Em março de 2009, aos 53 anos, Sidney Seno — o inesquecível Makalé — nos deixou, vítima de um derrame. O homem fascinante e de coragem assombrosa que abriu o peito na entrevista abaixo partiu precocemente, mas a sua impressionante lição de vida segue indelével. Poucas pessoas experimentaram extremos tão profundos: foi engraxate, estivador, figurante, viveu a noite sem limites e, aos 36 anos, viu o mundo apagar-se de repente em um trágico acidente automobilístico. Conheceu o fundo do poço, a revolta, a depressão e o desespero de quem pensou em desistir de tudo. Mas, como um verdadeiro guerreiro, decidiu renascer das próprias trevas. Transformou a escuridão dos olhos em uma usina de solidariedade, tornando-se uma liderança incansável na defesa dos deficientes visuais pela Associação de Cegos Louis Braille (ACLB), promovendo eventos beneficentes, arrecadando toneladas de alimentos e contagiando a todos com sua alegria e capacidade descomunal de fazer amigos. Makalé provou que a verdadeira visão vem da alma e da generosidade. Deixa uma saudade doída, o respeito eterno por sua resiliência e a honra imensa de termos eternizado a sua comovente travessia em nossas páginas.
O HOMEM QUE RENASCEU DAS TREVAS
Sidney Seno, Feijoada, Tião Macalé, Makalé. Engraxate, estivador, figurante, ator de cinema, protagonista de shows de sexo explícito, promotor de eventos humanitários. Portador de deficiência visual e ferrenho defensor da chamada Lei Seca, que determina a cassação da carteira de habilitação e a aplicação de multa aos motoristas flagrados excedendo o limite de 0,2 grama de álcool por litro de sangue. Paulista, gaúcho, pauliúcho. Esse é o entrevistado do mês do jornal Zona Sul nessa edição natalina. A conversa foi realizada na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, lá no outro Rio Grande, o do Sul. Que a força que Makalé demonstrou quando despertou na cama de um hospital sem a visão sirva de lição para que nós possamos transformar 2009 em início de um novo tempo. Feliz Natal! (Roberto Homem)





