domingo, 15 de junho de 2008

ENTREVISTA: HERALDO PALMEIRA

PERCORRENDO AS ALAMEDAS DA VIDA DE HERALDO



O menino Heraldo estreou nessa vida lá em Acari, em 1960. Estendeu suas raízes por Natal e lá solidificou os alicerces que permitiram sua transformação em cidadão do mundo. Ele é jornalista, cantor, compositor e produtor musical. Heraldo Araújo Palmeira hoje tem residência não tão fixa assim em Brasília. Quando não está percorrendo o Brasil, divide apartamento com o também jornalista potiguar Jenner Marinho, um seridoense de Currais Novos, como eu. Quem já ouviu o elepê (hoje já existe em CD) Esquina do Continente, de Pedrinho Mendes, certamente vai lembrar agora que Pedrinho divide os vocais de Linda Baby (para mim a sua principal música) com alguém: Heraldo Palmeira.


É dele também a produção do CD Meu Tempo, de Glorinha Oliveira, que aos 74 anos, em 1999, finalmente lançou um trabalho à altura do seu talento. Mas vamos ao que interessa: aos principais momentos da conversa que eu, Jenner e os internautas visitantes do www.myspace.com/robertohomem travamos com Heraldo Palmeira em uma sexta-feira de maio. Jenner, principal responsável para a entrevista se realizar, foi o comandante da sala de bate papo. (Roberto Homem)



ZONA SUL – Você deixou Acari menino ainda? Guarda muitas recordações e mantém ligação com a cidade?
HERALDO – Saí em 1967. Aos sete anos, a memória já funcionava bem. Fui muito feliz em Acari, lá ainda tenho muitos amigos. É uma cidade que freqüento menos do que gostaria, por conta da vida que levo, viajando por tudo quanto é lugar. Foi em Acari descobri a música: tanto pelo rádio, quanto pela banda de música que andava pelas ruas da cidade. A banda tinha lá os seus personagens pitorescos, músicos queridos. Alguns deles estão até hoje militando na música. De Acari também guardo o sentido de liberdade. A cidade, pra mim, era muito ampla. A viagem que se fazia de Acari para Gargalheiras parecia enorme, apesar de a distância ser de apenas 3,5 quilômetros. Acari tem um encanto todo especial por ser localizada entre serras. É uma cordilheira com a cidade no meio. Aquela parede construída ali montou, vamos dizer assim, uma folha d'água enorme, maravilhosa, entre serras. Tem um ar de mistério muito grande. Essa é uma das principais lembranças que trago de Acari.

ZONA SUL – Não sei como o internauta caicoense Carlos Roberto de Fontes Pereira, que está acompanhando a entrevista direto do seu apartamento em Natal, não perguntou ainda se a rádio através da qual você foi iniciado na música, junto com a banda, era a Rádio Rural de Caicó.
HERALDO – Tinham três fontes: a Rádio Rural, de Caicó; a Rádio Brejuí, de Currais Novos e tinha uma difusora municipal de Acari que quando tava de veneta, pegava no rádio. Não sei como, mas o sinal dela entrava no rádio. Sintonizava no rádio, mas só quando estava de veneta. Essas três rádios faziam parte da minha vida.

ZONA SUL – Nessa época Acari já era considerada a cidade mais limpa do Brasil?
HERALDO – Não, esse título – merecido até, porque se zela muito por isso na cidade –foi conquistado no começo dos anos 70, salvo engano em 1972, quando o prefeito era Geraldo Galvão. A revista Veja publicou uma matéria mostrando isso. Um amigo tem a revista e dia desses a gente releu. Na época eu já não morava mais em Acari.

ZONA SUL - Que músicas você ouvia naquelas três emissoras de rádio?
HERALDO – O país estava incendiado pela jovem guarda, então não tinha como fugir disso. Lembro muito fortemente de uma cena de novembro de 66, quando a música de Roberto Carlos "Quero que vá tudo pro inferno" foi lançada e tomou o Brasil de assalto. Foi uma verdadeira enxurrada. Os locutores, muito espertamente, anunciavam: daqui a pouco você vai ouvir "Quero que vá tudo pro inferno". A gente ficava das 14 horas, quando começava "A tarde musical", até as 17h30, quando o cara botava pra tocar o diabo de "Quero que vá tudo pro inferno". A gente ficava esperando mesmo. A jovem guarda dominava, era o que todo mundo queria ouvir. Mas de vez em quando aparecia um negócio chamado Beatles e a confusão era maior ainda. Aquilo me enlouquecia imensamente. Eu tentava entender o que era aquilo, que música era aquela. Não compreendia aquela língua e ficávamos sem saber como aquilo tomava conta de tudo e de todos. Lembro muito bem de Beatles e Roberto Carlos. Mas, claro, eu ouvia também os outros caras da jovem guarda, como Renato e seus Blue Caps, Eduardo Araújo e até Sérgio Reis. As mulheres também, como Martinha e Wanderléa. Eu também gostava de ouvir rádio à noite, quando tocava música mais antiga. De manhã cedo tinha os forrós de Luiz Gonzaga. Foi esse cenário que me tocou inicialmente.

ZONA SUL – Nos tempos de Acari você chegou a imaginar que seu caminho trilharia na direção da música?
HERALDO – Dizer que eu imaginava que trilharia seria um pouco de exagero, até pela minha pouca idade. Mas perceber que aquilo me tocava de uma forma diferente, que eu não sabia onde ia chegar, isso eu seguramente sentia.

ZONA SUL – Você saiu de Acari para onde, com qual idade e por qual motivo?
HERALDO – Para Natal, com sete anos. Meus pais eram funcionários públicos do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca). Ele tinha sido chefe do Açude de Cruzeta durante vários anos e era subchefe do Açude de Gargalheiras. Mamãe também era do DNOCS. Eles se conheceram em Cruzeta, quando meu pai chegou para ser chefe do açude. Ele recebeu um convite para trabalhar no DNOCS em Natal. Fomos embora em dezembro de 67.

ZONA SUL – Como foi deixar Acari, trocar a tranqüilidade de uma cidade bem menor, por Natal?
HERALDO – Havia uma diferença muito grande. Eu tinha estado em Natal em 66. Minha irmã tinha sofrido uma queda e precisou fazer uma pequena sutura. Ficou um galo na parte de trás da cabeça e a gente precisou ir a Natal para ela fazer esse tratamento. Ali eu me encantei demais. A cidade era muito grande e vi o mar pela primeira vez. Aquele açude enorme, cheio de onda, com a água salgada... Aquilo me tocou muito. Entendi o que era uma metrópole, guardadas as devidas proporções. Em relação a Acari, obviamente Natal, naquele tempo, já era uma metrópole. Outra coisa que chamou muita atenção é que Natal tinha cinco rádios AM e elas eram muito diferentes, na forma, do rádio que eu conhecia no interior. Consegui perceber que havia uma diferença de estilo naquelas rádios. Isso me encantou muito. Senti, ali sim, a primeira indicação de que eu iria pra perto da música e seria por meio do rádio. Foi a primeira coisa que me tocou: o rádio. O comércio da Avenida Rio Branco, também. Aquela rua enorme de comércio. Lembro-me muito da loja A Girafa, que vendia tecidos. Tinham também a Casa Régio, aquele centro comercial gigantesco e os prédios, que eu nunca tinha visto troços daquele tamanho.

ZONA SUL – Você começou a enveredar pelo mundo da música trabalhando em rádio?
HERALDO – Foi. Um pouco mais adiante, eu já com doze, treze anos de idade, virei ouvinte assíduo de O Show da Manhã, programa de Ademir Ribeiro na Rádio Poti. Ademir, que você entrevistou, é meu querido amigo e uma pessoa a quem eu devo muito. Virei o maior ganhador de discos do seu programa. Desenvolvi uma rapidez tremenda para telefonar. “Ligue, agora”: aí eu ligava. Essa foi a porta de entrada para eu começar a freqüentar a Rádio Poti. No começo eu chegava ao balcão e recebia meu disco, minha camiseta ou seja lá o que fosse, e ia embora pra casa. Quando eu ganhei dez, quinze vezes seguidas, Ademir Ribeiro disse que queria me conhecer. "Diz a esse menino que entre aí". Devem ter dito a ele que eu era um garoto. Mas, enfim, daqui a pouco eu tava dentro do estúdio da Poti - que era uma rádio muito forte na época, dos Diários Associados - e diante de um ídolo meu, que era Ademir Ribeiro. Sempre fui muito curioso, muito atento, com vontade de aprender as coisas. Ademir achou aquilo interessante. Os prêmios eram entregues aos sábados e comecei a ficar naquela conversa, comecei a me enturmar. Depois passei a ir ao bar do Lourival conversar besteira, tomar uma cervejinha. O papo emendava e quando terminava o Almoço Musical, de Glorinha Oliveira, ela também aparecia lá. Como Glorinha é muito boa de conversa e uma pessoa agradabilíssima, terminei também seu amigo e passei a freqüentar o estúdio durante o seu programa. Quando percebi, eu estava fazendo a seleção musical. Foi uma coisa natural.

ZONA SUL – Quando você começou a compor?
HERALDO – Aos 14 anos eu entrei no Banco do Brasil como menor estagiário de serviços gerais, que era como se chamava naquele tempo. Fui trabalhar na agência Centro, em Natal. Quando acabou meu tempo de menor, eu tinha passado num concurso interno. Fiquei aguardando a nomeação. Em 79, o superintendente do Banco no Rio Grande do Norte - que também era meu professor universitário - perguntou se eu queria passar uma temporada em João Câmara. Fui trabalhar com custeio agrícola. Era uma imensidão de agricultores. Eram duas mil pessoas que a gente atendia por dia. Sempre li muito. Desde os 16 anos de idade, não me lembro de nenhum dia que eu não tenha lido ou escrito alguma coisa. Pode ser jornal, pode ser livro, pode ser um bilhete para um amigo... Quando enxerguei aquele mar de gente, me deu vontade de escrever alguma coisa. E surgiu uma letra que tenho guardada hoje. Não lembro dela, mas tenho guardada. Depois o Zé Haroldo, que era meu vizinho na Rodrigues Alves e tocava sanfona – ele também era freqüentador da Apple, onde eu era disk-jóquei - terminou musicando. Aquilo me deu um impulso danado. Outro que me incentivou muito foi o Eduardo Moreira, um guitarrista que também trabalha no Banco. Essas foram minhas primeiras movimentações autorais.

ZONA SUL – Você nunca se interessou em aprender a tocar um instrumento musical?
HERALDO – Sempre tive vontade. Cheguei até a freqüentar a Escola de Música. Mas aí a sobrevivência falou mais alto. Eu não tinha tempo, e nunca gostei de fazer nada na minha vida que não fosse o melhor. Se eu fosse estudar, se eu resolvesse encarar a posição de instrumentista, de tocar mesmo pra cantar e pra compor, eu não queria só arranhar o violão. Eu queria tocar bem. E pra isso eu teria que me dedicar, mas eu não tinha esse tempo, nem possibilidade financeira pra fazer isso. Como eu estava sempre cercado por gente muito boa de música - e eu sempre busquei estar perto dos bons músicos - embora isto fosse uma frustração pessoal, poderia suprir o meu lado de compositor. Por isso nunca me dediquei a estudar. Gostaria muito de ter sido músico, mas eu precisei sobreviver.

ZONA SUL – Paralelo a esse interesse pela música você continuou estudando?
HERALDO – Estudei Ciências Contábeis, por incrível que pareça. Como eu ia bem no Banco, sempre fui reconhecido como um cara interessado, e mamãe queria, fiz Contábeis para progredir no emprego. Qualquer mãe gostaria que seu filho fosse funcionário do Banco do Brasil. Eu queria mesmo ter feito jornalismo, mas ela insistiu muito. Ciências Contábeis, na época, estava em um momento muito positivo como carreira e tinha tudo a ver com o Banco. Lembro muito bem no ano em que fiz vestibular eram 16,9 candidatos pra uma vaga. Bem maior o número que para Medicina. E eu passei. Acabei o curso já sabendo que não tinha nada a ver comigo, que aquilo pouco ia me ajudar no Banco, mas era uma lógica e eu fiz. Entreguei o diploma, mamãe guardou e eu fui para a rua. Fui fazer o que eu queria.

ZONA SUL – Qual sua primeira grande experiência na música? Foi aquele festival universitário de 82?
HERALDO – Foi. Festival de Música e Poesia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E ali, sou muito grato a duas pessoas: o professor Diógenes da Cunha Lima, que teve a coragem de fazer uma coisa daquele tamanho e a professora Djair Borges, que era diretora da Escola de Música. Por que? Porque depois que o festival se realizou, o que estava acertado é que o melhor intérprete iria ser o cantor do disco inteiro.

ZONA SUL – Que era o Wigder...
HERALDO – Era Wigder Vale, extraordinário cantor e amigo. Então aí começa o que eu chamo “a sucessão de generosidades comigo”. Wigder, com aquela timidez natural dele, teve receio de ir sozinho ao Rio, apesar de eu, Pedrinho Mendes e todo o mundo estarmos dando apoio. No final das contas ele acenou que gostaria que a gente fosse também. E a professora Djair permitiu isso. Claro que Pedrinho pagou a viagem dele e eu paguei a minha. Mas Wigder generosamente dividiu o espaço que por merecimento era exclusivo dele. E ainda teve a Ana cantando no disco também. Wigder cantou a maior parte. Como melhor intérprete, esse era o seu prêmio, inclusive. Eu participei de uma música, Pedrinho fez outra e a Ana fez uma ou duas, se não me engano. Eu cantei com Wigder uma parceria minha com Pedrinho: Amanhecer. Pedrinho cantou o Sétimo Sonho, que era só dele e tinha conquistado o terceiro lugar no festival.

ZONA SUL – Passado o festival, o que aconteceu?
HERALDO – Pra gravar o disco do festival nós caímos dentro do melhor estúdio de gravação do Brasil na época, que era o Transamérica. Eu, sempre muito curioso, já fui estabelecendo uma série de contatos dentro do estúdio e o pessoal insistiu pra eu trocar Natal pelo Rio. Eu tinha o trabalho no Banco do Brasil. Voltei pra Natal e em julho de 83 finalmente eu fui embora para o Rio. Na época Milton Nascimento tinha lançado uma escola de música com Wagner Tiso, em Belo Horizonte. Um amigo do Banco, o Marcos Bassul, já meu parceiro, quase me convenceu a ir pra Minas. Na hora H eu pensei e cheguei à conclusão de que não teria tempo para estudar música, não daria conta. Eu não tinha condições de largar o trabalho. Resolvi fazer o atalho e ir direto pro Rio, onde as coisas aconteciam. Fui pro Rio e caí dentro da história da música. Daí continuei.

ZONA SUL – Que contatos você manteve, nesse período, no Rio de Janeiro?
HERALDO – Logo ao chegar, fui contemplado com mais uma generosidade, desta vez concedida por Almir Padilha, que morava numa quitinete. Ele e mais cinco pessoas dividiam uma quitinete em Copacabana, na Rua Santa Clara. Ao chegar de Natal, transferido pelo Banco, Almir foi me pegar do aeroporto e eu fiquei lá alguns dias. Generosamente Almir abriu as portas, depois de ter recebido o OK dos outros colegas que moravam lá. Só músicos moravam nessa quitinete. Em seguida, o Mingo Araújo, meu grande amigo também, sabendo que éramos sete em um espaço que cabia um e olhe lá, me convidou para dividir um apartamento bem maior (um quarto e sala grande, dos antigos) com ele e o engenheiro Jorjão, na Rua Edmundo Lins. Ocupei a sala do apartamento por algum tempo e terminei alugando uma quitinete na Paula Freitas, que era ali perto também. Aí chamei Almir Padilha para dividir a nova moradia comigo. Almir me levou pra vários lugares. Eu já conhecia alguns músicos também, pois tinha trabalhado em produção, na Casa da Música Popular Brasileira, em Natal. Por isso não tive muita dificuldade, eu não era um corpo muito estranho quando cheguei. Já tinha tido contato com muitas pessoas.

ZONA SUL – O que de mais expressivo você conquistou nessa época?
HERALDO – O mais expressivo foi aprimorar o meu gosto por produção, por estúdio. Pude estar com profissionais de primeiríssima linha, em estúdios de primeiríssima linha. Tive acesso aos melhores meios de produção. Acho que esse foi o grande lucro que tirei. Naquele momento a gente vivia uma situação muito particular da indústria fonográfica. A partir de setembro, os grandes artistas começavam a lançar seus discos anuais e todo mundo corria para passar longe de Roberto Carlos, que chegava ao mercado em novembro. Quando seu disco era lançado, não tinha mais pra ninguém. O movimento de vendas de Roberto era tão grande e tão maior do que o de todo mundo que o espaço de divulgação se resumia e ficava limitado a ele. Os artistas independentes, nesse período do ano, tentavam pegar seus mil discos pra vender nas suas terras. Quando me envolvi com produção, eu quis aprender do A ao Z. Quis conhecer cada momento da produção de um disco. Eu freqüentava fábrica na indústria, acompanhava o corte do disco e até a industrialização. Travei conhecimento e amizade com Hugo Belardd de Aquino, que era diretor industrial de uma fábrica de discos, a Continental. Ele tinha montado uma empresa com um sócio e quando chegava julho, eles compravam, por exemplo, o direito de fabricar 100 mil discos. A confiança mútua se instalou entre nós e eu fiquei encarregado de negociar essas 100 mil cópias entre os artistas independentes. Eu retalhava essas 100 mil cópias. Foi por aí que eu participei das primeiras produções do Lola e do Mad Dogs, que na época se chamava Fluidos. Tudo começou assim. O mais importante que tirei desse momento foi exatamente isso: o aprendizado.

ZONA SUL – Depois desse aprendizado você voltou pra Natal?
HERALDO – Não. Do Rio eu fui para São Paulo porque eu queria conhecer essa outra grande praça que me faltava. Era uma cidade que eu tinha muita curiosidade, por tudo que ela é. Então, em 1989 fui morar em São Paulo. Fiquei por lá até 1991. Freqüentei um pouco a cena musical, mas muito menos do que no Rio, pois eu já estava muito envolvido com meu trabalho no Banco. Freqüentava muito mais como consumidor de cultura. Depois, tirei uma licença do banco para tratar de interesse particular e fui trabalhar no interior de Minas, na área industrial, no setor de alimentos. De lá fui embora pra Curitiba, conhecer aquela cidade que todo mundo falava maravilhas. Voltei para o Banco e saí de lá em 95, em um programa de demissão voluntária. Resolvi encarar minha vida como profissional liberal. Um ano depois que saí do Banco passei uns oito meses em Natal. Foi quando voltei pra Brasília e não parei mais.

ZONA SUL – Vamos voltar um pouco no tempo e falar sobre a gravação de Linda Baby...
HERALDO – Aconteceu naquele período que eu viabilizava a fabricação de discos. Recebi um telefonema de Pedrinho Mendes muito aflito, de Recife. Ele tinha feito o disco todinho lá, e não tinha gostado do resultado da mixagem. Tinha havido um problema sério: a fita matriz estava fora de fase. Pedrinho estava desesperado porque o recurso da produção estava acabando e ele não tinha um disco na mão. Montamos uma UTI para salvar esse disco e refizemos boa parte do trabalho no estúdio Sonovison, que era extraordinariamente pobre, mas riquíssimo em história. É o estúdio onde o Boca Livre gravou seu célebre disco inicial, que vendeu cento e tantas mil cópias. Juntamos alguns músicos, fizemos algumas coberturas de música e remixamos o disco. Depois o elepê foi fabricado e tornou-se o primeiro trabalho da carreira de Pedrinho. Também cuidei de boa parte do projeto gráfico do Esquina do Continente. Essa é a vantagem de o artista aprender todas as fases. O artista entra em uma situação dessa e não tem saída porque ele não conhece as alternativas técnicas que tem. Pedrinho foi vítima disso, como muitos também o foram.

ZONA SUL – Por que você veio para Brasília?
HERALDO – Minha filha foi fazer primeira comunhão no Rio, no final de 97, e eu, já que ia até lá, aproveitei e passei por Brasília e São Paulo. Em Brasília um amigo me acenou com a proposta irrecusável de fazer a comunicação de um banco. O Banco de Brasília. Eu não tinha como não ficar, e fiquei. Por isso voltei pra Brasília.

ZONA SUL – O que você achou da cena cultural de Brasília?
HERALDO – Na verdade, em Brasília eu já não me meti muito com a cena cultural. O trabalho no banco era muito pesado, me ocupava demais. Eu viajava e às vezes trabalhava quinze, dezoito horas em um dia. Ia a shows como consumidor. Muito embora eu sentia que a parte musical de Brasília não era muito significativa pra mim. O que de importante acontecia na cidade saía pra São Paulo e Rio. Mas em Brasília ainda fiz o disco da cantora Juliana de Aquino, uma moça que atuava em musicais. Resolveu fazer um disco de música popular brasileira. Fizemos o CD da melhor maneira possível. Tanto é verdade que o negócio dela é musical que hoje mora na Alemanha, é funcionária da Disney e canta musicais por lá. Não quer fazer outra coisa.

ZONA SUL – Quando você chegou a Brasília passou a freqüentar umas festas promovidas por uma assessora de um deputado. O parlamentar viajava todos os finais de semana para seu estado de origem e a assessora aproveitava o apartamento para promover festas. Em um destes encontros você teve contato com uma pessoa que foi muito comentada durante o escândalo do mensalão. Como foi?
HERALDO – O deputado era o Paulo Bernardo, que hoje é ministro do Planejamento. Isso se deu naqueles momentos iniciais e encantadores do PT. Um colega de Banco era casado com essa assessora parlamentar. Eles moravam no apartamento também, com o deputado. A gente fazia uns almoços nos finais de semana. Um registro até interessante: eu era o cozinheiro das carnes, coisa que nunca tinha sido meu forte. A turma era de funcionários públicos, gente do Banco e pessoas do Palácio do Planalto. A gente juntava às vezes 40 pessoas. Nessa época o Waldomiro Diniz estava chegando a Brasília e andou freqüentando lá. Mas não era uma pessoa do nosso núcleo inicial. Uma das meninas do nosso grupo estava namorando com ele, na época. Então ele apareceu umas seis ou sete vezes nesses finais de semana todos. Tivemos um contato muito rápido. Graças a Deus seguimos caminhos bem diferentes.

ZONA SUL – Ele freqüentou o apartamento até descobrir que tinha engravidado a namorada...
HERALDO – Foi. Ela teve um filho dele.

ZONA SUL – Você reencontrou Waldomiro no Rio, na Loterj...
HERALDO – Exatamente. Depois de alguns anos. Ele fez uma festa danada. Waldomiro Diniz fazia um trabalho importante para o PT, na época, de levantamento de dados. Ele era da Caixa Econômica.

ZONA SUL – Waldomiro fez essa festa toda quando lhe reencontrou no Rio, pediu que você telefonasse depois pra marcar um almoço, você ainda ligou umas duas vezes e em todas elas a secretária foi orientada a dizer que ele não estava.
HERALDO – É verdade. Ele foi cortês comigo. Telefonei duas vezes, como ele não atendeu, graças a Deus eu compreendi a mensagem.

ZONA SUL – Como e quando surgiu a Alameda Produções?
HERALDO – A Alameda Produções surgiu quando fiz meu primeiro e único disco, o Novas Visões Urbanas. Ele começou como um projeto chamado Alameda Central. Havia naquele momento a prática comum de você pegar uma pessoa e se apresentar com nome coletivo. Era ele e convidados. Isso aconteceu com Simply Red, Wham! E vários grupos internacionais. Eu, muito pretensiosamente, quis reproduzir isso aqui. Apesar de ter nascido no interior, sempre fui muito apaixonado pelas coisas urbanas. Sou um cara muito urbano, sempre foi muito importante pra mim essa ligação com a grande metrópole. O Alameda Central éramos eu e convidados. Como eu precisava de um suporte empresarial pra isso, criei a empresa, que naturalmente chamou-se Alameda Produções. A partir de 88 a gente começou a trabalhar esse disco, e, logo em seguida, na virada dos anos 90, quando vim fazer o trabalho aqui em Brasília, para o BRB, eu criei a empresa Alameda Produções.

ZONA SUL – O trabalho de produção do CD de Juliana foi feito pela empresa...
HERALDO – Pela Alameda Produções. Fizemos outras coisas, como o CD de Glorinha Oliveira, também.

ZONA SUL – Como foi produzir o CD de uma artista tão importante para o Rio Grande do Norte como Glorinha Oliveira?
HERALDO – Primeiro tinha a questão de estar se tratando de um ícone. Glorinha é um ícone não só pela qualidade da voz, mas por tudo que ela fez pela arte do Rio Grande do Norte. Como eu tinha uma intimidade muito grande com ela desde os meus 14 anos, na Rádio Poti, isso me facilitou muito. Entrei com um pedido de patrocínio na Telemar e fiz em favor de Glorinha o que eu não faria nem por mim. Pedi muito a muita gente. Depois da Telemar, a Prefeitura de Natal apoiou e o Governo do Estado também. Juntamos apoios e fizemos o disco. Foi um belíssimo trabalho. O projeto gráfico foi premiado. Como ela havia sido cantora de rádio, idealizei daquela maneira, como se fosse um mini-elepê. Ele foi escolhido entre as 12 melhores capas do Brasil do ano de 1999. Foi feito pelo pessoal da Pós-Imagem. Como eles são meus amigos, fizeram um preço inacreditavelmente barato. São os mesmos caras que fazem grandes projetos de discos, como por exemplo, as caixas de Roberto Carlos lançadas. Por outro lado, pedimos a Nelson Freire, então deputado e também músico, que nos ajudasse a levar adiante um projeto que estava adormecido pra Glorinha ganhar uma pensão especial do Estado. O então governador Garibaldi Alves Filho assinou, já que é uma prerrogativa pessoal do governador. Foi concedida essa pensão especial. Mas Glorinha já estava em uma fase da vida de querer descansar mesmo. Então ela não quis seguir adiante o grande projeto de divulgação que aquele disco exigia. Eu não a censuro, porque ela já era uma mulher de 75 anos de idade na época. E ela era vítima. Glorinha foi vítima de muitas promessas mentirosas ao longo da vida. Foi vítima de desprezo inclusive de muita gente que batia nas suas costas. Ela ficou muito decepcionada com alguns empresários que nós abordamos e que simplesmente não ajudaram, como prometeram. Ah, fiz uma injustiça e esqueci-me de dizer que a UnP também nos ajudou.

ZONA SUL – Agora falemos mais sobre o seu CD.
HERALDO – A sorte também ajudou muito na gravação do meu disco. Houve uma grande greve de músicos no Brasil. Os cantores passaram a gravar fora. Os músicos estavam sendo muito mal remunerados pelas gravadoras para gravar discos, e fizeram um movimento grevista. Só que as gravadoras tinham um poder naquele tempo imenso. Hoje está mais difícil, elas estão quase falidas. As gravadoras passaram a fazer o seguinte: Simone, Lulu Santos ou qualquer artista desses que quisesse gravar um disco novo, escolhia um maestro e um lugar do mundo e ia embora gravar. Os músicos foram ficando realmente penalizados porque não havia espaço de trabalho. Era show e nada mais. Em um estúdio grande, como o Transamérica, a deliberação da diretoria técnica era não parar para não estragar o equipamento. Como eu já tinha feito algumas coisas rápidas lá, os caras me ofereceram o estúdio para eu gravar meu disco. Eu expliquei que não tinha dinheiro pra pagar. "Ninguém vai cobrar nada de você não, você ocupa esse estúdio pelo amor de Deus". Então foi um conforto tremendo, porque consegui fazer um disco com uma condição técnica que poucos artistas independentes tiveram no Brasil. O disco consumiu exatas 896 horas de estúdio, que é o tempo que o Pink Floyd usa para fazer um disco. Como eu já estava há muitos anos na estrada, sempre dava emprego a músico e sempre pagava, que é o mais complicado, consegui juntar aquela turma de músicos de primeiríssimo time que tinham virado amigos.

ZONA SUL – Como foi a repercussão do trabalho?
HERALDO – O meu disco não é um disco popular. Eu não queria um disco pra fazer sucesso, fiz a música que eu queria fazer. Tive essa prerrogativa. Como eu não vivia de música, não dependia de vender disco pra sobreviver, então eu resolvi fazer um disco que fosse a minha cara e fosse o disco que eu gostaria de fazer. Ele foi feito assim, sem interferência de ninguém. O diretor técnico da Transamérica, Mário Gabriel, engenheiro que cuidava da manutenção do estúdio, me disse que já tinha visto muita coisa ser gravada no estúdio, e meu disco era um dos melhores. "Mas se prepare, seu disco jamais vai fazer sucesso", emendou. "Mas é um disco pra ser ouvido, inclusive tecnicamente falando, daqui a vinte anos". E é verdade isso que ele disse. Ele previu que meu disco não sofreria muito a ação do tempo, não ficaria desatualizado, e parece que é verdade, porque pessoas que nunca ouviram, quando recebem ou têm acesso gostam e não acreditam que ele foi feito em 1987. Ele foi lançado no início de 1988, como elepê. Depois, em 95, fiz mais quatro músicas para completar, fiz um adendo nele, quando ele virou CD.

ZONA SUL – Como ter acesso a esse trabalho?
HERALDO – Existem alguns sites de música que vendem esse disco. Um dia desses fiquei surpreso porque fui olhar uma ação judicial que tenho rodando, e me deparei, no Google, com 26 páginas com Heraldo Palmeira. Tem algumas repetidas, mas fiquei impressionado.

ZONA SUL – Tem informações sobre você até em chinês...
HERALDO – Sim, e meu disco é vendido em sites internacionais. Não sei se tem pra vender também em lojas brasileiras. Quando relancei a última versão do disco, já com minha cara e não como Alameda Central, ele foi negociado com um selo de música do Rio chamado Futura Records. Então a Futura é quem negocia, eu não tenho controle. Um dia desses disseram que tava sendo vendido no Carrefour aqui. Mas eu não vi e não tenho acesso. Agora, claro, se uma pessoa quiser comprar um disco, pode se comunicar comigo que vou dar um jeito de atendê-la. Meu email é heraldopalmeira@alameda.art.br

ZONA SUL – A Internet traz um comentário, e eu queria que você dissesse em qual circunstância aconteceu, de Lucas Mendes, do Manhattan Connection. Ele diz, a seu respeito: "escreve bem, tem bom gosto e enxerga longe". O que significa isso?
HERALDO – Pra minha honra e orgulho, Lucas Mendes é um leitor de minha coluna no Sanatório da Imprensa. Vez por outra quando escrevo alguma coisa que ele gosta mais, me manda email dizendo do que gostou. Na época eles estavam falando sobre a questão do petróleo, da suficiência brasileira do petróleo, o que é uma grande mentira. Aquilo suscitou algumas discussões e eu tinha escrito alguma coisa na coluna sobre o assunto. Então o Lucas Mendes puxou isso e falou um pouco do disco, que eu tinha mandado pra ele, pro Caio Blinder, pro Ricardo Amorim e pra Lúcia Guimarães. Ele generosamente mostrou o disco e comentou sobre o assunto, o que eu tinha escrito a respeito dessa história do petróleo, que passava também pela presença dos terroristas na tríplice fronteira e tal.

ZONA SUL – Você teve participação em outros sites como colunista, como o Ucho.info.
HERALDO – Tive, Ucho é um jornalista amigo de São Paulo e eu sempre escrevo algumas coisas pra lá. Escrevi no site de Clotilde Tavares e tenho também o tempo de jornal, que colaborei com a Tribuna, o Diário, a República.

ZONA SUL – O internauta Carlos Roberto Pereira disse que Heraldo esteve recentemente no Seridó para acertar detalhes da produção do disco da Banda de Música de Acari.
HERALDO – Carlos Roberto, um abraço pra você antes de qualquer coisa. Você nunca mais apareceu para a gente conversar bobagem e tomar aquele cafezinho lá no Sudoeste. Mas, olha só, a Banda de Música de Acari é muito importante na minha vida. O blog do Jesus, no Acari do Meu Amor (http://acaridomeuamor.nafoto.net/) publicou recentemente uma matéria sobre isso. A Banda de Música de Acari é um ícone da cidade. As bandas de música têm uma importância fundamental na história das nossas cidades do interior. Pena que poucas cidades hoje preservem o coreto da praça e a banda de música. Por sorte, em Acari temos as duas coisas. A Vânia Bezerra, proprietária do Camarões Restaurante, é uma benemérita da Banda de Música de Acari. Ela tem ajudado a preservá-la há muito tempo. No final do ano passado, lamentavelmente minha mãe adoeceu e morreu. Em razão disso, passei uma temporada maior em Natal. Mamãe morreu no início de dezembro e eu fiquei muito abalado, naturalmente, como qualquer um ficaria. Meu contrato de trabalho em Brasília estava sendo renovado, e o Banco do Brasil, a quem eu presto serviço hoje, resolveu que a gente só voltaria às atividades em fevereiro. No veraneio em Pirangi, fui algumas vezes à casa de amigos em um condomínio onde Vânia estava veraneando. Encontrei Vânia várias vezes e pudemos conversar com calma. Veio com força a história de fazer um DVD registrando a Banda de Acari. Semana passada arranjei um espaçozinho na agenda e fui pra lá. Nos reunimos no sábado 26 de abril com o pessoal. Começamos a tratar desse assunto. Eles fizeram um ensaio pra gente escolher as dez ou onze músicas que vão entrar no DVD. Fiquei impressionado com a qualidade do que vi lá. Outra coisa extraordinária é que hoje essa banda é formada maciçamente por crianças e quando falo em crianças falo em meninos de oito, nove anos de idade. Crianças e adolescentes. A banda é, na minha opinião, mesmo não sendo instituída como tal, a única escola técnica que a gente tem em Acari, porque ela é profissionalizante de verdade e consegue ocupar esses meninos de uma forma absolutamente positiva. Esse DVD deve se chamar Prosa e Música. Vamos pegar depoimentos de pessoas da cidade que têm importância para a banda. Vamos mostrar um pouco da cidade e tocar as músicas. Estou levando uma unidade móvel de 24 canais e vamos gravar um DVD digno daquela banda.

ZONA SUL – Outra pergunta do internauta Carlos Roberto: “em praticamente todas as cidades do Seridó há bandas e músicos extraordinários. É possível expandir o projeto para gravar outras bandas?
HERALDO – Carlos, claro que há. Mas no caso da Filarmônica Maestro Felinto Lúcio Dantas, de Acari, é um projeto privado. É uma questão da Vânia Bezerra que resolveu fazer esse DVD porque ela é uma benemérita e a banda em uma importância muito grande na vida pessoal dela. A banda está intrinsecamente ligada à vida de Vânia e da família dela. Vânia resolveu patrocinar o projeto e nós vamos começar a fazer. Claro que eu também me desdobrei como eu pude: estou levando minha equipe com custo irrisório em relação ao que eles realmente cobrariam, mas isso em razão da minha ligação também pessoal com a banda, com a cidade e com Vânia Bezerra. Mas estou aberto a qualquer proposta de quem queira fazer da mesma maneira. Esse de Acari pode servir de modelo e dar início a um projeto de bandas. Basta que as pessoas se mobilizem. Estou à disposição.

ZONA SUL – Você tem ligação com o pessoal do Cavern Club?
HERALDO – Essa história começou há alguns anos, no Rio, na época do Alameda Produções. Terminei sendo um dos caras que ajuda eventualmente a selecionar as bandas brasileiras que vão à International Beatle Week, que acontece sempre na última semana de agosto e junta 500 mil pessoas todos os anos. Liverpool tem hoje uma população de 800 mil pessoas e chegam 500 mil, 600 mil pessoas todo ano no final do verão para celebrar Beatles. A primeira banda do Rio Grande do Norte que consegui viabilizar a ida foi o Mad Dogs. Ano passado a gente conseguiu escolher os Grogs, que fazem um trabalho que respeito muito na área de rock and roll e de Beatles, mas infelizmente os nossos empresários e os nossos mecenas falharam e eles não puderam viajar.

ZONA SUL – Você venceu o 12º Ranking Playboy de Novos Talentos com a frase "Criatividade é um instante de lúcida loucura". Jenner quer saber se o prêmio foi uma coelhinha da revista...
HERALDO – Jenner, infelizmente não foi uma coelhinha. Elas estiveram lá, mas a gente não pôde levar porque não cabia no nosso cesto da Páscoa. Mas esse negócio foi o seguinte: a Playboy tinha esse ranking todos os anos e esse foi o principal deles. Foi o último, inclusive. A Playboy lançava o ranking de novos talentos e os leitores votavam nos novos talentos do futebol, da música, da política...A revista oferecia um espaço para o leitor escrever uma frase. Nesse ano o tema da frase era criatividade. O prêmio era um Fiat Uno, que estava acabando de ser lançado. Tive a sorte de ficar entre os sete finalistas. Escolhidas as sete melhores frases, a Playboy chamou todos nós para uma entrevista e depois anunciou o vencedor. Fui o feliz vencedor desse concurso e ganhei esse carro.

ZONA SUL – A pergunta de Jenner tem um acréscimo: você preferia o Fiat ou a coelhinha?
HERALDO – A coelhinha eu não pude preferir porque ela não vinha mesmo. Tive que trazer o Fiat, e ele me quebrou um galho danado porque o vendi e montei minha casa, na época. Foi uma maravilha.

ZONA SUL – Fez muito sucesso na Internet o seu Soneto da Eletricidade, uma paródia ao Soneto da Fidelidade, de Vinicius de Morais.
HERALDO – Vou decepcionar você, mas esse soneto não é meu. Ele apenas foi atribuído a mim. “Pai Nosso, não sei do que lá...”

ZONA SUL – Não é assim. O Soneto da Eletricidade tem estes versos: "De tudo, ao meu computador, serei atento, antes / e com tal zelo, e sempre, e de modo tão terno / que mesmo em face de um modelo mais moderno / dele serei sempre a tiete mais sedenta / Quero vivê-lo em cada vão momento / e em seu louvor hei de pagar as contas da Light / que alimenta seus megabytes / sem nenhum pesar ou descontentamento / E assim, quando mais tarde, num outro dia / quem sabe a assistência técnica, angústia de quem vive, / pedir pelo seu conserto uns 800 paus, / eu possa dizer do computador que tive: / Que não seja imortal, posto que é fabricado em Manaus, / mas que seja infinito enquanto dure (a garantia)".
HERALDO – Eu recebi de um amigo na Internet e passei para outro. Nessa viagem, esse troço ganhou o mundo todo como sendo meu. Eu sinto muito, mas não fui eu quem escrevi, apesar de eu achar uma coisa engraçada, muito espirituosa. Até gostaria até de ter escrito. Vinicius de Moraes sabe que não fui eu quem se apoderou do soneto dele.

ZONA SUL – Deixemos esse alarme falso de lado. Falamos apenas em Linda Baby, mas você participa de outras gravações importantes, como interpretando Lua de São Miguel no disco mais recente de Babal.
HERALDO – No disco de Juliana, ela me convidou, eu cantei Outeiro, música minha e de Cláudio Bassul, aquele que foi pra Minas Gerais e queria que eu entrasse com ele na escola de música de Milton Nascimento. Tem um trabalho pouco conhecido meu feito em São Paulo, em 2001, quando fui produtor executivo de uma peça chamada Replay. Ela foi dirigida por Gabriel Vilela e contou com a participação de alguns artistas globais, como Raul Gazola e Vera Zimmerman. Os outros atores pertencem à cena teatral paulistana. Fizemos a trilha sonora desse disco. Também participei de uma música desse disco e tenho muita saudade desse tempo de teatro. Participei também da produção do filme Desmundo, do Alain Fresnot, que conta a história das virgens portuguesas órfãs que foram mandadas pra cá lá pelos anos de 1530 até 1590, mais ou menos, pra casar com os portugueses que estavam aqui. A Coroa tomou conhecimento da depravação dos portugueses com índias e escravas e tal. Então mandaram essas meninas, que representavam um peso social em Portugal. Vieram casar com os senhores portugueses que aqui estavam colonizando o país. O filme teve o Caco Ciocler, o Osmar Prado como ator principal, a Beatriz Segall e a Simone Spoladore. Minha tarefa foi levar a nau capitânea pra participar do filme. Toda logística de levar esse navio da Bahia para o Rio foi realizado pela Alameda Produções. Pouca gente sabe, mas a nau capitânea sofreu uma grande injustiça. Tudo aquilo que aconteceu com aquele grande veleiro, aquela história de que o navio afundou, é mentira. Houve uma comunicação indevida. Foi virando uma bola de neve que ninguém dominava. A entrada dela no Rio foi triunfal e ninguém noticiou, apesar de estarem presentes jornalistas de 61 países. Ela entrou maravilhosamente bela num domingo de sol e depois esse navio passou por quatro portos do sul do país. Foi visitada por mais de 30 mil pessoas, que pagaram ingresso. Ninguém noticiou.

ZONA SUL – O que você planeja para mais daqui pra frente?
HERALDO – De 2004 pra cá eu tenho me envolvido muito com documentários em vídeo. Faço um trabalho para o Banco do Brasil na área de teletreinamento. Percorro o país inteiro gravando documentários que são incluídos em programas de treinamento para os funcionários do Banco. Estou muito interessado nessa área de documentários. Esse projeto do DVD da Banda de Música de Acari se tornou muito importante exatamente por isso: ele me leva a juntar música e documentário. Esse é um caminho que quero trilhar mais de perto daqui pra frente.

ZONA SUL – O que faltou ser perguntado a você nessa entrevista?
HERALDO – Acho que a gente fez um panorama bem bacana da minha vida. Não sinto que tenha faltado nada não. Gostaria de dizer ao leitor que continue prestigiando esse tipo de espaço. Se você pensa que apenas leu ou assistiu passivamente essa entrevista, está enganado. Na hora em que se interessou por qualquer um dos assuntos, que mandou uma pergunta, ou procurou a partir daqui buscar outras informações sobre o que foi dito, você alimentou um canal de comunicação importante. Você contribuiu para a sobrevivência da cultura popular. Sou uma pessoa da cultura popular e no momento em que têm pessoas ouvindo o que estou dizendo, ou querendo ler o que a gente conversou aqui, me sinto além de muito honrado, animado para continuar fazendo as coisas.

13 comentários:

  1. Adilia Duarte Souza2 de fevereiro de 2009 22:55

    É Heraldo.... esse é você. Um menino homem de talento desde os seus primeiros momentos. Você terá minha admiração, sempre. Acompanho seu sucesso há tempos, você sabe disso, e sou uma fã incondicional do seu trabalho. Parabéns pela entrevista e parabéns ao Jornal por valorizar nossos talentos.

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  2. Mano Véio,

    Nota 10!!!, como sempre.
    Tenho orgulho em ser seu amigo/irmão.

    Grande abraço,

    Marcus Guedes

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  3. Grande Heraldo,
    como sempre.... olha a jeba!!!!!

    Marcos Seignemartin

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  4. Como sempre meu irmão e amigo (verdadeiro amigo), cada dia dessa vida que se passa, me sinto grato por Deus ter me presenteado com sua presença em minha vida. Parabéns e que Deus o ilumine sempre no que faz.

    Um grande abraço, Lózinho.

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  5. Que entrevista em, nota 10,e esse é meu querido amigo, parabéns, muitas saudades.

    Socorro Silveira

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  6. Francisca Bezerra- Titica9 de fevereiro de 2009 10:03

    Parabéns meu amigo e irmão Heraldo, que Deus continue iluminando seus passos, a entrevista ficou maravilhosa. Sucesso meu querido.

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  7. Caro Heraldo,

    Que bom saber parte considerável de sua ativa vida. Não o sabia cantor e com tantas e multifacetadas atividades. Uma carreira brilhante e cheia de vitórias e conquistas. Até o Lucas Mendes lê seus textos e tem apreço especial por eles. Parabéns! Norton Seng

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  8. Heraldo Palmeira é um craque em diversas áreas. E essa ruma de comentário está provando que ele é craque também em reunir tantos amigos. Obrigado a todos pela visita e pelos comentários.

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  9. Estou encantada, sou uma velha amiga de Heraldo e faz muito que busco notícias dele . . hoje navegando na internet lembrei dele e resolvi procurá-lo, não e que surgiu no meu munitor toda essa matéria sober ele? Fiquei muito feliz e gostaria muito de entrar em contato com ele, vocês podem fazer alguma coisa? Agradeço muito se puderem ajudar. Obrigada, tchau. Thaís Macêdo, Parelhas Rn.

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    1. Alô, thai_smc62@hotmail.com, agradeço se o enviar para Heraldo Palmeira.

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  10. Thaís, acabei de enviar sua mensagem para o Heraldo. É uma pena que vc não tenha deixado seu email. Seria mais fácil para ele entrar em contato com vc. Um abraço.

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  11. Bob Man,
    Heraldo virou colaborador fixo do Bar de Ferreirinha (www.bardeferreirinha.blogspot.com) assinando a coluna semanal De Olho No Mundo. E icorporou integralmente o espírito do Bar: textos curtos, irreverentes e apimentados. Um abraço,
    Bob Setnof

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  12. Essa figura que muito admiro foi responsável pela minha entrada na área de comunicação, ou seja, deixei de ser dentista para ser jornalista. Como ele, também fui estagiário do Banco do Brasil e no momento que mais precisei foi ele que me estendeu a mão me levando para trabalhar na Rádio FM Reis Magos (96 FM). Tem um trecho de uma música de Gonzaguinha que me lembra muito o Heraldo: "É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar". Grande Heraldo.

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