quarta-feira, 18 de julho de 2007

ENTREVISTA: MOREIRA MARIZ

A VIDA SEMPRE EM MOVIMENTO DE MOREIRA MARIZ



Penso que se Moreira Mariz não fosse fotógrafo, se encaixaria bem em alguma modalidade do atletismo. Ele poderia tentar os saltos, em altura ou distância, já que durante a vida pulou tanto de emprego. Quem sabe algum tipo de arremesso, pois não foram poucas as vezes nas quais ele jogou tudo para o ar. Desde os tempos em que carregava tijolos em uma olaria até os dias de hoje - quando tem na mira de sua câmera personagens como Sarney, Collor e Renan Calheiros - Moreira percorreu um caminho longo. Talvez esteja aí a resposta. Moreira Mariz é um maratonista que, como mesmo diz, não consegue ficar parado. Tem que andar. A vida, para ele, só tem significado em movimento. Convido o leitor do Zona Sul para que tentemos, juntos, eu e você, acompanhar o entrevistado do mês em mais essa caminhada. (Roberto Homem)


ZONA SUL – Seu nome é Feliciano Moreira Mariz?
MOREIRA – Não existe Feliciano. Ninguém me conhece por esse nome. Quem me conhece por Feliciano é a Justiça, são os cobradores etc. Meu nome é Moreira Mariz. Até dentro da minha família me chamam de Moreira Mariz, Moreira ou Mariz.

ZONA SUL – Mas na sua certidão de nascimento está registrado qual nome?
MOREIRA – Feliciano Moreira Mariz.

ZONA SUL – Onde você nasceu?
MOREIRA – Nasci na roça, em uma localidade chamada Campo Alegre, a 15 ou 20 quilômetros de Curvelo, que fica a 160 quilômetros de Belo Horizonte. Imagino que Curvelo tenha hoje em torno de 250 mil habitantes. Nasci na década de 40. Meu pai era um humilde carpinteiro. Diziam na época que ele era de mão cheia, muito bom profissional. Era muito bem conceituado.

ZONA SUL – Durante quanto tempo você permaneceu na região de Cuvelo?
MOREIRA – Aos dez anos de idade me mudei para Belo Horizonte com meus pais e mais quinze irmãos. Mas tenho ótimas recordações da vida maravilhosa que tive no interior. Tive a infância que qualquer ser humano gostaria de ter: bem natural, bem família, bem humilde, sem muita confusão. Não faltaram pipas, bolas, estilingues ou bodoques, passarinho, pescarias, passeios a cavalo... Próximo a Curvelo tinha um lugar chamado Morro da Graça. Ficava a 15 quilômetros de Curvelo. A família do meu pai tinha fazendas por lá. Em comparação com Morro da Graça e Campo Alegre, Curvelo - que era a grande cidade da minha infância - seria uma Nova York. Eu vivia mais na roça do que na cidade. Quando eu ia a cidade, parecia que estava no Primeiro Mundo.

ZONA SUL – Você era o mais novo dos irmãos?
MOREIRA – Sou o oitavo filho. Somos dez homens e seis mulheres. Eu estava bem no meio. Todos meus irmãos estão vivos. Meus pais já morreram, mas continuam presentes na minha cabeça.

ZONA SUL – Qual o motivo da mudança para Belo Horizonte?
MOREIRA – Como eu já falei, meu pai era carpinteiro. A minha mãe era professora. Ela achava que para os filhos crescerem, teríamos que sair do interior, deixar a roça. Crescer, para ela, significava estudar e cada qual ter sua profissão. Foi assim que aconteceu. A princípio, meu pai era contra. Mas minha mãe bateu o pé, e por ser mulher, elas são quem mandam mesmo, a turma ficou ao lado dela. Fomos. Papai insistiu em ficar, mas acabou cedendo. Eu e meus irmãos mais novos fomos na frente com a minha mãe. Três meses depois, meu pai também foi para Belo Horizonte com os outros irmãos, menos os dois mais velhos, que preferiram ficar em Curvelo.

ZONA SUL – O impacto de trocar a roça por Belo Horizonte foi muito grande?
MOREIRA – Imagine você. Curvelo já era pra mim uma Nova York, imagine eu chegando em Belo Horizonte. Parecia um cinema. Um sonho que uma criança não acreditava. Quanta diferença. Isso tudo deu um impacto que não esqueço. Como a família era grande, nós viemos em partes. Eu viajei de Curvelo pra Belo Horizonte de trem. Na rodo ferroviária, pegamos um táxi. Eu, duas irmãs, minha mãe e o motorista. Eu só ficava olhando. A chegada foi à noite. A cidade toda iluminada e eu olhando praqueles prédios de um lado e do outro. Pra mim era um sonho que eu jamais imaginaria que passaria por aquilo. Coisa de criança de pequena cidade.

ZONA SUL – Você se adaptou bem à cidade?
MOREIRA – Primeiro tive que me adaptar ao bairro, que era bairro JK, um bairro que Juscelino construiu para a classe média pobre, para a classe média baixa. A adaptação no bairro foi legal, porque eu estava vendo coisas novas. Me aproximei mais do esporte. Não faltaram a bolinha e o rachinha que a gente fazia. Tudo era novidade. A dificuldade, no início, foi natural. Mas aos pouquinhos fui familiarizando, fazendo amigos. Era bola daqui, escola e dali até que comecei a andar independente e a crescer. Lá no bairro estava instalado o parque industrial de Belo Horizonte. Meus irmãos foram arrumando emprego e eu fui me entusiasmando. Comecei a pensar em trabalhar também, em ganhar dinheiro para ajudar no sustento da família. Até que chegou a minha vez de trabalhar.

ZONA SUL – Em que você foi trabalhar?
MOREIRA – Fui trabalhar em uma fábrica de tijolos. Era uma cerâmica. Pra mim também era novidade. Fui trabalhar em um departamento junto com cinco ou seis garotos. Depois que a máquina produzia o tijolo, cada um de nós pegava um carrinho, enchia de tijolos e ia colocar em fileiras. Comecei nessa função, mas rapidinho fui promovido a operador da máquina. Foi legal, porque daí comecei a me sentir gente. Eu estava trabalhando, tinha um salário e novos amigos. Eu era muito novo, tinha uns 15 ou 16 anos de idade.

ZONA SUL – Você precisou interromper os estudos para trabalhar?
MOREIRA – Não. Mas eu estudava com muita dificuldade. Primeiro porque eu trabalhava praticamente das oito da manhã às quatro da tarde. Trabalhava e muito. Chegava cansado em casa, tomava banho, jantava e ia estudar à noite, enquanto que o ideal seria se eu pudesse estudar pela manhã ou à tarde. Mas com uma família grande e as despesas da mudança, todo mundo tinha que ajudar. Mamãe exigia que a gente trabalhasse e 80% do nosso salário era dedicado a ela, para o sustento da família. Eu me sentia gratificado por isso. Eu nem fazia muita questão dos estudos. Eu me sentia gente mesmo era por estar trabalhando, ganhando meu dinheiro, ajudando e participando da casa como se fosse um homem feito. Naquela época, se exigia muito isso, essa coisa do trabalho. Hoje é o contrário: é estudo, estudo, estudo e mais na frente a gente vê o que vai dar. Na época a gente tinha que começar a ralar muito cedo, até porque meu pai e minha mãe exigiam. O caminho era o trabalho. Era cobrado naturalmente pelos chefes de família da época. Hoje é completamente diferente.

ZONA SUL – Quanto tempo você permaneceu trabalhando nessa cerâmica e o que foi fazer depois?
MOREIRA – A cada passo que eu dava, me sentia melhor. Sempre fui uma pessoa muito inquieta. Sempre gostei de descobrir o que tem na minha frente. Eu via o horizonte e sentia necessidade de dar uma chegadinha mais na frente, para saber o que havia lá. No final da nossa conversa você vai perceber. Saí da cerâmica e fiquei um período só estudando. Logo passei a sentir falta do trabalho. Vou até explicar porque saí da cerâmica. O dono dessa cerâmica tinha um impala, que era um carro americano famoso na época. O chefe de uma determinada sessão um dia perguntou se alguém sabia dirigir. Eu respondi que sabia. Eu era encapetado, eu pegava carro dos meus irmãos, andava de patinete, de bicicleta, queria sempre fazer alguma coisa. Peguei o impala e resolvi tirá-lo de lá, já que estava atrapalhando a circulação no trabalho. Um impala vermelho e branco, todo bonitão. Resolvi dar uma ré e bati em uma fileira de tijolos. Caiu tijolo para todos os lados. Parei, desligue o carro e puxei o freio de mão. Não fiquei muito preocupado, já que era coisa de adolescente. Aconteceu.

ZONA SUL – O carro ficou muito danificado?
MOREIRA – Machucou um pouco a traseira. O pára-choque era muito bonito, coisa chique. Acho que quebrou uma lanterna. Depois que o carro bateu, permaneceu fincado nos tijolos. Meia hora depois, chegou minha demissão. Eu nem me preocupei muito. Peguei minhas coisas e fui embora. Indo para casa, a distância era mais ou menos de três quilômetros, passei por um ponto de ônibus. Encontrei lá o cara que tinha me pedido para tirar o carro. Perguntei o que tinha acontecido com ele. O cara respondeu que havia sido demitido também. Mas a vida seguiu. Valeu a passagem pelo primeiro emprego.

ZONA SUL – Então você ficou desempregado...
MOREIRA – Passei um tempo desempregado. Mesmo na época havendo muito emprego, não era fácil arrumar um rapidamente. Depois de um tempo, o namorado de uma de minhas irmãs arrumou para eu trabalhar de ascensorista de um hotel chamado Financial, que existe até hoje. Fui trabalhar em elevador, subindo e descendo pessoas. Todo uniformizado. Eu não gostava de ter que usar aquela roupinha ridícula e aquele chapeuzinho. O trabalho não me incomodava, mas a farda, sim. Um belo dia, fui até a cabine de telefone do hotel e, conversando com as meninas, uma delas me pediu para eu ficar um instante lá atendendo, enquanto ela ia ao banheiro. Eu devia ter uns dezoito anos. Alguém ouviu a minha voz pelo telefone e perguntou quem era. Eu me identifiquei e a pessoa disse que minha voz era muito bonita. Vieram me procurar. O hotel me promoveu, com salário melhor, de ascensorista para telefonista. Na época eu trabalhava com um PABX antigo de 400 ramais. Eu deitei e rolei. Conversava com a mulherada, com os hóspedes, batia papo com todo mundo. Era novidade, era isso que eu queria: andar, conhecer, ver e tal. O hotel era próximo do Atlético Mineiro. Por isso conheci vários craques da época, como Dario, Vander, Didi, filho do famoso Didi, Piazza...

ZONA SUL –Você conheceu esses jogadores todos como fã?
MOREIRA –Como fã, não. Fiz amizade através de telefonemas, de voz para cá e para lá. Eles tinham um matadouro no hotel. Comecei a fazer amizade, a me hospedar com eles, a farrear.

ZONA SUL – Com qual destes jogadores você teve maior amizade?
MOREIRA – Grapete foi um grande amigo meu, Vantuir e Vander também. Dario nem tanto, pois ele era mais família. Eu tive maior contato com os que eram da farra. A gente fazia bagunça, ia para a madrugada, ia para a farra, ia beber, ia namorar, ia dançar... Yustrich era o técnico do Atlético. Ele era durão. Quando a gente tirava foto em algum lugar, escondia os copos, colocando as mãos para trás.

ZONA SUL – Os donos do hotel não pressionavam você por conta dessas farras?
MOREIRA – De forma alguma. Ele era bem liberal. Trabalhei mais uns dois ou três anos no hotel. Foi aí que descobri a fotografia.

ZONA SUL – Como você descobriu a fotografia?
MOREIRA – O meu cunhado, namorado da minha irmã, era fotógrafo. Um dia fui visitar o trabalho dele, e ele me levou até o laboratório. Ele tinha uma lojinha: revelava, fazia as fotos e vendia. Ao entrar nesse laboratório, quando vi ele jogar o papel no revelador, que a imagem foi aparecendo, aquilo pra mim foi fascinante. Comecei a gostar da coisa, apesar de jamais imaginar que eu seguiria aquilo. Adorei e comecei a freqüentar mais a lojinha. Eu ainda estava empregado n Hotel Financial. Um dia meu cunhado resolveu me dar uma máquina. Fui para a Avenida Afonso Pena e comecei a fotografar as pessoas passando. Ele me ajudou a revelar e vi as primeiras imagens feitas por mim. Deixei o hotel quando a fotografia começou a me dar dinheiro, quando meu cunhado começou a me dar uma percentagem do faturamento dele. Fui fotografar batizado, formatura, casamento, enfim. O dinheiro triplicou. Isso também me interessava: além da novidade da profissão, a grana, o sustento, ajudar a família.

ZONA SUL – Você permaneceu muito tempo trabalhando com seu cunhado?
MOREIRA - Um ano ou um ano e meio depois, fui chamado para trabalhar com um dos maiores fotógrafos da época, que fazia fotos para a alta sociedade de Belo Horizonte. Fiz fotos de casamentos como os de Piazza - depois da Copa do Mundo de 1970 - de Evaldo, um atacante do Cruzeiro. Tudo através da empresa Carlos Fotógrafo, que está lá até hoje em Belo Horizonte. Comecei a entrar na alta sociedade. Cobri muito evento no Automóvel Clube, no Iate Clube, essa coisa toda. Foi quando comecei a publicar fotos em colunas sociais de O Estado de Minas. Quando vi meu nome e minhas imagens sendo divulgadas, percebi que eu queria mais do que aquilo. Resolvi trabalhar com foto jornalismo. Fui para São Paulo, já que minha irmã morava em Ribeirão Preto. Arrumei minhas malas e fui tentar jornal. Como eu não tinha uma estrutura financeira, fui para a casa dessa minha irmã, que era casada e tinha três filhos. Ribeirão Preto, na época, tinha 200 mil habitantes. No dia seguinte à minha chegada, fui convidado para trabalhar em uma loja de foto de lá. Ao sair dessa loja fui para o Diário da Manhã de Ribeirão Preto, onde fiquei mais ou menos três anos. Achei pouco. Eu precisava ir para um jornal maior. Tentei trabalhar na capital, São Paulo, mas não consegui nada. Voltei para Ribeirão Preto e falei para a minha mulher: quero ir para Brasília.

ZONA SUL – Você tinha casado desde quando?
MOREIRA – Quando comecei a fotografar, minha namorada engravidou. Casei, mas oito meses depois, separei. Conheci minha atual mulher quando trabalhava em Carlos Fotógrafo. Seu nome é Maria do Carmo, mas a chamo de Carminha. Ela era secretária de Carlos. Começamos a namorar, meu primeiro casamento não tava dando certo. Já separado, fui para Ribeirão Preto e no dia dos namorados, fui surpreendido quando ela chegou por lá. Largou a família, largou tudo e a gente está junto até hoje. Lá ela engravidou do nosso primeiro filho, Júlio César. Ela é uma pessoa maravilhosa no sentido de topar as coisas. Talvez seja por isso que a gente esteja até hoje juntos. Resolvi ir para Brasília porque eu conheci um fotógrafo japonês, em Ribeirão Preto, que era de Goiânia. Ele me aconselhou que, para crescer, eu tinha que ir ou para São Paulo ou para Brasília. Ele foi para Brasília primeiro que eu. Em 1973 eu e Carminha pegamos Júlio César, colocamos no meu corcelzinho 1971, passamos por Belo Horizonte para ver meus pais e irmãos e seguimos para Brasília. Ao chegar na capital do país, fui para um tal de Núcleo Bandeirante, que na época eu não conhecia. Hospedamos-nos em uma espelunca. No dia seguinte, fui correr atrás. Encontrei o japonês, ele me levou e eu comecei em um jornal chamado Correio do Planalto, que fechou as portas depois de um ano de existência.

ZONA SUL – Como foi a experiência?
MOREIRA – O jornal era da Consuelo Badra e de um baiano de quem não lembro o nome agora. Entrei quando o jornal já tinha seis meses de vida. Seis meses depois ele fechou. Quando o jornal fechou, arrumei um emprego pra minha mulher em uma escola católica, em Taguatinga. Ela começou a dar aula para segurar a barra pra mim. Através do Correio do Planalto, fiquei conhecendo a família Stuckert e também Antonio Dogivan, que era um grande fotógrafo da época. Entrosei-me com esse pessoal nos seis meses de Correio do Planalto. Dessa forma, não foi difícil entrar no Jornal de Brasília. Comecei lá como laboratorista. Fiquei quatro meses no laboratório e passei para a fotografia. Fui cobrir polícia. A primeira coisa que o novato faz é cobrir polícia. Passei oito meses nessa editoria. Um dia de muita chuva, finalzinho de tarde, soubemos por intermédio da polícia que um homem tinha morrido, atingido por um raio. Ao chegarmos no local, me deparei com aquele corpo de um rapaz. Entrei em depressão. Não pelo cadáver. A polícia tinha retirado do bolso dele documentos e uma quantia em dinheiro. O cara tinha acabado de sacar, no centro de Brasília, seu FGTS e estava voltando para casa. Pensei imediatamente na minha mulher, nos meus filhos. Aquilo me chocou. Cheguei na redação, entreguei meu equipamento e fui para casa. Fui abraçar meu filho, minha mulher e fui tomar umas para dar uma relaxada. No dia seguinte, houve uma reunião. Aproveitei a oportunidade, entreguei meu equipamento e disse que não trabalhava mais na cobertura de polícia.

ZONA SUL – Qual foi a reação da direção do jornal?
MOREIRA – Eles resolveram me colocar em cidades. Cobri cidades, esportes e depois fui para a política, cobrir o Congresso Nacional. Entrei no Congresso sem saber como funcionava aquela Casa. Passei a acompanhar meus colegas fotógrafos para entender, para saber quem era o presidente, o vice, as principais lideranças. Foi assim que passei a entender a política e estou nessa cobertura até hoje. Depois de algum tempo no Jornal de Brasília eu queria mais. Eu sempre quis crescer. Via meus colegas saírem para os grandes jornais, e eu quietinho ali. Não quero dizer que o Jornal de Brasília na época era um pequeno jornal, mas ainda era pouco para o meu objetivo. Fiquei seis anos lá. Através do meu trabalho, fui chamado para trabalhar na Folha de São Paulo. Foi um salto grande. Primeiro, pelo lado profissional. Meu material passou a ser divulgado no Brasil inteiro. Segundo, pelo salário. Fiquei cinco anos lá. Foi, para mim, uma das maiores empresas nas quais trabalhei. Pedi demissão da Folha.

ZONA SUL – Por que?
MOREIRA – Eu era o chefe responsável pela fotografia da sucursal de Brasília. Gostavam muito do meu trabalho. Certo dia, um diretor de São Paulo veio fazer uma limpeza na sucursal. Mário Vitor era o nome dele. Ele chegou e saiu apontando: “você, você, você e você, rua”. Já veio de São Paulo com as cartas marcadas. Foi curto e grosso. Sua missão era passar uma semana e limpar. Mário Vitor disse que eu era intocável, que São Paulo me queria. Aproveitei esse crédito para pedir um laboratório novo e uma pessoa para fazer uma ponte entre nós fotógrafos e São Paulo. Eu queria alguém para enviar as fotos para São Paulo. Não precisava nem ser profissional, bastava fazer o que a gente mandasse. Contrataram uma mulher indicada pelo próprio Mário Vitor. Não gostei, eu não tinha pedido uma chefe, mas alguém apenas para enviar as fotos. Deram um novo laboratório e vinte por cento de aumento para me tirar daquela confusão toda. Certo dia, cheguei e sentei com Josias de Souza, que atualmente é diretor da Folha em Brasília. Ele estava iniciando no jornal, tinha saído do Correio Brasiliense. Mário Vitor não queria me demitir, eu já tinha pedido. Sentei com Josias e disse que queria ir embora. Ele conversou com Mário Vitor. Até o Gilberto Dimenstein, que também era diretor, pediu que eu ficasse. Eu não quis. Mário Vitor chegou a conclusão que eu tinha que sair. Terminaram me mandando embora.

ZONA SUL – Demitido, o que você foi fazer da vida?
MOREIRA – Saí do jornal, atravessei a rua e fui a um bar chamado Tulipa, para comemorar minha saída, depois de cinco anos de Folha. Eu queria andar. A Folha era uma grande empresa, mas não precisava vir um cara lá de São Paulo, que eu nunca tinha visto na vida, chegar da forma como ele chegou. Aquilo me incomodou. Eu estava tomando um whisky, quando, meia hora depois, Dimenstein chegou e disse que o Etevaldo Dias queria falar comigo. Etevaldo era diretor da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília. Fui até um orelhão e liguei para ele. Dimenstein já tinha falado com o Orlando Brito, que era o chefe da fotografia do JB no Rio de Janeiro. A ordem era: segura o Moreira. Etevaldo me disse que o Brito queria que eu fosse trabalhar no JB. Expliquei que estava acabando de sair da Folha, que ainda não sabia o que fazer. Ele me chamou para conversar pessoalmente. Acabei de tomar minhas doses e passei na redação do JB. Etevaldo perguntou o que eu queria e ofereceu o mesmo salário que eu recebia na Folha. Pedi uns vinte dias para descansar, pegar minha grana e colocar as contas em dia. Ele disse que estava indo a Europa e me fez prometer que eu não assumiria com nenhuma outra empresa. Topei. Fechei com o JB e fui descansar.

ZONA SUL – Se você estivesse hoje na Folha estaria ganhando quanto?
MOREIRA – Embora ele nunca tenha falado comigo a respeito de salário, o Lula Marques, que está no meu lugar hoje, deve estar ganhando, como coordenador do departamento de fotografia da sucursal da Folha em Brasília, uns 12 mil reais. Um bom fotógrafo da Folha, trabalhando em Brasília, ganha entre 8 a 10 mil reais. Mas, voltando ao assunto, fui para o JB. Estava feliz e satisfeito por lá, até o dia em que o presidente da Argentina, Carlos Menem, veio a Brasília. Fotografei desde a chegada de Menem até à noite, quando estava marcado um jantar no Itamaraty. Resolvi não cobrir esse jantar e fui tomar cachaça com um colega, em um bar no Setor Comercial Sul de Brasília. O dia tinha sido maravilhoso, eu tinha feito ótimas fotos. Eu sabia que jantar no Itamaraty nunca dava foto. Era só aquela coisa oficial, nada de foto jornalismo. Passei a noite bebendo. No dia seguinte, soube que tinha aparecido um caboclo lá no tal jantar do Itamaraty e, com um spray cheio de catchup, tinha escrito acho que a palavra aids em frente ao Menem e ao Sarney, que era o presidente do Brasil. Isso dentro do Itamaraty, imagina. Escreveu na parede ou no chão, não lembro.

ZONA SUL – Você foi punido por ter perdido essa foto?
MOREIRA - Continuei trabalhando normalmente, não me preocupei com aquilo. Mas o Etevaldo Dias mandou me chamar. Eu estava de plantão no Palácio do Planalto. Etevaldo disse que não podia me segurar mais. Virei para ele e respondi que nunca precisei que ninguém me segurasse. Disse pra ele ficar tranqüilo, Fui demitido do JB, mas, no dia seguinte, O Globo mandou me chamar. Como o quadro de repórteres fotográficos do jornal estava cheio, me ofereceram um frila fixo até pintar uma oportunidade de eu ser encaixado. Fiquei oito meses n’O Globo. Nesse período, Orlando Brito que tinha me indicado para o JB, trocou o jornal pela Veja. Meu sonho, na época, era dar outro passo a frente e trabalhar em uma grande revista de circulação nacional. Fiquei sabendo que um fotógrafo da sucursal da Veja em Brasília tinha sido demitido. Comuniquei ao meu chefe, n’O Globo, que tentaria entrar na Veja. Eduardo Oinegue era o diretor da revista. Fui contratado para cobrir as férias de Cláudio Versiani. Apesar de eu não ter vínculo empregatício n’O Globo, eu sabia que poderia voltar para lá caso não fosse admitido após cobrir as férias de Versiani. Era início do governo Collor. Fui trabalhar no Bolo de Noiva, um anexo do Itamaraty onde estava sendo montado o ministério do novo presidente. Um belo dia, a Veja resolveu abrir uma foto minha, em duas páginas, com os principais novos ministros, entre eles a ministra da Economia, Zélia Cardoso. Eu estava trabalhando com outros dois fotógrafos da Veja nesse evento, mas a foto escolhida foi a minha. Logo em seguida Cláudio Versiani voltou das férias e brincou comigo: vou voltar, bicho, caso contrário você vai acabar tomando meu emprego. Ele elogiou a qualidade do meu material. No retorno de Versiani, fui pegar meu boné para voltar para O Globo. Mas Eduardo Oinegue tinha outros planos. Chamou-me na sala dele e perguntou se eu queria continuar. Fiquei cinco anos.

ZONA SUL – Por que você saiu da Veja e o que foi fazer em seguida?
MOREIRA – Nessas alturas, eu já tinha Cristiano e Luciana de filhos, além de Júlio César. Um irmão meu, maluco, de Recife, passou na minha casa. Fazia anos que não nos víamos. Ele propôs que montássemos um negócio juntos, para deixar de trabalhar para os outros. Achei a idéia interessante. Resolvemos ver algumas coisas. Liguei para um outro irmão meu, que era dentista. Esse também estava de saco cheio da tal da odontologia. Gentil era o dentista, Ronaldo era o outro, o de Recife. Gentil morava em Três Marias (MG). Para variar, bateu de novo aquela minha necessidade de não ficar parado, de andar. De experimentar novidades. Resolvemos nos reunir em Três Marias. Marcamos uma cachaça na casa de Gentil, um churrasco. Foi quando decidimos largar tudo. Ronaldo tinha duas casas em Recife, e podia dispor de uma. Gentil só tinha os clientes e a casa. Eu tinha cinco anos de Veja, um apartamento e um carro. Cinco anos de Veja dava um dinheirinho.

ZONA SUL – Qual negócio vocês resolveram montar?
MOREIRA - Fazendo nossa soma, deu para comprar, junto com dois sócios, um posto de gasolina na BR 040: o famoso Posto JK. Voltei pra Veja e pedi para o Eduardo Oinegue me mandar embora. A Veja tem uma reunião regional toda segunda feira. De dez ao meio-dia. Terminada a reunião, pedi a Eduardo que ficasse um pouco que eu queria falar com ele. Quando todos saíram, pedi para me mandar embora. Eduardo disse que eu era louco e perguntou o que estava acontecendo comigo. Respondi que estava cansado, estressado. Não falei nada pra ele do meu rolo com os irmãos. Ele disse que eu era maluco, que tinha muita gente precisando daquela vaga, que eu estava bem empregado e que a revista gostava do meu trabalho. Eu insisti que poderia produzir muito mais, que estava sentindo minha produção cair. Ele não quis me mandar embora. pediu que eu pensasse direito e falou que depois conversaríamos. Em todas as reuniões seguintes eu pedi para ir embora. Nessas alturas, eu já tinha conseguido os dois sócios e conferido a contabilidade do posto. Era aquilo que eu queria fazer. Ninguém me tirava aquilo da cabeça. Um belo dia, Eduardo disse que ligaria para São Paulo. Mas também não quiseram me demitir. Então fui perdendo a produção, comecei a não participar mais das reuniões das segundas e eles foram sentindo que não tinha mais como ficar comigo. Quando fui demitido, vendi meu apartamento, peguei minha grana de cinco anos e juntei com um pedacinho de cada um dos outros irmãos e compramos o posto. Na compra do posto, ficamos também com a parte dos dois.

ZONA SUL – A experiência de Moreira empresário deu certo?
MOREIRA – No início era tudo maravilhoso. Minha vida no jornalismo tinha sido de correria, eu achava que estava na hora de pescar, de dar uma relaxada. Depois de um ano, eu já não estava mais agüentando não ter o que fazer. Era só contar dinheiro, pagar funcionário, fazer compra, receber vendedores e distribuidores. Eu já estava de saco cheio. Foi quando percebi o quanto eu era inquieto. Até então, não sabia. Fui descobrir porque que eu quero andar, depois do posto. Disse a meus irmãos que iria voltar para o fotojornalismo. Nessas alturas eu tinha saído de saco cheio de Três Marias e me mudado para uma cidade, no sentido de Brasília, chamada João Pinheiro. Minha intenção era fugir um pouco daquele marasmo, daquela vida de interior. Eu trabalhava dois dias e descansava um dia. No dia de descanso, eu já não sabia o que fazer. Já estava de saco cheio de pescaria. Mudei para João Pinheiro, que era maior que Três Marias, mas também não suportei. Aí fui embora. Comprei a casa de meu irmão em Belo Horizonte e meus meninos se adaptaram bem lá.

ZONA SUL – Como foi seu retorno ao jornalismo?
MOREIRA - Participei da fundação do jornal O Tempo, em Belo Horizonte. Atuei desde o primeiro número e fiquei lá seis meses. Entrei como fotógrafo e imediatamente me colocaram como subeditor. Em uma reunião, vieram reclamar de alguma coisa. Eu disse: vocês querem saber? Eu estou acostumado é com grande imprensa, esse jornal é muito pequeno. Aí fui demitido. Maravilha, eu já tinha minha casa própria e uma estruturazinha tranqüila. Pouco tempo depois me ligaram dizendo que tinha uma vaga de editor no Hoje em Dia. Fui. O Nélio Rodrigues me indicou. Fui falar com a direção do jornal, que é do Bispo Edir Macedo. Pediram um currículo e que eu fizesse uma proposta. Passei tudo para o papel e entreguei para eles. Fiquei um ano e seis meses como editor, com uma equipe de 14 fotógrafos.

ZONA SUL – E por que você saiu de lá?
MOREIRA – Foi na visita que o imperador Hiroito, do Japão, fez a Belo Horizonte. Mandei três fotógrafos acompanharem o cara de ponto a ponto. Escolhi uma foto da chegada dele, no aeroporto, com o governador Eduardo Azeredo, para ser publicada na capa. No dia seguinte, quando peguei o jornal, tinha uma foto oficial, Hiroito e Azeredo passando entre a guarda, no palácio do governo de Minas. Aquilo ali me entristeceu. Fiquei chateado. Fui procurar saber o porquê daquilo. Fiquei sabendo que tinha uns negócios entre o governo e a chefia do jornal. Fiquei aborrecido, mas mas continuei. Mas na verdade eu já tinha perdido o tesão. Fui observando o jornal mais de perto e percebi que nós éramos mesmo uns paus mandados. Pedi pra me demitirem um ano e quatro meses depois. Peguei a grana e fui passear com a minha mulher na Europa. Comprei um equipamento fotográfico e resolvi trabalhar para mim. Voltei, o Diário de Comércio de Belo Horizonte estava com um novo diretor, que tinha começado comigo no jornal O Tempo. Ele me convidou para ajudar o Diário do Comércio, que estava em dificuldade financeira. Fui para lá e fiquei mais um ano e seis meses. Quando peguei meu boné, voltei para Brasília e hoje estou no Senado.

ZONA SUL – Conte algumas grandes coberturas que você já fez.
MOREIRA – Comecei no governo Médici e sai no final do governo Sarney. Nesse período muitas coisas interessantes e importantíssimas aconteceram. Tenho belo material das medidas de emergência, em Brasília, na ditadura militar. Eu trabalhava para a Folha de São Paulo. A medida de emergência era o seguinte: você não entrava e nem saía de determinados lugares sem ser identificado. Os alunos da UnB só podiam fazer passeatas dentro do Campus. Se arriscassem sair, eram recebidos na porrada. O Newton Cruz, na época, era o chefe do esquema. Tenho duas ótimas fotos do período das medidas de emergência. Os estudantes da UnB resolveram sair do Campus em passeata. Eram cerca de 300 ou 400 estudantes. A imprensa nacional toda estava acompanhando, por saber que aquilo ali era uma afronta ao regime, era proibido. Mal saíram do Campus, chegaram três fusquinhas chapa fria, com policiais federais portando bombas lacrimogêneas. Começaram a jogar na rapaziada. Botaram até revólver no umbigo de colegas meus. Bateram com revólver na cabeça da gente, tomaram filme de todo mundo. Eu bati meu filme, rebobinei, abri minha máquina, mas não tive tempo de tirar o filme. Quando os policiais chegaram, bati a tampa e disse que já tinha entregue o filme. Foi como salvei meu trabalho. Fui o único que manteve o filme 100% fotografado. A cobertura fotográfica foi exclusividade da Folha, que deu três fotos na capa. Soldados com as mãos cheias de bombas nas mãos. Quatro militares federais correndo na minha direção. Eu com uma lente 300 aproximei todo mundo e fiz a cara deles com as bombas na mãos.

ZONA SUL – E outra foto importante?
MOREIRA – Nessa mesma medida de emergência, eu soube que estava havendo uma blitz na entrada de Brasília, na DF-040. Todo mundo estava sendo parado, os carros sendo identificados, documentos checados. Na ida para o local, de longe, fiz as fotos, com uma teleobjetiva. Fechei todo mundo, peguei esse filme e coloquei no cinzeiro do carro da Folha de São Paulo. Troquei o filme e, na volta, desci e fui fotografar de perto. Tomaram o equipamento, pegaram e rasgaram meu filme. Mas eu já tinha registrado tudo no filme que estava dentro do carro. Essa matéria foi até para a Associated Press.

ZONA SUL – Você conheceu Natal?
MOREIRA – Sim. Eu fui cobrir um lançamento de foguete na Barreira do Inferno. Mas, na nossa profissão, é difícil você conhecer algum lugar. Você passa por lá. Mas tenho algumas lembranças da cidade, como das praias bonitas, entre elas a dos Artistas e de uma famosa casa noturna, Maria Boa. Trabalho, cachaça e foguete: conheci Natal dessa forma.

ZONA SUL – Deixe um recado para quem quer iniciar na profissão de fotógrafo.
MOREIRA – É uma cachaça, velho. O gostoso da profissão não é o financeiro. É que você respira o mau cheiro de um cadáver de manhã e o perfume de uma princesa à tarde. É um leque grande. Fotojornalismo é uma faculdade, é um grande aprendizado. Quem gosta, gosta; quem não gosta, não deve nem tentar. Se gostar, vai; se não gostar, nem entre, porque não é por aí.

4 comentários:

  1. Tudo na vida é importante, desde de um pedaço de doce para uma criança até uma bela história da trajetória de uma pessoa aparentemente simples, mas cara aos nosso corações. Valeu meu irmão, senti nos suas colocações o valor e a importância que todos nós temos ao seu coração sensível.; Grande abraço na alma, do Irmão que lhe quer muito bem. Gentil Mariz

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  2. Gentil, transmiti ao seu irmão - a quem chamo carinhosamente de Doutor Moreira - este comentário. Um abraço!

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  3. Valeu ! Na vida a importância que damos aos nossos momentos são importantíssimos.Fico feliz por vc ter reencontrado não se sabe até quando, a felicidade através das lentes.
    Um forte abraço de quem acompanhou e admirou de perto por algum tempo seu trabalho profissional.
    Hellen

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  4. Esse cara foi meu editor ...péssimo...arrogante ...prepotente ... bebe mais que landau ..cachaceiro ..chegava de mau humor demitia .. me demitiu so que eu era otimo .. o diretor do hoje em dia me chamou de volta eu disse não..pra não trabalhar com esse cachaceiro

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