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quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Entrevista: ADEMIR RIBEIRO

A VOZ DE OURO DO RÁDIO POTIGUAR





Ademir Ribeiro, um dos mais importantes nomes da história do rádio potiguar, é o entrevistado deste mês. Entre outros assuntos, ele fala sobre sua trajetória na Rádio Poti, lembra do programa Show da Manhã, comenta a respeito de religiosidade e de sua paixão pelo América Futebol Clube e fornece uma anti-receita para quem quiser preservar sua voz. Irreverente, brincalhão e bem humorado, ele recorda momentos marcantes de sua carreira.


Nascido em Natal, no bairro da Ribeira, no dia 2 de junho de 1939, Ademir Ribeiro sempre foi um homem de rádio. Dono de uma voz limpa, grave e marcante, ele escreveu um dos principais capítulos da história da radiofonia potiguar como apresentador do programa Show da Manhã, transmitido durante muitos anos pela Rádio Poti. Hoje aposentado, Ademir pode ser encontrado todas as manhãs no Bar de Lourival, na avenida Deodoro, em frente ao prédio do Diário de Natal - local o qual ele chama carinhosamente de “meu escritório”. Foi em “seu escritório” matinal que Ademir concedeu essa entrevista ao Zona Sul. Para minha honra, Nélson Siqueira, meu pai, conduziu comigo a conversa, regada a cachaça, whisky, cerveja e queijo de coalho, servidos por Nicodemos, o secretário Nicó. (Roberto Homem)







ZONA SUL – Como começou sua carreira no rádio? Você teve outras profissões ou experiências antes?
ADEMIR – Eu participei de um teste para locução, no começo dos anos 60, na Rádio Poti, disputando com outros 20 candidatos. Alguns deles até já atuavam em outras emissoras. Tinha gente da Rádio Rural e também da Cabugi. Ao final das provas, só passou um. Quem? Ademir Ribeiro! Eu nunca tinha visto um microfone à minha frente, antes daquele dia. Eu tremia, o papel tremia nas minhas mãos, mas a voz manteve-se sempre segura, sempre firme. Dei um show. O teste era diferente dos de hoje. Interpretamos crônica, nota de falecimento, lemos nomes de autoridades estrangeiras... Aprovado, queriam que eu fizesse rádio-teatro. Eu disse que não, que gostaria de ser locutor. Este foi meu primeiro emprego. Papai segurou minha barra até os 20 anos, sem que eu precisasse trabalhar pra ninguém. Nunca fui outra coisa na vida a não ser profissional do rádio. Trabalhei até 1988 no mesmo prefixo, na mesma emissora, a Rádio Poti.


ZONA SUL – E depois da Rádio Poti?
ADEMIR – Fui para a Rádio Cabugi. José Wilde (hoje chefe de gabinete do senador Garibaldi Alves Filho, em Brasília) era o diretor artístico da emissora. Sabendo que eu tinha saído da Poti, ele telefonou dizendo que me queria na Cabugi. Pedi 30 dias para pensar, alegando que não seria fácil, para mim, trabalhar em uma rádio de políticos. No 29º dia, meus irmãos me pressionaram: “Ademir, você só quer viver bebendo, não quer trabalhar...”. Eu disse que não queria mesmo não. Mas eles insistiram e acabei concordando. Liguei para Zé Wilde, para dar minha resposta. Ele falou que já estava quase mantendo contato com Milton Duarte, para ocupar a vaga. Fui. Ricardo Alves, filho de José Gobat, acertou um negócio comigo. “Vou lhe pagar 12 horas-extras sem você cumpri-las, apenas para complementar o seu salário”. Mas aí veio o Plano Collor e Ricardo, alegando que a rádio estava em uma situação difícil, cortou minhas horas-extras.


ZONA SUL – No início da carreira você se impôs um desafio: vencer na vida atuando apenas como radialista, já que essa atividade era considerada mais hobby do que profissão. Você acha que conseguiu?
ADEMIR – O desafio foi lançado por um diretor da Rádio Poti chamado Rui Ricardo. Ele disse: “Ademir isso aqui jamais será uma profissão, não passará de um bico”. Ele me aconselhou a terminar os estudos. Eu já tinha terminado o científico, mas não quis fazer faculdade. Respondi que provaria que aquele emprego como locutor não seria para mim apenas um bico, mas uma profissão. Disse também que tudo o que eu conquistasse seria a partir da minha voz. Provei que não era um hobby, mas uma profissão. Acho que, à época, fui o maior salário do Norte-Nordeste do Brasil. Estou falando em salário como locutor, dentro do estúdio, entre quatro paredes, sem fazer política, sem fazer gravações fora, sem nada.


ZONA SUL – Por que você não costumava aceitar que sua voz fosse usada também em campanhas políticas?
ADEMIR – Eu sempre detestei política. Mas, recentemente recebi uma oferta razoável, em termos financeiros, para trabalhar uma vez por semana, durante dois meses, nessa campanha política. O candidato, que é do interior, me pediu para não dizer o seu nome, e não direi. Vou lá só gravar textos já escritos pela equipe dele. Virá me buscar e me deixar aqui no meu escritório, o Bar de Lourival. Vou só usar a minha voz, a maior ferramenta que Deus me deu. Já fiz trabalhos para Iberê Ferreira de Sousa, para Garibaldi Alves Filho, mas só a voz dentro do estúdio, gravada. Jamais aceitei subir em palanque. Nunca trabalhei ligado a um político para ganhar dinheiro. Hoje a maioria ganha dinheiro de político. Eu nunca trabalhei.


ZONA SUL – O programa Show da Manhã foi sua marca registrada. Fale sobre ele. Quanto tempo durou? Como surgiu?
ADEMIR – Surgiu de uma idéia que César Rizzo, então diretor da Rádio Poti, trouxe do Rio de Janeiro. César era narrador de futebol, mas Luís Maria Alves, então diretor dos Diários Associados em Natal, mandou chamá-lo para o cargo. Eu topei apresentar o programa, mas disse que não faria igual ao modelo do Rio. Propus, e aceitaram, um quadro para eu ler poemas meus e de outros autores. Também abri espaço para uma crônica chamada O nome do dia e sugeri ainda tocar músicas do passado. Assim eu fiz. Foi um sucesso absoluto em Natal. Fiz outros programas, entre eles o Peça Bis pelo Telefone e Geléia Geral. Mas o Show da Manhã foi o que marcou minha vida.


ZONA SUL – Além de programas de entretenimento, você apresentou jornais na Rádio Poti e atuou em rádio-novela. Como foram essas experiências?
ADEMIR – Um dos noticiários que apresentei foi O Galo Informa, com notícias do Brasil e do mundo, fornecidas pela United Press Internacional (UPI) e pela Agência Meridional. Naquela época, Genar Wanderley era doido para que eu fizesse rádio-teatro. E eu queria ser somente locutor. Um dia, quando estava no ar a novela Amargo Silêncio, de Janete Clair, o galã, que era Nilson Freire, adoeceu e Genar pediu para eu substituí-lo. A princípio eu recusei, mas terminei aceitando e dei um verdadeiro show. Depois da exibição daquele capítulo, o telefone não parou de tocar. Dezenas de pessoas queriam saber quem era o novo galã da novela Amargo Silêncio. Fui endeusado pelo povo. Depois dessa experiência, passei a atuar em novela, além de continuar como locutor e redator. Também trabalhei na Televisão Universitária, a TVU, quando ela estava engatinhando. Eu e Liênio Trigueiro apresentávamos um noticiário. Ele ia de bermudas porque a câmera só filmava do peito pra cima. Nem sei se a TVU ainda tem em arquivo alguns destes programas.


ZONA SUL – Com esse vozeirão todo você também canta?
ADEMIR – Vou contar uma história bem interessante. Nélson Gonçalves chegou na Rádio Poti para ser entrevistado no meu programa. Depois de alguns instantes conversando, ele comentou: “Ademir, nunca ouvi um grave tão parecido com o meu como esse que você tem... Cante aí um pouquinho”. Aí eu cantei: “Boemia, aqui me tens de regresso...”. Imediatamente, com aquele jeito dele, gaguejando, ele interrompeu: “Ca-cale a boca, Ademir, não can-cante mais não. Você nasceu só pra falar. Nã-não serve pra cantar nada, é desentoado e desafinado”. Eu ri imediatamente, do jeito que estou rindo aqui, agora.


ZONA SUL – Durante a carreira você tomou algum cuidado com a voz? Você mesmo assume que costumava tomar suas cervejas durante as apresentações dos seus programas...
ADEMIR – Meu cuidado com a voz sempre foi cerveja, rum, whisky e cigarro. Comecei a fumar com 11 anos de idade, nunca tomei cuidado com a voz. Quando eu vejo Carlos Nascimento, Cid Moreira e William Bonner dizendo “eu não bebo, eu não fumo, faço gargarejo todos os dias...”, eu os considero uns imbecis. Todo dia, embaixo lá do meu birôzinho, eu botava as cervejas que tinha comprado no bar de seu João Furtado, próximo à rádio. Era bebendo e trabalhando. Depois dos 15 anos, nunca parei de beber. Estou com 65, já faz 50 que bebo. Tomei cerveja durante 30 anos, vivia doente, tomei dois anos de whisky, vivia doente também. Um dia cismei e pedi para o garçom me mostrar uma cachaça. Cheirei a Pitu e não gostei. Pensei logo: “essa aqui dá cirrose”. Pedi uma dose de Caranguejo. Passei a beber essa marca. Dois anos depois voltei à médica que me acompanha. Contei pra ela que fazia algum tempo que tinha passado a tomar aguardente. Ela ficou preocupada, achou que eu estivesse com cirrose. Passou uma série de exames. Todos deram resultado normal. Mandou fazer uma ultra-sonografia. A responsável pelo exame comentou comigo, após ver o resultado: “Seu Ademir, o senhor nunca bebeu, não é?”. Eu confessei a quantidade de anos que eu já bebia. Ela disse que não acreditava. Repetiu a ultra-sonografia. O resultado foi igual ao de uma pessoa que nunca bebeu.


ZONA SUL – Você ainda mantém a religiosidade e a paixão pelo América - duas das características que tinha naquele tempo?
ADEMIR – Sim. Religiosamente, todas as manhãs, faço cinco orações. Principalmente aquela que eu digo, logo que vou para o sanitário: “obrigado, Senhor, por mais um dia. Que esse dia de hoje seja bem melhor que o de ontem, em todos os sentidos, sob todos os aspectos e em qualquer circunstância”. Essa é a abertura que faço matinalmente. Ainda continuo crendo muito. Tenho aqui a medalha de Nossa Senhora de Fátima, minha Protetora, e a Cruz de Cristo Jesus, meu Pai Celestial. Mas se me perguntar se vou à Missa, responderei que ia quando era menino. Hoje assisto à Santa Missa pela televisão, todos os domingos. Mas não vou à Igreja. A paixão pelo América também é do mesmo jeito. Lembro uma ocasião, o América tinha vencido o ABC, eu fui para a rádio fantasiado como jogador do América: bermuda branca, camisa vermelha, número 9 às costas, que era o usado por Pancinha, o meu ídolo à época. Aí César Rizzo disse: “chefe, vá para casa descansar três dias...”. Eu perguntei se ele estava me suspendendo ou dando uma licença. Ele respondeu que era suspensão. Eu disse: “César, você, por favor vá a ***”. Ele emendou: “você está demitido”. “Me dê essa porcaria para eu assinar”, pedi. Assinei. Na chefia de pessoal, Luis Sena perguntou o que tinha acontecido. Eu expliquei que estava assinando a minha demissão. César Rizzo foi falar com Luís Maria Alves. Chegou lá e contou que estava com uma demissão para seu Luís assinar. Luís Maria Alves perguntou de quem era a demissão. Quando César disse que era a minha, imediatamente ouviu de Luís Maria Alves: “Ademir Ribeiro? Você é quem está demitido. Peça suas contas, vá embora e volte para o Rio de Janeiro!”.

ZONA SUL – Como está a vida de aposentado? Sente saudades dos tempos da ativa?
ADEMIR – A vida de aposentado está ótima. Tomo minha Caranguejo todos os dias, fumo minhas quatro carteiras de cigarro... Apesar disso, tenho a voz ainda do mesmo jeito, com 65 anos de idade. Acho a coisa mais maravilhosa do mundo. Hoje vez por outra sou chamado para alguma coisa. Mas como aposentado, acho que se eu voltar a trabalhar estarei tomando o lugar de alguém que precisa mais do que eu. Por isso só aceito uma ou outra oferta. Já tenho o meu. É pouco, mas o suficiente para viver. Fui a maior indenização do Rio Grande do Norte, quando saí da Rádio Poti. Recebi 1,260 bilhão de cruzeiros. Eu compraria o edifício Wimbledon todinho se quisesse, na rua Seridó. Mas botei o dinheiro na poupança. Com os sucessivos planos econômicos, caiu um zero aqui, outro acolá e o montante ficou bem pequenininho. Não sinto saudades do tempo em que trabalhava. Na hora em que deixo um emprego, não chego mais nem perto.


ZONA SUL – Como está seu coração? Está amando?
ADEMIR – Não amo mais ninguém. Amei quatro mulheres. Uma, inclusive, casada. Passou 12 anos comigo, sem o marido saber. Mas quando minha mulher, Teresa, morreu, descobri que foi a única a quem realmente amei. Me arrepio todo. Numa sexta-feira, em março, no Carnaval do ano 2000, fui em sua casa. Ela vivia dizendo que estava com medo que eu morresse sozinho na minha casa do Cidade Satélite. Propôs que eu fosse morar com ela e nosso filho, Maxwell, o mais velho. Eles estavam preocupados. Eu respondi que não dava certo, já tinha me acostumado a morar sozinho. Então Teresa pediu que eu levasse um lençol velho, para a sua cachorrinha dormir. Prometi ir domingo, ou segunda-feira. Fui na segunda. Bati na porta, nada. Fui embora. Voltei para o bar, continuei bebendo. Depois fui para minha casa, no Satélite. Peguei uma garrafa, continuei bebendo. Tive um estalo. Meu filho Maxwell tinha ido para a Paraíba com a mulher dele. Minha filha, Irina, para Barra de Cunhaú, com o marido. Iriana, a outra filha, estava em Natal. Liguei para ela e perguntei se Teresa tinha viajado. Ela respondeu que não. Mandei ela ir até a casa da mãe, com seu marido, que é advogado. “Pegue seu marido e vá lá, que sua mãe está morta”. Ela pediu que eu não repetisse aquilo. Fiquei em casa aguardando. Ela morreu sozinha, do jeito que não queria que eu morresse. Fico todo arrepiado... Morreu com o nebulizador ao lado. Ela sofria falta de ar. A partir daí, descobri que Teresa foi a mulher a quem realmente amei, apesar de estarmos separados há tantos anos, quando ela morreu.


ZONA SUL - Qual o segundo melhor locutor que trabalhou em Natal? E o terceiro? Sei que você vai dizer que foi o melhor. E eu não vou discordar... E no Brasil?
ADEMIR – O segundo foi Liênio Trigueiro e o terceiro, Nilson Freire, apesar de Nilson ser mais antigo do que eu e Liênio. Os dois tinham muito a ver com a minha voz. O primeiro sempre foi Ademir Ribeiro e não tem para onde correr. E eu não sou modesto não, porque quem é modesto é covarde. Eu não gostava de Cid Moreira, mas gosto de William Bonner, muito bom locutor e apresentador. Cid, que todo mundo endeusa demais, deixou de existir a partir do momento em que passou a ganhar dinheiro vendendo a imagem de Cristo, a Bíblia. Devia dar de graça. E não ganhar dinheiro às custas de Jesus Cristo.


ZONA SUL – Você nunca pensou em prosseguir sua carreira em outro estado?
ADEMIR – Fui convidado pela Rádio Globo, do Rio de Janeiro, pela Rádio O Povo, do Ceará. O diretor da O Povo veio aqui e me convidou, não para ser locutor, mas para dirigir a rádio. Eu respondi que amo a minha cidade e que não sairia de jeito nenhum. E também que amava o prefixo onde estava trabalhando, a Rádio Poti, que era a dona do mundo naquela época, em termos de rádio.


ZONA SUL – Como você gostaria de ser lembrado?
ADEMIR – Eu? Nem sei... Podia ser Ademir Ribeiro, a voz de ouro do rádio. Porque esta voz eu não ganhei de graça. Foi Deus quem me deu. Pode botar lá no meu túmulo. “Ademir Ribeiro – A voz de ouro do rádio”. Só isso.

domingo, 22 de fevereiro de 2004

Entrevista: JUSTINO NETO

O HOMEM QUE NÃO SE TROCA POR NINGUÉM




Em uma noite quente do começo de janeiro, eu e os jornalistas Costa Júnior e Carlos Roberto Fontes conversamos com o repórter esportivo Justino Neto, hoje assessor de imprensa do ABC Futebol Clube. O calor só foi amenizado pela cerveja gelada e pela brisa do mar de Ponta Negra. Justino é um grande amigo que tenho desde a época em que trabalhei na assessoria de imprensa da Secretaria da Educação do Rio Grande do Norte. Foi um prazer e uma honra descobrir um pouco mais de sua vida nesse papo que rolou no restaurante Veleiros. (Roberto Homem)



ZONA SUL - Como o mundo do esporte passou a fazer parte de sua vida? Antes você trabalhava no Bradesco, não é?
JUSTINO - Trabalhei mesmo no Bradesco, mas, antes disso, eu tinha jogado futebol. O Bradesco foi uma sequência da vida. Minha namorada engravidou e tive que casar. Naquele tempo você ou casava ou já viu como era... Então meu pai chegou e disse: "se depender do dinheiro do futebol vocâ não vai casar não". Ele conseguiu um emprego para mim no almoxarifado do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Fui trabalhar com ele lá. Depois fui para uma cigarreira, aí veio o tempo do quartel.


ZONA SUL - Você jogou futebol em qual time?
JUSTINO - Joguei dois anos no Alecrim, aí chegou o tempo do quartel e fui servir no Exército. Joguei no aspirante do Alecrim em 1967 e 1968. Naquele tempo não tinha infantil, nem juvenil, nem juniores. Era só a equipe de aspirantes. O interessante é que quando um jogador da equipe principal se machucava, o treinador ia buscar um substituto no time de aspirantes. Acontecia de você jogar na preliminar, pelos aspirantes, e depois precisar voltar a campo na principal, pelos profissionais.


ZONA SUL - Sua posição era lateral esquerda?
JUSTINO - Sim, mas eu nunca cheguei a ser uma grande estrela. Naquele tempo lateral esquerdo era proibido passar do meio campo. Tinha que ficar da linha da intermediária para trás. Cheguei a ser sacado do time por desobedecer a essa exigência. O treinador Zé Djalma, o popular Tenente, me tirou. Não sei nem se ele é vivo ainda hoje. Eu tinha tendência de ser atacante. Hoje desconfio que minha posição é atacante e ainda não descobri ainda. Chegava no meio campo, eu passava, seguia em frente. Por três vezes Tenente me chamou atenção e me tirou do time. Aí fui para o quartel em 1970.


ZONA SUL - E como você ingressou no rádio?
JUSTINO - O rádio foi consequencia do futebol. Eu trabalhava no Bradesco e, no Tirol, na Praça Augusto Leite, estavam organizando um time de futebol para disputar uma competição. Botamos o nome do time de Rio Negro. Como eu era conhecido, sabiam que eu tinha jogado no Alecrim, me convidaram para ser o treinador. Num intervalo do serviço, lá no Bradesco, fui à Rádio Nordeste botar um anúncio. Quem estava lá era o finado Otaviano Filho, pernambucano que fazia um programa policial chamado Cidade Alerta. Como ele era candidato a vereador, abria espaço no programa pra quem quisesse divulgar notícias de bairro, essa coisa toda. Fui divulgar a nota do meu time. Audi Dudman, que faleceu recentemente, estava assistindo o programa, pois ele entrava logo em seguida com sua equipe, que tinha Gilvando Batista, Oscar Jorge, Edvaldo Pereira, Roberto Machado, Franklin Machado... Depois que li a nota do meu time, quando saí da cabine, Audi me chamou e convidou para trabalhar na rádio. Eu expliquei que já estava empregado no Bradesco e que não sabia nem o que era rádio. Ele insistiu que eu tinha uma voz boa e reforçou o convite para eu trabalhar na resenha esportiva da Nordeste. No dia seguinte retornei à emissora para divulgar outra vez a notinha do time do qual eu era o treinador. Mas Audi insistiu para que eu aceitasse ser plantonista esportivo auxiliando Jorge Canuto. Resolvi aceitar e passei um ano por lá.


ZONA SUL - Mas deixou o emprego do Bradesco?
JUSTINO - Não. Eu trabalhava no banco e, ao meio-dia, corria pra rádio. Minha participação era só de 15 ou 20 minutos. Fiquei nos dois empregos até o dia em que resolvi pedir demissão do Bradesco. Isso foi em 1971. No ano seguinte fui para a Rádio Cabugi, levado por Carlos Alberto e por Eunice Marques. Depois de dois anos passei a trabalhar também na Tribuna do Norte, levado por Agnelo Alves. Acumulei rádio e jornal.


ZONA SUL - Marco Antonio foi quem "promoveu" você na Cabugi de plantonista a repórter de campo?
JUSTINO - Quando Marco Antonio foi contratado pela Cabugi, foi levado para conhecer o estúdio da rádio à meia noite e quarenta. Ele me viu na sala de redação da rádio, com aquele cabelão grande, pois eu era metido a playboy na época. Eu estava na máquina telex, que era por onde chegavam as notícias de outros estados. Marco Antonio perguntou quem eu era. Informaram que eu era o plantonista. Com pouco tempo ele me colocou para trabalhar como repórter.


ZONA SUL - Quer dizer que no rádio esportivo você fez de tudo: de plantão a narrador...
JUSTINO - Fiz noticiário esportivo, noticiário político, fazia redação, cobri os três principais times de Natal, a Federação de Futebol... Cobri tudo.


ZONA SUL - É verdade que você torce por um time que não é o ABC?
JUSTINO - Não, não é verdade. O pessoal acha graça, mas, para ser sincero a você, nem de futebol eu gosto. É a minha profissão. Mesmo assim, reconheço que se eu sair do futebol hoje, vou sentir falta. Realmente, como dizem, é uma cachaça. Você não consegue ficar longe, não. Até msmo quem pára de jogar futebol hoje, mais tempo menos tempo ele procura se encostar novamente em alguma atividade da área, como auxiliar técnico, preparador físico ou treinador de escolinha.


ZONA SUL - Qual o narrador mais fanático torcedor? Quem é o cara que narra e que torce pelo time?
JUSTINO - Hélio Câmara. Um grito de gol do América narrado por Hélio Câmara é diferente. Eu conheço em qualquer lugar. E não é só Hélio Câmara não. O Garotinho, na Rádio Globo, narra um gol do Flamengo diferente de qualquer outro time, apesar de ele torcer pelo Fluminense. Ele grita mais alto, com mais vontade do que qualquer outro gol. É como Hélio Câmara quando o gol é do América. Não precisa nem você saber quem está jogando. O Rio Grande do Norte inteiro conhece. Agora, Hélio Câmara é um dos grandes narradores do Brasil. Não tem aquela história do jogador que nasceu geograficamente errado, como Alberi e Jorginho? É o mesmo com Hélio Câmara. Se ele tivesse nascido no Rio ou em São Paulo hoje estaria consagrado. Tem voz, tem criatividade, tem ritmo. A narração dele é espetacular. Eu o considero um dos melhores do Brasil.


ZONA SUL - Você foi o pioneiro em Natal atuando em assessoria de imprensa de clube? O que está achando da experiência?
JUSTINO - De clube de futebol, sim. Hoje, se eu saísse do ABC e fosse trabalhar em qualquer emissora de rádio, teria condições de desenvolver um trabalho muito melhor. Esse tempo no ABC está sendo gratificante. Aprendi muita coisa. Hoje tenho conidições de dizer o que é um clube de futebol por dentro. Eu sei de onde sai o dinheiro e como ele entra no clube, o que se passa lá dentro, as dificuldades. Hoje eu tenho bagagem para falar com detalhes sobre um clube de futebol.


ZONA SUL - Há muita vaidade tanto nas direções dos clubes como na imprensa esportiva?
JUSTINO - Há demais. Tem diretor de clube que adora um microfone. Se ele não conseguir falar em nome do clube, para ele o dinheiro que empregou no futebol não valeu a pena. Faz questão de deixar o celular ligado na hora da resenha esportiva. Se tiver três telefones, deixa os três ligados. Se ninguém ligar pra ele, ele liga pra rádio, para falar. Liga mesmo. Às vezes é necessário o presidente ou um diretor faalar. Mas tem gente que faz questão de ligar. Nem que seja pra dizer que o jogador que vinha hoje não vem mais. Aí o repórter aproveita e vai levando a entrevista para encher linguiça, coisa que acontece muito. Para o pseudo-dirigente, aquele momento é o máximo. Ele não precisa mais nem almoçar. Tem muitos assim e não é só em Natal, não. Também não é só no futeebol... Tem na política, em todo lugar. A vaidade acima de tudo.


ZONA SUL - Se você ganhasse a concessão de uma emissora de rádio e fosse montar sua equipe esportiva, quem contrataria? Qual sua seleção do rádio?
JUSTINO - Zé Lira seria o plantão esportivo. Os repórteres de pista, com todo o respeito aos demais, seriam Ricardo Silva e Francisco Inácio. O narrador seria Hélio Câmara. O comentarista seria Franklin Machado, se ele quisesse voltar ao rádio. Pra mim foi o maior comentarista que vi em Natal. O irmão dele, Roberto Machado, também foi um dos maiores narradores que ouvi. A equipe técnica seria Luti Lopes e Ailson Bonifácio. São os melhores do Nordeste inteiro, não tem pra onde correr. Já trabalhei com todos eles, inclusive com Franklin e Roberto Machado. Só não trabalhei com Ricardo Silva.


ZONA SUL - O Estatuto do Torcedor tem condições de melhorar a organização do nosso futebol?
JUSTINO - Se for cumprido à risca, melhora. Se não... Tem uns absurdos também no Estatuto, como por exemplo a possibilidade de você responsabilizar dirigentes por um tumulto que tenha ocorrido a quase um quilômetro de distância do local do jogo. Isso não tem sentido. Não existe. Já a definição do calendário com antecedência é uma medida ótima e é primordial no Estatuto. Você já sabe quando vai jogar, que competição vai ser disputada, tem condições de se organizar. Diferente do que acontecia na CBF. Antes ninguém sabia quantos times disputariam a Série C, por exemplo, ou sequer quando a competição começaria. Esse é o ponto de partida para organizar o futebol.


ZONA SUL - O que diferencia um bom técnico de um treinador normal? Qual a receita para um técnico levar sua equipe à vitória?
JUSTINO - Primeiro ele tem que ter um elenco de qualidade. Você não vai a lugar algum com um elenco ruim. Com peças ruins você não vai a canto nenhum. Depois, o carisma, saber levar o plantel, ter domínio sobre o plantel. Não adianta também ter um plantel qualificado e você não ter domínio sobre ele.


ZONA SUL - Qual foi o maior técnico que você já viu trabalhar no Rio Grande do Norte?
JUSTINO - No futebol do Rio Grande do Norte foi Ferdinando Teixeira. A explicação é fácil: de 10 títulos disputados ele ganhou 8! E isso enfrentando treinadores vindos de fora e tudo o mais. Foi para o Fortaleza e ganhou o campeonato cearense também.


ZONA SUL - Qual seria a sua seleção dos jogadores que atuaram no Rio Grande do Norte?
JUSTINO - Goleiro tivemos muitos bons. Ribamar, Erivan, Manoelzinho... Eu ficaria com Erivan, do ABC. Lateral direito, Papagaio, também do ABC. Zagueiro central seria Edson, outro do ABC. Quarto zagueiro tinha o Jácio, do América, mas eu escalaria Ivan Matos. Lateral esquerdo seria Marinho Chagas, não pode ser outro. Depois dele, Nonato. Volante teve Baltasar, Drailton, Paúra, Lourival... Vasconcelos, meio de campo, também jogou muito. Outros craques foram Hélcio Jacaré, Danilo Menezes, Marinho Apolônio, Odilon e Mendonça, que nunca foi campeão em clube nenhum. Moura foi outro jogador diferenciado. Mas, nos meus 53 anos de idade, o jogador que vi jogar mais foi Alberi. Na ponta direita tinha Jangada, Noé Silva... Se botar tempos antigos, tinha Panquela, que veio de Alagoas. Há diferença entre o futebol de antigamente e o de hoje. Já o maior goleador que vi foi Claudinho, ex-ABC. Está até hoje jogando na Arábia. Ele tem uma categoria para fazer gol que é impressionante. E sempre gol bonito. Mais recentemente teve Leonardo. Também vou citar o Robgol e o Sérgio Alves. Na ponta esquerda eu escolheria Burunga. Tem também o Lula, que saiu do estado e chegou à Seleção Brasileira. A especialidade de Burunga era fazer gol, também. Agora, pra mim, o maior jogador foi Alberi. Eu digo em todo o canto. Eu tiro o chapéu para Alberi. Não tem pra onde correr.


ZONA SUL - E para quem você não tiraria o chapéu no mundo esportivo?
JUSTINO - Para os maus dirigentes, para os aproveitadores e os enganadores. O futebol está ruim por causa deles. Mas também tem gente decente no futebol. Nâo são muitos, são poucos.


ZONA SUL - Você teve algum problema, como repórter, com jogador ou treinador?
JUSTINO - Tive com um treinador chamado Hélio Lopes. Ele bebia muito e ainda bebe hoje. Na época ele trabalhava no Alecrim e chegou embriagado na concentração. Fui obrigado a divulgar, pois ele chegou brigando com todo mundo. Ele foi para a rádio dizer que era mentira, essa coisa toda, mas depois voltamos a ser amigos. Hoje ele é meu vizinho, inclusive. Não tocamos mais no assunto. O que passou, passou. Ele reconheceu que eu, trabalhando em rádio, tinha que divulgar aquela informação. Com jogador nunca tive problema. Sou amigo da maioria deles.


ZONA SUL - Você tem algum ritual, algum cuidado quando vai narrar uma partida?
JUSTINO - No dia em que vou narrar, se a partida for à tarde, eu não almoço. Se for à noite, so janto depois do jogo. Isso facilita a minha locução e me dá mais fôlego.


ZONA SUL - Qual um chavão que você criou e que continua a usar?
JUSTINO - "Me queiram bem porque não custa nada a ninguém". Uso até hoje... Tem a música, também: "eu gosto muito de você, Justino, eu não lhe troco por ninguém, não troco não". O mundo do rádio é realmente fascinante.


ZONA SUL - Como você passou a acumular as funções de reórter de campo e de narrador esportivo?
JUSTINO - Fui fazer um jogo em Mossoró, Potiguar e Alecrim, no mesmo horário da partida que seria transmitida em Natal. Eu estava lá só para informar, de tempos em tempos, o resultado da partida. Aí faltou energia no Machadão. A rádio, que tinha gerador próprio, continuou no ar, mas não tinha partida pra narrar. Então, o gaúcho Marco Antonio, que estava narrando o jogo de Natal, anunciou: "agora vamos direto a Mossoró com o nosso narrador Justino Neto". Ainda bem que eu estava atento, com fone de ouvido. Entrei e narrei a partida. Depois disso fiquei na rádio como narrador e repórter.


ZONA SUL - Conte uma história pitoresca que você presenciou nesse tempo todo de futebol.
JUSTINO - A Seleção do Rio Grande do Norte foi enfrentar a de Pernambuco, em Caruaru. Tradicionalmente, o RN jogava de verde, vermelho e branco. E Pernambuco de azul. Só que Flávio Rocha, na época candidato a deputado federal, patrocinou a viagem da nossa Seleção e deu um terno de camisas azuis. Como eu já acompanhava a Seleção e conhecia os jogadores, sabia disso. Fui para Caruaru pela Tropical. Pela Cabugi foram Jota Santiago, Santos Neto e Lauro Neto. Eles chegaram na cidade no dia do jogo, e eu, dois dias antes. Quando eles chegaram no campo, a Telpe tinha transferido a cabine da Cabugi para o lado oposto de onde ficava a da Tropical. Eles só conseguiram começar a narrar o jogo uns 30 minutos depois do seu início. Pra piorar, por causa das cores da camisa, começaram a narrar o Rio Grande do Norte como sendo Pernambuco e vice-e-versa. Um time como se fosse o outro. Na hora do gol eu griteei gol do Rio Grande do Norte e Santiago narrou o gol como sendo de Pernambuco. Ligaram do estúdio da Cabugi, em Natal, para alertar que a Tropical estava dando gol do Rio Grande do Norte. Somente nessa hora foi que eles descobriram, mas Santos Neto já estava desconfiado, porque toda vez que caía um jogador do time que eles achavam ser o de Pernambuco, o massagista que ia atender era Spagueti, do América.