, em Rio Branco?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Em Rio Branco eu tinha contato com os diretores da emissora, pois falava todo dia com eles através do rádio amador. Poucos dias após chegar à capital, fui à TV Acre. Apresentei-me como Tarauacá, pois era conhecido assim através do rádio amador. Contei que já tinha 15&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-E4-nU3ocMFM/Til7zcNIYBI/AAAAAAAAAqY/Ov7S4vXwSgM/s320/DSC03809.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632168932678328338" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; anos e que queria trabalhar. A diretora disse que tinha um técnico de Manaus desmontando a torre antiga e, ao lado, erguendo uma nova mais moderna e mais alta. Perguntou se eu topava ajudar, em troca de alguns trocados. Topei. O problema é que eu tinha começado a trabalhar como office-boy de uma empresa. Estava com um monte de contas para pagar no banco. Encostei a pasta com os documentos e fui ajudar o cara. Só no final da tarde lembrei que tinha que voltar para o outro trabalho. Quando cheguei lá, sem ter pagado sequer uma conta, fui demitido. Fui irresponsável por ter feito isso, mas eu não podia perder a oportunidade. Era o que eu queria. Depois de uma semana, abriu a Rádio 98 FM, do mesmo grupo. Um técnico tinha colocado a emissora no ar, mas não tinha quem a operasse. A diretora perguntou se eu sabia fazer aquilo. Respondi que sim. Meu pai tinha uma vitrola Rouxinol, de alta fidelidade. Era muito fácil pegar o braço e botar em cima da música. Não tinha locutor, não tinha programação, não tinha nada. Era só pra tocar música. Fui pra lá e tome música. Poucos dias depois, o único cinegrafista da TV Acre – ele fazia todas as reportagens e ainda filmava o jornal ao vivo, à noite – foi filmar uma corrida de motocross e, mal posicionado, foi atropelado por uma moto, com câmera e tudo. O dono da TV chamava-se Tufi Asmar, um turco. Era muito duro com funcionário, muito rígido. Esse cinegrafista foi demitido.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O azar dele foi a sua sorte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Fiquei na expectativa de me chamarem, até que perguntaram se eu sabia fazer o jornal. Quando a rádio saía do ar eu corria pra TV e colava nesse cinegrafista. Já tinha aprendido um bocado. Eu ganhava muito pouco na rádio. Uma coisinha que dava pra pagar o ônibus. Disse que sabia fazer o jornal. Foi assim que comecei.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual foi o passo seguinte?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui para a TV Aldeia, retransmissora da Cultura. Por ser uma emissora governamental, a Aldeia dava muita ênfase para o pessoal do campo. Por isso tinha proximidade com Chico Mendes. As outras emissoras, como a Globo, tinham programação local com espaço reduzido. Devido a esse contato, me tornei amigo de Chico Mendes. Ele sofria ameaças de morte e procurava se proteger pedindo para a gente gravar o que ele falava. Essas filmagens geralmente eram feitas em locais afastados da cidade, na floresta. Enquanto caminhávamos, ele contava o que estava acontecendo e previa sua própria morte. Certa vez ele contou que os dois seguranças que o acompanhavam não eram suficientes para garantir sua proteção. Disse que o cara que tinha lhe jurado de morte iria matá-lo realmente.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse material que você gravou com ele foi para a TV Aldeia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse material gravado no Acre, no Seringal Cachoeira, na terra onde Chico Mendes morava, em Xapuri, foi gravado por mim como funcionário da TV Aldeia.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Todas as filmagens de Chico Mendes no Acre foram feitas por você?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foram feitas por mim. Todas as imagens, que circulam, feitas no Acre, são minhas. Não são minhas as filmagens da ida dele para os Estados Unidos e para o Rio de Janeiro. O material principal do Acre eu filmei, como os depoimentos dele sobre a floresta. Acompanhei até algumas lutas travadas por ele para preservar a natureza. Acompanhei Chico Mendes em idas a acampamentos de pessoas contratadas pelos fazendeiros para desmatar. Ele chegava e surpreendia aquelas homens armados. Até eu cheguei a usar arma.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual arma? Carregada?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Um revólver 38, carregado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chico Mendes usava arma?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que eu saiba, não. Usava apenas facão, essas coisas. Só arma branca. Arma de fogo, não. No dia em que o mataram, eu estava na TV, me preparando para ir pra casa. O telefone tocou: “mataram Chico Mendes”. Estava uma chuva, um baita de um toró...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você, que era amigo dele, recebeu a notícia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A primeira coisa que me veio à cabeça foi que aquela era uma morte mais do que anunciada. A sensação era de que eu já sabia que aquilo aconteceria. A tristeza e a emoção foram muito fortes, mas não foi surpresa. Várias vezes comi com Chico Mendes. A gente sentava no chão de uma casa de paxiúba, e fazia a refeição. Todo mundo junto. Eu esperava que ele fosse assassinado, mas não sabia do impacto que a morte dele ia causar no mundo inteiro. Ele era um cara simples que aparecia de chinela na televisão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chico Mendes tinha noção do que representava?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Acho que não. Acho que ninguém tinha.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ele cresceu depois que morreu?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. Ele transformou-se em um mártir. Logo que recebi a notícia da morte dele, &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-d3_gzMMS9RA/Til8ihyDq3I/AAAAAAAAAq4/5fRORFRRZbU/s320/DSC05196.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632169741629238130" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;embarquei em uma Caravan velha, o único carro que a TV Aldeia tinha. Fomos apenas eu e o motorista Ruizemar, de Rio Branco para Xapuri. Percorremos os 150 quilômetros de estrada de chão com muita lama e atoleiro em cerca de uma hora e meia, duas horas. Estava chovendo muito. Não levamos repórter porque todos já tinham ido embora, na hora que a notícia chegou. Fui o primeiro repórter cinematográfico a chegar ao local onde mataram Chico Mendes. O clima ainda era de medo. Acreditavam que o assassino ainda estava escondido nas proximidades. Estava muito escuro, acendi a luz na cozinha, local onde ele tinha tombado. Já tinham tirado o corpo dele, mas permanecia lá o sangue no chão e na toalha que usaram para enxugá-lo. Levaram Chico Mendes para o hospital, tentando evitar sua morte. Depois que recebeu o tiro, ele ainda sussurrou algumas palavras para a esposa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que ele disse?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – “Me acertaram”. Falou isso para Ilzamar, a sua mulher, que também estava lá. O clima era de estupefação. Eu botava a câmera com a iluminação pra fora e as mulheres mandavam eu apagar, com medo de que atirassem de novo. O clima era esse. Foi uma noite horrível. O crime gerou uma revolta grande entre nós que gostávamos dele. O sentimento era o de pegar quem tinha feito aquilo. De vingar aquele assassinato.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Onde estão as imagens que você fez nessa noite?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Um jornalista e produtor chamado Edilson Martins, que tem uma produtora no Rio, estava no Acre, nessa época. Ele disse ao diretor da televisão, que era seu amigo, que as imagens que eu tinha feito de Chico Mendes dariam um excelente material, se fosse bem editado e produzido. Esse cara se ofereceu para fazer a edição no Rio de Janeiro, já que a TV Aldeia não tinha boas condições técnicas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas as imagens que você fez chegaram a ser noticiadas localmente, através de matérias...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Existe alguma forma de provar que essas imagens foram feitas por você?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quem conhece a minha história sabe que sou o autor das imagens. Também tenho muitas outras provas de que as imagens são minhas. Como eu era apenas um repórter cinematográfico, não participei da combinação que Edilson fez com a direção da TV para levar esse material até sua produtora, no Rio de Janeiro. A promessa de devolver as filmagens para o Acre nunca foi cumprida. Ele editou minhas imagens e as transformou em vários documentários. O primeiro foi “Amazônia: A última fronteira”. Depois veio “Chico Mendes: Um povo da floresta”. Em seguida vieram outros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Todas as imagens desses documentários são suas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Todas as imagens feitas no Acre são minhas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você foi remunerado pela produtora para ceder os direitos autorais desse material?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não fui remunerado e nem fui creditado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os documentários citam a TV Aldeia como a emissora que cedeu as imagens?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A produtora foi procurada por você ou pela TV para negociar um acordo? Vocês abriram processo contra ela?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Procurei Edilson, no Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que ele respondeu quando você o procurou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Viajei até o Rio de Janeiro depois de ser incentivado por alguns amigos. Esses colegas alertavam que, enquanto eu sobrevivia com precárias condições financeiras, em Rio Branco, Edilson Martins estava ganhando muito dinheiro negociando para o mundo inteiro as &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-ptBRddWbE6U/Til8iCiBt8I/AAAAAAAAAqo/i4epKOaQvnM/s320/DSC04513.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632169733240502210" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;imagens que eu fiz. Ele morava em Santa Tereza, no Rio. Fui lá pouco tempo depois de ter completado um ano da morte de Chico Mendes. Quando ele atendeu o meu chamado pelo interfone do apartamento onde morava, me identifiquei: “sou Josenir, do Acre, vim acertar os direitos autorais das imagens que produzi de Chico Mendes”. Ele disse que estava descendo e pediu que eu aguardasse um pouco. Quando desceu, estava usando chinela, bermuda, camiseta regata e uma bolsa que parecia vazia. Passou por mim quase correndo: “depois falo contigo, estou apressado”. Ele pulou no bonde que vinha descendo e foi embora. O porteiro do prédio comentou: “nunca vi o seu Edilson assim, ele nunca sai de bonde, o carro dele está na garagem”. Voltei para o Acre de mãos abanando.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Por que você não recorreu à Justiça?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era inviável, na época, pois eu não tinha como contratar um advogado. A minissérie “Amazônia”, escrita por Glória Perez, rodada no Acre, em 2007, também exibiu imagens minhas no penúltimo ou no último capítulo. Não tive a chance nem de ficar com cópia das imagens. Ele levou tudo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Chico Mendes merecia a fama que adquiriu depois que morreu?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Merecia. Ele era um cara trabalhador e corajoso. Chico Mendes sabia que ia morrer. Outros, antes dele, pelo menos uns dois, também sabiam e morreram.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois disso, o que mais você fez de expressivo na TV Aldeia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em 1989, se não me falha a memória, idealizei a primeira cobertura ao vivo do Acre. O carnaval de Rio Branco, além das festas nos clubes, incluía desfile de escola de samba e de blocos. A TV ficava na mesma quadra da avenida, onde o desfile era realizado. Quando sugeri que transmitíssemos ao vivo, fui chamado de doido. A direção só topou quando eu me comprometi a arranjar os cabos e toda a estrutura necessária. Como a emissora não tinha dinheiro para comprar nada, saí pedindo nas lojas. Tantos metros de cabo de áudio, tantos metros de cabo de vídeo, conector RCA... Peguei aparelhos de televisão emprestados pra usar como monitores, na rua. Em troca a gente podia falar o nome e entrevistar os comerciantes... Mas nada de dinheiro, só permuta. Formei a equipe, puxei uma série de cabos, defini a localização das três câmeras... O corte era seco, não tinha mesa, não tinha efeito, nem nada. Joguei quatro microfones na mesa de áudio. Esquematizei tudo, me reuni com a equipe que ia trabalhar na avenida, com os âncoras e com a equipe do estúdio. Essa primeira transmissão ao vivo no Acre obteve sucesso e audiência totais.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Parabéns!&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O melhor é que essa cobertura me rendeu um emprego. Duas pessoas de Natal estavam acompanhando tudo, sem eu saber. Nadja Farias e Carlos Lacombe tinham sido contratados para montar uma retransmissora do SBT. Eles me viram correndo de um lado para o outro, resolvendo pane em cabo, operando áudio, fazendo corte, falando com repórter... Quem estava em casa nem percebeu o sufoco que foi. Os dois, na arquibancada, acompanharam tudo. Terminado o carnaval, Lacombe me convidou para uma conversa. Propôs que eu selecionasse todo o quadro técnico da nova emissora: 42 pessoas. Topei ser o diretor de operações e iniciei o processo de construção da nova televisão. Filas de gente se formara, à procura de emprego, depois que anúncios foram publicados nos jornais. Fiz as entrevistas e treinei os selecionados.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tinha alguma experiência em capacitar profissionais para a TV?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na TV Aldeia já tinha ensinado a dois dos meus irmãos: Samuca, que trabalhava em um dique de lavar carro e Gilcenir, empregado de uma serralheria. Gil fazia grades, portões e janelas. Mexia com solda pesada. Passava o dia inteiro soldando e à noite mal conseguia dormir, com os olhos ardendo. Minha mãe colocava o colírio mais forte para anestesiar. Mesmo assim, a princípio ele resistiu, achando que não conseguiria aprender aquela nova profissão. Mas conseguiu. Tentei levar minha irmã, mas ela era muito nova e não queria saber de assumir responsabilidades. Gil ficou como meu auxiliar. Depois veio o Samuca. No lava-jato ele ficava com as costas peladas, de tanto se expor ao sol quente para ganhar uma mixaria. Também entrou na TV Aldeia como auxiliar. Quando fui pra TV Rio Branco, Gil e Samuca me acompanharam. Eles ficaram nas duas emissoras. Só que, em 1990 apareceu outro empresário me convidando para participar da instalação de uma TV maior do que a que eu estava trabalhando.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual emissora foi essa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A TV Gazeta, que hoje retransmite a Record, mas na época era repetidora da Manchete. Repeti o trabalho que tinha feito para a TV Rio Branco, mas recebendo o dobro do salário. Samuca foi comigo e está na emissora até hoje, como correspondente em Brasília. Fiquei 12 anos lá. Como diretor de produção eu fazia de tudo. Mas eu não gostava de ficar entre quatro paredes. Queria mesmo era prosseguir naquele sonho de criança de estar na rua, filmar a cena. Certo dia ligaram para a emissora denunciando que tinha um cara derrubando casas com gente dentro, utilizando uma motosserra. O fato se dava em um bairro chamado Belo Jardim, próximo de Rio Branco. Era finalzinho de tarde, em 1991. Fui com a repórter Alcinete Damasceno. A TV Gazeta de Rio Branco tinha apenas um ano de existência. Peguei uma câmera de mão pequena super-VHS, duas baterias e três fitas. Coloquei no bolso, pulei na garupa da moto e fui. Era uma XL. Quando chegamos em determinado lugar, não dava acesso. Deixamos a moto e saímos a pé, nos guiando pelo barulho da motosserra lá ao longe.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Esse local ficava na floresta?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No meio do mato. Ao passarmos por uma casa, uma mulher aconselhou a gente a voltar, pois poderiam nos matar. Ela contou várias casas já tinham sido derrubadas e outras ainda seriam destruídas. Um fazendeiro alegava que aquela terra era dele. Fiquei nervoso, mas como já estava lá, não podia perder a oportunidade. Encontrei uma plantação de macaxeiras. Desse macaxeiral dava para ver alguma coisa: a movimentação, gente, a fumaça da motosserra... Como a câmera não tinha um zoom muito bom, e a imagem estava saindo tremida por eu estar nervoso, tomei coragem e resolvi chegar mais perto. Ao me aproximar, vi policiais. A repórter começou a fazer perguntas enquanto eu continuava gravando tudo. O momento principal foi quando registramos o maior desespero em uma casa que estava sendo derrubada. A repórter entrevistou o cara da motosserra. Ele disse que ia derrubar porque tinham mandado. A polícia falou que estava lá para dar segurança ao cara da motosserra. Havia uma ordem judicial. Naquela época o Acre era violento mesmo. E a câmera registrando. Fiz a cena de uma mulher desmaiando. Naquele suplício todo, o capataz do fazendeiro que se dizia dono das terras disse que seu patrão estava nos chamando na sede da fazenda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que situação!&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Eu tinha acabado de trocar uma fita e de pedir a uma senhora para segurar. Umas 30 ou 40 pessoas alertaram que se fôssemos, seríamos mortos. Mas não tinha como recusar, o capataz estava armado. Entrei na caminhonete. Deixei a câmera rodando, apontada para o jagunço. Andamos uns oito quilômetros no meio da floresta. O carro parou e o fazendeiro apareceu, montado em um cavalo. Ele falou: “Com ordem de quem estão gravando na minha propriedade?”. Neguei alegando que não podia dar a fita porque não era minha, era da emissora. Ele apeou do cavalo e veio pra cima. “Você está me desafiando?”. Tomou a câmera da minha mão, arrancou o facão da bainha, tirou a fita, quebrou a câmera e estripou a fita. Mandou a gente ir embora. “Se sair uma linha na imprensa, você é um homem morto”. Fomos embora. Quando cheguei na TV a matéria já estava editada. A senhora a quem eu tinha entregue a fita já tinha levado para a emissora. Pedi ao chefe: “não faça isso, pois serei um homem morto”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O negócio era você pedir demissão e fugir. (risos)&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A Rede Manchete tinha um programa jornalístico chamado Documento Especial. A produção soube do acontecimento e pediu cópia do material. A Manchete enviou a Rio Branco uma equipe do programa para fazer um episódio só sobre o assunto. Eu e o Samuca fomos escolhidos como os cinegrafistas dessa produção. Pensei: agora eu morro. Mas, graças a Deus, a gravação foi tranquila. Na hora da exibição do programa, em rede nacional, gerado em São Paulo, apagou a luz no bairro todo da Manchete em Rio Branco e ninguém assistiu. Deu pane na EletroAcre. Essa matéria de Belo Jardim me rendeu um prêmio Líbero Badaró. Em 1991 fui contemplado com o prêmio destaque do ano de melhor repórter cinematográfico do país. As grandes emissoras concorreram com muito material bom. Eu lá no Acre, no cantinho da Amazônia, fui o grande vencedor. Foi mais uma porta pra que as coisas deslanchassem. Depois desse, vieram prêmios locais, no Acre, que ganhei com outras reportagens.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você nunca pensou em ser repórter?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Meu negócio é a imagem. Como já dizia o ditado: uma imagem vale mais do que mil palavras. Eu não preciso falar mil palavras se tenho uma imagem que é mais rápida e fiel ao fato. Mais direta e prática, ela fala por si própria. Prefiro criar do que ficar diante das câmeras. Ser sensível e criativo, quando se pode fazer isso, pra mim já tá bom.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi sua vinda pra Brasília.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu buscava coisas novas, como tecnologias e emissoras de grande suporte. Sempre desejei, e continuo desejando, aprender mais. No dia em que eu voltar para o Acre quero ter o máximo de experiências possível para poder transmitir aos meus colegas e às emissoras onde eu for eventualmente trabalhar. Brasília é um grande centro. A TV Senado, onde trabalho atualmente, está sendo uma excelente escola.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você veio para Brasília com emprego garantido?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Vim de férias, em 2007. Aproveitei para deixar currículos na TV Senado, na TV Câmara e em outras emissoras. Naquela ocasião fiz um frila, na TV Senado, cobrindo férias&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-hwkavJX2v-c/Til9oDy9H3I/AAAAAAAAArQ/c1BR1xxqJLA/s320/DSC03831_2.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632170936170782578" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; de um cinegrafista. Gostaram do meu trabalho. Quando voltei para o Acre, muita gente já estava sabendo que eu tinha trabalhado na TV Senado. Insistiram que eu tinha potencial e devia voltar para Brasília. Segui o conselho, voltei e fiquei mais quatro meses cobrindo férias. Nesse ínterim, dois repórteres cinematográficos foram demitidos da emissora. Duas vagas foram abertas. Como eu já estava cobrindo férias e precisavam da contratação imediata, fui um dos escolhidos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O Correio Braziliense lhe acusou de ser afilhado de Tião Viana na contratação pela TV Senado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pois é, ocuparam uma página todinha com essa informação deturpada. É lamentável isso ocorrer em um jornal de grande circulação. Essa matéria foi reproduzida por muitos outros veículos. Porém, o texto era tão inconsistente que aquela matéria tornou-se positiva. Pude falar da minha trajetória profissional, dos vários prêmios que recebi, do meu currículo. O repórter colocou na matéria. Quem não sabia, por exemplo, que eu tinha um prêmio Líbero Badaró, ficou sabendo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A denúncia foi uma forçação de barra terrível, bem típica do Correio Braziliense. O texto diz que a empresa que terceiriza a contratação de funcionários para a área de comunicação social do Senado foi trocada por outra e que essa outra empresa teria mantido você na vaga de cinegrafista por supostamente ser apadrinhado por Tião Viana. O jornal só omitiu que todos os cinegrafistas ficaram. Nenhum sequer foi trocado. O leitor mais desavisado pode até acreditar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na verdade tentaram me usar para atingir o senador.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você destacaria nesse período de TV Senado?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando fui contratado, disse à editoria dos telejornais que além de ser repórter cinematográfico eu também editava. Fizeram uma experiência comigo. Editei material de algumas viagens. A partir daí virou rotina, quando se viaja, oferecer ao cinegrafista a alternativa de ele editar o seu material. Assim a cobertura fica mais factual, mais ágil. Outros colegas se interessaram e já estão fazendo isso. Outros me criticaram, alegando que não é função de repórter cinematográfico. Mas eu respondo que faço porque gosto.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Hoje o profissional não pode ser mono, tem que ser multi.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O cinegrafista que cobre eventos ou filma reportagens é o mesmo que faz a entrevista de um senador em seu gabinete. Nos tornamos repórteres cinematográficos mais completos. O que tocar, a gente tem que dançar. Fazemos um pouco de tudo. Na TV Senado eu destacaria os programas do Repórter Senado. São gravações de campo. O Parlamento Mercosul também é muito gratificante cobrir. Você viaja, conhece lugares, conhece pessoas, conhece línguas. Além da vantagem de eu poder editar o meu material, já gravar sabendo o que vou usar nessa edição. É gratificante estar no Uruguai e assistir na TV Senado, pela Internet, o material que gravei naquele dia ser veiculado pelos jornais da emissora.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como é cobrir as reuniões da CPI da Pedofilia? Você viajou muito pelo Brasil para isso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui a umas quatro viagens dessas. Têm coisas que sequer podemos comentar. Ficamos só nós, os senadores da comissão, as autoridades e os acusados. A reunião é gravada na íntegra. Mas tem coisas que não podem ser tornadas públicas. Eu diria que é muito cansativo e chocante. Não é fácil ficar cara a cara com um pedófilo, ao mesmo tempo em que vemos um pai ou uma mãe chorando porque sua filha foi estuprada. É comovente até para quem está ali realizando um trabalho. Por outro lado, é uma experiência a mais. Aprendi muito nessas coberturas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você tem quantos filhos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tenho sete filhos: Liliane, Luiz Josenir Júnior, Rawy Kennedy, Sthefany Lawanne, Felipe Basley, Gabriel Eduardo e Fabrício. Comecei muito cedo, mas já terminei. Vou fazer vasectomia. Minha mulher é Rosuley Durales Dominguez.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado para o leitor do jornal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;JOSENIR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Muito obrigado pela entrevista. Agradeço a Deus e aos amigos por tudo que vivi até hoje, desde a época em que eu batia tijolo na olaria. Tenho orgulho de estar entre os poucos profissionais do jornalismo do Acre que moram hoje em Brasília. Gostaria de ter a oportunidade de conhecer o Rio Grande do Norte. Tenho alguns amigos, como Renato Severiano, repórter de Mossoró e Nadja Farias. Sobretudo, gostaria de deixar um abraço para o meu grande amigo Costa Júnior, o dono do Zona Sul. Ele passou uma temporada trabalhando na imprensa aqui do Acre. Júnior conhece tudo o que eu falei nessa entrevista. Ele foi um ótimo repórter em Rio Branco. Suas matérias denunciando a miséria foram importantes para Rio Branco hoje ser uma cidade melhor de se viver.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-bE1Mzb7vRK8/Til9Y9JPpyI/AAAAAAAAArA/s-XHRQ1_62I/s320/DSC00122.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5632170676687185698" style="display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="-webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-1507031196873765695?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/1507031196873765695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/07/entrevista-josenir-melo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/1507031196873765695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/1507031196873765695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/07/entrevista-josenir-melo.html' title='Entrevista: Josenir Melo'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-efbqUhCbycU/Til7ysKjGdI/AAAAAAAAAqA/p3MDx7hmvmc/s72-c/fotos%2Bacre%2B%252825%2529.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-772430983152456334</id><published>2011-06-23T08:52:00.004-03:00</published><updated>2011-06-25T14:08:12.637-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Nova Zelândia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='professor'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='artista plástico do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ginástica olímpica'/><title type='text'>Entrevista: Flamínio Oliveira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;A GINÁSTICA OLÍMPICA POTIGUAR NA NOVA ZELÂNDIA&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;Flamínio das Neves de Oliveira nasceu em Natal, na década de 1960. Estudamos juntos no velho Salesiano lá da Ribeira. Como muitos da nossa turma, concluímos o segundo grau preparados&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-6czN6TYWObE/TgMqc9xZDLI/AAAAAAAAApA/U3uRw9hhDOs/s320/Foto%2BLunaBlancoOliveira.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621383436994940082" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 214px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; para o vestibular, mas sem noção do que fazer da vida. Muitos daquela época ingressaram em um curso universitário e trocaram por outro no meio do caminho. Com Flamínio foi assim. Comigo também. No caso dele, o Rio Grande do Norte deixou de ter um arquiteto ou um administrador de empresas, mas o mundo ganhou um professor de ginástica olímpica e, mais do que isso, o formador de uma parcela dos jovens que construirão o futuro do planeta. Um dos principais nomes da implantação e divulgação da ginástica olímpica em Natal, Flamínio contribuiu para a educação esportiva de duas atletas potiguares que posteriormente trocaram Natal por Curitiba e chegaram à seleção brasileira. O próprio Flamínio alargou seus horizontes e hoje mora em Auckland, na Nova Zelândia, com sua esposa Denise e a filha Luna Blanco Oliveira. Aliás, Luna está tomando gosto pelo mundo da fotografia e já consegue expressar sensibilidade e competência nos retratos que faz. Quando a entrevista for publicada na Internet, três fotos dela estarão lá: uma mostrando um emaranhdo de barcos no porto de Auckland, outra mostrando o pai se servindo de uma iguaria culinária que não consegui identificar e a terceira, também com Flamínio como modelo, tirada em Rotorua, cidade onde a terra ferve a céu aberto. As fotos com Flamínio devem estar aqui no jornal impresso em papel também. A conversa com Flamínio Oliveira se deu através da Internet, com o auxílio da ferramenta Skype. Devido ao fuso horário – quando o relógio aponta 19 horas no Brasil, na Nova Zelândia já são 10 da manhã do dia seguinte – e às nossas obrigações profissionais, a entrevista foi realizada em dois dias. Ele contou sua vida, falou sobre a ginástica olímpica e revelou um pouco do estilo de vida do neozelandês. (robertohomem@gmail.com)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Toda a sua família é de Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Todos, com exceção do meu avô, o pai da minha mãe, que é alagoano. Quando nasci, minha mãe morava na Rua Lourival Açucena, em Tirol, perto da Avenida Afonso Pena. Hoje em dia têm uns prédios muitos grandes por lá, mas a casinha onde nasci ainda existe. Sempre que vou por aquela região, dou uma passada e lembro...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Do que você lembra? Quais suas primeiras lembranças?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tento ficar com o máximo que consigo de memória. Sou meio nostálgico: gosto de ter as memórias, de ficar com a família, com os amigos e resgatar todas as informações e contatos que pude manter durante a vida. Nasci em uma sexta-feira de Carnaval. Se a vida me tivesse proporcionado oportunidade, eu teria sido carnavalesco. Meu pai foi dono de um bloco de carnaval chamado “Ases do Ritmo”. Ele, que ainda está vivo, graças a Deus, se chama Gilson Bezerra de Oliveira. Foi mecânico: um dos criadores da Selvagem. Era sócio da Oliveira &amp;amp; Neves, que depois se transformou na Selvagem. Seu sócio era Marcos Neves, meu tio, irmão da minha mãe. O nome da minha mãe é Maryzia das Neves de Oliveira. Graças a Deus ela também está viva. Meus pais moram em Parnamirim, em uma granja.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você ia falar de algumas das recordações que guarda da infância...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Uma das coisas que lembro é quando íamos veranear na praia de Santa Rita. No caminho atravessávamos o Rio Pontegi por aquela ponte de ferro em Igapó. Quando vinha o&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-vgcosNvHNaI/TgMqcm8w8RI/AAAAAAAAAo4/zawv6oaeej0/s320/Video%2Bcall%2Bsnapshot%2B2.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621383430868627730" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; trem, tínhamos que aguardar. Comecei a ir para Santa Rita ainda bebê, no colo da minha mãe. Aquela ponte de ferro é herança dos ingleses. A Nova Zelândia foi colonizada pelos ingleses, têm algumas pontes parecidas. A diferença é que as daqui estão sendo preservadas. Aquela lá está se acabando, abandonada. As pessoas tiram pedaços para vender no ferro-velho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Parece que, para a cidade, aquela ponte velha é mais um entulho do que um marco importante da história de Natal. Fale mais um pouco sobre a sua infância.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha mãe me contou uma vez que ficou muito surpresa quando - atravessando a Ponte de Igapó - eu ouvindo aquele barulho do carro passando por aquelas divisões que tinham no chão da ponte, comecei a dançar no colo dela. Mesmo criança eu já demonstrava receber alguma influência do ritmo. De repente vem desde esse tempo o envolvimento com a ginástica olímpica e até com a dança. Em termos de veraneio e de férias, meu mundo era Santa Rita e Genipabu, com todas aquelas dunas e as praias. Aquilo tudo é maravilhoso, o mundo inteiro já está dizendo isso. Uma das coisas que sinto falta, morando aqui na Nova Zelândia, é da água quente do nosso mar. Em Natal, se a pessoa quiser, pode nadar durante o dia ou à noite também. Mas, retornando, minha infância também foi assistir o carnaval na Prudente de Morais, o corso. Meu avô tinha uma oficina na Prudente de Morais. Enquanto as pessoas assistiam ao desfile da calçada, a gente via de cima de um pilar. Passei por toda aquela fase dos blocos de carnaval: Elite, Saca-Rolha, Bakulejo... Mas nunca tive oportunidade de participar porque, além de ser caro, meus pais tinham muito cuidado com os filhos. Se preocupavam com bebida e com os acidentes que costumam acontecer durante o carnaval no mundo inteiro. Minha infância também foi no Instituto Brasil. Lembro de Dona Pina e de Dona Carmem Pedrosa. Até hoje sou muito agradecido a elas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tinha também Dona Climéria. Como você conheceu a ginástica olímpica?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Através da televisão. Eu via e tentava copiar. Achava magnífico. Aquele exercício não era feito com apenas uma parte do corpo, mas com todo ele. A ginástica olímpica não é um malabarismo que você joga uma bolinha pra cima e pega de novo. É mais complexo: você joga o seu corpo todo pra cima e volta para o aparelho. Essa é uma das diferenças entre a ginástica olímpica e a ginástica rítmica. Por exemplo: você não trabalha com o aparelho, mas trabalha no aparelho. Desde criança eu fazia estrelinha, fazia cambalhota pra frente e pra trás, parada de mão, plantava bananeira... Eu tinha muita vontade de fazer um salto mortal, de ser mais flexível. Recebi influência também do circo. Depois de assistir aos espetáculos, quando voltava pra casa eu queria fazer exatamente o que os contorcionistas tinham feito. Na adolescência peguei uma época especial: o período onde mais se mostrou ginástica olímpica na história da televisão. Foi a época do russo Alexander Ditiatin e da romena Nadia Comaneci. Nadia foi o primeiro 10 na história da ginástica olímpica. Naquela época eu estava com 14 anos, tinha a mesma idade dela. Alexander era um pouco mais velho. A partir dali, o gramado da minha casa – eu morava na Potilândia com meus pais, depois mudei para Ponta Negra - ganhou um X queimado na grama, por causa das práticas que eu fazia tentando repetir os exercícios.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você praticava a ginástica olímpica em alguma academia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMINIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Até os 14 anos eu não havia encontrado nenhum lugar em Natal para fazer ginástica olímpica. Já tinha ginástica olímpica, acho que na ETFRN e no Atheneu. Mas eu não encontrava essas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Algum colega do Salesiano, nessa época, compartilhava desse mesmo interesse pela ginástica?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No Salesiano, não. Mas lembro de uma aula de Educação Física em que o professor João Alfredo, o João Bolão, passou alguma coisa sobre a ginástica olímpica. Ele colocou uns colchões e umas caixas e pediu para a gente fazer peixinho, por cima do plinto. Não consegui&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-2-f_q-YthyM/TgMqdJbFAnI/AAAAAAAAApI/Lq9kA7ACu1A/s320/Video%2Bcall%2Bsnapshot%2B5.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621383440122577522" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt; fazer. Ele disse que eu não dava para a ginástica olímpica. Fiquei muito mal. Sei que ele não fez por maldade e nem foi nada pessoal. Não consegui fazer aquele exercício, paciência. Depois tive oportunidade de conversar com ele, já na minha carreira dentro da ginástica olímpica. Cheguei até a conversar sobre aquela aula. Depois da fatídica aula encontrei um amigo que treinava na universidade e também encontrei o campeão arremessador de peso ou dardo... Fui treinar com ele na ETFRN. Ele me encaminhou e comecei a fazer saltos mortais na duna, na praia, na grama de casa e onde mais tinha oportunidade. Nunca tive oportunidade de competir na ginástica olímpica. Quando ingressei de verdade na escolinha de ginástica olímpica do DED, no dia que fui fazer a matrícula, não pude porque já tinha 18 anos e os outros alunos tinham 12. Na verdade não tive uma escola de ginástica olímpica. Em contato com Omar Oliveira, que era e ainda deve ser professor do Neves, ele me disse que mesmo eu não podendo me matricular, podia frequentar e ficar treinando com eles. Foi isso que aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Essa deve ter sido a época do seu vestibular.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era a fase de escolher o que eu ia fazer como profissional. Meu primeiro vestibular foi para Arquitetura. Minha irmã, que também tinha estudado no Salesiano, tinha sido aprovada em Arquitetura. Fiz não sei se por influência ou se por pressão da sociedade. Aqui na Nova Zelândia, depois que o adolescente termina a escola, muitas vezes ele tem o que chamam de “gap year”, ou “ano buraco”. É um ano de espaço, um ano vazio onde ele viaja pelo mundo. Um dos destinos principais é Londres. Outras cidades da Europa e dos Estados Unidos também são escolhidas. Eles vão experimentar o que é viver. Eles vão trabalhar e aprender a mexer com dinheiro. Eles aprendem a sobreviver. A criança aqui sai de casa aos 16 anos. Muitos dos amigos da minha filha - a Luna completou 18 anos - já moram sozinhos. Aqui há o costume de dois meninos dividirem  apartamento. Saem de casa e vão morar juntos. Às vezes, casais de namorados também. Aqui eles já trabalham a partir dos 14 anos. Muitas vezes você vê a criancinha do lado do pai, na loja, atendendo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No Brasil o pai poderia ser acusado de explorar trabalho infantil.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Isso mostra que alguma coisa está errada: aí ou aqui. Minha filha, quando estava com 15 anos, deu aula de ginástica no mesmo ginásio onde estou trabalhando. Com o salário, ajudou a comprar seu próprio carro. Aqui as pessoas começam a dirigir aos 15 anos. Outra coisa interessante na Nova Zelândia é que geralmente esse primeiro carro que o filho ganha é velho. Não é como no Brasil, que os pais esperam o filho passar no vestibular para dar um carro zero quilômetro.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos retornar um pouco: você estava falando que prestou vestibular para Arquitetura...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, mas não passei. Como meu pai não queria que eu ficasse seis meses parado, entrei na UNP. Fui cursar Administração de Empresas. Quando fiz o primeiro semestre, abriram vagas para a UFRN. Como não tinha para Arquitetura, Engenharia ou outro curso que a sociedade, digamos assim, quer que a gente faça, coloquei Educação Física como primeira opção, depois Fisioterapia e, em terceiro, Enfermagem. Passei para Educação Física.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seu pai fez algum questionamento por você ter optado por Educação Física?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não, ele era desportista. Jogava voleibol. Gosta muito de esporte. Na minha infância eu nadei, joguei basquete, fiz karatê e judô e integrei o time de voleibol do Salesiano. Tive minhas experiências com o futebol, mas não foram muito positivas. Minha habilidade era mais com as mãos do que com os pés. Mas eu corria bem. Nunca fiz muita coisa de atletismo, mas corria bem. Aqui na Nova Zelândia a gente vê as crianças praticando tudo o que é de esporte até decidir o que vai fazer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Dentro do curso de Educação Física você teve a possibilidade de se aprofundar nessa área de ginástica olímpica?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Fiz Administração e Educação Física paralelamente. Como o curso de &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-lXG8kkX90zw/TgMrMW86tBI/AAAAAAAAApg/ECVibJVgoI0/s320/Video%2Bcall%2Bsnapshot%2B31.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621384251208021010" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Educação Física era mais curto, comecei ele depois e concluí antes. Por conta da falta de recursos e de equipamentos e da própria desmotivação da ginástica olímpica da UFRN, tive que buscar experiência fora daquele ambiente. Por sorte tive dois professores – Omar de Oliveira Júnior e José Lucas - que tinham acabado de fazer uma especialização em ginástica olímpica na USP. Eles me passaram muita informação a respeito dessa modalidade e a minha base inteira eu devo aos dois. Na época em que eu estava concluindo a universidade, consegui começar a trabalhar no SESI. Entrei pela natação e depois implantei a escolinha de ginástica olímpica do SESI. Natal descobriu que tinha ginástica olímpica. Um dos projetos que desenvolvemos foi o “Domingo é dia de praça”. A gente fazia nossas apresentações na frente do Palácio dos Esportes. As aberturas de jogos escolares também facilitaram a divulgação do meu trabalho. Fosse escola pública ou particular, quem me chamasse para fazer abertura, eu estava lá. Também participamos de muitas ruas de lazer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi complicado conquistar alunos nessa sua primeira experiência no SESI?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi um pouco difícil fazer as pessoas da administração do SESI entenderem que aquilo funcionava. Mas só um pouco. Pessoas que já sabiam que eu tinha esse envolvimento com a ginástica - como Assis Dantas, que era do América – me deram uma força grande dentro do SESI. As meninas procuram mais a ginástica olímpica. Os meninos vêm para a ginástica olímpica porque querem aprender a fazer salto mortal. Montamos um grupo excelente no SESI e fomos para rua mostrar a ginástica olímpica de verdade e divulgar esse esporte em Natal. Eu tinha uma caminhonete. Botava os colchões em cima, e os alunos por cima dos colchões. A gente fazia quatro apresentações em lugares diferentes. Eles me ajudavam a tirar e por de volta os colchões. As pessoas vibravam com as apresentações.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois do SESI você montou a Academia Olímpia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A academia surgiu paralelamente ao meu trabalho no SESI. Criei a Olímpia pela dificuldade que era usar a quadra polivalente: tínhamos que montar o equipamento de ginástica, treinar e depois desmontar tudo. Outra opção era treinar dentro de uma sala, mas essa sala era muito apertada. Não cabia, não dava para montar o pórtico da argola e nem a barra fixa, por exemplo. Optei por alugar um espaço para poder dar aula. Foi aí que surgiu a Academia Olímpia. Não obtive resultado financeiro porque o que a gente recebia das crianças mal dava para pagar o aluguel. Mas foi um período muito bom. Nessa época eu estava casando. Minha filha nasceu logo em seguida. Minha mulher, Denise, que é paulista, também é treinadora de ginástica olímpica. Por coincidência nasceu em uma cidade chamada Olímpia, mas decidi o nome da academia antes de conhecê-la. A conheci na APEC. Fui convidado para dar treinamento para o masculino. Denise foi convidada para o feminino. Nos conhecemos lá e estamos juntos até hoje. Como eu ia dizendo, montei a academia mas continuei trabalhando no SESI. Na academia fizemos um festival chamado FIGO: Festival Interestadual de Ginástica Olímpica. Tinha competições no sábado, dentro do ginásio, entre equipes de Natal e cidades como Recife, João Pessoa, Salvador... No domingo fazíamos uma carreata com a participação de todas as crianças, com o apoio de batedores da polícia. Escolhíamos uma praia, levávamos cama elástica e colocávamos as crianças para brincar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você, através da Academia Olímpia, também desenvolveu um trabalho social. Como foi?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na época do SESI vi que a criança sem muitos recursos financeiros tem menos &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-tss80twMSE4/TgMrMTBUZkI/AAAAAAAAApY/q0ppJ4xL5c4/s320/Video%2Bcall%2Bsnapshot%2B28.png" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621384250152740418" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;preconceito. Talvez pela necessidade de praticar uma atividade esportiva, ou algo assim, ela se envolve e se dedica mais. Percebi que poderia até descobrir talentos nessa faixa da população. Foi então que abri espaço para que mais e mais crianças viessem para a academia. Uma parcela dos nossos atletas vinha das escolas públicas. Foi bom porque aumentou o número de atletas e de escolas participantes da ginástica olímpica nos JERNs. Esse projeto foi feito em parceria com uma pessoa que contribuiu bastante com o nosso trabalho. Não tenho autorização de citar o nome da empresa ou da pessoa, mas a gente teve essa força e foi muito interessante, porque pude dar continuidade à academia por mais uns três ou quatro anos. Conseguimos trazer 40 crianças para esse projeto social dentro da academia. As crianças iam duas vezes por semana à academia. Tomavam banho assim que chegavam lá e depois era servido o café da manhã. Logo após, estudavam e faziam uma aula de ginástica. Em seguida estudavam de novo, tomavam banho, almoçavam e iam para a escola. Na verdade, algumas vezes não iam para a escola, pois eram comuns as greves de professores. Começamos com vinte crianças e, com o apoio dessa empresa, duplicamos. O projeto durou uns dois anos. Até hoje tenho contato com algumas dessas crianças, pela Internet.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi através desse projeto que você conseguiu descobrir Ana Cláudia Silva?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Ela foi minha atleta na academia. Ana Cláudia começou a treinar novinha na Olímpia. Chegou na academia com cinco anos de idade. Eu não estava lá no dia em que seus pais a levaram para fazer uma experiência. Meu auxiliar, Roberto Silva (hoje ele é um DJ famoso em Natal), fez os testes. Um dos testes foi a subida na corda. Eram duas cordas: uma próxima à outra. Normalmente o aluno subia e descia pela mesma corda. Ana Cláudia subiu no prédio, que estava a uns cinco metros de altura, passou pela viga andando e desceu pela outra corda. Ela entendeu que tinha que fazer assim. Só aí a gente viu que era uma menina que não sentia medo e era forte. E ela era flexível também. Então juntava tudo o que a ginástica olímpica precisava. Além disso, o pai dela jogou basquete quando foi aluno do Colégio das Neves. Ele teve uma oportunidade de ir para a seleção brasileira, mas seu pai não deixou. Ficou a vontade de ser seleção e representar o país. Acho que isso repercute e dá força para que ele mantenha Ana Cláudia treinando até hoje.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que Ana Cláudia Silva já conquistou no esporte? Uma coisa legal nela é que não esqueceu seus professores, como você. Da mesma forma que você não esqueceu as pessoas que foram importantes na sua formação.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-LcY-_qZoo_Y/TgMrjWCe6FI/AAAAAAAAApw/JVzssv9lP7I/s320/Ana%2BClaudia%2BSilvaGinastada%2BSelecaoBrasileirade%2BGinastica%2BOlimpica.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621384646099920978" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 239px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ana Cláudia influenciou muito na minha carreira. Tive oportunidades magníficas por conta dos resultados que ela atingiu. Pouca gente sabe que, dos atletas potiguares, não foi Ana Cláudia somente quem chegou a treinar na seleção brasileira. Da nossa academia umas cinco meninas chegaram a ser convidadas ou foram até Curitiba tentar ingressar na seleção brasileira. Ana Cláudia foi a primeira. Depois foi Merly de Jesus, que se saiu muito bem. Chegou a competir internacionalmente no Chile e a viajar para a Ucrânia e a Rússia para treinar por lá. Merly quase coloca o nome dela no Código de Pontuação da Ginástica Olímpica, como Daiane dos Santos fez. Ela estava executando um exercício que ninguém mais fazia. Se tivesse participado de  um campeonato mundial ou de uma olimpíada, o nome dela teria entrado no Código de Pontuação.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que faltou para ela disputar essa competição internacional?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Independente da área que for, é difícil atingir o alto nível. Nem todo mundo chega lá. Mesmo em profissões como Arquitetura e Urbanismo, ou a carreira de modelo, ou o que for, um imprevisto ou outro pode atrapalhar. Com Merly aconteceu que ela estava se machucando com frequência. Os dirigentes da seleção decidiram que não compensava mantê-la competindo. Ela voltou para Natal. Outras meninas estiveram treinando em Curitiba, como Francesca e Larissa Cunha. Minha filha também foi convidada. Ela é muito flexível e tinha uma linha boa de ginástica. Mas Luna não era muito de batalha e de enfrentar a parte de condicionamento físico de alto nível. Além disso, optamos por não direcioná-la para o altão nível da ginástica olímpica. É sofrido. No Pan-Americano Ana Cláudia rasgou a mão na série de barra. Abriu um calo na mão dela e a mídia veio em cima. A TV mostrou a mão dela sangrando. A foto da mão sangrando chegou a compor uma exposição fotográfica realizada em um shopping de Curitiba. Ana Cláudia começou comigo aos cinco anos de idade. Depois de atingir um nível muito bom, participou de torneio nacional em Brasília. Aos sete anos de idade ela foi medalha, na trave. A partir daí as pessoas começaram a prestar um pouco mais de atenção. Um dia os pais dela me disseram que iriam se mudar para que ela pudesse treinar em um centro maior de ginástica olímpica, para poder atingir um nível mais elevado. Perguntaram para onde deveriam ir. Falei que se ele não queria ter problemas políticos, o certo seria ir para onde funciona a Confederação Brasileira de Ginástica: Curitiba. Ele se mudou com a família toda para lá. Ela treinou com muita determinação e garra até atingir a idade de ingressar na seleção brasileira.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em qual nível ela encontra-se hoje?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ela é seleção brasileira. Acabou de voltar do Flamengo, depois de passar um período treinando por lá. Voltou porque foi chamada novamente para treinar em Curitiba. As perspectivas são de que ela irá para a Olimpíada de 2012, em Londres. Ela já participou de um Pan-Americano e da Olimpíada da China. Na China foi a 22ª colocada no individual geral. Quem classifica no individual geral é quem é mais ou menos equilibrado em todos os aparelhos. Ela se saiu bem nos quatro aparelhos:  a trave, o solo, o salto sobre a mesa e as barras assimétricas. Essa classificação é muito boa. A partir do desempenho de Ana Cláudia, a Confederação Brasileira passou a me convidar para alguns cursos nacionais e internacionais que eles promoveram. Fui convidado para o primeiro curso que o técnico ucraniano da seleção brasileira, Oleg Ostapenko, deu em Curitiba. Nessa época a gente tinha Ana Cláudia e Nerly treinando no grupo da seleção brasileira. Foi uma época de ouro na ginástica do Rio Grande do Norte, e pouca gente sabe. Durante esse curso fui laureado e até ganhei uma garrafa de vinho do pessoal da Confederação Brasileira de Ginástica. Fui convidado a sair das arquibancadas e perfilar junto com as meninas. Fui premiado junto com Luiza Parente, Berenice Arruda (técnica da seleção brasileira feminina durante onze anos) e outros grandes nomes da ginástica olímpica. Depois fui convidado para um curso de ginástica olímpica no Equador. Foi o meu primeiro curso internacional. Foi ministrado em espanhol. Ouvir os discos da cantora argentina Mercedes Sosa ajudou a melhorar meu espanhol. Comecei a brincar com as letras naquela língua. Participando desses cursos também fui indicado a fazer os três níveis de curso da Federação Internacional de Ginástica, que é o órgão que rege a ginástica olímpica no mundo inteiro. Dois cursos foram no Rio de Janeiro e um em Curitiba. Como eles não tinham muitas vagas para ginástica feminina, os meus cursos foram na ginástica masculina. Isso me ajudou muito a ter o que tenho hoje. Trabalho com a ginástica masculina aqui na Nova Zelândia.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como surgiu a oportunidade de sair do Brasil?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha saída para a Nova Zelândia veio através de uma ginasta que treinou na Academia Olímpia. Seus pais, que eram do Rio de Janeiro, tinham ido morar em Natal para trabalhar na UFRN. Tinham um casal de filhos que vieram treinar junto com a gente. Nossas famílias ficaram amigas. Como a mãe de dessa ginasta tinha pós-graduação em informática, aplicou para vir trabalhar na universidade daqui de Auckland. Conseguiu. Depois que eles vieram morar aqui, continuamos mantendo contato durante cinco anos. Denise, a minha esposa, já tinha morado em Londres, Israel e viajado pela Europa. Ela tinha vontade de dar à nossa filha oportunidade de falar outra língua, de conhecer outras culturas. Nesses cinco anos que mantivemos contato com essa família, fomos organizando a papelada. Quando minha ex-aluna começou a fazer ginástica olímpica aqui em Oackland,  o técnico gostou muito da técnica que ela tinha e do exercício que fazia. Mantivemos contato e, devido aos cursos que eu tinha no currículo, pude aplicar para um ramo que eles chamam de visto de talento. Fui contratado, ainda morando em Natal, para vir trabalhar aqui, com visto de trabalho pra mim e para a minha esposa também. Antes da viagem, estudamos e praticamos o máximo possível do inglês. O turismo em Natal ajudou, porque passamos a procurar pessoas que falavam inglês para treinar a língua. Colocamos nossa filha para assistir filmes de Walt Disney e desenhos animados em inglês, para ela não sentir tanta dificuldade.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deu certo?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-jzyCAus2GwM/TgMrM4f49vI/AAAAAAAAApo/cwf6Qj1cjS0/s320/Rotorua%2BCidade%2Bonde%2Ba%2Bterra%2Bferve%2Ba%2BCeu%2BAberto.Foto%2BLuna%2BBlanco%2BOliveira.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621384260213077746" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Na Nova Zelândia as crianças vão pela primeira vez na escola no dia em que completam cinco anos de idade. É no dia, não é no começo do ano. Luna, quando chegou, foi direto para a escola. Ela poderia ter ido para o ano oito, mas não quisemos. Optamos por ela ficar no ano sete porque a ginasta ex-aluna minha estava no ano sete. Elas ficaram juntas. Esse ano que ela ficou atrás não representou muita diferença. Ela não teve nenhum problema com o inglês.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais foram as principais dificuldades que você e sua família enfrentaram ao trocar o Brasil pela Nova Zelândia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Acho que pela facilidade que o brasileiro tem de se comunicar, de ser um povo alegre, comunicativo e desenrolado, posso dizer que não enfrentamos muita dificuldade. Principalmente porque o nosso grupo de amigos aqui é muito bom. Só de Natal deve ter umas treze pessoas no nosso grupo. Alguns filhos desses nossos amigos já nasceram aqui. Outros vieram por influência de alguém, ou coisa desse tipo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você enfrentou algum preconceito pelo fato de ser brasileiro?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De jeito nenhum. Aqui tem uma miscigenação racial incrível. Em Auckland, o que você vê de chinês falando em chinês, na rua, é uma coisa incrível. O que você vê de indiano... Acho que metade das casas da rua onde moro é ocupada por indianos. É fácil encontrar russo, chileno, peruano, brasileiro... Você entra no trem e encontra gente falando tudo o que é de língua.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As diferenças entre Natal e Oackland devem ser marcantes...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMINIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. Por exemplo, Denise, quando volta do trabalho, vem de trem, para casa. A estação é pertinho, ela vem andando. Certa vez, seu casaco, que estava pendurado na bolsa, caiu. No dia seguinte, depois de procurar em casa e não encontrar, ela me disse que achava que o casaco tinha caído na rua: provavelmente no percurso da estação do trem para casa. Resolvemos arriscar. Fizemos o mesmo trajeto, de carro, bem devagarzinho. O casaco dela estava na calçada, no mesmo lugar onde caiu. E não era um casaco que tivesse acabado ou rasgado, que alguém deixaria de pegar porque estava um lixo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seria impossível essa mesma coisa acontecer no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Outra vez Denise deixou o celular dela no ônibus. E não foi nem na Ilha Norte, onde moramos, mas na na Ilha Sul. Um cara cara achou e demorou um dia pra enviar o celular dela pelo correio. E não cobrou nem a despesa postal. Ela já esqueceu um livro no trem. Bastou ligar para o terminal e, dois dias depois, eles encontraram e devolveram. As bicicletas das crianças ficam no jardim. E não tem muro separando o jardim da rua. Que bom seria se no Brasil fosse parecido. A mão aqui é inglesa, a direção é ao contrário. Até no trânsito eles são gentis. Totalmente diferente da guerra diária que acontece no Brasil. A faixa de pedestres aqui é respeitada. Quando nós, os brasileiros, nos reunimos aqui, sempre fazemos essas comparações. É até meio delicado falar sobre isso, pois pode parecer que, pelo fato de estamos fora do país, estamos potencializando as críticas. Não é isso. O que queremos é melhorar. Para isso não devemos ter vergonha de utilizar os exemplos de quem quer que seja: Irã, Iraque, Estados Unidos, França, Nova Zelândia ou Austrália. Por exemplo: no horário da escola aqui, todas as crianças estão na escola. A escola começa às 9 e termina às três da tarde. Se você vir alguma criança fora da escola durante esse horário, é porque algo importante está acontecendo para essa criança não estar dentro da sala de aula. Não seria ótimo se no Brasil fosse parecido?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;  - Infelizmente, aqui no Brasil, tornou-se comum a figura do menino de rua.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Exatamente. Mas por aqui nem tudo são flores. Está começando a aparecer em Auckland aqueles limpadores de para-brisas no sinal de trânsito, tão comuns em Natal. Em alguns lugares a gente já vê isso. Outra coisa interessante é que não tem prédio aqui. Se você der uma olhada na cidade, vai encontrar poucos prédios de, no máximo, três andares. O resto são casas. Nesse terremoto que houve em Christchurch, e foi noticiado mundialmente, algumas casas de tijolo caíram e outras tiveram problemas. Mas o que caiu foi de tijolo. Como a maioria das casas é de madeira, não cai. O Brasil é tão rico de madeira, e tem espaço suficiente pra plantar. Por que não construir mais casas de madeira?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Com relação ao idoso. Como ele é tratado na Nova Zelândia?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; -  A valorização do idoso está ligada até com a questão das calçadas, aqui. A calçada é tipo um asfalto, mas inteira e lisa, toda no mesmo plano. Lógico que tem as descidas e subidas. A Nova Zelândia é praticamente de altos e baixos, geograficamente falando. A calçada é um asfalto que continua. O idoso que não consegue mais caminhar direito, usa aquele carrinho à bateria. Ele anda na calçada, atravessa a faixa de pedestres, vai ao supermercado, faz suas compras e volta. Sem problema, sem ter que subir ou descer degraus. O sistema de transporte aqui não é muito bom. O ônibus não funciona bem. Você até consegue ir para a cidade de ônibus. Mas é meio precário. Outro dia um político quis promover uma melhora grande no sistema ferroviário. O trem aqui funciona de uma forma interessante, mas termina custando caro. Em Natal não tem trem. Fui criado em frente à linha do trem. Meu pai sempre comentava que o trem era o sistema de transporte mais econômico, onde muito mais gente poderia ser transportada. Cadê o trem no Brasil? Tem trem em Londres e na Europa inteira.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como é aí com relação a corrupção?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; -  A Nova Zelândia é um dos países de mais baixa corrupção no mundo. Outro dia estavam querendo construir um ginásio na beira da praia, para a copa do mundo de rugby. Esse ginásio ia ser metade dentro d'água e metade fora. A copa do mundo de rugby será realizada esse ano, aqui. Teve passeata de tudo o que foi jeito na rua, contra a construção do ginásio. A população não deixou construir o ginásio. Outra: a Petrobras está querendo explorar petróleo aqui. Tem passeata na rua direto. Sai na TV direto que o povo não quer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Enquanto isso, em Natal – não apenas pelo que vai ser gasto na construção de um novo estádio de futebol, mas pelo valor histórico – vão derrubar o Machadão e a população assiste a tudo anestesiada.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Exatamente. Sou completamente contra. O meu pai, que foi da Procuradoria da Fazenda e completou 75 anos, está doente com essa história. Aqui a comunidade tem força, os políticos dão uma segurada quando ela se mobiliza contra algo. Outra coisa interessante é que eles aqui estimulam que o cliente faça o seu atendimento bancário pela Internet. Se você for ao caixa do banco resolver qualquer problema, tem que pagar uma taxa. O sentido é evitar as filas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Uma ideia dessas poderia vingar no Brasil. Não pelo interesse em evitar filas, mas pela possibilidade de se criar uma nova taxa.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – (risos) Pois é. Nem tinha pensando nesse ponto. Aqui, praticamente não tem fila em lugar nenhum. No banco ou no correio, tem uma fila de três ou quatro pessoas. No supermercado é difícil ter fila. Em se comparando salário e gasto, a nossa vida aqui não é muito diferente de quando morávamos no Brasil. Recebo salário como um professor de ginástica. Professor já recebe mal. De ginástica olímpica, nem se fala.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Provavelmente o professor, aí, é mais valorizado do que no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É mais valorizado e respeitado. O salário deve ser um pouco maior. O meu, de técnico ou professor de ginástica olímpica, deve ser mais ou menos a mesma coisa. Minha vida aqui é normal, praticamente igual a que eu vivia no Brasil. Não tem muita diferença.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você poderia falar um pouco mais a respeito de como o neozelandês trata suas crianças?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os pais buscam passar responsabilidade para os filhos desde cedo. Por exemplo: se os pais estão andando em uma rua movimentada com seus filhos, eles não dão a mão, como no Brasil. A criança anda sozinha. Se tornam independentes mais cedo, com o apoio dos pais. Outra coisa interessante é que, quando nasce um filho, o pai tem direito a uma licença no trabalho de seis meses. Pode pedir essa licença para ficar junto da família naquele momento importante. Muitas vezes a mãe volta a trabalhar e o pai fica cuidando da criança, em casa. Família tem um valor absurdo. Outro dia liguei para o trabalho para dizer que não ia, pois minha filha estava doente. Eles aceitam numa boa. Muitas vezes quando as pessoas estão um pouco mais cansadas, dizem que precisam viajar com a família e são liberadas do trabalho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É uma atitude inteligente. O empregado cansado rende bem menos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E ele vai se sentir bem. Outra coisa é a universidade paga. Aqui só tem universidade paga. Como o jovem depois dos 16 anos já pode trabalhar, ele pode pagar a sua universidade. É o oposto do Brasil. Aqui o ensino básico é gratuito e de qualidade. A universidade é paga. A criança não ganha dinheiro, mas o adulto ganha e pode pagar seus estudos. A maioria dos símbolos que representam a Nova Zelândia vem da cultura maori. Eles valorizam muito o indígena. Lógico que alguns fazem chacota, dizem que o maori é preguiçoso, que trata mal, chama palavrão... Tem a questão racial também. Os maoris são marrons, como o nosso caboclo. No Brasil eu sou branco, aqui sou marrom. Mas preconceito, não tem. Fazem brincadeira, como todo mundo faz. Eles abrem os programas de televisão com uma saudação em maori. As crianças na escola aprendem algumas palavras e a contar em maori.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado para os seus conterrâneos que ficaram em Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;FLAMÍNIO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A saudade é grande. Andei pensando em tanta coisa pra dizer... Não é porque eu e você saímos de Natal que deixamos de gostar da cidade. É importante que as pessoas saibam que existe Natal e que Natal é um lugar magnífico para se viver. Mas não podemos esquecer que existe o Brasil, e que o Brasil também é um lugar magnífico pra se viver. Quer dizer: viaje, conheça o Brasil nas oportunidades que tiver, e depois volte para Natal com as informações recolhidas, para ajudar na construção de uma cidade melhor. Podemos viajar através de livros, de ônibus ou avião. Podemos conhecer lugares bastante diferentes. Depois de conhecer o Brasil, devemos lembrar que existe um mundo. As proporções vão sempre aumentando. E nós vivemos nesse mundo. Devem existir outros planetas por aí. No futuro, nós – ou os nossos descendentes - poderemos visitá-los. Lá chegando, devermos ter orgulho de dizer que a terra é um lugar muito bom de se viver. Então, a perspectiva é: Natal é um lugar magnífico pra se viver; o Brasil, da mesma forma; o mundo também. Nos países que visitei, sempre fui bem recebido: Inglaterra, Nova Zelândia, Portugal... Devemos sempre procurar crescer e disponibilizar para nossa a terra as boas experiências que aprendemos. Um exemplo: hoje vivo um pouco angustiado porque meu pai hoje está velho e continua dirigindo. Como será que ele está sendo tratado no trânsito de Natal? Nesse sentido, gostaria de deixar uma mensagem: dirija como se sua mãe estivesse dirigindo o carro ao lado. Eu amo Natal, acima de tudo. &lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-V5hie8HY9FM/TgMrxgLVJvI/AAAAAAAAAp4/oB8BPLx0d3c/s320/Botanic%2BGarden%2BAuckJan2010Familia%2B066.JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621384889339553522" style="display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 238px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-772430983152456334?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/772430983152456334/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/06/blog-post.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/772430983152456334'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/772430983152456334'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/06/blog-post.html' title='Entrevista: Flamínio Oliveira'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-6czN6TYWObE/TgMqc9xZDLI/AAAAAAAAApA/U3uRw9hhDOs/s72-c/Foto%2BLunaBlancoOliveira.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-8448806706666108733</id><published>2011-05-25T17:20:00.076-03:00</published><updated>2011-05-25T17:39:17.373-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='MA'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fotografia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='DF'/><title type='text'>Entrevista: Roque de Sá</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-vzdpYJfQ8pQ/Td1lB_cng1I/AAAAAAAAAn0/A1YPl-nEI84/s1600/roque.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;REPÓRTER FOTOGRÁFICO EM TEMPO REAL&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Essa entrevista com Roque de Sá já deveria ter ocorrido há alguns meses. Chegamos a marcar &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-DAxCp1Hq6po/Td1lgxaUgoI/AAAAAAAAAn8/3G5mbTC57o4/s1600/roque1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5610752324467458690" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 212px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-DAxCp1Hq6po/Td1lgxaUgoI/AAAAAAAAAn8/3G5mbTC57o4/s320/roque1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;dia e hora. Nós dois comparecemos, mas, na hora “H”, Roque desconversou. Dessa vez não houve&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-E7m2_WoUNOg/Td1lBf8rq0I/AAAAAAAAAns/-BU8j21-B34/s1600/roque1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-E7m2_WoUNOg/Td1lBf8rq0I/AAAAAAAAAns/-BU8j21-B34/s1600/roque1.jpg"&gt;&lt;/a&gt; escapatória. Eu e o repórter fotográfico Waldemir Rodrigues o cercamos aqui de Brasília. Os jornalistas Roberto Fontes e Costa Júnior, via Internet, aumentaram a marcação, direto de Natal. E o repórter fotográfico maranhense Roque de Sá não teve como escapar. Valeu a pena organizar essa força-tarefa digna de capturar até foragido da Justiça. Roque – e é bom que se diga que ele não deve nada à Justiça -, enfim, contou a sua história. A conversa também pode ser conferida no site &lt;a href="http://zonasulnatal.blogspot.com/"&gt;http://zonasulnatal.blogspot.com/&lt;/a&gt; As fotos são de Victor Soares, dono da Agência Victor Press. (&lt;a href="mailto:robertohomem@gmail.com"&gt;robertohomem@gmail.com&lt;/a&gt;)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Onde você nasceu? Como foi sua infância?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; - Nasci no maranhão, em um lugar chamado Lago dos Rodrigues. Era distrito do município de Lago dos Juncos. Hoje Lago dos Rodrigues já é cidade. Na minha infância eu cortava e cambitava cana. Quer dizer, eu cortava a cana e depois transportava no lombo de um jumento até o engenho. Lá era feita a rapadura e a cachaça. Meu pai se chamava Francisco França de Sá. Minha mãe era Sebastiana Moreira de Sá. Eu também trabalhava moendo a cana e enchendo o tacho para fazer a rapadura. Com tanta atividade, tinha que acordar cedo, geralmente de madrugada. Em compensação, eu também dormia cedo. Até porque não tinha muita coisa para fazer à noite. Sequer tinha televisão na minha casa. Minha infância foi de muito trabalho e quase nenhuma diversão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – De lá você foi para onde?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Para São Luís.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Por que a mudança?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Meu cunhado e minha irmã moravam em São Luís... Ele se chamava Bezerra. Esse meu cunhado já morreu. Como sou da rama final da família, os outros são bem mais velhos. Fui morar com meu cunhado, minhã irmã e meus sobrinhos para ter oportunidade de estudar e trabalhar. Na verdade, fui mais para trabalhar do que para estudar. Meu cunhado tinha um foto.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Apesar de São Luís ser uma cidade pequena naquela época você sofreu algum impacto em ir morar na capital do seu estado?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não tive dificuldade. O que mais me impressionou em São Luís foram umas cercas vivas que o pessoal cortava em formato de animais. Fiquei curioso para saber como aquilo era feito. O resto achei tudo normal. Sou muito adaptável.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Antes de eu interrompê-lo, você estava dizendo que seu cunhado era dono de um foto...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Sim, e eu fui trabalhar com ele. Nesse tempo se ganhava dinheiro com foto três por quatro. Antes de mexer com fotografia, meu cunhado foi pedreiro no interior. Ainda no interior, ele montou um foto. Depois mudou para São Luís, com a minha irmã. O três por quatro foi um grande filão da fotografia. Hoje não tem muita importância, mas, naquele tempo, tinha. No laboratório do meu cunhado aprendi os primeiros passos da profissão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Descreva o seu trabalho nesse laboratório fotográfico.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Eu fazia de tudo um pouco: atendia no balcão, batia fotografia três por quatro... Mas o principal era o trabalho no laboratório. Nesse tempo a fotografia era em preto e branco e a revelação era manual. A gente contava o tempo para a revelação. Já devia existir relógio nesse tempo (risos), mas lá a gente não usava. Contava até cem e recomeçava várias vezes, para dar o tempo certo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nessa sua fase de aprendiz aconteceu algo que mereça ser citado? Alguma foto perdida ou um elogio inesperado?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em laboratório acontece, às vezes, de a pessoa perder um filme, estragar alguma coisa. Mas nesse tempo não lembro de ter acontecido. Mas recordo de um fato diferente. Até há bem pouco tempo não havia preocupação com a ventilação nos laboratórios. Era terrível passar horas trancado ali dentro, com aquelas químicas todas. Como não havia ventilação ou circulação de ar, às vezes o cara saía branco de dentro do laboratório. Uma vez, colocando a foto pra revelar (a foto estava demorando pra aparecer porque tinha sido dada pouca exposição), virei as costas pra trás e desmaiei. Foi a primeira e única vez que desmaiei. Quando acordei, estava caído no chão e a fotografia estava preta, dentro do laboratório. Devo ter ficado desmaiado pelo menos uns dez minutos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Além de trabalhar nesse laboratório fotográfico você estudava?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; - Estudava à noite no Colégio Cardoso Amorim. Lá fiz o ginásio, mas aprendi quase nada. Não tinha nada pra aprender. Foi como se eu continuasse sem ter estudado. No interior onde eu morava, era mato mesmo. O colégio ficava tão longe que quando a gente saía pra ir ao colégio, quando chegava lá, já estava na hora de voltar pra almoçar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Voltemos, então, a São Luís.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Tá. Depois do foto do meu cunhado, onde permaneci muito tempo, saí e fui trabalhar no Foto Sombra. Uma outra irmã minha foi também pra São Luís... Vários de minha família &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-KYZ-IhggI3Q/Td1lhpobYLI/AAAAAAAAAoE/1WbLJlJUHh8/s1600/roque.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5610752339559014578" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 212px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-KYZ-IhggI3Q/Td1lhpobYLI/AAAAAAAAAoE/1WbLJlJUHh8/s320/roque.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;foram. Se não fosse esse meu cunhado, eu estaria até hoje fazendo rapadura e utilizando o mesmo método artesanal que aprendi na infância. Então fui morar com essa outra irmã, que abriu uma lanchonete, mas o serviço da lanchonete não era suficiente pra manter a mim e a ela. Então, de manhã cedo eu ajudava na lanchonete e depois ia trabalhar no Foto Sombra. Fiquei no laboratório durante um tempão. Depois disso, na sequência, meus pais venderam o sítio no interior e compraram um terreninho em São Luís. A gente construiu uma casinha e montei um fotinho lá também. Era uma merceariazinha e um fotinho três por quatro, tudo pequeno. Fiquei com esse foto durante um tempo, naquele bairro de periferia. Como tinha um irmão que morava em Brasília, depois mudei pra capital do país.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quer dizer que esse irmão abriu caminho para sua vinda.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Gabriel era o nome do meu irmão. Ele já morreu. Éramos oito filhos: quatro homens e quatro mulheres. Dois dos homens já morreram.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Já se falava em José Sarney na época em que você morou no Maranhão?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Sim, claro. Na época em que eu morava lá, minha família votava em Epitácio Cafeteira, que era adversário político ferrenho de Sarney. Na política, você sabe, as pessoas inventam muitas histórias. Comentavam que Cafeteira, quando foi prefeito de São Luís, asfaltava uma rua e o governador mandava a Companhia de Águas cortar o asfalto todo, para atrapalhar a vida do adversário.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você chegou a fazer fotojornalismo em São Luís?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você chegou em Brasília na época da construção da cidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não. Vim pra cá em 1979. Ao chegar trabalhei na Gráfica Horizonte. Vim para Brasília com 28 anos. Antes de vir, estagiei no laboratório de fotolito do jornal O Imparcial. Passei um mês. Aprendi um pouco e vim para Brasília. Na Gráfica Horizonte fiz esse mesmo trabalho. Nesse meio tempo, outro irmão meu, que trabalhava em São Luís n'O Imparcial, veio para Brasília e começou a trabalhar no Jornal de Brasília. Por intermédio dele fui trabalhar lá também, no laboratório. Fiquei um ano e meio no laboratório e depois trabalhei mais seis anos como fotógrafo. Entrei no Jornal de Brasília em 1980. Em 1981 tirei o registro de fotógrafo. Fiquei por lá até 1986.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;u&gt;ZONA SUL&lt;/u&gt;&lt;/strong&gt; – Contam que nessa época você também atuou como ator pornô. Fez sexo explícito ao vivo em teatros. Isso é verdade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Eu inventei essa história por brincadeira. Andei contando que tinha feito esses shows no Conic. Como essa mentira não fez muito sucesso, desisti.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Trabalhando na rua, cobrindo pauta e fotografando, o que você destacaria nesse período do Jornal de Brasília?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quando comecei como repórter fotográfico fiquei todo orgulhoso. Achava que podia &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-vzdpYJfQ8pQ/Td1lB_cng1I/AAAAAAAAAn0/A1YPl-nEI84/s1600/roque.jpg"&gt;&lt;/a&gt;ajudar a mudar o mundo. Essa ilusão é comum no princípio. Mas a primeira grande decepção não demorou. Fui fazer uma matéria sobre uns prédios que tinham sofrido rachaduras depois de &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-vzdpYJfQ8pQ/Td1lB_cng1I/AAAAAAAAAn0/A1YPl-nEI84/s1600/roque.jpg"&gt;&lt;/a&gt;umas chuvas. As garagens tinham ficado alagadas, essas coisas. O prédio era do Wigão, o ex-deputado de Brasília Wigberto Tartuce. Fui com o repórter. De repente o assessor de imprensa chamou o repórter pra conversar. Continuei fotografando. Nisso ouvi o dono de um apartamento reclamar a Wigão que aquela inundação desvalorizaria seu apartamento. Wigão respondeu que era besteira e se ofereceu para comprar o apartamento pelo mesmo valor que o cara tinha pago. Wigão disse mais: falou que bastava ele pagar um anúncio de primeira página no jornal que a situação se reverteria. Ouvi aquilo e fiquei na minha, certo de que aquela afirmação era lorota dele. Mas não era. No dia seguinte a matéria saiu, mas totalmente diferente da realidade. O texto foi publicado de forma amenizada, quase que favorável ao prédio. Essa foi a primeira decepção que tive com o mundo do jornalismo: perceber que muitas vezes o interesse comercial se sobrepõe totalmente ao jornalismo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O repórter negociou seu texto?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Não foi isso. Depois falei com o repórter e ele me garantiu que a matéria que escreveu era completamente diferente. A direção é que tinha mudado. Fiquei frustrado. Outra frustração foi quando escrevi algumas matérias. Como eu estava sozinho, fiz as fotos e resolvi também escrever. Um jornalista chamado Bartô me ajudou a redigir. Praticamente ele redigiu sozinho (risos). Publiquei a foto e a matéria. Não lembro o assunto, mas fiquei entusiasmadíssimo por ter conseguido emplacar texto e foto. Foi bem no começo de minha carreira como repórter fotográfico. Pouco depois, novamente fiz texto e fotos sobre uns feirantes trabalhando no prédio da administração do Governo do Distrito Federal. A matéria foi publicada, as fotos não. Fiquei mais alegre ainda. Pensei que depois disso eu viraria repórter. Porém, conversando com um jornalista petista daqueles roxos, contei empolgado que tinha conseguido emplacar dois textos. Ele jogou o maior balde de água fria. Argumentou que se eu começasse a fotografar e a escrever e os repórteres também passassem a fotografar, ia diminuir o número de vagas na imprensa. Eu constatei que ele tinha razão e parei de escrever. Hoje me arrependo, mas durante muito tempo achei que o cara estava certo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Fale de algumas coberturas marcantes das quais você participou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Na época em que trabalhei no Jornal de Brasília, a cobertura de carnaval era feita basicamente através de fotografias. Texto tinha pouco. A gente passava as noites de clube em clube, trabalhando. Certa sexta-feira de carnaval fui ao Iate Clube. O editor havia recomendado que eu fizesse umas fotos durante a madrugada, quando as mulheres costumavam tomar banho de piscina. Nesse dia eu fiz uma coisa errada: bebi uma cervejinha enquanto fotografava. Foi um deslize que um profissional não pode cometer. Depois dessa experiência, nunca mais repeti o erro. Mas, voltando a história, lá pras tantas vi uma mulher tomando banho na piscina. Fui lá fotografar. Só estávamos nós dois naquele ambiente. Ela dentro, tomando banho, e eu fora, fotografando. De repente chegou um segurança, já valente, dizendo que eu não podia fotografar os foliões tomando banho de piscina. Respondi que se alguém estava fazendo algo de errado era a moça, que estava tomando banho na piscina. Eu apenas estava registrando. O cara me deu um safanão e eu fiquei aborrecido. Ele ameaçou me levar na diretoria. Mas naquele instante, quem estava querendo ir à diretoria era eu, para reclamar do tratamento que aquele segurança tinha me dispensado. Fomos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – E então, o que aconteceu na diretoria?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Antes que saíssemos do local, chegou um diretor enorme. Denunciei o segurança por ele ter me agredido. Esse diretor sugeriu que fôssemos até o seu gabinete. Receoso que ele quisesse me levar para um local sem testemunhas para que os seguranças me dessem porrada, insisti em fazer a reclamação ali mesmo. Eu estava com a minha máquina na mão. De repente, &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-eb23uBdu-jw/Td1miMzJ2pI/AAAAAAAAAos/vB_eBi4grDc/s1600/Foto%2BVictor%2BSoares1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5610753448510872210" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 212px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-eb23uBdu-jw/Td1miMzJ2pI/AAAAAAAAAos/vB_eBi4grDc/s320/Foto%2BVictor%2BSoares1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;aquele diretor que parecia um guarda-roupa pegou no meu ombro e apertou. Quando senti que ia apanhar, segurei firme a máquina e acertei o queixo dele. O diretor caiu por cima de umas mesas. Formou-se aquele rolo todo. Durante o embate com os seguranças, quando um deles estava me apertando o pescoço, a mulher a quem eu havia fotografado apareceu e pediu a máquina. Passei a máquina para ela, até para poder me defender melhor. Os seguranças pararam de bater e me levaram para outro setor. Perguntei se eu estava preso. Um segurança disse que eu estava retido, que não podia sair. Perguntei pelo meu equipamento fotográfico. Fui informado que estava guardado. Quando o dia amanheceu, o diretor a quem eu tinha acertado um direto no queixo, com a máquina, me chamou. Ele propôs que nem eu nem ele denunciássemos o caso na delegacia. Ele mostrou a marca que o golpe que eu dei tinha deixado em seu rosto. Pegou ponto e tudo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você topou o acordo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nada. Expliquei a ele que não podia concordar com a proposta, já que eu estava &lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-fM7c0BHVAI0/Td1lh86fktI/AAAAAAAAAoM/9M8K8K0x0BA/s1600/Foto%2BVictor%2BSoares.jpg"&gt;&lt;/a&gt;naquele clube à trabalho e que tinha a obrigação de levar o assunto para o jornal. Como eu estava lá a mando do jornal, não me vi no direito de negociar privadamente aquele acordo. Perguntei de novo pela minha máquina. Ele disse que estava guardada. Só que, como não topei o acordo, quando pedi a máquina, disseram que ela tinha sumido. O equipamento não pertencia ao jornal, era meu. Sumiu. Liguei para meu irmão e ele foi me buscar. Do clube fomos direto à delegacia. O delegado não queria deixar que eu prestasse queixa alegando que alguém do clube já havia me denunciado. Disse que posteriormente eu seria chamado para me explicar. Não aceitei aquilo e, depois de insistir muito, fiz a minha queixa. Porém, não consegui recuperar o meu equipamento. Fui buscar apoio do Sindicato de Jornalistas. Lá sofri outra decepção. Na época o presidente era Hélio Doyle. Depois que contei a história, ele prometeu falar com o presidente do clube. Mas não fez absolutamente nada. Também pedi ajuda ao chefe da fotografia do jornal, já que eu estava a serviço quando tomaram o meu equipamento. Também não aconteceu nada. Depois de um ou dois anos, pedi permissão ao meu chefe para ir falar com a diretoria do jornal. Peguei a diretoria toda reunida e contei a história. Eles compreenderam e me deram o dinheiro para eu comprar um equipamento equivalente ao que tinham me tomado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – De uma certa forma, além do ato de violência o clube praticou um assalto contra você. O jornal publicou alguma coisa sobre esse assunto?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nada. Foi mais uma decepção que tive com o mundo do jornalismo. Nem o editor que me pautou para fazer aquela foto quis se responsabilizar por alguma coisa. Todo mundo correu fora. Se eu tivesse feito o acordo com o cara, provavelmente ele teria me devolvido o equipamento. Eu era ingênuo, achava que o jornalismo era baseado em princípios e, por isso, não me senti no direito de fazer aquele acordo particular, sem a participação do jornal. Outra história interessante foi quando um morto-vivo correu atrás de mim em uma garagem do Setor Comercial Sul de Brasília.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Como foi isso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Esse cara tinha problemas sérios com a Justiça. Ele era conhecido como morto-vivo por ter cometido um assassinato e forjado sua própria morte, trocando de identidade com alguém já falecido. Até então, ninguém conseguia provar que esse assassino estava vivo, embora já houvesse a suspeita. O Jornal de Brasília descobriu que ele tinha um escritório no Setor Comercial. O Correio Braziliense também estava correndo atrás dessa história. Fui com o repórter procurar esse cara e ele tinha acabado de sair do escritório. Descemos para a garagem e o encontramos. O repórter começou a fazer perguntas e ele passou a responder que não tinha nada a ver com a história. No mesmo instante, fiz umas fotos. Naquele ambiente, e com os recursos dos equipamentos da época, eu já sabia que as fotos não sairiam boas. Mas comecei a fotografar para intimidar o cara. Acabei provocando a ira do “morto-vivo”. Ele saiu correndo atrás de mim, tentando me pegar dentro do estacionamento. Usando o argumento de que já sabíamos de tudo e tínhamos até fotografias dele, o repórter terminou convencendo o cara a dar a entrevista para o Jornal de Brasília. Subimos até seu escritório, conversamos, e eu fiz várias fotos. No outro dia o Jornal de Brasília deu um grande furo no Correio Braziliense. Publicamos uma foto grande na primeira página com a manchete: “Morto-vivo fala”. O Correio deu a notícia “Morto-vivo some”. Eles tinham corrido atrás do cara sem conseguir alcançá-lo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Depois do Jornal de Brasília você foi para onde?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Fiquei um tempo desempregado. Frilei um pouco n'O Globo, na Folha, no Estadão e depois trabalhei na sucursal do Estado de Minas, em Brasília, durante três anos. No período em que estive desempregado, de tanto as pessoas perguntarem o que eu estava fazendo, terminei cansando de dizer que estava desempregado e passei a responder que tinha criado uma agência. Começou a pegar, essa história de agência. Então passei a encarar aquela conversa com maior seriedade. Quando você diz que está desempregado, as pessoas se afastam um pouco. Quando você diz que tem uma agência, o impacto é outro. É mais interessante dizer que tem uma agência. Só que, nessa brincadeira, terminei montando uma agência e continuo com ela até hoje. Inclusive, por falta de tempo para achar um nome para agência, coloquei o nome de Agência Tempo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Isso foi quando?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em 1986 eu saí do Estado de Minas. A agência foi criada em 1988. Depois, mais recentemente, trabalhei na Agência Senado. O serviço da Agência Tempo andava meio devagar e senti necessidade de arrumar alguma coisa. O amigo fotógrafo Roosevelt Pinheiro me avisou que surgiria a vaga no Senado. Quando a vaga apareceu, fui lá e terminei sendo contratado. Trabalhei um período, até os serviços da Agência Tempo se normalizarem. Foi quando pedi demissão da Agência Senado para me dedicar à Agência Tempo. O período no Senado foi legal porque conheci muita gente boa, como vocês dois (Roberto Homem e Waldemir Rodrigues), além de outros tantos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Na Agência Tempo você realizou trabalhos para alguns políticos do Rio Grande do Norte. Como foi a experiência?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – A primeira experiência foi no final no segundo mandato do governador Garibaldi Alves Filho. Rubens Lemos era o subsecretário de Comunicação Social. O contato foi com ele. No ano seguinte, Wilma Faria assumiu o governo e Rubinho foi nomeado secretário de Comunicação. Ele me convidou e continuei fazendo toda a cobertura fotográfica das vindas da governadora a Brasília. Depois fui contratado também para fazer a cobertura em vídeo. Pela necessidade, passei a estudar uma forma de transmitir vídeos de boa qualidade pela Internet. O interessante é que o mundo demora a evoluir porque as pessoas sentem dificuldades de mudar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Como assim?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; - A princípio eu transmitia os vídeos pela Embratel. Eu gravava a matéria, levava a câmera na Embratel. Uma emissora de televisão de Natal agendava um horário, por exemplo, das 17 horas às 17h10min. Eu chegava antes, plugava, testava, via como estava o sinal e deixava tudo pronto, aguardando chegar o horário previamente acertado. Quando dava 17 horas, começava o processo sem sequer saber se aquele vídeo estava mesmo sendo transmitido e se estavam recebendo. Se houvesse qualquer falha, não tinha outra chance. Tinha que resolver naqueles dez minutos. Ao final é que telefonava para saber se o vídeo havia chegado. Se houvesse qualquer problema, o jeito era comprar outro horário para mandar de novo. Era um sistema bastante ultrapassado. Então desenvolvi um esquema de transmitir pela Internet. Falei para Rubinho, mas ele foi resistente à ideia, por achar que não ia funcionar. Continuei transmitindo pelo modelo antigo. Um dia liguei para o pessoal que recebia o vídeo na televisão, era a TV Ponta Negra. Procurei falar com um técnico. Fizemos um teste: transmiti um vídeo de poucos segundos que eu já havia enviado no dia anterior, pela Embratel. Dez minutos depois telefonei e o técnico disse que a qualidade estava até melhor. Anotei o nome dele e telefonei para a Secretaria de Comunicação Social. Falei com a subsecretária Cledivania Pereira. Contei a história do teste e pedi para ela entrar em contato com o técnico. O resultado é que a partir da viagem seguinte da governadora a Brasília, passei a enviar os vídeos pela Internet. Mas até hoje ainda encontro algumas pessoas que resistem a adotar esse sistema.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Vamos falar um pouco sobre a Agência Tempo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Fundei a Agência com um sócio, França, meu irmão. Ele já morreu. Era jornalista e um bom repórter fotográfico. Trabalhou no Jornal do Brasil e n’O Globo durante muito tempo. Apesar de grande repórter fotográfico, ele era mais fazendeiro. Então a minha sociedade com ele não deu certo. Quando acabou, fiquei de novo sozinho, na batalha. Hoje a Agência Tempo tem estrutura e capacidade para desenvolver uma excelente cobertura jornalística para quem precisa desse serviço em Brasília.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Quais os serviços a Agência Tempo tem a oferecer?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em resumo, trabalhamos com foto, texto, vídeo e áudio. Nosso público-alvo são governos, prefeituras, parlamentares ou até mesmo empresas que precisam de cobertura jornalística aqui em Brasília. Quem necessitar de cobertura jornalística na capital do país para divulgar na sua cidade ou estado, a Agência Tempo está à disposição. Nós fazemos um trabalho jornalístico. Não atuamos como lobistas ou coisa do gênero. Muitas vezes uma autoridade - um governador, por exemplo - vem a Brasília e consegue bons resultados para o seu estado. Mas só que como essa viagem não é divulgada, o povo nem fica sabendo que ele veio trabalhar em benefício daquele estado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Você dizia que a Agência produz a foto, o texto, o vídeo e o áudio. Depois desse material pronto, como ele é distribuído?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Vou citar como exemplo o caso do Rio Grande do Norte. Aliás, nós da Agência Tempo estamos à disposição da governadora Rosalba Ciarlini e do seu secretário de Comunicação, Alexandre Mulatinho, para, quem sabe, renovar a parceria com o Estado. Mas, como eu dizia, o processo funcionava assim: depois de todo o material produzido ele era disponibilizado no site e baixado pela Secretaria de Comunicação Social, que distribuía para os veículos do estado. Às vezes a própria emissora de televisão entrava no site e baixava, quando autorizado pela Secretaria. O ideal é a equipe da Secretaria fazer o download, até porque às vezes o cara da TV não está muito disposto a fazer aquilo, e tal. O grande lance é que o material é produzido rapidamente. Quando uma audiência acontece às 10 horas, por exemplo, eu já libero o material entre 10 e meia e 10h40. Esse material todo é baixado em menos de 10 minutos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Mudando um pouco de assunto, você tem grande interesse pela Idade Média. Como é isso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Recentemente andei lendo um pouco sobre a Idade Média e me surpreendi. Para mim a Idade Média ainda não acabou. Defendo a teoria de que ainda estamos na Idade Média. Se você ligar a televisão e ficar acompanhando o noticiário, vai relacionar muita notícia de hoje com o que ocorria na Idade Média. Lógico que alguma coisa mudou, sobretudo no que diz respeito a tecnologia. Mas, com relação ao comportamento humano, tudo ainda é muito parecido. Hoje a gente toma banho mais vezes do que as pessoas daquele tempo. Mas, fora isso, pouco mudou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Nesse aspecto de banho, dizem que os franceses nem mudaram tanto assim...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – (risos) Pois é. Dia desses li na Internet o caso de uma menina de 14 anos que foi chicoteada até a morte porque teve relações sexuais com um primo de uns 40 anos. Detalhe: esse primo a sequestrou e fez sexo com ela a força. Isso não é típico de Idade Média? Também me surpreendeu descobrir que até o início desse século os animais que “cometiam crimes” eram julgados. O último julgamento registrado ocorreu em 1906. Foi ontem! Um cachorro foi julgado na Suíça. Em 1836 uma porca foi condenada à forca por ter assassinado uma criança. A execução foi em Praça Pública e o carrasco fez o seu trabalho usando um par de luvas brancas, devido a importância que se dava a esse tipo de solenidade. Em alguns países do Oriente ainda existem execuções públicas. Até nos Estados Unidos a pena de morte continua em vigor.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – O que você pretende fazer com as informações que recolheu a respeito da Idade Média?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Gostaria de fazer um filme. Talvez um documentário fazendo uma comparação com os dias de hoje. O filme mostraria que a Idade Média não acabou. Também seria interessante dar aulas sobre a Idade Média para ver se as pessoas começam a aprender com os erros do passado. Lembrei de outra situação chocante: meninas africanas criadas na Europa são levadas para o seu país de origem quando completam certa idade com o objetivo de serem submetidas a uma cirurgia para extrair seu clitóris. Os próprios pais levam. É um absurdo! É um comportamento atual que se entrelaça, se entranha com a Idade Média. A violência no Brasil é outro exemplo. Vejo comentaristas ditos inteligentes denunciarem na televisão que a violência está crescendo e tal, mas nenhum deles analisa de onde vem essa violência. É absurda a cegueira dessas pessoas. Enquanto se combate a violência no varejo, na ponta, ela está se construindo a partir do abandono das crianças. É enorme a quantidade de meninos na rua cheirando e fumando crack. Não existe um esforço para reverter essa realidade. Deveria ser prioridade nacional. Se um menino fica na rua, é certo que ele vai usar drogas e cometer crimes. Por que então o governo deixa esses meninos na rua? Recentemente a Globo mostrou imagens de um carro de polícia passando perto de meninos cheirando crack sem fazer nada. A notícia criticava como se a polícia pudesse fazer alguma coisa. O que ela poderia fazer? Dar uma volta com ele e soltar novamente? Não há opção. Falta um projeto, não existe nada. Enquanto isso a violência aumenta a cada dia sem ninguém se dar conta do motivo principal. É de uma ignorância muito grande.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Qual seria a solução para esse problema?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Primeiro tinha que acabar essa história de “criança de rua”. No máximo poderíamos admitir “criança na rua”. Uma criança perdida temporariamente do pai, ou coisa parecida. Criança que se desgarrou temporariamente do responsável, mas não vai demorar muito tempo lá. Votei no PT até Lula se eleger presidente. Eu tinha certeza que quando ele fosse eleito retiraria as crianças da rua. Ao contrário, a situação piorou. Foi uma grande decepção.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ZONA SUL&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;strong&gt;ROQUE&lt;/strong&gt;&lt;/u&gt; – Em 2007 fui a Natal. Confesso que, antes de ir, eu tinha o receio de encontrar uma cidade suja. Surpreendi-me favoravelmente. Achei foi uma cidade limpa, bonita e bem cuidada. Passeei pelo litoral e fiquei fascinado. Gostei muito da cidade. Quero deixar um abraço a todos os que acompanharam a entrevista ao vivo pela Internet e também para os que agora estão lendo nas páginas do jornal. Um brinde a todos!&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5610752855937579570" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 212px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-Xgg8NNRM54A/Td1l_tSq-jI/AAAAAAAAAoc/L5omybjnDoQ/s320/Foto%2BVictor%2BSoares.jpg" border="0" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-8448806706666108733?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/8448806706666108733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/05/entrevista-roque-de-sa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/8448806706666108733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/8448806706666108733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/05/entrevista-roque-de-sa.html' title='Entrevista: Roque de Sá'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-DAxCp1Hq6po/Td1lgxaUgoI/AAAAAAAAAn8/3G5mbTC57o4/s72-c/roque1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-7332439200704791207</id><published>2011-04-27T20:38:00.008-03:00</published><updated>2011-04-28T09:04:44.673-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='poeta'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Música do RN'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='artista plástico do RN'/><title type='text'>Entrevista: Antonio Ronaldo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: 27px; "&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;O MILITANTE DA MÚSICA E DA POESIA POTIGUAR&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="CENTER" style="text-align: justify;margin-bottom: 0cm; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-u9LcWwbQQHw/TbisLFduN5I/AAAAAAAAAms/SooDU-PFpCI/s320/ronaldo2.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600415443080591250" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="text-align: left;margin-bottom: 0cm; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Direto do Fórum da Zona Sul de Natal, estavam lá &lt;/span&gt;Ronaldo Siqueira, Joacy Diniz e Carlos Antônio. Do ramo jornalístico, eu, Roberto Fontes e Costa Júnior. Representando a música potiguar, Geraldinho Carvalho e Ricardo Menezes, o dono do Veleiros, local onde se travou a conversa. Todos reunidos para esmiuçar a vida do poeta e compositor Antonio Ronaldo, que levou o amigo José Gilson para participar do blablablá. As canções de Antonio Ronaldo representam importante capítulo da boa música potiguar brasileira. Seus poemas dão consistência e ajudam a justificar a fama que Natal tem de cidade de poetas. Durante mais de uma hora Antonio Ronaldo respondeu sem rodeios aos questionamentos do time escalado para arguí-lo. Um resumo do diálogo travado você confere a seguir aqui no jornal ou no site &lt;span&gt;&lt;span lang="zxx"&gt;&lt;a href="http://zonasulnatal.blogspot.com/"&gt;http://zonasulnatal.blogspot.com/&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; (&lt;span&gt;&lt;span lang="zxx"&gt;&lt;a href="mailto:robertohomem@gmail.com"&gt;robertohomem@gmail.com&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;)&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="margin-bottom: 0cm; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale um pouco sobre você.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meu nome é Antonio Ronaldo de Sousa Ferreira. Nasci em Mossoró. A família do meu pai é de lá. Minha mãe é de Catolé do Rocha, na Paraíba.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seus pais continuam vivos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Só a minha mãe. Meu pai era alfaiate e foi cantor de rádio. Era sambista. Seu nome era José Ferreira.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ele também compunha?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nunca tomei conhecimento de nada que ele tivesse composto. Trabalhou na Rádio Difusora, na época em que o rádio tinha “cast”. Os artistas locais faziam o repertório dos artistas nacionais. Meu pai era especializado em samba: Cyro Monteiro, Roberto Silva e Jorge Veiga.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seu pai ensaiava, ou costumava cantar, em casa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – As lembranças que guardo já começam depois que ele saiu da Difusora. Então, nessa época ele já não ensaiava. Mas ainda possuía um violão que havia trocado por um terno que ele próprio costurou. Era um violão bem artesanal, com tarrachas de madeira e tudo. Esse violão animava a família. Ele sempre cantava. Minha mãe, que tinha participado de coral em igreja, também gostava de cantar. Eles faziam duos, interpretavam guarânias, músicas de Cascatinha e Inhana e um repertório diversificado. Às vezes a gente também cantava com eles, na calçada.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como é o nome da sua mãe?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Maria de Lurdes Ferreira. Ela é aposentada do magistério público. Lá em casa somos quatro filhos, dois casais. Rosane, a mais velha, trabalha no Tribunal Regional Eleitoral, na comarca de Dix-Sept Rosado. Rosemeire é professora. Em breve se aposentará. Meu irmão José Ferreira da Silva Júnior é funcionário público do estado. Formou-se em economia, mas não exerce. Ele também gosta de música e toca. Seu filho já está tocando violão também. A gente sempre se encontra pra fazer alguma coisa juntos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seu irmão toca profissionalmente?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Ninguém na minha família atua profissionalmente com música.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nem você?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nem eu. (risos). Não atuo profissionalmente, eu milito organicamente. Vivo para a poesia e para a música. Acho que isso é o que há de mais fundamental na minha vida. Além disso, trabalho para sobreviver. Como diria Caetano, “é um jeito de corpo”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A música, então, seria uma espécie de hobby?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não vejo dessa forma. Não diminuo a participação da música na minha vida, principalmente pela qualidade que procuro imprimir a esse trabalho.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais recordações você traz dos tempos de menino em Mossoró?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não tenho muita lembrança dessa época porque não tive uma infância muito interessante. Comecei a descobrir a vida quando cheguei a Natal, dos 13 para os 14 anos. Fui morar no bairro de Santos Reis. Lá me sociabilizei mais. Em Mossoró, nunca tive muitas amizades, até por não costumar sair. Minha família é ligada em Mossoró. Vou uma vez por ano, com muito esforço. Em 2010, por exemplo, só fui para o aniversário da minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A música começou a existir pra você em Mossoró?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando eu cursava o ginásio, papai pegava o violão e me passava alguns acordes. &lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-uSoi1tj0bc4/TbisLObOn9I/AAAAAAAAAm0/4zBcKmc--4Y/s320/ronaldo3.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600415445486051282" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;Eu repassava esses acordes aprendidos para algumas colegas da escola. O interessante de Mossoró é que eu me correspondia com algumas pessoas em Portugal. Mandei um anúncio para um jornal chamado Diário Popular de Lisboa e passei a receber várias cartas. Uma das correspondentes me mandava poemas. Até então eu não escrevia nada. A primeira vez que fui mexer com música foi para musicar um poema dessa minha amiga. Depois dessa experiência passei a escrever. No começo eu escrevia tudo metrificado, rimado, fazia uma coisa inspirada no cordel. Esse formato facilita muito o trabalho musical.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E Natal?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Quando cheguei a Natal, depois que passei no vestibular, comecei a procurar emprego. Fui trabalhar na Guararapes. Lá já estava escrevendo com intensidade. Eu datilografava tudo o que escrevia e depois formava uns bloquinhos. Estudava à noite e trabalhava na Guararapes quase 50 horas por semana. Mesmo assim, eu vivia na farra. Natal é uma cidade muito convidativa, principalmente na sexta-feira. Tomar um pileque nesse dia é bem fácil. Comecei a faltar ao trabalho muitos sábados. Quando perdia o sábado, perdia também o final de semana remunerado. Devido a esse prejuízo, preferi pedir demissão. Na época, Diógenes da Cunha Lima era professor de um amigo meu. Foi antes de ele ser reitor. Diógenes, que já era influente, me deu uma carta de apresentação para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Peguei carona e fui. Quando cheguei à universidade, que protocolei aquela carta, uma moça disse que eu tinha perdido o calendário de matrícula. Tive que voltar pra Natal desempregado...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Vamos retroceder um pouquinho para você contar como se deu a mudança de Mossoró para Natal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Saí de Mossoró ao concluir o ginásio. Uma irmã do meu pai morava na capital. Junto com a minha mãe, ela e o marido conseguiram uma vaga para eu estudar na ETFRN, que hoje é o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). Cursei o técnico de Estradas. Concluí o curso, mas de uma forma muito irreverente. Nem o estágio eu fiz. Na época as avaliações eram feitas pelo nível médio da turma. Minha turma tinha um acordo que era o seguinte: quem era bom em determinadas disciplinas fazia um esforço para não tirar nota alta. Dessa forma a média ficava menor. Por exemplo: como eu era bom em português, história e geografia, me segurava para que a média fosse suficiente para todo mundo ir sobrevivendo. Quem era bom nas disciplinas técnicas, o que não era o meu caso, puxava o freio de mão, também. Dei-me mal nessa história porque, apesar dessa combinação, não consegui passar em algumas disciplinas. O resultado é que mesmo aprovado no vestibular para jornalismo, em 1976, não ingressei na universidade por não ter concluído o segundo grau. Comemorei com uma farra grande, mas essa festa foi uma farsa. (risos).&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas depois você concluiu o curso...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fiquei mais um ano só para pagar essas disciplinas técnicas. Foi quando entrei na Guararapes. No ano seguinte fiz novo vestibular para jornalismo. Passei, mas permaneci apenas um ano no curso. Ao término desse primeiro ano, eu já estava desencantado, digamos assim, com o curso. Nessa época eu lia biografia de autores e percebia que quase todos tinham cursado direito. Então resolvi fazer o curso de direito, também. Em 1977, acho, entrei no curso de direito. Concluí porque não dava mais para protelar. Eu tinha que terminar algum curso superior. Do contrário eu estaria na malandragem até hoje.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Então vamos retornar ao Rio de Janeiro... Você foi para lá como hippie?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mais ou menos. Não que eu fosse mesmo hippie, mas era bem ao estilo. Eu era um estudante universitário que nas férias escolares pegava a estrada.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A ida para o Rio foi importante para você na área de música e literatura?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Não tive contato nenhum. Apenas perambulei pela cidade e conheci alguns &lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-huSA5X6ayBg/TbisL74FvkI/AAAAAAAAAnE/AQRJDhH7BpQ/s320/ronaldo6.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600415457686699586" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;espaços. Fiquei pouco mais de uma semana, apenas. Ao retornar à Natal, voltei à vida de sempre. Foi quando Carminha Medeiros soube que eu estava sem emprego e disse que tinha uma vaga no grupo de teatro da universidade, que era o Tônus Companhia de Artes Cênicas. O diretor era Carlos Furtado. Na época ele também dirigia o Grupo Expressão, que era o elenco da TV Universitária. Ele marcava todos os ensaios lá na TVU. O músico e compositor Babal andava por lá. Foi quando ele conheceu meus caderninhos e musicou algumas coisas que eu tinha escrito. Naquela época Lelé Alves também estava por aqui. Ela cantou música minha em programa da TVU. Inscrevi uma música no festival da Globo, em Recife. Foi classificada. Defendi essa canção sem nenhum profissional me acompanhando. Contratei um bando de amadores conhecidos e enfrentei. Foi um grande mico. Isso ocorreu possivelmente em 1978. Tenho fotos da apresentação. Nessa mesma época passei a ir aos festivais de Campina Grande. Aí eu já participava com Jorge Macedo, Cleudo...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como se desenvolveu sua veia poética até então?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa época havia o movimento de poesia marginal. Tinha vários grupos, me vinculei ao grupo de João da Rua. Não lembro qual nome tinha, nunca me preocupei com essas denominações. Uma casa na rua do motor funcionava como uma espécie de ponto de encontro. Eu morava na residência universitária. Descia de lá para a Rua do Motor, nas minhas horas vagas, junto com esse pessoal. Lá a gente escrevia e publicava em tabloides. No âmbito da universidade teve um projeto chamado “Laboratório de Criatividade”. Foi Socorro Trindade quem trouxe essa experiência, do Rio de Janeiro. Acho que Diógenes da Cunha Lima era reitor. O projeto foi bem estruturado. Os trabalhos selecionados eram publicados em um jornal mural chamado “Dito e Feito”. Saíram cinco edições com poemas e textos em prosa que a gente produzia. Na época os minicontos eram comuns. Diziam que era uma característica da literatura do período da repressão, de uma geração sem palavras. Era uma coisa lacônica. Acreditava-se que as pessoas tinham poucas leituras. Não sei se era bem isso. Alguns minicontos eram um exercício minimalista tão bem feito, que virava uma coisa muito legal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A censura interferiu no seu trabalho?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu mandava as minhas letras para a censura, mas eles não davam a mínima (risos). A censura tinha olhos para cachorro grande, não pra mim. Mas, voltando ao Laboratório de Criatividade, é interessante ler o livro “Grande Ponto”, uma coletânea dessa produção. Inclui muitas pessoas interessantes. Não vou citar para não esquecer algumas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em algum momento você pensou em abraçar profissionalmente a carreira de escritor ou de artista da música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em determinado momento, me fixei na ideia de ser um compositor. Nos anos 1990 começou a aparecer em Natal a possibilidade de gravar CD, graças ao Profinc (Programa de Financiamento à Cultura) e à própria tecnologia disponível. Através de Cida Lobo e de Geraldo Carvalho, me projetei como compositor. Foi super-gratificante, mas nunca deixei de almejar um estouro nacional através desses artistas. Porém tudo é muito difícil aqui no Rio Grande do Norte. Não sei se prevalece a maldição de Câmara Cascudo: “Natal não consagra, nem desconsagra ninguém”. Se é coincidência ou maldição, não sei, mas é difícil para o artista local ter uma inserção no mercado. Hoje em dia, pra complicar, o mercado fonográfico é muito precário. O artista está vivendo na incerteza sem saber se esse mercado voltará a florescer.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A experiência com o Grupo Trampo se deu em qual época?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O Trampo foi no início dos anos 1990: surgiu a partir de Manassés e Leão Neto. Cada um deles gravou um bolachão em Recife, com quatro músicas. Fizeram um show de lançamento bem arquitetado, no Teatro Alberto Maranhão. Na ocasião, Manassés me chamou pra cantar com ele “Blues da Neblina”, que era uma música minha. Leão Neto convidou Romildo Soares para cantar “Deus não é brasileiro”. Ali começou a se formar uma espécie de instante especial, digamos assim. Iracema, a companheira de Romildo, era muito ligada a Sueldo. Ele se incorporou ao grupo. Eu, que tinha muita ligação com Odaíres, a convidei também. Edimar Costa já era ligado a todas essas pessoas. A partir desse núcleo de sete pessoas, fundamos o grupo denominado Trampo. A gente se reuniu e escreveu um manifesto. A discussão era a dificuldade dos artistas de música no estado eclodirem. Esse ano estamos tentando comemorar os 20 anos do Trampo. A discussão era “por que os artistas são tão cada um por si e Deus contra todos?”. A gente propunha todo mundo “trampar” coletivamente e se esforçar pelo trabalho do outro. Mas uns olhavam com desconfiança, alguns achavam que queríamos fundar um sindicato de músicos, ou coisa parecida. A gente construiu o Trampo fazendo, botando a coisa em prática. Nessa época a gente morava em uma casa na Vila de Ponta Negra, uma casa grande que era de Tião Carneiro. Ele havia alugado. A gente fazia festas do Trampo e cobrava ingresso. Era uma corrida do ouro. O pessoal tinha uma disposição bárbara.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O Trampo teve alguma apresentação que se destacou das demais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Duas festas que fizemos - uma se chamava “É proibido proibir” e a outra esqueci o nome - foram especiais. Também foi muito legal quando os petroleiros nos levaram para participar de um circuito de shows em Mossoró. Fizemos várias festas em Natal. Outra ocasião foi uma noite em que fizemos show com a participação de Sérgio Sampaio. Foi a primeira vez que Sérgio Sampaio veio apresentar em Natal o seu show “Tem que acontecer”. Fizemos a abertura, no Casablanca.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sérgio Sampaio era uma pessoa receptiva?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Meu primeiro contato com ele foi logo que na sua chegada do aeroporto. Tinha &lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-H2aHerOEhWA/TbisLW_G5SI/AAAAAAAAAm8/kuoSUnebQGE/s320/ronaldo4.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600415447784023330" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;várias pessoas e jornalistas assediando. Mostrei uma música a ele. Lula Augusto estava com a gente e, lá pras tantas, quis interromper. Mas Sérgio Sampaio insistiu para que eu continuasse a tocar. Cida Lobo depois gravou essa música. Mas foi coisa de botequim mesmo. Ouvi Sérgio Sampaio pela primeira vez ainda quando morava em Mossoró. Foi na rádio Rural, quando tocou aquele disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”, em 1971. Fiquei louco pela música “Todo mundo está feliz”. Mas não   sabia de quem era. Em 1973 vi Sérgio Sampaio cantar no programa do Chacrinha “Eu quero é botar meu bloco na rua”. O mesmo arrebatamento aconteceu naquele momento. Esse elepê eu consegui comprar depois de algum tempo. Sérgio Sampaio era considerado maldito. Não aceitou as imposições de gravadora, principalmente de Roberto Menescal, dos enquadramentos que queriam fazer. Ele era mais livre, queria fazer as coisas ao seu modo. Terminou chutando o pau da barraca e se deu mal, como toda uma geração.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Suas influências musicais são os malditos como Sérgio Sampaio?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha bíblia é o disco tropicalista “Panis et circenses”. Absorvi muito a música popular brasileira. De certa forma até ignoro a música internacional. Meu pai me deu muita informação sobre música. Eu gostava dos sambas que ele tocava, principalmente os de Roberto Silva. Ele falou muitas vezes de um compositor potiguar chamado Raimundo Olavo. Depois vim saber que ele é de Barra de Maxaranguape, mas a referência era das Rocas. Era alfaiate. Certo dia largou tudo e foi para o Rio. Chegou à rádio Tupi e disse a Roberto Silva: “olha, eu faço samba sincopado, do jeito que você gosta e pratica”. Roberto Silva gravou mais de vinte sambas dele. Esse cara tem uma obra esquecida. Nos últimos anos venho empreendendo uma pesquisa sobre a obra dele. Eu e João Barra conseguimos em áudio quase 25 músicas dele, garimpando em sebo, pesquisando na Internet para saber em que disco saiu e mandando comprar.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a sua intenção com essa pesquisa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quero revisitar essas composições contemporaneamente, mostrando-as com novos intérpretes e novas roupagens. Gosto de mexer com projetos musicais. Acho que o que desenho pra mim é justamente caminhar em direção à produção artística, literária e musical: a produção cultural, digamos assim.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Na literatura, quem lhe influenciou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Manuel Bandeira é a minha predileção, mas tem também Drummond. Na adolescência comecei a conhecer a literatura mais contemporânea. Um me impressionou muito: José J. Veiga. Li muitos livros dele. Li também outros, como Jorge Amado. J. Veiga era realismo fantástico. Li primeiro “A hora dos ruminantes”. Depois, “Os cavalinhos de Platiplanto” e assim por diante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os autores beatnick, como Jack Kerouak e Allen Ginsberg, também lhe impressionaram?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em um primeiro momento, não. Só quando a Brasiliense começou a lançar os livros como “On the road” fui me familiarizando. Fui mais influenciado, para escrever, pela MPB mesmo. Desde muito cedo despertou essa minha sensibilidade para a escrita. Isso independente da leitura, até porque, naquela época, não havia biblioteca na minha casa. Lembrei agora de outro que eu gostava muito: Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Antes de gravar seus dois primeiros CDs você já havia feito apresentações solo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Só passei a fazer em função da gravação do disco.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi decidir gravar esses discos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sempre tive uma dúvida atroz sobre a viabilidade de eu fazer um disco como intérprete das minhas músicas. Como compositor, digamos assim, eu já tinha me consolidado. Ser&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-Giv0rCRedS8/Tbis304SL0I/AAAAAAAAAnM/OIgklDE9zk0/s320/ronaldo1.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600416211722710850" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt; intérprete era um debate que eu estabelecia com amigos mais próximos. Alguns diziam que seria legal se eu convidasse intérpretes para gravar um disco com as minhas canções. Mas Manassés Campos segurou essa onda e defendeu a tese de que eu deveria cantar. Também me sugeriram que eu ao invés de colocar a minha foto na capa do disco, estampasse um desenho. Mais uma vez Manassés foi contra. Acabou me convencendo a fazer o disco chamado “Sátiro”. Aliás, eu não diria que fiquei convencido, mas como o produto ficou bem apresentado ao final, então está tudo bem. Foi prensado na Sony. As fotos são de Giovanni Sérgio e o projeto gráfico é de Cleiton Martorano. Têm participações de pessoas muito especiais. Na bateria, Di Stéffano, que, na minha opinião, é “o baterista”. Os músicos são fabulosos. O maestro foi Jubileu Filho. Depois dessa experiência, resolvi partir para um segundo projeto, dessa vez convidando intérpretes. Esse trabalho está sendo editado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como as pessoas receberam o “Sátiro”?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Algumas pessoas não gostaram da minha performance, mas adoraram o repertório. Uma coisa que me gratificou é que cada um desses dois discos foi trabalhado dentro de um conceito, coisa que os artistas não costumam fazer. São trabalhos conceituais. Quando você encontra alguém que consegue identificar isso, é gratificante, pois dá a sensação de que o objetivo foi alcançado.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em termos práticos, foi muito difícil chegar a esse resultado final de excelência obtido com o disco “Sátiro”?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Os músicos, intérpretes e outros amigos que de alguma forma contribuíram para o resultado final do CD são pessoas que não me faltam nunca. O mais difícil foi arrecadar os&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-82pmcJRi938/Tbis4JyUmhI/AAAAAAAAAnU/MLNOA4PMggY/s320/ronaldo5.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600416217334848018" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt; recursos. O primeiro disco foi praticamente todo autofinanciado, não teve lei de incentivo. Recebi alguns patrocínios pequenos, mas importantes, como os da Potiguar Turismo e dos mandatos de Fátima Bezerra e Mineiro. Mas o grosso mesmo teve que sair do meu próprio bolso. Meu grande desafio é ter fazer o escoamento da minha produção, que é extensa. Não é nem escoamento, é registro. A gente sabe que um dia vai morrer. E, no meu caso, o que tenho pra deixar é isso: são esses meus trabalhos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a tiragem do seu primeiro CD?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mil cópias. Não consegui distribuir e nem comecei ainda a recuperar o investimento. O que gastei não foi tanto assim, mas, em relação à fonte dessa arrecadação – o meu bolso, como eu já revelei – foi muito significativo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale sobre o lançamento do “Sátiro”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O show de lançamento foi muito legal. Cida Lobo veio. Foi no Teatro de Cultura Popular da Fundação José Augusto. Geraldinho Carvalho, que está aqui conosco, participou do show cantando “Prego”, a segunda canção do disco. Nesse primeiro disco adotei o critério de apresentar 50% do repertório em parceria e a outra metade de composições individuais. Das parcerias, apenas uma era com um músico: Manassés Campos. O restante era com poetas, como João da Rua, Jota Medeiros, Iracema Macedo, Jarbas Martins, Paulo Procópio e Carlos Magno Fernandes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E esse seu segundo disco? O que você poderia antecipar sobre ele?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Foi um projeto da Fundação José Augusto, o “Prêmio Núbia Lafaiete”. O foco era permitir ao artista registrar um repertório em fonograma. Tinha três categorias. Inscrevi-me na mais barata. Fui contemplado e recebi R$ 3,5 mil para fazer esse disco que chamei de “Novos caetés”. Havia um contrato com estúdios para fazer a hora de gravação por um preço determinado: 30 reais. Mas a parte de arranjos e remuneração dos músicos eu tive que correr por fora. Nesse segundo disco, eu pensei: já que não vou cantar, vou colocar só músicas minhas. (risos).&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se você só dispusesse do dinheiro para comprar um dos dois discos, qual deles adquiriria?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Compraria o “Sátiro” pela forma como o CD está apresentado. Esse já está editado. Na forma precária como está o outro, eu esperaria até ser feita a edição.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seria fácil eleger sua composição através da qual você gostaria de ser lembrado? Melhor dizendo: qual a canção que você considera a sua obra-prima?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É muito difícil responder, varia de acordo com o momento. No segundo disco existe um fado que eu gosto muito: “Vaivém”. Ele é interpretado por Kalene Fonseca. Diria que é um momento brilhante do meu trabalho. No segundo disco, gosto principalmente da letra de “Novos caetés”, que Donizete Lima canta, e de “Banana si”, com Yrahn Barreto. Gosto também da última faixa, “Girando a roda”, cantada por Leão Neto. Há peças nesse disco que dão unidade, convergem para o conceito do disco. No “Sátiro” tem “Berrar é humano” que é bem coerente com as demais canções do CD. Já a “Ponta do Morcego” está meio solta lá.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quantos livros de poesia você já publicou?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Entre 1978 até 1985 excetuando o Laboratório de Criatividade, que já citei e foi nesse período, o que consegui projetar foi através de edições próprias mimeografadas ou feitas em offset de mesa ou nos tabloides que circulavam. A partir de 1985 tentei editar de uma forma, digamos, mais convencional. O tempo foi passando e o resultado é que fiquei 15 anos sem editar. Em 2000, quando saiu o primeiro livro, foi que publiquei uma seleção dessa produção. Claro que muita coisa foi jogada fora. Não sou muito criterioso para fazer seleção de texto. Não sei escolher pela qualidade literária, pelo estilo, pela estética, por determinadas característica. Em 2003 Abimael Silva, do Sebo Vermelho, me convidou para participar da “Coleção João Nicodemos”. Propus fazer uma antologia do período publicado em mimeógrafo. Eu mesmo fiz a seleção dos textos e ele publicou um livro de poesias chamado “Jeans avariado”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Então você tem dois livros.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tenho dois livros editados. Também tenho um livro pronto para ser lançado com João Barra. A gente está criando uma firma que deverá se chamar Tabus e Totens Produções Culturais. A ideia da marca foi minha. Cláudio Damasceno fez a logomarca. Tem o livro chamado “Ao Judas atraente”, já com projeto gráfico pronto. Só falta ser rodado. Também tenho um livro minimalista já pronto. Ele se chama “Mínima Lira”. Na verdade eu queria dar esse nome a uma coleção só de poemas minimalistas de vários autores. Reuni três trabalhos nesse projeto: “A divina maldição”, “Todotosco” e “O fim está próximo”. Outro livro que está prestes a ser lançado – uma amiga está trabalhando a diagramação, essa coisa – se chama “Tenho dito – A dialética do coice e da palavra”. Tem outro que estou escrevendo no computador que se chama “Rangue Luz”. É uma alusão àquela saudação dos surfistas, “Hang Loose”. Só que no caso desse livro, Rangue vem do verbo “rangar”, vem de comer. E luz, é luz mesmo.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que nomeclatura você daria ao seu estilo literário?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Já escrevi um texto sobre isso. Nele me classifiquei como lisérgico-planfetário, ou&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/-vhhHO64KKc8/Tbis4TeT0-I/AAAAAAAAAnc/2XrrDzVBn9I/s320/ronaldo7.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600416219935265762" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt; algo assim. Estou respondendo de uma forma meio anarquizada, digamos assim. Mas não saberia lhe dizer. Minha escola foi a literatura underground. Mas isso é muito datado, a gente evolui. Hoje eu precisaria de alguém pra me dizer isso. Você falou isso e eu lembrei que já fui questão de prova em um concurso do Instituto Federal de Educação Tecnológica (IFERN) para uma pós-graduação na área de literatura. Lá tem questões sobre textos meus e de Adriano de Souza. Um dos capítulos do curso tem um estudo sobre o meu trabalho. É uma novidade, ninguém publica essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Onde o leitor pode adquirir os seus trabalhos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É provável que encontre livros meus no Sebo Vermelho. Algumas de minhas publicações já precisam de uma nova edição. Mas o “Jeans Avariado” talvez ainda seja possível encontrar por lá. Até porque o Sebo Vermelho foi a editora.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E os discos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O “Sátiro” ainda existe em meu poder. Certamente eu devo ter mais de 100 exemplares. Tenho o projeto de fazer um site para comercializar esse material, mas ainda não viabilizei isso. Contatos podem ser feitos por e-mail: ronus@act.psi.br .&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você consegue financiar seus trabalhos culturais?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sou funcionário público. Minha grande aspiração nessa vida funcional é chegar ao término dela. Sempre me considerei um profissional muito responsável. Estou trabalhando no Fórum da Zona Sul de Natal, na 1ª Vara de Família, desde o final de setembro. Antes, passei dez anos na comarca de São Gonçalo do Amarante. Já tinha trabalhado mais de cinco anos no CEFET, onde fui coordenador pedagógico. Também passei pela Polícia Civil, onde fui escrivão durante 13 anos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – No princípio, notamos que a sua vida literária e cultural não foi planejada. Hoje existe algum projeto?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Diria que hoje tenho vários projetos. Cada um em certa fase de andamento. Hoje mesmo estou voltando a estúdio para participar de um projeto chamado “Oferenda”, que é um disco que estou fazendo com parcerias minhas com João Barra, interpretadas por cinco mulheres. Também tenho um projeto chamado “Capricho do Destino” que é antigo, só parcerias com João da Rua. Há algum tempo participei da produção do disco de Zila Mamede. Outro trabalho, que já está prensado, é um CD com intérpretes cantando composições minhas. Esse disco sairá encartado no livro “Ao Judas atraente”. Também pretendo fazer um roteiro tematizando Portugal. Gosto de compor fados. Existe uma discussão sobre a origem do fado. Uma das teses, inclusive de Câmara Cascudo, é que o fado nasceu no Brasil. Fernando Pessoa é um poeta muito reverenciado no Brasil. Mais ainda do que em Portugal. A mpb tem uma intimidade muito grande com ele. Comprei um livro de quadrinhas de Fernando Pessoa, lá em São Paulo e andei musicando alguma coisa. No disco de Zila Mamede, sobre o qual falei agora há pouco, também tem um fado que compus para um poema dela chamado “O galo do convento de Santo Antônio”. A música, no disco, tem interpretação de Lene Macedo. Sinto um grande desejo de fazer um trabalho voltado para o tema lusitano, em interface com a cultura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você é músico? Toca algum instrumento? Estudou música?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Sou um leigo, em matéria de música. O instrumento que toco, mal e porcamente, é o violão. Meu ritmo é inconstante. Jamais me acompanho quando estou cantando em público.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado para o leitor?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;RONALDO&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quero pedir que as pessoas tenham mais atenção à obra dos artistas potiguares. Não só na música, mas arte, de uma forma geral. Quantos artistas talentosos do nosso estado morreram no esquecimento depois de batalhar tanto? Peço ao leitor do Zona Sul que tem condição de consumir um produto cultural de qualidade que preste atenção no que é produzido em Natal. Aqui existe música de qualidade, existe poesia de qualidade, artes plásticas... Tudo. Nossa cultura é rica e de bom nível. Merece ser apreciada.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-P7WeeIHFFJ0/TbitRTsMoKI/AAAAAAAAAnk/iMn3W60IAN0/s320/ronaldo.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5600416649490243746" style="display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 221px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-7332439200704791207?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/7332439200704791207/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/04/entrevista-antonio-ronaldo.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/7332439200704791207'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/7332439200704791207'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/04/entrevista-antonio-ronaldo.html' title='Entrevista: Antonio Ronaldo'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-u9LcWwbQQHw/TbisLFduN5I/AAAAAAAAAms/SooDU-PFpCI/s72-c/ronaldo2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-1220967546895907453</id><published>2011-04-01T10:31:00.009-03:00</published><updated>2011-04-01T20:34:58.543-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='UFAL'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='professor'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='UFPB'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='PB'/><title type='text'>Entrevista: Professor Tadeu</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-8L7eqnI5Afo/TZXeI45m1FI/AAAAAAAAAmk/WkQyrG9n-l8/s1600/tadeu9.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="FONT-WEIGHT: bold;font-size:x-large;"&gt;O PROFESSOR QUE AMA AS PALAVRAS E OS LIVROS&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;O professor Francisco Tadeu da Silva nasceu em Campina Grande. Nesses tempos em que a &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590609981429622786" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 240px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-488Bt_LA1fI/TZXWKGTdqAI/AAAAAAAAAl8/J7Ut3B3rDL8/s320/tadeu3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;leitura, a formação cultural, a arte de pensar e o exercício da inteligência parecem estar fora de moda, ele é um oásis nesse espectro de ignorância. Para quem aprecia uma conversa com conteúdo, dialogar com o professor Tadeu é como experimentar um manjar preparado pela deusa de mais alto escalão na culinária. Bibliófilo, ele é mordaz nos seus comentários e crítico do que considera menor. Conheci o professor Tadeu em João Pessoa, no final do ano passado. Na primeira ocasião em que nos encontramos, ele esgrimiu tantos conhecimentos e comentários interessantes que tornou-se impossível não agendar essa entrevista. Conversamos em uma segunda-feira pela manhã, em um bar próximo à praia de Tambaú. Não foi fácil encontrar um bar aberto por volta das dez da manhã na capital paraibana. Cidade tão linda e vocacionada para o turismo, JP tem muito a melhorar nos seus serviços. Também não foi fácil localizar novamente o professor. Mas nem essa “seca” que dominou metade da conversa (só começamos a beber meia hora depois do início do bate-papo) comprometeu o resultado. Vale a pena ouvir o que o professor Tadeu tem pra contar. Antes de lhe passar a palavra, gostaria de fazer um agradecimento especial à Josélia Nacre, funcionária da Universidade Estadual da Paraíba. Exemplo de servidora pública, foi ela quem me colocou em contato novamente com o professor para que eu pudesse tirar algumas dúvidas sobre a entrevista que você lê a seguir. (&lt;a href="mailto:robertohomem@gmail.com"&gt;robertohomem@gmail.com&lt;/a&gt;) &lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;&lt;br /&gt;&lt;/u&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;ZONA SUL&lt;/u&gt;&lt;/b&gt; – O que os seus pais faziam? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;TADEU&lt;/u&gt;&lt;/b&gt; – Nasci em Campina Grande. Aos dois anos de idade fui morar em Recife. Meu pai colocou um laboratório em sociedade com um amigo, dos tempos de solteiro. Depois eles passaram para um armazém de grosso. Isso foi já da metade para o final da década de 1950. Desde o exame de admissão, estudei com os padres salesianos no colégio lá de Recife. Fiz a admissão ao ginásio, o ginásio, depois fiz o clássico. Apesar de a ordem salesiana ser até hoje profundamente conservadora, foi com os padres salesianos que despertei para a paixão pela palavra e pela leitura. Tudo começou aí, por volta dos 13 anos. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;u&gt;ZONA SUL&lt;/u&gt;&lt;/b&gt; – Como saiu muito novo de Campina Grande, você não deve ter lembranças do período em que viveu por lá. Mas, de Recife, o que você recorda? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Em Recife fiz o curso de filosofia, a graduação... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E antes disso? Por exemplo: como foi a sua infância? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Morei em uma rua chamada Dom Bosco, que era exatamente a rua do Colégio Salesiano. Para ser bem preciso, morei de frente ao Colégio São Vicente de Paula, que é um colégio de freiras. Nesse período fui ajudante de missas. As freiras encontravam dificuldade para arrumar alguém para ajudar o padre, nas missas. Como mamãe era muito religiosa e tinha amizade com as freiras, elas perguntaram se era possível eu ajudar. Me ensinaram e fiquei o tempo todo ajudando. Eu era bem tratado. O colégio era de freiras, só tinha mulheres. Eu e o padre éramos os únicos dois homens que tínhamos livre acesso aos corredores. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O padre provavelmente não deveria fazer proveito dessa regalia, mas, e você?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – (risos) Fui um menino meio treloso. Às vezes tinha umas festas lá e aquelas meninas maiores me colocavam no colo. Eu era menino mesmo, e era muito querido. Em algumas ocasiões, até na hora da missa eu ficava flertando com as meninas menores. Mas eram aqueles flertes bestas. Algumas vezes a freira me repreendeu: “você quando estiver ajudando na missa, preste atenção, porque você às vezes se vira...” Foi um tempo muito bom. Tive um grande aprendizado. No Salesiano também. O colégio ainda hoje tem uma grande estrutura, é muito bom. A biblioteca de lá, pra mim, foi uma grande descoberta. Foi lá que comecei a ler de verdade. Lembro bem que com 13 anos tirei aquela coleção “Titãs da Literatura”. Aliás, é uma coleção muito boa, ainda hoje tenho. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que mais você recorda de ter lido naquela época? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Com 13 para 14 anos li “Noites Brancas”, de Dostoiévski. Foi maravilhoso. Nessa mesma época li “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi. Daí comecei também a ler aqueles livros de aventura, como os livros de Karl May. Inclusive, há não muito tempo atrás foi que descobri a biografia dele. Era um alemão que nunca tinha ido aos Estados Unidos. O gozado é que sua obra, mais de seis volumes, é toda voltada para a trajetória do índio americano, aquelas paisagens. Fisicamente ele nunca esteve por lá.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como era o seu ambiente familiar? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Eu morava em uma casa que tinha um primeiro andar. Nesse andar morávamos eu e um irmão. Certa vez, antes de minha mãe morrer, a vi conversando com meus dois filhos. Fiquei observando. Ela reclamava por eles não gostarem muito de estudar: “nenhum de vocês puxou a seu pai. Ele estudava demais e eu brigava para ele deixar de estudar”. Na verdade, não era bem assim. Está certo que eu estudava, porém, mais do que isso, eu lia muito. Eu gostava de ler. Me trancava no quarto, após o almoço, e começava a ler. Às vezes a minha mãe vinha e mandava eu descer para brincar. No colégio criei problemas para os padres não por desacato ou indisciplina, mas porque eu não gostava de fazer educação física. Sempre achei aquilo estúpido. O Salesiano tinha um militar como professor de educação física. Ele era de uma rigidez, dando aquelas aulas. Na minha visão aquilo era totalmente estúpido. Eu tinha pavor àquelas aulas de educação física. Ainda bem que parece que tiraram isso dos colégios. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E de praticar esportes você gostava? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Eu jogava voleibol e basquetebol obrigado. Os padres obrigavam, acho que para incentivar essa coisa do coletivo. Eu era exatamente o contrário. Eu não gostava do coletivo. Eu gostava mesmo era de estar isolado, lendo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sua diversão era bem individual. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Era. Até hoje eu não gosto de praticar esporte nenhum. Nem jogo de salão, nem nada. Não tenho muita habilidade, nem gosto. Eu era muito personalista, gostava de estar isolado, de sonhar com os personagens dos livros. Muitas vezes os colegas tiravam onda e faziam chacota comigo porque eu ficava lá na sala e o padre vinha e me obrigava a vestir calção para ir jogar. No Salesiano, quando um professor faltava – coisa que raramente acontecia – quando era no intervalo entre aulas, tinha uma figura chamada de padre-prefeito. Era uma figura bem durona. Ele escolhia um aluno e colocava no birô do professor para anotar os nomes dos colegas que conversavam. Uma coisa que o meu pai me ensinou desde pequeno foi a não ser dedo-duro. Isso é uma questão de honra. E o filho da mãe do padre, um dia, acho que até por pirraça, chegou e me chamou para aquela tarefa. Foi na segunda série ginasial, lembro como se fosse hoje. Meus próprios colegas começaram a rir, porque eles mesmos entendiam que eu não servia para aquilo. Não que eu fosse tímido, eu até era meio sonso. Aquilo me deu uma raiva danada. Eu estava no bolso da farda com saquinhos de sequilhos. Eu estava com o bolso cheio. Me sentei. Pouco depois que o padre deu às costas, tirei os sacos do bolso e joguei no meio da sala, dizendo: “olha aí para vocês”. Meu amigo, destruíram umas quatro carteiras, quebraram perna de gente, foi um alvoroço... (risos) Lembro disso com muita honra. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E quando o padre voltou? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ele perguntou o que era aquilo. Eu disse que o responsável era eu. “O que foi que você fez?”. Expliquei o que tinha acontecido, enquanto o padre olhava um chorando e o outro com a perna quase quebrada. Ainda hoje as salas do Salesiano de Recife são as do tempo em que eu frequentava. Fizeram uma grande reforma, mas continuam as mesmas. Tinha umas colunas enormes. Depois da confusão que provoquei na sala, o padre disse: “pegue seus livros e fique ali em pé, perto das colunas”. E mandou chamar meu pai, que morava perto do colégio. Fiquei de dez e meia ao meio-dia em pé, sem poder me mexer. Os alunos foram embora e nada do meu pai chegar. Já perto de uma da tarde, meu pai chegou. O vi conversando com o diretor. O diretor gesticulava, meu pai falava... Até que meu pai chegou perto de mim e mandou eu pegar os livros para irmos para casa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que seu pai fez?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;  &lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fique esperando a reação dele. Meu pai na frente, eu acompanhando. Ele não deu uma palavra. Em casa, minha mãe perguntou: “por que esse menino está chegando essa hora?”.&lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590618756744664146" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 240px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-8L7eqnI5Afo/TZXeI45m1FI/AAAAAAAAAmk/WkQyrG9n-l8/s320/tadeu9.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt; Meu pai respondeu: “eu quero lá saber, esses padres não têm o que fazer, colocam o menino em pé até uma hora dessas por causa de uma besteira”. Meu pai era um homem analfabeto. Aliás, analfabeto em termos, pois ele sabia escrever, e tal. Também dava conta da parte espiritual. Mas era um homem profundamente limitado. Porém, veja a visão crítica dele, que leitura de mundo: não fez nada contra mim porque entendeu meu gesto. Lógico que, quando joguei os sequilhos, eu fiz uma besteira. Mas foi a forma que encontrei para sair daquela função tão violenta.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA S&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;UL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Depois desse episódio você ficou marcado no colégio? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. Apesar desse meu lado, sempre fui bem tratado. Mamãe frequentava muito o colégio, pois morávamos bem próximos. Lá também funcionava como internato. Muitos ex-alunos do Salesiano depois se destacaram. Alguns politicamente, outros na área jurídica. Aos sábados passava filmes. Também tinha festas e jogos: era muito interessante. Como disse, eu também ajudava na missa, aos domingos. Sempre gostei de ajudar. O sagrado sempre me seduziu. Isso me lembra um episódio interessante. Contei certa vez em uma palestra, ninguém aguentou. Na entrada da capela, naquela nave bonita, tem um Cristo com uma cruz que é uma coisa linda. A religião católica e o cristianismo são meio sanguinolentos. Vejo até com certa brutalidade. Aquele Cristo do Salesiano é uma coisa impressionante. Dia desses estive lá e tive a mesma sensação de quando eu era menino. Só que, no tempo de menino eu tinha até medo daquele Cristo ensanguentado olhando pra mim. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas qual foi o acontecimento que gerou tanta comoção em sua palestra?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Certa vez cheguei em casa depois de ter me confessado. Nós, estudantes, éramos obrigados a assistir uma missa às sete horas da manhã do domingo. Tinha até que levar a carteira, para registrar presença. Valia nota de religião. Havia esse rigor besta, mas tudo bem, isso não me afetou. Nesse dia cheguei em casa e disse a minha mãe que Jesus tinha rido pra mim. Querendo ser santo logo, contei aquela história. Talvez esse episódio tenha ocorrido na época do lançamento de “Marcelino Pão e Vinho”. Fiquei impressionado com aquele filme, ao ver Jesus batendo papo com aquele menino. Quando eu disse a mamãe que Jesus tinha rido pra mim, ela explicou: “meu filho, você se confessou, é até pecado dizer isso. Não quer dizer que você não possa ser santo, mas não é assim, leva tempo. Você pensou que ele riu, mas isso não aconteceu”. Depois que ela deu aquela lição, eu insisti: “ele riu”. Minha mãe foi perdendo a calma: “você não diga que Jesus riu pra você porque isso não aconteceu”. Continuei insistindo: “riu”. Ela pegou a correia da máquina e ameaçou: “diga agora que Jesus riu pra você, cabra safado. Diga que eu vou quebrar você de pau agora”. (risos). Meu pai estava em uma cadeira de balanço e interveio: “deixe de besteira, você se trocando com um menino. Não é possível, uma pessoa adulta”. Foi assim que ela parou, mas já estava me pendurando no braço para dar uma surra. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você era danado mesmo...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Escute essa outra história... Nos álbuns de fotografias familiares sempre tem alguns retratos que a gente não gosta. Geralmente um deles é o filho homem vestido de mulher, com uma chupeta pendurada. É um negócio feio danado. Outra foto é terrível é a da tal primeira comunhão. O cara segurando aquela vela que parece um símbolo fálico. O menino todo de branco, com cara de abestalhado. A minha primeira comunhão foi diferente. Certo dia, mamãe, muito religiosa, puxou conversa com meu pai, que estava sentado em uma cadeira de balanço. Ela falou: “temos que providenciar a roupa de Tadeu, porque a primeira comunhão dele é no próximo mês. Vamos ver logo isso”. Na mesma hora eu respondi que não ia fazer a primeira comunhão vestido de branco. Minha mãe era uma mulher muito dura. Ela retrucou imediatamente: “você vai, você vai porque não é diferente de ninguém. Se todo mundo vai de branco, por que você não vai de branco?”. Teimei que não iria. Ela já foi logo fechando a mão: “você não diga que não vai. Quero ver se você não vai”. E meu pai calado. “Vou não”. Mamãe me pegou pela orelha: “diga, safado, que você não vai de branco”. E já foi tirando a chinela. Meu pai intercedeu: “solte o menino. Ele faz a primeira comunhão se quiser. Não botei filho no mundo pra negócio de igreja ou de primeira comunhão. Botei foi pra estudar. Se ele não quiser, não vai. Não vou obrigá-lo”. Aí mamãe recuou, quando viu que eu tinha o apoio logístico do meu pai. Você não vai acreditar, mas obriguei mamãe a comprar um terno azul marinho. Não pude fazer com a turma, porque todos fizeram vestidos de branco. Fiz sozinho. Você acredita nisso? Se você me perguntar por que eu fiz isso, eu não saberei responder. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Talvez por pirraça... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É, pode ter sido pirraça. Mas, meu amigo, eu tenho a foto lá em casa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas a vela você segurou... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nem lembro se segurei a vela. As fotos são sem vela, sem nada. Um tempo desses peguei esse retrato e comecei a rir. Até a minha mãe não aguentou e começou a rir também. Ela já idosa, comentou: “é, ele era assim mesmo, esse menino me deu tanto trabalho”. Mas não era trabalho! Na minha visão já era uma leitura meio crítica do mundo, da realidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa época você pensava em futuro, em profissão, em direcionar os estudos para alguma direção? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não pensava em nada disso. Mas deixe eu traçar um paralelo. Você conhece aquele livro de François Truffaut, que é uma entrevista que ele fez com Hitchcock? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - É um álbum fotobiográfico, uma coisa assim, com uma longa entrevista. Eu tenho. Dia desses eu estava lendo. Lá Truffaut faz essa mesma pergunta a Hitchcock: “Você jovem já tinha a ideia do cinema?”. Hitchcock foi um gênio. Eu não lembro se naquela época eu já tinha noção do rumo para o qual desejava direcionar a minha vida. Porém eu recordo que duas coisas eu não queria ser: juiz e militar. Isso eu tenho certeza que não queria. (risos) &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nem padre... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nem padre. Tenho a impressão que meu pai queria que eu fosse um jurista ou um médico. Minha mãe é filha de senhor de engenho falido. Eles sonhavam com uma carreira de destaque. Minha mãe sempre nos dizia que saiu do sítio pra poder dar educação aos filhos. Ela não queria que a gente crescesse amarrando cavalos. Logicamente não era isso, há um certo exagero, mas, de qualquer forma, o estudo e a formação são importantíssimos. É muito importante a pessoa ter uma visão de mundo. E essa visão só se adquire através do estudo, da absorção de conhecimentos. Não estou nem me referindo tanto ao estudo formal, mas a descoberta de mundo se dá por aí. Quando isso falta a uma pessoa, é muito cruel. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quantos irmãos você tem? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Éramos quatro, mas um faleceu tragicamente, muito jovem ainda. Ele se chamava Paulo Roberto. Morreu aos 12 anos, afogado em Tambaú. Um outro, Francisco de Assis, mora em Belo Horizonte e trabalha com publicidade. É muito interessado na profissão e adora cinema. Tenho uma irmã que mora em João Pessoa e trabalha com seguros: Verônica da Silva. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Hoje você acredita que a sua vocação era essa mesmo voltada para o ensino?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Naquela época se falava em vocação, hoje não mais. Vivemos em uma sociedade onde se discute muito a praticidade. Vamos ser práticos: atualmente a carreira é o dinheiro. Naquela época não era dessa forma. Falava-se em vocação, que é uma coisa bonita. Eu admirava a figura do professor. E nós tínhamos bons professores. Pra você ter uma ideia, os professores que ensinavam no ginásio, clássico ou científico, terminaram catedráticos da universidade. Tínhamos escritores ensinando português... Isso foi muito bom pra mim. Eu tinha um verdadeiro encanto por aquelas figuras. Assisti aulas maravilhosas. Não esqueço nunca o latim que a gente aprendia.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O latim foi abolido há muito tempo das escolas... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Na quarta séria ginasial a gente traduzia Cícero, Horácio... Era um negócio bonito. Hoje, muitos alunos na universidade não sabem ler. Vi uma entrevista de Antônio Houaiss, acho que em Jô Soares. Houaiss dominava bem essa questão da língua. Ele comentou que nos Estados Unidos o americano médio (o que completa a universidade) domina um universo de 3.500 a 3.800 palavras. Um indivíduo com essa mesma escolaridade no Brasil domina menos de 900 palavras. Fiquei estupefato com essa informação. Se você não conhece uma língua, como pode pensar? Para pensar tem que ser através de uma língua. Esse talvez seja um dos processos mais violentos de asfixia do pensamento. Vivemos numa sociedade onde a condição de ler é proibitiva. E as pessoas estão fechadas com relação a essa questão. Tirando um pouco o exagero de Darcy Ribeiro, ele colocava isso muito bem quando dizia que aqui se gasta milhões para deseducar. Ele não falou isso irresponsavelmente. É tão forte essa afirmação, que às vezes a gente pode até pensar que seja pessimismo demais. Se você não tiver uma visão crítica, você não quer acreditar nisso, mas é verdade. Esse é um dos grandes crimes da nossa classe dominante. Toda a história da nossa classe dominante passa por uma frase que até virou título de tese do historiador Edgar de Decca: “O silêncio dos vencidos”. A única maneira de silenciar os vencidos, na história, é vedar a eles a capacidade de ler a sua própria história. E no Brasil os vencidos estão silenciados. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Estão tentando proibir até Monteiro Lobato... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Pra você ver... Há pouco tempo fiz uma palestra no Instituto de Assistência à Saúde &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590609979040417586" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 240px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-4WBUApyf4jY/TZXWJ9Z1RzI/AAAAAAAAAl0/H1QFNuPcr5s/s320/tadeu2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;do Servidor (IASS), em João Pessoa. O superintendente, grande amigo meu, reorganizou uma biblioteca que já existia, mas era como se não existisse, e me convidou. Fui chamado para falar sobre essa questão da leitura, do livro e da biblioteca. O grande crítico literário Haroldo Bloom, que também era professor de universidade, tem um livro chamado “Como e por que ler”. Ele dizia que um dos grandes crimes que a universidade cometeu, e concordo com ele, é que a universidade hoje tirou do aluno a vontade de ler. Não oferece mais aquela leitura prazerosa. Concordo. Às vezes a gente culpabiliza muito o aluno. Falo de cátedra, pois fui professor a minha vida toda. A primeira aula que dei foi em 1968. Hoje o que predomina é uma pedantocracia acadêmica, um bocado de pedante. Fazem esses doutorados chiques em Paris, Inglaterra, Alemanha e não sei o que mais – enchem a boca pra dizer isso. Às vezes um curso todo marcado pelo colonialismo cultural. Alguns chegam na universidade para dar suas aulas e nem na graduação querem ensinar. Se acham pesquisadores. Conheci de perto. Dar aula na graduação, para alguns desses, é coisa menor. Veja que visão. Pra mim era exatamente o contrário. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mas você atuou também na pós-graduação... &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Minha experiência com pós-graduação não foi boa. O aluno já vinha com aquela visão preconcebida de que ele já sabe. Fica ruim para o professor tirar. Alguns estão fazendo o curso de pós-graduação quase que por exigência, mas não têm nenhum interesse. Às vezes vêm de áreas completamente desvinculadas com aquele contexto. Pra píorar, o professor joga uma apostila, que é uma coisa perversa. Às vezes é o capítulo de um livro que descontextualiza o pensamento do autor e, pior ainda, todo o conteúdo do livro. Às vezes, além de o texto estar descontextualizado, o professor o desconhece também. Isso é mais grave ainda. (Nessa hora o garçom comunica que finalmente o bar pode começar a vender cervejas. São 11 da manhã em João Pessoa. O professor pede uma “mofada”). O aluno, como diz Bloom, passa a odiar a leitura.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi a sua transição de aluno para professor? Por favor, fale sobre a sua carreira acadêmica. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando terminei o clássico, prestei vestibular para filosofia, em Recife. Fiz o curso na Universidade Federal de Pernambuco e vim para João Pessoa. Meus pais vieram morar aqui. Meu pai vendeu tudo o que tinha lá e veio para João Pessoa. Na época fiquei chateado porque queria que ficássemos em Recife. Hoje vejo que ele acertou. Recife, atualmente, é uma cidade terrível. Tenho um primo lá. A cidade ficou horrorosa no sentido de que transformou-se em uma metrópole com problemas gravíssimos. Pernambuco é um estado que estagnou. Meu pai acertou na mosca. Depois de vender tudo, colocou o dinheiro na poupança e veio para João Pessoa. Morreu tranquilo, sem nunca precisar de nada, com 93 anos. Quando cheguei, não podia ensinar, apesar de já ter o diploma. Não podia porque a ditadura estava tirando do currículo o ensino da filosofia e colocando em seu lugar organização social e política brasileira (OSPB) e educação moral e cívica. Na universidade implantaram a tal da EPB, estudos de problemas brasileiros. Eu queria ensinar. Os professores que ensinavam filosofia e sociologia foram absorvidos pelos colégios para lecionar outras disciplinas. Chegar para um colégio particular dizendo que era professor de filosofia era até crime. Eles já olhavam pra você como um possível comunista. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como você superou esse impasse? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Fiz outra graduação: geografia. Na época em que entrei na faculdade aqui na Paraíba, no final da década de 1960, início da de 70, tínhamos um dos melhores cursos de geografia do Brasil. A equipe era coordenada por um casal francês. Eles tinham uma metodologia fabulosa, a geografia humana. Quando entrei, a ditadura tinha colocado pra fora, em uma lapada só, quase todos esses professores. E tinha contratado praticamente todos os alunos do último ano do curso. Alguns até inexperientes. O mais grave é que o curso passou a ter nova metodologia, voltada para a geografia física. Isso me provocou uma decepção grande. Eu estava atrás daquela geografia humana. Mesmo assim tirei um grande proveito, mas me arrastei muito para concluir o curso, quase que não termino. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Enquanto isso você já lecionava? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim, logo comecei a ensinar. Na época o estado tinha deficiência de professores. Resolvia contratando estudantes sob contrato de emergência, uma coisa assim. Esse aluno virava professor e ia ficando. Acho que na década de 1970 o governo fez um concurso e aproveitou praticamente todo mundo. Também dei aula em colégio particular, mais no interior, e fui professor de cursinho em João Pessoa e Recife durante vários anos. Minha vida toda foi como professor. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E o mestrado? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Fiz mestrado aqui na federal da Paraíba, em filosofia da cultura. Na sequencia fiz doutorado na Universidade de São Paulo, na USP, de história econômica. Trabalhei muito tempo em universidade privada, e também na universidade estadual. De lá saí para a federal, depois de aprovado em um concurso para a Universidade Federal de Alagoas. Me aposentei por lá. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Durante quanto tempo você morou em Alagoas? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Durante oito anos. Fui lá para montar uma pós-graduação. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi lecionar durante a ditadura? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Havia todo aquele policiamento ideológico e os cursos da área das ciências humanas &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590609986982709970" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 240px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-nFsmuesBn08/TZXWKa_bCtI/AAAAAAAAAmE/XsXPjGWOLsY/s320/tadeu4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;eram muito fiscalizadas. Em 1978 participei de uma semana da educação, como convidado. Darcy Ribeiro também se fez presente. Todos os debates e palestras foram gravados e repassados aos órgãos de segurança para serem analisados e arquivados. Tive o prazer de receber de um colega esse material todo em forma de revista. Havia muita fiscalização. Marilena Chauí dizia que houve um período na universidade em que havia dois motivos para alguém ser contratado: ser competente ou dedo-duro. Esse era o melhor currículo para ingressar na universidade. Tirando os exageros, tínhamos bons professores. Mas às vezes eles sentiam receio. A leitura era um complemento. Lembro de um colega que tinha aquele livro de Che Guevara, “A guerra de guerrilhas”. Hoje você compra em qualquer supermercado de livros. Aliás, no Brasil a gente tem poucas livrarias e muitos supermercados de livros. Mas combinei com esse colega para ele me emprestar o tal livro de Guevara. Foi um problema. Marcamos às dez da noite, em uma praça de frente ao Palácio do Governo. A Praça João Pessoa. Ele trouxe o livro por baixo da camisa. Já era emprestado de outro. Eu não podia saber quem era esse outro, porque se fosse preso com o livro não tinha como denunciar. Ficamos conversando na praça e em determinado momento ele puxou o livro, me entregou e eu coloquei sob minha camisa. Saí de lá pra casa, lembro bem, parecia que estava levando uma bomba. Cheguei em casa, comecei a ler e amanheci o dia ainda lendo. Hoje tenho esse livro em casa, guardo até como recordação, e é um livro simples, datado. Trás orientações até singelas da vida de guerrilheiro. Se naquela época você fosse flagrado com esse livro, estava perdido. Nunca fui militante, mas li muito. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – A ditadura o importunou em algum momento? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando eu ensinava em cursinho, fui chamado duas vezes à Polícia Federal, junto com um colega, para receber conselhos. Sugeriram que não continuássemos debatendo alguns temas considerados inconvenientes pelo regime. Fui bem recebido. O delegado contou que eu e o meu colega havíamos sido denunciados por tematizar nossas aulas. Pediu que a gente evitasse porque aquilo poderia ser mal interpretado e tal. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Comenta-se que a educação perdeu muito em qualidade, no decorrer dos anos. Qual seria o motivo? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Logo após a Segunda Guerra, falou-se muito em um mundo livre, em liberdade. Mas durou pouco, pois logo em seguida veio a Guerra Fria, que para mim se caracterizou como um período extremamente chato, com a divisão do mundo entre capitalismo, de um lado, e do outro o comunismo ou pseudo socialismo. Tudo indicava que o mundo continuaria divido assim. De um lado o bloco dominado pela ideologia da lógica do capital. Do outro o comunismo, a ditadura do proletariado. Diziam que esse cenário duraria até o fim do mundo. Foi preciso a queda do muro de Berlim para entendermos que isso não passava de duas ideologias fajutas. Nem existia comunismo e o capitalismo, na prática, era algo feroz e coisificante que, como dizia o próprio Marx, quebrava qualquer solidez. Nessa desossatura do que era sólido, quando tudo se desmanchou no ar, se inclui a educação. Todas as vezes em que se tentou discutir educação no Brasil foi em período de ditadura. Foi assim sob o patrocínio de Getúlio Vargas, quando o Estado Novo pensou em uma ideologia educacional, e também após o golpe de 1964. Antes da Lei de Diretrizes e Bases da Educação implantada em 1971, a educação era elitista. Só tinha acesso àquele acúmulo de conhecimentos, quem tinha tempo para estudar. Quando eu era aluno do Salesiano, para dar conta daquelas matérias, tinha que estudar o dia todo. Como era elitista, quem não tinha poder aquisitivo econômico bom, era excluído. Era uma educação profundamente elitista. Aliás, era uma escola profundamente elitista. É bom deixar bem claro: no Brasil nunca tivemos uma educação. Tivemos e temos escola. Podemos falar em reforma da escola, de educação, não. Basta ler a história do Brasil para ver que a classe dominante sempre foi sábia nesse sentido. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quer dizer que essa fragilização do ensino foi e continua sendo premeditada...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Acredito que é um programa. O próprio Darcy Ribeiro dizia isso. No Império, entre as &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590609992599048306" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 240px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-Zw5Wjl3-b2g/TZXWKv6dkHI/AAAAAAAAAmM/DOH1zAs7EGY/s320/tadeu5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;primeiras escolas criadas no Brasil por Dom Pedro II estão o Instituto dos Cegos e o Instituto de Surdos e Mudos. Darcy Ribeiro - apesar de reforçar seu apreço e consideração com os cegos, os surdos e os mudos – dizia não entender essa preocupação toda com esses portadores de necessidades especiais enquanto quem via, falava e escutava não tinha onde estudar. Quer dizer, esse desapreço com a educação vem desde o Império. E olha que estamos falando sobre escola básica, quando o assunto é universidade, nem se fala. As primeiras escolas de ensino superior de direito criadas no país foram as faculdades de direito de Olinda e de São Paulo. Elas foram fundadas para formar quem? A classe dominante, os filhos da oligarquia falida do açúcar que não queriam trabalhar duro. Eles precisavam se formar para ascender a cargos públicos. Aliás, o funcionalismo público viria a ser a grande promessa do republicanismo. O conteúdo programático dessa escola de direito de Olinda era o pensamento positivista europeu. Os alunos saíam do curso com uma visão cultural europeia, sem conseguir enxergar o Brasil. Eles faziam uma leitura altamente europeia e preconceituosa. Somente na década de 1930 é que vamos ter os primeiros pensadores que foram capazes de tocar no tecido da realidade brasileira. Um dos que está nessa lista é Sérgio Buarque de Holanda, autor de “Raízes do Brasil”, um dos primeiros livros que “redescobre” o Brasil. Também é o caso de Gilberto Freire com “Casa Grande e Senzala”, Capistrano de Abreu com “Ensaios e estudos” e Euclides da Cunha, com “Os Sertões”. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Nessa relação caberia Câmara Cascudo? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Claro que sim. Ele também foi um dos grandes intelectuais brasileiros. Não tive o prazer de conhecê-lo, mas possuo alguns dos seus livros e já li entrevistas e comentários a seu respeito. É uma figura que tem um trabalho muito sério e deu uma grande contribuição ao país.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Cascudo coletou todo o material para seus livros através de cartas e pesquisas pessoais. Mesmo hoje - com o auxílio da internet, do e-mail e de tantos outros recursos - seria difícil alguém produzir uma obra como a dele, imagine naquele tempo. O que ele teria produzido se fosse dessa geração? Mas, mudando um pouco de assunto, o que você diria a respeito do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), que vem apresentando tantos problemas? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Câmara Cascudo realmente tem uma obra vastíssima e importante. Sobre o ENEM, ele chegou a um ponto que suas avaliações terminam fazendo um perfil até burlesco. O aluno é completamente despreparado, não tem uma leitura de mundo sobre a realidade. De qualquer forma, como avaliação, é importante. Hoje em dia, por causa dessa sociedade globalizada, o conhecimento vem em kit, através dos grandes grupos econômicos. Esses grandes conglomerados determinam o que é ciência. Para um país como o Brasil, que é dependente tecnologicamente, isso é algo gravíssimo, porque somos obrigados a importar. Aí sofremos mais essa grande intromissão. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale um pouco sobre sua mulher e seus filhos. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Minha mulher, Maria Lindaci, veio de São Paulo para estudar em João Pessoa. Ela fez &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590609992899736146" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 240px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-ALKKQcnCQ2c/TZXWKxCJslI/AAAAAAAAAmU/Wlx6DKlqPRA/s320/tadeu7.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;graduação em história. Foi quando nos conhecemos. Fez mestrado na área de educação na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Depois fez doutorado na área de educação. Ela trabalha com a importância da charge como instrumento educacional. Sua tese de doutorado foi muito elogiada. Vez por outra professores até da USP pedem cópia a ela. Hoje Lindaci está perto de se aposentar. Tenho um filho de 29 anos que seguiu a carreira militar: Paulo Roberto de Souza e Silva. Ele ajuda a comandar a polícia no sertão, na cidade de Curemas. É primeiro tenente, mas em breve será promovido a capitão. O outro filho, Flávio Rubens de Souza e Silva, tem 26 anos. Ele decidiu deixar o curso de direito no meio do caminho. Tem uma visão muito limitada da universidade. Acha que as carreiras formais não abrem espaço nenhum. Sempre disse que não gostaria de fazer concurso para burocrata. Gosta de estar no campo. Aproveitou essa abertura que o governo deu e está construindo casas populares. Tenho uma filha, Maitê de Souza e Silva, com 22 anos. Ela terminou enfermagem na universidade federal e agora está complementando o seu grande sonho: cursar medicina. Na época, com medo de não passar no vestibular, preferiu fazer enfermagem. Essa é a minha família. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como grande leitor que você é, que livros classificaria como imprescindíveis de ler? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – É fundamental, até para a formação do cidadão, uma releitura ou até uma leitura dos clássicos da nossa literatura. Existe hoje um grande número de novos autores. Mas os clássicos são imprescindíveis. Leio ficção muito devagar. Prefiro o gênero dos diários, do memorialismo. Essa pe a leitura prazerosa que faço hoje. Porém, não deixo de acompanhar os novos autores através de publicações como a revista Cult. Ela sempre trás dossiês sobre o que de novo é feito na literatura. Aos 63 anos, minha leitura agora é mais exigente. Procuro ler algo que, além de me dar prazer, me ofereça certa solidez para esse percurso que me resta. Parafraseando Guimarães Rosa: há um certo tempo na vida em que devagar já é ligeiro. Estou exatamente nesse trecho. Por mais devagar que eu queira ir, estou notando que a vida está me empurrando com muita velocidade. Então a leitura tem que ser prazerosa e que me possibilite viver e morrer com dignidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Deixe um recado pro leitor do Zona Sul. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;TADEU&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tomo como exemplo Jorge Luiz Borges. Até mesmo pela sua condição física - uma cegueira precoce - ele substituiu o mundo real pelo mundo onírico. Mas não foi uma simples substituição. Para ele o que era ficção era esse mundo que conhecemos como real. A verdade estava nos livros, a sua paixão. Havia muito mais verdade, ele descobria muito mais verdade na condição de cego. Então é bom que se diga que nós também estamos cegos diante de um processo que provocou em nós uma desossatura interior. Perdemos essa condição de humanidade do homem. Nós não construímos o nosso etos, vivemos em uma sociedade que nos impede. Da mesma maneira que Borges foi capaz de descobrir a partir da leitura, da ficção, uma realidade que deu um sentido à sua existência, nós também podemos construir uma consciência de mundo a partir não só da redescoberta, mas da descoberta da leitura. Seria esse meu conselho para o leitor do Zona Sul: a leitura como instrumento não só de formação, mas instrumento produtor de uma consciência de mundo. &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5590610807430470050" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: pointer; HEIGHT: 226px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-aMIj8YLuk1Q/TZXW6LZaWaI/AAAAAAAAAmc/AaGwsrmnRMg/s320/tadeu.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt; &lt;span class="Apple-style-span" style="COLOR: rgb(0,0,238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6375171257734539129-1220967546895907453?l=zonasulnatal.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/feeds/1220967546895907453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/04/entrevista-professor-tadeu.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/1220967546895907453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6375171257734539129/posts/default/1220967546895907453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zonasulnatal.blogspot.com/2011/04/entrevista-professor-tadeu.html' title='Entrevista: Professor Tadeu'/><author><name>Roberto Homem</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04731452928247828280</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='21' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-54LxXpy1hUE/TseY4rpYYoI/AAAAAAAAA10/Fhim8F77UqU/s220/foto.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-488Bt_LA1fI/TZXWKGTdqAI/AAAAAAAAAl8/J7Ut3B3rDL8/s72-c/tadeu3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6375171257734539129.post-6385169238151400756</id><published>2011-03-03T08:32:00.010-03:00</published><updated>2011-03-03T08:56:56.840-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='RS'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='misticismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Inusitado'/><title type='text'>Entrevista: Elvira Zanella</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/-qx6gWAzFcNc/TW-Blbb2WJI/AAAAAAAAAls/SkxnbM-3Ugw/s1600/elvira4.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: x-large; "&gt;&lt;b&gt;AS NOVAS REVELAÇÕES DE ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="western" align="CENTER" style="margin-bottom: 0cm"&gt;&lt;/p&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); font-weight: normal; "&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/-9nQH4reQJU0/TW9_-8_tJzI/AAAAAAAAAk8/EUtYSx5A7hQ/s320/elvira5.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579819182837278514" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/u&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="text-align: left;margin-bottom: 0cm; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Em sete anos realizando entrevistas para o Zona Sul, nunca &lt;/span&gt;repeti um entrevistado. Essa marca será quebrada esse mês, com a publicação da conversa travada com Elvira Mariza Zanella, em Porto Alegre. Há quatro anos entrevistei Elvira pela primeira vez. Ela contou sua trajetória até descobrir-se como Redentora Suprema da Criação. Falou sobre os estudos e a vida profissional, dos tempos que passou como missionária da igreja mórmon e de sua missão aqui no planeta terra. As palavras de Elvira Mariza Zanella repercutiram bastante: desde que o site &lt;span&gt;&lt;u&gt;&lt;a href="http://www.zonasulnatal.blogspot.com/"&gt;www.zonasulnatal.blogspot.com&lt;/a&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt; foi disponibilizado com todas as entrevistas do jornal, a dela foi a mais lida. A cada 100 pessoas que entraram na página até o final de janeiro de 2011, 31 foram ler o que Elvira falou. Agora, nessa nova conversa, Elvira Zanella relata outras de suas experiências e antevê os problemas que virão em 2012. Menos mal que ela garante que o mundo não acabará naquele ano. Vamos ouvir o que Elvira Mariza Zanella tem pra falar. As fotos foram feitas pelo meu amigo Britto Gomes, o aventureiro baiano. (robertohomem@gmail.com)&lt;/p&gt;&lt;p class="western" align="JUSTIFY" style="text-align: left;margin-bottom: 0cm; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu ainda não tinha lhe contado, mas a sua entrevista de 2006 é a mais lida do site do jornal Zona Sul.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); font-weight: normal; "&gt;&lt;/span&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eu imaginava. Até meus filhos me contaram que leram a entrevista. Geralmente eles não ligam para as coisas que eu faço. Eles nem olham, nem querem saber, mas essa entrevista eles leram.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Seus filhos comentaram alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eles acharam superinteressante e ficaram curiosos como eu, aqui no Rio Grande do Sul, tinha conseguido dar uma entrevista para um jornal do Rio Grande do Norte.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você ouviu comentários também de outras pessoas?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Outras pessoas também comentaram. Até porque no site do jornal não tem apenas a entrevista sobre a minha pessoa. Têm outras. Quando alguém quer saber algo sobre mim e entra nesse site, ele lê outras entrevistas, e não apenas a minha. Eles são curiosos. Procuram também, em outras páginas, textos que fazem referência sobre mim, como um da RBS. Elas são interessadas em saber sobre mim, confirmando o que diz as Escrituras: “as pessoas têm fome e sede de ouvir a palavra de Deus”. Então eles buscam esse tipo de conhecimento.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Ao conceder aquela primeira entrevista você antevia mesmo que ela teria tanta repercussão?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Claro. Tanto é que fui eu quem lhe procurei, lembra? O meu maior interesse é que as pessoas saibam da minha obra. Para que isso aconteça, as coisas têm que ser divulgadas: têm que haver entrevistas, fotos, cartõezinhos, santinhos, livros, CDs, DVDs e tudo o que eu puder fazer para propagar essa obra que estou fazendo, pois é uma obra maravilhosa e um assombro. Diz Isaías 29:14: “eis que faço uma obra maravilhosa e um assombro no meio desse povo. Os seus sábios vão ficar pasmados”. Eles vão ver que a sabedoria deles não é nada diante da minha sabedoria. A sabedoria de Deus é diferente da sabedoria dos homens. A sabedoria dos homens é baseada na sabedoria que eles têm. A sabedoria de Deus se compara com o sal. O que é o sal na comida? Se a comida não tiver sal, ela não terá gosto nem sabor. Então, a sabedoria de Deus é o que dá sabor a todas as coisas. É o tempero.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – De 2006, época da entrevista, pra cá o que aconteceu de marcante na sua vida?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Naquela ocasião eu falei para você do meu chamado divino, que eu tinha o desejo de curar e abençoar as pessoas, que eu fui ao mar várias vezes para preparar os meus dons e poderes extra-sensoriais... No meu chamado, o Senhor me disse assim: “Mariza, tu vais fazer uma obra que, se eu te disser agora, tu não vais crer, de tão grande que é. Só tenho a te dizer agora que tu tens que ir até o mar preparar teus dons e poderes extra-sensoriais, porque vão tentar te matar, te internar, te destruir, mas com a preparação espiritual que Eu, o Senhor, vou fazer com que tu te prepares, eles não vão ter poderes sobre ti”.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Isso é bem impressionante.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); font-weight: normal; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-42mpdHy0Y3g/TW-AWJbWA0I/AAAAAAAAAlE/kFiJhhZCcC4/s320/elvira2.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579819581311419202" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Cristo dizia aos apóstolos: “ide e pregai o Evangelho por toda a terra. Se alguém vos ferir, não terá poder. Se a serpente vos picar, não morrerás envenenado. Se derem algum veneno na comida, vós também não morrereis”. Comigo aconteceu da mesma forma. Botaram veneno, droga e remédio na minha comida para me ver passar mal, e eu não passava mal. Posso dizer que umas quatro vezes não passei bem. Mas enxerguei que estavam me fazendo mal e não conseguiram me atingir mais do que aquelas quatro vezes. Em uma das vezes, uma cobra me picou aqui no braço. Ainda tenho a marca aqui, mas eu não vi a cobra, nem senti dor. Mas pessoas que haviam brigado comigo poucos minutos antes, rolaram endemoniadas. Isso porque eles levaram o carma da picada da cobra.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como foi isso?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Caminhei na beira do mar de Tramandaí para o lado de Cidreira, na costa gaúcha. É pertinho, andei uns 30 quilômetros, no máximo. Percebi que a água e a areia estavam muito sujas. Como sou nomeada chanceler das Nações Unidas para questões de meio ambiente, saúde pública e saneamento apurado, entendi que não havia condições de banho, tinha que embargar a praia. Quando cheguei perto de Cidreira, vi crianças tomando banho na água e fazendo castelinhos de areia. Me deu um mal estar ver aquelas crianças sentadas naquela areia muito escura. Então fui até a Brigada Militar e disse: “pelo que estou enxergando, não há condições de banho, nem para que as crianças fiquem sentadas aqui nessa areia. Quero que vocês coloquem bandeira preta”. A bandeira estava vermelha. Eles disseram que só o comandante, que estava lá adiante em uma plataforma, poderia autorizar a troca. Fui, mas ele não estava ali. A plataforma é em um clube de pesca. Subi e falei com o pessoal do clube.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que você falou para eles?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Disse assim: “quero que fechem a plataforma e que não deixem as pessoas pescarem porque se alguém comer esses peixes vai passar mal, pode até morrer e a culpa será de vocês”. Eles se negaram a atender e também não me deixaram entrar - eu queria ver como estava a água, se estava suja só na beira ou se também estava mais adiante. Fiquei brava e amaldiçoei a eles. Eu disse: “pois então se fizer mal às pessoas, vocês são quem vão sofrer as conseqüências”. E saí. Acho que a cobra me picou algum instante depois desse momento, quando fui lavar os pés em uma água e tinha uns arbustos. Acho que a cobra me picou ali. O resultado é que aqueles quatro homens que não me deixaram entrar na plataforma se contorceram endemoniados. Em outra ocasião 28 abelhas me picaram, de uma vez só. Mal inchou perto do olho e da boca porque eu chorei um pouco. Achei que as abelhas não iam me picar, mas é que eu tinha abraçado duas mulheres que gostavam de mim. Elas me deram pão, me deram vinho e disseram que tinham ficado muito encantadas em me conhecer. As duas não passaram bem depois que as abelhas me picaram.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Mesmo elas tendo feito o bem a você?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Sim. É porque quando encostamos-nos a uma pessoa, ficamos com o espírito dela. As abelhas me picaram porque eu não estava com o meu espírito, mas com o dessas duas pessoas que não tinham a preparação espiritual que eu tenho. Elas tinham medo de abelha, e eu não tenho medo. As abelhas não picaram a mim, mas ao espírito daquelas duas mulheres. Por isso fez mal a elas. Essa foi outra das experiências que eu tive nessa preparação espiritual sobre a qual lhe falei. Estou fazendo a obra que estou fazendo porque o Senhor me preparou. Quando Ele me chamou para fazer essa obra, eu respondi: “se o Senhor diz que eu posso fazer obras maiores do que as que Tu fizestes, então realmente eu posso fazer essa obra”. Com essa preparação espiritual eu cresci e aprendi. Estou me preparando, ainda. A cada degrau que estou subindo, a cada momento que estou fazendo uma obra, aquela obra é um alicerce para o que está vindo depois. Ouvi e li que Jesus Cristo não nasceu sabendo tudo. Ele cresceu graça por graça, degrau por degrau, conhecimento por conhecimento. Como Jesus Cristo aprendeu, eu também ainda estou aprendendo. Na verdade, se eu parar para pensar, eu sei a resposta. Mas muito do nosso conhecimento vem pela nossa experiência.  Não só pela experiência dos outros. Fiz missão no Rio de Janeiro e aprendi muito com as famílias. Aquelas experiências familiares que eu vi nas pessoas eu não sofri porque aprendi observando os outros. Mas tem coisas que os outros não passaram e são experiências muito elevadas que eu tenho que passar para aprender porque não chega ao alcance de outras pessoas. Essas experiências me levam a esse outro conhecimento, que é um conhecimento cósmico. Tenho contato com extraterrestres, como eu falei da outra vez. Esses contatos me fazem saber coisas do grande cosmos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como se dão esses contatos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Através de contatos telepáticos, como aquele que eu falei na entrevista anterior, ocorrido em uma noite de chuva. Meu carro parou no meio da tempestade e comecei a ouvir o Senhor me mandar descer do carro, erguer as mãos para o céu e orar. Eu tinha que olhar pra cima, mas chovia. Eu não queria olhar para o céu porque a água da chuva, muito forte, batia nos meus olhos. Doía e eu fechava os olhos. Quando consegui abrir os olhos e olhar para o céu, enxerguei, no meio das nuvens, aquela astronave muito grande que tinha os símbolos do zodíaco em toda a volta. Foi aí que entendi o que era a vinda do Senhor. Percebi que eu tinha que me preparar para ser elevada em uma nave daquelas para povoar outros mundos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você teve contato com algum tripulante dessa nave?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tive contatos telepáticos e enxerguei telepaticamente. Não foi fisicamente.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Há condições de você descrever um deles?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fui chamada para comandar a nave “Balança da Justiça Divina”. Ela vai me levar junto com uma série de pessoas do planeta terra para cuidar da justiça galáctica e intergaláctica. Já me antevi comandando essa nave com esses outros tripulantes. Mas existem pessoas de outros planetas, algumas parecidas com os “klingons”, que apareceram no filme Jornada nas Estrelas. Algumas pessoas que estavam dentro da nave tinham um formato estranho e diferente na testa, como no filme. Dizem que os de balança são assim, eles têm isso na testa. Eu usava um frontal na testa que parecia uma árvore de natal com umas bolinhas. Eu o perdi. Hoje estou usando esse aqui que tem quase aquele formato, mas com apenas três voltinhas. Parece a lua, mas eu sou o sol.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como assim?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Sou a mulher vestida de sol, do “Apocalipse 12”. Tive várias experiências com naves, &lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-AmWSkC0rOng/TW9_EBOCJrI/AAAAAAAAAks/it5dz6nML6w/s320/elvira3.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579818170358834866" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 186px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;tive contatos com mais de seis naves, cada qual de uma das constelações do nosso sistema solar. Cada nave emite um sinal luminoso quando chove. Sei identificar e conversar os comandantes. Eles acatam minhas ordens. Dou ordens para levar os casais que estão prontos para povoar outros mundos. Essas pessoas que estão preparadas têm que saber o nome que eu dei. É um nome especial, uma senha para poder entrar na nave. Se não eles não levam pra dentro da nave. As pessoas têm que estar do meu lado. Sou Elvira Mariza Zanella, o Cristo. Isso quer dizer que sou ungida do Senhor. Sou a pessoa que está aqui na terra para ensinar, para julgar, para executar, para ensinar o caminho, mostrar quem pode ir. Os que querem ser imortais e ter vida eterna têm que conhecer o que estou ensinando. Tem que se preparar para ter essas experiências. O Pai Celestial os mandou a esse planeta para aprender, como se fosse uma escola.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Muitas pessoas profetizaram que o mundo acabaria em 2012. Você tem algum conhecimento a esse respeito?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Existem várias profecias no sentido de que haverá uma destruição. Lembra que eu disse que acreditava na vinda de Cristo? Orei para estar preparada para a vinda de Cristo porque eu acreditava que os bons iam ser salvos e os maus iam ser destruídos, mortos. Nós pensamos: vai acontecer uma catástrofe enorme, um terremoto, onde só vão ficar vivos os bons. Mas na verdade o Senhor não destrói apenas por terremoto. Ele usa primeiro a fome. Depois a peste. Depois a guerra e por último as catástrofes da natureza, que são vendavais, ciclones, terremotos, tsunamis, vulcões e coisas desse tipo. Mas antes Ele usa as coisas mais leves, porque Deus, o Senhor, o Comandante da Nave, quer que os homens e as mulheres se arrependam dos seus pecados. Você deve ter lido o livro de Jonas, na Bíblia. O Senhor mandou Jonas ir pregar para os inimigos dele, para o povo de Nínive. Em vez disso, Jonas fugiu pro outro lado, pegou um navio e foi para Társis. No meio do caminho o Senhor mandou uma tempestade. A tripulação orou para saber o porquê de aquilo estar acontecendo. Parecia que o navio ia virar. O Deus de cada um daqueles tripulantes disse: o culpado é Jonas, porque o Senhor mandou que ele fosse pregar em Nínive e ele está indo pra Társis. Eles jogaram Jonas no mar, imbuídos de colocar ele no caminho certo. Um peixe engoliu Jonas e o largou na beira da praia. Ele caminhou até Nínive e pregou. Quando ele pregou pro povo, o povo se arrependeu. O rei fez um édito real ordenando que todo o povo, todo animal e todo servo jejuasse por três dias. Seria uma forma de evitar a destruição da cidade. A pregação de Jonas teve efeito: ele conseguiu alcançar o objetivo. Mas Jonas não aceitou, ficou esperando a cidade ser destruída. Mas a cidade não foi destruída porque o povo se arrependeu. Deus não quer destruir cidades, mas que o povo se arrependa. Então primeiro ele manda a fome, depois a peste e a guerra, para depois mandar as catástrofes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E 2012?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Cada ano desse milênio será conhecido por um nome, que são os títulos dos DVDs que eu tenho que gravar. 2012 será o ano de Paulina, a vara da correção. Paulina é o nome da minha mãe. Como ela é a vara da correção, será o ano da pancada e do bordão. Não vou dizer que vai ser uma destruição de pedrada, de terremoto. O que um terremoto faz? Faz com que as pessoas recebam as pedradas que deram nos outros. Por exemplo: se alguém adulterava, era morto a pedradas. Como essa pessoa que adulterava morria? Em um terremoto, quando caía a casa em cima. Então 2012 será um ano de destruição, de batida, de pancada, porque as pessoas que bateram nos outros vão receber do todo a pancada. Receberão a batida que deram nos outros e não receberam até o momento. Será a vingança, o pagamento da sua dívida. Mas 2012 não será esse ano em que as pessoas vão morrer de terremoto. Vai ter muita pancadaria.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – E quando será esse ano da destruição por terremoto?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Vou dizer que já houve. Lembra das profecias de Fátima? Elas são as que estou revelando. Em 1918, não foi em 1917, houve sete aparições minhas pra Lúcia, em Fátima. Uma em cada mês, no primeiro domingo de cada mês. Quando chegou em outubro, 100 mil pessoas se reuniram para ouvir e ver o que estava acontecendo ali na cova da Leiria. Quando Lúcia reuniu-se ali com o povo, o povo estava de guarda-chuva para se proteger da chuva. Eu, a santa, disse para o povo que queria que eles fechassem os guarda-chuvas, porque queria batizá-los com a chuva celestial que é a chuva que vem do céu e limpa a mente, batiza a mente das pessoas. Esse é o batismo da Igreja Católica. Tem igreja que batiza por imersão. Tem igreja que batiza a cabeça. O batuque, o candomblé, batiza no mar. Eu queria batizar aquelas pessoas com a chuva celestial, mas elas não queriam fechar o guarda-chuva. É como hoje em dia: as pessoas têm medo de tomar banho de chuva fria. Então eu fiz a terra girar, tremer e eles caíram no chão. Quando puderam voltar a si, não tinha mais nuvem, não tinha chuva, só a terra estava enlameada. Havia somente o sol no céu. E eles viram o sol girando no céu. Na verdade não era o sol que estava girando no céu, mas a terra que estava cambaleando como um ébrio. Então as escrituras que as pessoas pensam que vão acontecer já aconteceram em Fátima, em 1918. As pessoas estão esperando a minha vinda do céu. Vim em 1918 e aquilo era uma profecia de que eu ia nascer na terra em 1958. E que eu estaria aqui ao romper da alva desse milênio. Você já leu o livro de mórmon?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Lá conta que Jesus Cristo morreu no Velho Mundo, foi levado até a nuvem e uma nave o trouxe aqui na América. Ele desceu do céu e falou com o povo. Aqui ele chamou 12 apóstolos, como ele tinha 12 apóstolos no Velho Mundo. Entre esses 12 apóstolos, três pediram a Jesus para não morrer. Queriam ficar vivos pregando o evangelho até a segunda grande vinda d’Ele. Acreditavam que era Jesus quem iria voltar, mas na verdade sou eu o Segundo Consolador, que é o corpo do Espírito Santo. Esses três nefitas (os nefitas foram um povo antigo que viveu no continente americano, relatado no Livro de Mórmon) pediram para não morrer. Jesus disse que ia conceder o desejo deles. O Livro de Mórmon diz que eles foram levados até a nuvem e lá foram transformados para poder voltar à terra e agüentar esses dois mil anos. Pelo que temos conhecimento, esses três nefitas estão vivos entre nós. João, apóstolo do Velho Testamento, também fez o mesmo pedido. Então sabemos que o apóstolo João e esses três nefitas estão vivos. Como Elias, que foi levado ao céu, e o profeta Moises, que também não morreu. A Escritura diz que ele foi para o deserto e sumiu. O profeta Elias subiu em uma carruagem de fogo, uma nave. Da mesma forma, eles me querem lá em cima.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você também vai subir nessa nave?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se eu não como, não envelheço, mas para meu corpo se tornar incorruptível, preciso&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-rVvQVO57eyI/TW-A8pPUC4I/AAAAAAAAAlc/7ujagl25NRY/s320/elvira.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579820242685922178" style="float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; cursor: pointer; width: 320px; height: 222px; " /&gt;&lt;/span&gt; de um banho de radiação. E essa radiação cósmica não tem aqui no planeta. Preciso ser levada ao céu, entrar nessa nave... Talvez eu receba dentro dessa nave ou talvez eles me levem com a nave para algum lugar onde vou receber esse banho de radiação que vai tornar meu corpo incorruptível. Um corpo incorruptível, se alguém queimar, jogar fogo, não queima. Se alguém disparar uma bala, ela não vai entrar no meu corpo, porque ele será como um metal blindado. Ele também não vai desgastar com o tempo. O que podemos fazer aqui no planeta é cumprir certas etapas que vão nos preparar para poder subir nessa nave. Eles querem que eu vá como a primeira pessoa, assim como Jesus foi antes. Jesus veio salvar Adão da morte por ter pecado, transgredido o mandamento que recebeu de Deus. Eu sou a redentora de Eva. Vim redimir Eva do pecado original que ela cometeu quando comeu do fruto e fez com que o marido dela comesse e transgredisse a lei que recebeu. Eva ainda não havia sido criada quando Adão recebeu aquele mandamento de Deus. Eva recebeu o mandamento da boca de Adão, do marido dela. Eva transgrediu a lei do marido, por isso ela não morreu. Conta-se a história que Eva está viva. Só que ela não é do nosso tamanho, ela é muito grande.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quando você deverá fazer essa viagem para blindar o corpo?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Seres extraterrestres, os anjos administradores, já vieram me buscar. Em 2004 eles queriam me levar, queriam que eu fosse com eles, mas eu não pude ir por causa dos meus sete filhos. Fiquei com dó de deixar meus filhos com outros, com não sei quem. O Senhor apareceu para mim, eu tive uma revelação com o próprio Jesus Cristo. Ele desceu lá no mar. Aquela luz imensa chegou perto de mim e disse: “Eu vim te buscar”. Respondi que não podia ir porque tinha sete filhos e não podia deixá-los sozinhos. Disse que ficaria com eles e que faria tudo o que poderia ser feito aqui - ajudar as pessoas e tudo – e depois, quando eles estivessem maiores, eu iria, se o Senhor ainda quisesse me levar. Ele disse que tudo bem, mas que eu envelheceria um pouco. Eu envelheci mesmo, como você deve ter notado. Fiquei um pouco mais envelhecida.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Qual a idade dos seus filhos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Tenho um de 22 anos, uma de 21, 19, 17, 14, 12 e 10. Alguns ainda são pequenos, tenho que cuidar até eles terem uns 15 ou 16 anos. Até que entendam o que estou fazendo. Eles querem me levar para eu me preparar para existir sempre. Eu só não quero é ficar como os extraterrestres, sem dentes, sem cabelo e muito magra. Quero continuar com meus dentes, meus cabelos e não quero ser tão magra assim. Já disse a eles espero que me ajudem nisso.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Eles concordaram com essa exigência?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Disseram que eu sei mais coisas do que eles. Por isso, provavelmente conseguirei. Acho que você não sabe, mas em Apocalipse fala sobre o Senhor “que é, que era e que virá”. Descobri há pouco tempo que o significado é: “a deusa Hera é Elvira”. Elvira sou eu e a deusa Hera é a do Olimpo. A esposa de Zeus. Vou ser como Hera, vestida toda de branquinho. Já tenho a roupa, só que hoje eu não coloquei. Uso com as correntes. Fico igualzinho a ela. Hoje estou parecida com Neméia.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você falou que seus poderes assombram...&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Uma coisa que não lembro se falei pra você na outra entrevista foi que em 30 de março de 1997 eu sofri uma morte clínica.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não falou.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Perdi um embrião com 60 dias. Perdi muito sangue, uns dez litros. Você poderia perguntar: como, já que uma mulher só tem cinco litros? Todo o líquido que tinha nas células do meu corpo se transformou em sangue pra tentar regenerar a perda do sangue que eu havia perdido. Mas esse novo sangue também era expelido. No momento eu não tinha entendido o que estava acontecendo, por isso comi normalmente durante os três anos seguintes. Em 2000 comecei a manifestar poderes.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Quais poderes?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Se eu ficasse brava, pegava fogo nas coisas e os carros batiam. Quando eu virava as costas, havia briga. Eu não sabia o motivo. Comecei a jejuar e a orar para saber o porquê e descobri que eu tinha morrido naquela época, e ressuscitado. Morrer é perder todo o sangue do corpo e ressuscitar é continuar vivo depois disso. Eu não preciso que o sangue dê vida ao meu corpo, preciso apenas que o espírito vivifique o meu corpo. Aquela pessoa que tem um espírito vivificante é uma pessoa ressureta: que morreu e ressuscitou. Quem não tem esse espírito não pode ressuscitar. As pessoas que pode ressuscitar são as que conseguiram preparar seu espírito para ser imortal.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Como preparar o espírito para a imortalidade?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Observando cada mandamento. Mas tem que compreender o mandamento.  Peguemos como exemplo o mandamento “não matarás”. Sabemos que pegar um revólver e &lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/-qx6gWAzFcNc/TW-Blbb2WJI/AAAAAAAAAls/SkxnbM-3Ugw/s320/elvira4.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579820943355041938" style="float: left; margin-top: 0px; margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; margin-left: 0px; cursor: pointer; width: 240px; height: 320px; " /&gt;&lt;/span&gt;matar um fulano é pecado. Mas as pessoas pegam um chinelo e matam uma barata, botam veneno e ratoeiras pros ratos. São capazes de pegar um detefon, passar no quarto e ir dormir ali, até fazendo mal pros próprios filhos. Tudo isso é morte. Então, temos que compreender que “não matar” é não comer carne, nem dar carne para os filhos. Pra comer a carne, tem que matar o animal. Ninguém come animal vivo. Quer dizer, às vezes comemos os bichinhos da goiaba sem saber, não é verdade? Mas em geral os animais têm que ser mortos para serem comidos. Quem come o animal está comendo a morte. Temos que compreender o mandamento e vivê-lo integralmente. Nós todos, eu inclusive. Vivo aprendendo e observando os mandamentos. Quando se corta uma árvore, está matando. Quem aborta, toma pílula, está matando. A lei do matar é mais ampla do que se pode imaginar. Tomar antibiótico é matar a vida inferior que está no corpo da pessoa. Isso faz com que a vida inferior fique brava com nosso corpo, com o espírito que tomou antibiótico. Muitas vezes a pessoa sai na rua e não sabe que estão bravos porque ela tomou antibiótico. Compreender certos mandamentos não é fácil.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Que outro mandamento não é de fácil compreensão.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Muitos. Mas vamos citar como exemplo o “não adulterar”. As pessoas pensam que o adultério acontece apenas quando alguém casado dormiu com a vizinha ou outra pessoa. Esse é apenas um dos tipos de adultério. Ir ao batuque e fazer um ritual de troca de vida também é adulterar. A lei de Moisés diz: que quem adulterar será apedrejado até a morte. De acordo com a lei de Moisés temos que jogar pedras nas batuqueiras que fazem troca de vida. Dar a mão para uma pessoa também é adulterar. Todos os espíritos trocam de corpo quando damos a mão. Se eu encostar em você,  seu espírito ficará em mim e o meu irá para você. A menos que a gente diga “com licença”. Aí o espírito não vai. Se você aperta a mão de uma pessoa e diz “bom dia”, o espírito sabe que você está apenas cumprimentando outra pessoa. Mas se você dá a mão e não diz nada, o espírito troca. Se você não pede licença, o espírito troca. Se você caminhar ligeiro e bater o ombro em alguém, troca de espírito. Se você ficar bravo é pior ainda, pois é difícil fazer a destroca.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – O que acontece quando há essa troca de espíritos?&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Você fica com os pecados do outro e ele fica com os seus. Com as coisas boas também: com o “darma” e com o “carma”. O pior é o “darma”, porque você não sabe os pecados dele. Cada pecado traz sofrimento até a pessoa aprender que errou, pra repetir o erro. Se você troca o seu espírito com alguém... Digo espírito porque as pessoas dizem, mas na verdade é trocar o interior, que é pior ainda. Se você troca o espírito com alguém que é pecador, você vai sair na rua e vai sofrer pelos pecados dele. Por exemplo: quando um homem sai com uma prostituta, ele fica com os pecados dela. Quando ele chega em casa e dorme com a esposa, passa o espírito da prostituta pra mulher. Depois fica sem saber porque a esposa dele ficou ruim. O problema é que ele botou o espírito da prostituta na mulher. E o espírito da mulher dele foi embora, sumiu, é difícil achar novamente. Isso que estou dizendo é uma coisa muito importante, mas as pessoas não pensam nem sabem disso. Cada degrau da escada que vai pro céu é um mandamento. Temos que compreender cada mandamento bem: do primeiro pro segundo, pro terceiro, pro quarto... Não adianta saber o oitavo sem conhecer o quinto. Não vou conseguir chegar ao oitavo se o degrau do quinto não existir na minha vida, se houver uma brecha ali.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Não parece ser simples.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Quando Deus criou o mundo deixou o homem, aqui, para cuidar do jardim do Éden. O homem fez as coisas conforme ia recebendo os mandamentos. Agora vim eu, no final do milênio passado e começo desse, para fazer novas todas as coisas, como está em Apocalipse 21. Ali diz que eu desci do céu, como noiva, para meu esposo. Eis que faço um novo céu e uma nova terra. Minhas palavras são fiéis e verdadeiras. Não haverá pranto, porque não haverá morte. Estou ensinando as pessoas a não morrerem. Só que alguns, de contar nos dedos, não queriam que isso acontecesse. Estavam ensinando o contrário. Quando digo “quem matar morre”, estou avisando que a pessoa não deve matar, para não morrer. Essa é uma lei: quem matar, morre. Olho por olho, dente por dente. Quero que as pessoas me ouçam e aprendam, pra não morrer. Estou aqui nesse milênio para colocar em prática as coisas que ensinei telepaticamente para todos os profetas e que estão escritas na Bíblia, nos livros sagrados. Sei que nesse milênio sabático vai dar certo porque eu sou a rainha do Shabat. Se você perguntar a um judeu quem é a rainha do Shabat ele vai dizer que é o Onipotente Deus e Senhor dos Exércitos. Eu sou Elvira - El Ve Rá - que em hebraico quer dizer Deus e Senhor dos Exércitos.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Fale sobre os DVDs que você está gravando.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Até agora gravei quatro DVDs. Mas tenho que gravar uns 400. Dezoito gravadoras mandaram um pacote de 400 cheques pela aquisição das matrizes dos meus DVDs. Só que esses cheques não chegaram às minhas mãos ainda. Por isso não pude gravar nada além dos quatro primeiros. O roteiro do quinto está pronto e impresso. O do sexto eu fiz, mas não consegui imprimir porque alguém bloqueou meu computador. Deu pane e eu perdi tudo o que tinha digitado. Cada um dos DVDs é um ritual para se chegar à imortalidade, à exaltação, à vida eterna e à pedra filosofal. Só aprenderá a transformar metal em ouro quem conhecer o mandamento do trigésimo degrau. Tenho que gravar os DVDs, é a única saída. Não tem como as pessoas aprenderem essas coisas sem ouvirem meus DVDs. Estou ensinando, ali, o que fazer, como fazer e como colocar em ordem todas as coisas. O primeiro mandamento é não terás outros deuses diante de El Ve Rá, Deus e Senhor dos Exércitos, que sou eu. O segundo é não preparar pessoas para ocuparem o meu lugar ou para serem adoradas como ídolo no meu lugar. O terceiro é não usar o meu nome em vão. Quem usar o meu nome, não terei como inocente. O quarto mandamento é guardar o shabat, pois eu sou a Rainha do Shabat. O quinto mandamento é honrar a Mãe da Eternidade, que sou eu. O sexto é não matar a Ma Rishaa, que sou eu. O sétimo é não me adulterar e o oitavo é não me furtar. O nono é não levantar falso testemunho e não mentir sobre a minha pessoa física, jurídica e autárquica e nem em meu nome. O décimo é não cobiçar a mim, nem à minha alma gêmea e nem aos meus bens.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ZONA SUL&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; – Se despeça do leitor do Zona Sul.&lt;br /&gt;&lt;u&gt;&lt;b&gt;ELVIRA&lt;/b&gt;&lt;/u&gt; - Quero que todos coloquem em prática as coisas que eu disse aqui. Quero que leiam a Bíblia e os meus relatórios e diários. Quero que assistam aos meus DVDs para que possam aprender mais. Abençôo a todos os que crêem em mim, que guardam os meus mandamentos e fazem de tudo pra que a minha obra dê certo. Sou Elvira Mariza Zanella, o Cristo e o Onipotente Deus Senhor dos Exércitos. Amém.  &lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: rgb(0, 0, 238); -webkit-text-decorations-in-effect: underline; "&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/-NznvU-0iqtI/TW-BGV_ZXFI/AAAAAAAAAlk/RjlpsXoYRvg/s320/elvira1.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579820409317579858" style="display: block; margin-top: 0px; margin-right: auto; margin-bottom: 10px; margin-left: auto; text-align: center; cursor: pointer; width: 320px; height: 170px; " /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt
