sexta-feira, 30 de março de 2007

Entrevista: NÉLSON OLIVEIRA

AS LINGUAGENS DE NÉLSON OLIVEIRA

Nélson Oliveira tem um jeito muito peculiar de compor canções que sintonizam imediatamente com os meus ouvidos. Aliás, pelo que percebo, ele não agrada apenas a mim. Nélson compõe com a alma. E consegue garimpar sons, versos e ritmos que não permitem que o ouvinte fique insensível ao seu trabalho. Pena que o mundo seja tão grande e os caminhos para o reconhecimento, espinhosos. Mas ele está aqui, nas folhas do Zona Sul. Oferecendo atalhos para o leitor potiguar plugado na internet se deliciar com o seu trabalho. Mas, antes que você ligue o seu PC para descobrir e se deliciar com esse novo talento da MPB, peço que dedique alguns minutos para conhecer a história desse meu amigo Nélson Oliveira. Com a mesma sinceridade que emprega nas suas composições, Nélson contou para mim e para o piauiense Chiquinho Sales alguns lances de sua trajetória. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Nélson Luís de Oliveira, mineiro de...
NÉLSON- Itapagipe, lá no Triângulo Mineiro.
ZONA SUL – Quantos anos?
NÉLSON – A minha idade? 45, bem vividos. Mas o meu corpinho é de 20... (risos)
ZONA SUL – Quanto tempo você viveu em Itapagipe? O que você recorda desse período?
NÉLSON – Morei em Itapagipe até os oito anos. A cidade fica em uma região agropecuária. A vida lá era rural, bastante interiorana. Isso foi nos anos 60. Do ponto de vista da cultura e da música, o ambiente também era propício à música caipira, mas não essa sertaneja atual. Era uma música caipira mais genuína, produzida dentro daquela atmosfera mais acanhada, mais do carro de boi do que do caminhão boiadeiro.
ZONA SUL – Fale um pouco mais sobre a sua infância...
NÉLSON – Foi uma infância vivida dentro de um ambiente muito saudável, do ponto de vista da natureza e do espaço. Morei no interior, com muito quintal e muita liberdade. Mas tive alguns acidentes. Fui um menino muito distraído. Talvez eu já tivesse, naquele momento, essa mania que artista tem de sonhar acordado. Em determinada ocasião, um trator passou por cima de mim. Como o trator é alto, ele não me machucou. Mas aquilo me traumatizou. Depois eu tive um acidente com um caminhão que cortou minha perna. O motorista estava fazendo uma manobra no lugar onde eu estava brincando. Nesse aspecto, tive uma infância um pouco atribulada. Depois meu pai comprou um caminhão e decidiu mudar para Brasília. Ele e minha mãe concluíram que só aqui poderiam oferecer condições para os filhos estudarem e se desenvolverem. Foi nesse caminhão que a gente se mudou para Brasília. Aquele tipo de mudança que o pessoal do Nordeste conhece...
ZONA SUL – Foi bem pau-de-arara mesmo...
NÉLSON – Não foi exatamente pau-de-arara. Mas foi uma mudança de pessoas simples que saem do interior para a capital.
ZONA SUL – Sua família é constituída por você, seus pais e mais quem?
NÉLSON – Tenho seis irmãos, sendo cinco irmãs e um irmão homem. Somos sete filhos. Uma dessas irmãs é minha madrinha e filha de criação dos meus pais. Sou o penúltimo. A mais velha está com mais de 50, não sei exatamente.
ZONA SUL – Algum desses irmãos dedicou-se à música?
NÉLSON – Não. Meus irmãos convivem com a música de uma maneira que é comum na minha família, já que a música sempre fez parte do nosso cotidiano. Mas a família têm muitos músicos, mas todos amadores: músicos do interior. Meu avô, Antonio José de Castro, era compositor e sanfoneiro de bailes. Naquele tempo, ele tocava um negócio que chamavam de pagode. Hoje, infelizmente, esse termo tem outra acepção. Mas, na minha região, o pagode era aquele baile de fazenda, onde se tocava música para dançar. Meu avô gostava de tocar e compor rancheiras, valsas rápidas e mazurcas. Sempre houve na minha família esse ambiente de se reunir, cantar e tal e coisa. Um dos meus tios por parte de mãe, Jerônimo Maria, herdou o talento de sanfoneiro do meu avô. Mas nenhum dos meus irmãos se desenvolveu como cantor ou instrumentista.
ZONA SUL – Como foi, aos oito anos de idade, trocar Itapagipe por Brasília, sem escala em Belo Horizonte?
NÉLSON – Foi um grande susto. Itapagipe era uma cidade muito pequena e continua sendo ainda hoje, embora esteja situada em uma região economicamente bem desenvolvida, que é a região de São José do Rio Preto, em São Paulo, e de Uberaba, em Minas. Atualmente a cidade tem 10 mil habitantes. Brasília já era, e continua sendo, uma cidade com traços modernistas que até hoje, talvez, ainda representem novidade.
ZONA SUL – Em qual ano você chegou em Brasília?
NÉLSON – 1969. Até publiquei um livro de poemas no qual falo sobre esse momento em que chegamos aqui. Para você ter uma idéia, em Itapagipe nós soltávamos papagaio. Era uma pipa, não sei como se chama em Natal...
ZONA SUL – Papagaio, pipa, coruja...
NÉLSON – Lá a gente chamava papagaio. Tinha aquela forma de um losango. A rabiola, que a gente chamava rabo, era formada de argolas, de elos. Esse papagaio não evoluía muito. Quando cheguei a Brasília, me surpreendi com aqueles papagaios diferentes no céu. Perguntei ao meu irmão o que era aquilo. Ele, que já estava mais inteirado da cidade, disse que era pipa. Ou seja: um papagaio diferente. A pipa aqui é diferente até no formato, ela é quase um triângulo. É um semi-triângulo. A rabiola é mais sofisticada. É composta por tiras cortadas em papel de seda que são amarradas numa linha, de forma a criar aquela sustentação da pipa. Encontrei muitas outras novidades em Brasília. Para me adaptar, foi um pouco difícil. Mas consegui, até porque Brasília não era uma cidade como hoje, totalmente construída em concreto. Muitas casas ainda eram feitas de madeira, inclusive a nossa. Tinham quintais grandes, havia muito espaço para brincadeira. No quintal da minha casa tinha um carro velho, abandonado, que usávamos para brincar de dirigir. Mas claro que a paisagem moderna de Brasília me deixou um tanto assustado.
ZONA SUL – Quando você chegou em Brasília a música tocada na cidade deveria ser diferente da que você ouvia em Itapagipe. Como foi essa mudança?
NÉLSON – A diferença é que em Brasília não tocava tanta música caipira. Também havia um pouco mais de música internacional. Do ponto de vista da música de sucesso, a música brasileira, a jovem guarda, também dominava. Em Brasília ouvi mais Beatles no original. Em Itapagipe eu tocavam mais as versões da jovem guarda. Aqui eu tive também um contato superficial com a MPB, que a gente ouvia por causa dos festivais.
ZONA SUL – Imagino que, em Itapagipe, os meios através dos quais você se relacionava com a música eram os pagodes e provavelmente o rádio...
NÉLSON – Sim, o rádio, mas também nas festas familiares e naqueles encontros ou de crianças ou com minhas irmãs, cantando.
ZONA SUL – E em Brasília? Pelo menos os pagodes não existiam...
NÉLSON – Em Brasília eu ouvia música através do rádio e nas festas. Não sei se esse termo é comum ao Nordeste, mas na minha cidade uma festa de jovens, ou aniversário, não se chamava festa. A gente chamava de brincadeira. Quando cheguei a Brasília é que fui ouvir esse termo festa. Mas eram as mesmas brincadeiras. Eu era muito pequeno. Quem promovia essas brincadeiras na minha casa eram minhas irmãs, que já estavam na idade de namorar, etc. Meus primos, que já moravam em Brasília há algum tempo, também organizavam algumas dessas brincadeiras. Muitas vezes deixavam que eu acompanhasse essa turma mais velha nas festas. Mas meu grande espanto com relação a isso foi quando promovemos uma dessas brincadeiras na minha casa e, a certa altura, chegaram uns jovens que eram muito avançados para a gente naquele momento. Eles estavam mais influenciados pela onda hippie. Essas pessoas entraram descalças, dançando rock and roll. Elas não tinham sido convidadas. Viram a festa e entraram.
ZONA SUL – Em Natal, lá pelos anos 80, quando uma pessoa ia a uma festa sem ser convidado, dizia-se que ia de peru.
NÉLSON – O fato é que eles nem eram penetras ou perus convencionais. Estavam vestidos como se tivessem saído do festival de Woodstock. Aquilo nos deixou bastante apreensivos, mas depois percebemos que eram só jovens querendo se divertir.
ZONA SUL – Quando você resolveu aprender a tocar e passou a compor? Qual idade tinha?
NÉLSON – Isso foi em meados dos anos 70. Eu tinha por volta de 13, 14 anos, no máximo. Já não morava mais na Asa Norte de Brasília. Tinha me mudado para uma cidade satélite chamada Guará. Mas eu voltava sempre à Asa Norte, para encontrar meus primos. Na casa deles se ouvia muita música: principalmente pop e rock. Rolava muito Beatles e Cat Stevens. Um dos meus primos tinha viajado aos Estados Unidos e trouxe muitos discos interessantes. Lá se ouvia também música brasileira. Nessa época um dos primos ganhou um violão e comecei a mexer no instrumento junto com um primo que regulava comigo na idade e o irmão dele, 10 ou 11 anos mais velho, que era o dono do violão. Foi aí que começamos a nos interessar realmente pela música.
ZONA SUL – Você sentia o clima de ditadura na época?
NÉLSON – Havia uma grande pressão política por mudança. E a gente sentia isso. Havia também a atividade parlamentar no Congresso, que de alguma maneira chegava até a gente. Estávamos vivendo uma distensão política, isso por volta de 1976, 77. Também havia uma movimentação cultural grande, em decorrência dessa abertura política. O projeto Pixinguinha veio para Brasília e trouxe Paulinho da Viola, João Bosco, Clementina de Jesus, Jackson do Pandeiro e Jards Macalé. Tinha também as greves da Unb (Universidade de Brasília), as apresentações do Quarteto em Cy, de Ivan Lins... Nesse momento a música se tornou um grande veículo de atenção, de liberação das nossas energias e também de apreensão com o mundo. Muita informação vinha por meio da música. Ela passou a ser um elemento essencial pra mim.
ZONA SUL – Depois que você passou a compartilhar o violão com os primos, qual foi o passo seguinte na música?
NÉLSON – Uma de minhas irmãs tinha ganhado um violão, mas era eu quem tocava mais o instrumento. Ela já tinha começado a trabalhar fora, eu trabalhava, mas ajudando minha família...
ZONA SUL – Em que você trabalhava?
NÉLSON – A gente tinha uma fabricação de salgados em casa e vendia ou entregava nos bares, fazia encomenda para festa e tal. Eu peguei esse violão de minha irmã e comecei a cutucar esse violão. Entrei em uma aulinha ali perto de casa e depois fui trabalhar como office boy do Banco do Brasil. Lá conheci amigos que estavam na mesma balada: começando a tocar seu violãozinho até em um estágio mais avançado que eu. Também comecei a sair com esses amigos e a tocar um pouco com eles. Mas eu não tinha muito talento como instrumentista. Fazia mais o papel de cantor, porque tinha uma boa voz. Como eu escrevia umas letras, a gente já começou a compor alguma coisa nesse momento. Isso por volta de 1978, 1979.
ZONA SUL – Você se inspirava em que para compor nessa época?
NÉLSON – A primeira coisa que fiz foi um frevinho, eu gostava muito de carnaval. Esse frevo era um pouco uma cópia do Frevo Mulher, uma tentativa, pelo menos. Depois de passar no vestibular, já em 1979, viajei para uma cidade mineira chamada Paineiras. Lá me apaixonei por uma moça e acabei compondo uma canção em homenagem a essa cidade, que acredito até que seja uma música que você já ouviu e gosta bastante. Ali arrisquei algumas composições. Mas, na verdade, eu não me achava muito capaz, acreditava muito mais nos meus amigos: no Leonardo, no Zé Adalberto e no Sérgio. Achava que esse pessoal tinha mais talento. Pra completar, eu estava preocupado com questões de sobrevivência, de melhoria de vida, em estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Não dava para música um espaço tão privilegiado assim.
ZONA SUL – Esses amigos nos quais você acreditava seguiram carreira na música?
NÉLSON – Eles se tornaram bons músicos. O Léo é um ótimo compositor, tem composições interessantes, uma delas foi incluída no meu disco como música incidental, em uma faixa chamada Xote Lamento. O Zé Adalberto seguiu a carreira de músico de uma maneira mais persistente. É um compositor de blues. Canta em uma banda de blues aqui de Brasília, a Oficina Blues. Ele fez um pouco de carreira no Rio e atualmente divide a música com arquitetura.
ZONA SUL – Você tem um lado nordestino bem visível nas suas composições. De onde vem essa característica?
NÉLSON – Vem exatamente do encontro com esse amigo e parceiro chamado Leonardo Almeida, que é paraibano. Por intermédio dele ouvi muito a música nordestina dos anos 70: Alceu Valença, Geraldo Azevedo, etc. Mas, independente dele, essa é uma música que fez sucesso aqui em Brasília naquela época.
ZONA SUL – Até porque muitos nordestinos vieram na década de setenta estudar em Brasília... NÉLSON – Sim. Fagner estudou em Brasília, Ednardo e os irmãos Ferreira (Clodo, Climério e Clésio) também. Quando fui para a universidade tive contato com a música dos irmãos do Piauí (Clodo, Climério e Clésio), já que fui aluno do Climério. Tomei contato também com esse pessoal que fazia música em Brasília. Foi mais uma vertente. Mas antes até disso, eu desde criança em Brasília, já era grande admirador do forró. Gostava muito dessa música nordestina feita para dançar, do xote e daquelas letras sensuais. Aquela música Passei a noite procurando tu, por exemplo, preencheu muitas das minhas fantasias de menino, me despertou para a sexualidade e tal. Sempre achei na música nordestina uma grande dose de energia e de alegria que sempre me encantaram e sempre me animaram muito a fazer música.
ZONA SUL – Paralelo à música você escreveu um livro de poesias...
NÉLSON – A primeira coisa que fiz em Brasília ligada realmente à arte foi poesia. Fiz poesia na escola, ganhei até umas medalhas por causa disso, e sempre escrevi. Em 88, quando eu já trabalhava em jornalismo, depois de ganhar um dinheirinho, resolvi publicar um livro de poemas. A poesia sempre foi algo que caminhou paralelo com a música e muitas vezes convergindo com ela, até pelas letras. No tempo desse livro, eu tinha ampliado minhas parcerias. Já estava trabalhando em jornalismo econômico, mas ao mesmo tempo mantinha essa ligação com a música, com a arte e tal. O lançamento foi bastante musical, com alguns shows. Nessa época eu fazia uma parceria com meu cunhado, Abraão, que recentemente iniciou também um disco autoral. A música também estava presente nesse momento. O livro foi uma edição do autor, com mil exemplares. O título é O velho testamento. O título é nome de um poema que trata dessas simbologias relativas à religião. Mas após o livro começou a haver um distanciamento. Foi um momento em que comecei a me distanciar da música porque passei a levar mais a sério a carreira de jornalista. Achei que eu levaria mais chances profissionais no jornalismo do que fazendo música e comecei a me distanciar. Fui ocupar mais tempo com o trabalho jornalístico.
ZONA SUL – Foi fácil para você optar pela carreira profissional de jornalista?
NÉLSON – Foi uma decisão muito rápida. Foi baseada em uma influência que eu sofria da minha irmã que é acima de mim, a Rose, que em 77, quando prestou vestibular, fez para comunicação. Ela acabou não passando e foi cursar serviço social. Fui na cola dela. Quando fiz vestibular, em 79, escolhi comunicação absolutamente convicto de que era aquilo que eu queria. Tinha tanta convicção que apesar de não estar tão preparado assim, passei. Acho que por força dessa convicção. Claro que eu conhecia algumas matérias, principalmente na área de humanas. Mas hoje eu vejo que isso foi o que contou mais.
ZONA SUL – Vamos continuar nesse parêntese fora da música. Qual a matéria que mais lhe marcou fazer, qual a cobertura mais importante que você fez?
NÉLSON – Fiz muitas coisas interessantes. Mas acho que a matéria que mais me orgulhou fazer foi uma através da qual eu investiguei, isso por volta de 96, a situação do Banco Econômico. Recebi uma dica de que o banco estava em má situação e fiz uma matéria afirmando sutilmente o que só viria depois à tona: o banco estava quebrado. Quando o pessoal do Banco Econômico ficou sabendo dessa matéria, me procurou. Fui colocado em contato telefônico com o todo poderoso Ângelo Calmon de Sá. Foi a primeira vez que alguém com o poder que ele tinha teve que se colocar humildemente para dizer que o Econômico estava muito bem. Mas a gente sabia, e os fatos futuros comprovaram, que não estava. Mas veja que estamos aqui falando de coisas absolutamente distintas, porque eu, que tinha essa alma de artista, fui trabalhar na cobertura mais árida, que era a cobertura financeira. Achei que por aí eu teria mais chances profissionais. Acabei, de certa forma, gostando desse negócio e aproveitei bastante também. Depois vi que não era o mundo em que eu queria realmente viver.
ZONA SUL – Para fechar esse parêntese, faça um resumo de sua trajetória como jornalista.
NÉLSON – Fiz o curso na Unb. Sempre fui um entusiasta do jornalismo, de escrever, de participar, de ter participação política. Só que, quando me formei, eu já trabalhava como escriturário do Banco do Brasil. O emprego do Banco era muito seguro e rendia um salário razoável. Era muito difícil optar pela demissão. Depois que me formei, ainda hesitei um pouco. Procurei uma chance de trabalho na área de comunicação no próprio banco, mas não consegui. Resolvi dividir o tempo. Fiz algumas experiências profissionais em jornal juntamente com o trabalho no banco. Depois tive a chance de fazer um estágio remunerado na Radiobras, que na época se chamava EBN (Empresa Brasileira de Notícias). Foi quando eu percebi realmente que eu queria ser jornalista. Larguei o banco contra a vontade de colegas e de alguns parentes e fui trabalhar como repórter cobrindo a área de trabalho. Naquela época, 1988, essa era uma área que crescia, já que os sindicatos estavam ganhando liberdade para atuar e tal. Depois cobri um pouco da área social e percebi que, por conta da questão econômica, daqueles planos de combate à inflação, a área financeira poderia ser um bom caminho. Passei a cobrir o Banco Central e um pouco de Ministério da Fazenda. A partir daí me joguei inteiramente nesse mundo. Cobrindo diversos planos econômicos, como o Cruzado, o Cruzado II, o Plano Bresser, o Plano Verão e continuei até o Plano Real. A partir daí a economia se estabilizou e a cobertura econômica perdeu a importância que tinha. Trabalhei a princípio na EBN, depois fui para o Correio Braziliense, e em seguida para O Globo. Depois passei dois meses na Europa fazendo estudo e turismo. Foi uma viagem de conhecimento.
ZONA SUL – Conheceu quais países?
NÉLSON - Viajei pela Inglaterra, França Itália Áustria Suíça e Espanha. Foi uma viagem particular para conhecer um pouco do mundo e ter contato com aquelas obras de arte e tal.
ZONA SUL – O que você absorveu, em termos culturais, dessa viagem? Você acha que ela teve alguma representatividade na sua formação cultural e no tipo de música que você faz hoje?
NÉLSON – Com relação à música, não acho que tenha recebido uma influência muito grande. Foi mais do ponto de vista de abrir minha percepção para toda aquela produção artística. Mas a viagem foi muito marcante, me influenciou muito, me fortaleceu e me robusteceu culturalmente e intelectualmente. Voltando dessa viagem fui para o Estado de São Paulo, onde continuei na cobertura financeira. De lá voltei para o Correio. O jornal estava vivendo uma nova etapa, tinha se modernizado bastante com Ricardo Noblat, José Negreiros e Armando Mendes. Lá eu me soltei um pouco mais porque não fiquei apenas como repórter. Trabalhei como editor, como articulista, enfim, participei muito da confecção do jornal, que era um trabalho que eu não tinha feito, já que até então estive muito restrito à reportagem setorizada. Esse momento no Correio foi muito importante do ponto de vista intelectual, cultural e, surpreendentemente, também do ponto de vista da música, porque a questão de você editar molda um pouco sua cabeça no sentido de você trabalhar com espaço, com número de palavras. Do ponto de vista de fazer letras, acho que a atividade de titular matéria e legendar foto foi interessante.
ZONA SUL – Nessa segunda passagem pelo Correio você certamente trabalhou com o jornalista potiguar Sebastião Vicente...
NÉLSON – Sem dúvida, ele é um grande companheiro. É uma figura extraordinária. O jornal fervilhava e tínhamos muitas conversas. Ele, embora um pouco mais reservado, sempre foi muito participante. Era uma figura que também estimulava bastante o ambiente lá no Correio.
ZONA SUL – Como você falou, a dedicação ao jornalismo e a luta pela sobrevivência deixaram a música um pouco latente dentro de você. Quando ela retornou novamente a ocupar papel de destaque na sua vida?
NÉLSON – Tem tudo a ver com o fato de que eu entrei em crise com o jornalismo e com vários setores da minha vida. Toda aquela atividade estressante do jornalismo econômico chegou a um ponto que saturou. Em outras áreas da minha vida também enfrentei saturação. Um pouco de dramas existenciais, um pouco de insatisfação com o casamento, um pouco disso tudo me levou a tentar novos rumos para a minha vida. Nessa crise, aconteceram duas coisas interessantes e libertadoras. Uma foi o reencontro com a música, a outra foram as terapias alternativas. Isso já foi por volta de 96, 97. Fiz bioenergética, que de certa forma é até um revival do movimento hippie. Esses trabalhos de bioenergética, de terapia neoreichiana, me levaram a uma liberação do ponto de vista energético e corporal. Isso favoreceu a liberação da música, que estava represada. Voltei a pegar no violão. Passei a tocar horas a fio no quarto, tentando entrar em sintonia comigo mesmo e voltei a compor, embora de uma maneira muito rudimentar, já que eu não tinha mais estudado. Mas tudo aquilo tinha mais um sentido de sobrevivência do ser. E foi muito bom. A partir dali passei a achar que eu poderia retomar o contato com a música, embora sabendo que dificilmente eu poderia levar a coisa em termos profissionais. Mas insisti. A fase dos trabalhos terapêuticos passou e a música ficou. E fui levando a música cada vez mais a sério.
ZONA SUL – Tenho impressão que o fato de você ter conhecido um amigo nosso, o violonista paraibano Glauco Barreto, também foi decisivo nessa consolidação de Nélson músico.
NÉLSON – Sem dúvida alguma. Mas é preciso voltar um pouquinho no tempo. Pouco antes de eu conhecer o Glauco, eu ainda trabalhava no jornalismo econômico, no Correio Braziliense. Foi quando surgiu a oportunidade de fazer um concurso para o Senado. Essa mudança, da área econômica para um trabalho de jornalismo mais político em outro ambiente, também facilitou bastante as coisas. Nesse novo trabalho entrei em contato com Glauco, que tinha vindo para Brasília acompanhar a esposa, nossa colega no Senado. Glauco Porto Barreto é um ótimo músico que me incentivou bastante. Ele achou que meu trabalho tinha qualidade e que valia a pena investir. Formamos uma parceria e passamos a tocar juntos. Os arranjos que ele fez para músicas minhas, valorizaram meu trabalho. Glauco tornou-as mais audíveis do ponto de vista harmônico. Aprendi e tenho aprendido muito com Glauco. Depois desse encontro com ele passei a tocar mais, a compor mais. Fizemos algumas apresentações. Acho que o disco que lancei recentemente, sobre o qual falaremos daqui a pouco, não teria acontecido sem eu conhecer o Glauco.
ZONA SUL – Antes de falar sobre o seu disco, conte como foi a experiência de produzir um disco com músicas compostas pelo seu avô.
NÉLSON – Quando retomei a música em meados dos 90, voltei a me encontrar musicalmente com meu primo Douglas. Esse primo é o mesmo sobre quem falei, o dono daquele violão com o qual eu brincava na casa do meu tio. Nós dois, apesar de ainda estarmos com um violão meio precário, resolvemos fazer música. Mas ao mesmo tempo em que tentávamos compor, tentávamos também resgatar algumas coisas. Minha mãe tinha um antigo sonho de gravar as músicas do pai dela. Foi quando meu tio Jerônimo Maria veio a Brasília participar de uma festa familiar. Eu e meu primo fizermos umas gravações, ainda um tanto amadoras, do meu tio tocando sua sanfoninha oito baixos. Depois, resolvi transformar esse projeto em algo mais audível, com melhor qualidade técnica. Foi quando resolvi fazer esse disco. Por intermédio do violeiro Roberto Correia, que é de Campina Verde, conseguimos fazer uma gravação em que meu tio toca sanfona de uma maneira muito simples, com acompanhamento de violão e pandeiro. Resgatamos essas músicas do meu avô e fizemos um CD. É um registro com formato profissional, com encarte e com tiragem de mil exemplares. O disco traz a música feita pelo meu avô lá pelos anos 30, 40 e 50, em Minas Gerais. Quando decidi fazer esse disco, decidi também colocar letra em uma das músicas, já que meu avô só compunha instrumental. Fiz uma letra para uma valsa chamada Criminosa e o Glauco fez o arranjo para violão e me acompanhou no disco.
ZONA SUL – Essa faixa também tem a participação de um músico que o Zona Sul entrevistou, que é seu sobrinho e de quem você é padrinho musical: Wellington Assis.
NÉLSON – Na verdade o Wellington não participou desse disco. Ele tocou no lançamento do CD. Quando houve a festa de lançamento, o meu primo Luiz Maria (que tocou violão no disco) trouxe a Brasília para se apresentar junto com meu tio, o sobrinho dele, que é Wellington. Esse foi um outro contato musical que ampliou nossas possibilidades, trouxe mais influências. Wellington, muito jovem, mas muito talentoso, chegou de uma cidade próxima a Itapagipe: Campina Verde. Glauco e eu tomamos algumas providências para ele poder se estabelecer e estudar música em Brasília. Wellington participa do meu CD em uma música que resgata um pouco das memórias de Minas.
ZONA SUL – Deu tão certo essa parceria que você estabeleceu com o Glauco para ajudar Wellington que o violeiro está gravando um disco.
NÉLSON – Exatamente. Wellington está conquistando todo um espaço não só como instrumentista, mas agora também já cantando. Ele evoluiu bastante como cantor. Wellington, além de ser jovem e talentoso, conseguiu se profissionalizar. E isso é muito importante. Eu sempre disse a ele que se uma pessoa quer tirar da música algo maior, tem que se profissionalizar. Wellington abriu todo um espaço, está gravando um disco, está fazendo shows e dando aulas de viola caipira.
ZONA SUL – Então, chegamos ao seu disco. O que você teve que passar para conseguir parir esse CD?
NÉLSON – Sempre tive muita vontade e disposição para fazer, mas nem sempre encontrei as condições técnicas e pessoais e também os apoios. O trabalho de gravar um disco é uma coisa que exige um pouco mais. Eu já tinha produzido o disco de meu avô, e feito algumas gravações com Glauco. Cheguei a gravar, na Paraíba, com Glauco, algumas coisas em estúdio. Depois fiz um CD para o prêmio Visa com a participação de Indiana, que é uma cantora aqui de Brasília. Gravamos, no estúdio do meu amigo João Goulart, quatro músicas: duas delas na interpretação de Indiana e duas na minha própria interpretação. Esse trabalho tinha alguma qualidade de execução e tal, mas não era um disco profissional ainda, embora ele até toque em rádios. Aí ficou aquela coisa. Qual o próximo passo? Apesar de eu não ter me profissionalizado como músico, eu não queria que todo meu trabalho ficasse na gaveta. Queria realizar, botar para fora. Foi quando decidi fazer esse CD. A princípio era para ser um CD acústico, mas o arranjador, entretanto, me convenceu a fazer um CD com arranjos, com banda, etc. E assim foi feito. No final de 2005 comecei a gravar. Terminei a gravação em meados do ano passado. Depois houve essa etapa de produção técnica, de prensagem, etc. Enfim o disco chegou no final de 2006 e estou preparando o lançamento.
ZONA SUL – Como o público potiguar pode ter acesso ao seu trabalho?
NÉLSON – A Internet é um bom lugar para a divulgação de música porque muita gente pode ter acesso de qualquer parte do planeta. Estou com um espaço no Beta Records, http://www.betarecords.com/nelson.oliveira. As músicas podem ser acessadas também no Multiply http://nelsonluizdeoliveira.multiply.com/. Futuramente vou colocar um site individual, já está em planejamento. O repertório do disco é variado, eu tinha muitas composições. Sempre foi complicado escolher. Tentei dar uma mostra de várias coisas que eu tinha feito em diversos ritmos, sem querer parecer que era uma música para cada ritmo. Tem ali músicas falando da linguagem de Brasília. Aliás, o disco se chama Linguagens, por causa de uma música que fala como as pessoas conversam em Brasília. Mas o disco também tem xotes, sambas e até um rock. Através do email oliveiranelson.musica@gmail.com o disco pode ser adquirido.
ZONA SUL – Deixe uma mensagem para o público potiguar leitor do Zona Sul.
NÉLSON – Natal é uma cidade muito especial para mim. Estive aí pela primeira vez em 1984, em uma viagem muito agradável e culturalmente rica. Conheci muita gente incrível. Desde então tenho Ponta Negra como a melhor praia do mundo, por causa da paisagem, das pessoas e do astral. Natal tem um lugar especial no meu coração.

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