quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Entrevista: FLORIAN MADRUGA

O DISCÍPULO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS



Florian Augusto Coutinho Madruga nasceu na Maternidade Januário Cicco, em Natal, no dia de São Francisco de Assis: 4 de outubro. Ele viveu a Natal de outros tempos, quando Ponta Negra era praia de veraneio e sequer sonhava em ser palco para turismo sexual e também em ser invadida pelos empresários e turistas estrangeiros. Morando em Brasília há décadas, Florian, hoje, preside o Instituto Legislativo Brasileiro e desempenha a missão de tentar aperfeiçoar os legislativos do país através da educação dos seus servidores. Paralelo a essa missão, ele é católico fervoroso, discípulo de São Francisco de Assis. De expressão séria e sisuda, Florian carrega dentro de si um espírito brincalhão e divertido que oferece sem economizar aos amigos. Ele é irmão, entre outros, de Woden, Liszt e Carlyle Madruga, este último já entrevistado pelo Zona Sul. A conversa com Florian foi realizada em seu gabinete, num início de noite, em fevereiro. (Roberto Homem).

ZONA SUL – Qual sua numeração na escalação dos “irmãos Madruga”?
FLORIAN – Sou o sexto, de um total de doze. Sou o fiel da balança.

ZONA SUL – Se fosse numeração de jogador de futebol, você, como o número seis, seria o lateral esquerdo. Essa posição combina com você politicamente? Aquele cara de esquerda que não é tão ofensivo como um ponta esquerda, mas que vez por outra também avança...
FLORIAN – Não costumo jogar sempre pela esquerda, de vez em quando dou uma caída pelo centro, para mirar no meio do gol.

ZONA SUL – Sua infância foi em Natal?
FLORIAN – Sim. Moramos em Natal até 1960. Nesse ano mudamos para Recife.

ZONA SUL – Como foram esses anos antes de mudar para a capital pernambucana?
FLORIAN – A melhor infância que se pode imaginar no mundo foi a infância vivida em Natal no final da década de 40, início da década de 50. Natal era pequena, provinciana, vinda de um pós-guerra, uma cidade que se resumia à Ribeira, Cidade Alta, Petrópolis, um pouco do Tirol, indo até o Alecrim, e terminando nas Quintas. Diria, com toda certeza, que era uma cidade maravilhosa. Nós morávamos ali na descida para a Ribeira, na antiga Junqueira Aires, hoje Câmara Cascudo. Minha vida era ali, brincando, tomando banho no Rio Potengi...

ZONA SUL – Naquela época isso era possível...
FLORIAN – Sim, não tinha nenhum tipo de poluição. Eu pescava siri na margem do Potengi, ía à Praia do Forte, a pé, inclusive. Saía da Junqueira Aires, atravessava a Ribeira, passava pelas Rocas, entrava por Santos Reis e saía no Forte. Natal se resumia àquilo. Praia a gente conhecia só as de Natal. Ponta Negra era para veraneio. Naquele tempo não existia a divisão entre Praia do Meio e Praia dos Artistas, era tudo Praia do Meio. Eu freqüentava também Areia Preta. A Via Costeira não existia. Aos domingos íamos para a Redinha. Atravessávamos o Rio Potengi, de barco, e passávamos o dia inteiro tomando banho na Redinha, que naquele tempo era só Redinha Velha. Esse era o mundo infantil: se resumia à escola e às brincadeiras. Naquele tempo brincadeira era descer a ladeira da Junqueira Aires de carrinho de rolimã, tomar banho de chuva, ir à praia e pronto.

ZONA SUL – Onde você estudou?
FLORIAN – Estudei em três escolas, em Natal. Aliás, em quatro. Comecei no Instituto Maria Auxiliadora, na Hermes da Fonseca. Depois fui para uma escola mantida pela maçonaria, chamada Escola Galdino Lima, perto da Loja Maçônica 21 de Março, no Centro, na Cidade Alta. Depois estudei no Instituto Batista, no Barro Vermelho, e, em seguida, no Sete de Setembro, última escola na qual estudei em Natal.

ZONA SUL – Morando ali na Junqueira Aires você, mesmo menino, sentia a presença de Câmara Cascudo?
FLORIAN – A nossa casa era quase em frente à casa de Câmara Cascudo, mas não tive contato com ele. Ouvia falar que ali morava Câmara Cascudo, ele já era uma referência para os adultos. Meu pai tinha um relacionamento de amizade muito forte com ele, e o meu irmão mais velho, Woden, também. Passei a vida toda, mesmo depois que saí de lá, ouvindo falar em Câmara Cascudo. Quando vou a Natal e levo parentes ou outras pessoas, costumo passar pela Junqueira Aires e mostrar: “eu morava aqui desse lado e Câmara Cascudo morava daquele outro lado ali”.

ZONA SUL – De Natal você mudou-se para Recife... Você sentiu um choque muito grande com a mudança?
FLORIAN – Senti. Eu cheguei em Recife com 12 anos de idade. Houve um choque natural, porque, naquela época, enquanto Natal era uma cidade provinciana e pequena, Recife já era uma cidade grande. Em Natal a gente andava nas ruas e conhecia as pessoas. A Junqueira Aires era o mundo para mim. Fui estudar em um colégio grande, o Colégio Americano Batista. Naquela época, 1960, 61, Recife já tinha prédios nas avenidas Guararapes e Conde da Boa Vista. Era uma cidade que assustava pelo tamanho, pelo trânsito. E era também diferente pelo fato do Rio Capiberibe atravessar toda a cidade. Mas foi fascinante, primeiro porque eu estudei em um colégio de altíssimo nível e que tinha uma formação moral muito grande. Segundo porque foi em Recife que assisti ao primeiro comício político da minha vida. Foi quando comecei a me interessar por política. Fui a um comício de Jânio Quadros candidato a presidente da República, em 1960, no centro de Recife, em frente ao Diário de Pernambuco. Foi a partir daí que a política entrou em minha vida. Foi empolgante ver aquela multidão, aquele discurso do Jânio Quadros com aqueles trejeitos todos que ele fazia. Foi uma descoberta nova na vida: eu estava deixando de ser menino para entrar na adolescência, participando de um evento que movimentou o país todo. Naquele tempo as campanhas eleitorais eram feitas através de comícios, já que não tinha os programas de televisão. Mal tinha televisão. Os políticos faziam comícios em palanques e atraiam multidões para assistir. Jânio Quadros era empolgante com aquele seu discurso, aquele seu palavreado, aquele sotaque mato-grossense.

ZONA SUL – Você foi a esse comício levado por alguém ou conduzido apenas por sua própria curiosidade?
FLORIAN – Curiosidade. Fui sozinho. Interessei-me pelo evento porque, durante todo o dia, passaram vários carros, com alto-falantes, anunciando o comício para a boca da noite.

ZONA SUL – Assistir a esse comício despertou em você algum tipo de curiosidade no sentido de se interessar em participar de movimento estudantil?
FLORIAN – Sem dúvida nenhuma. No início do ano seguinte, quando mudamos para Goiânia, foi outra mudança radical na vida. Primeiro porque saímos da região Nordeste para a Centro Oeste. Os costumes, os hábitos e o modo de falar das pessoas eram totalmente diferentes. E Goiânia era uma cidade provinciana, como Natal. A nossa própria presença também chamava a atenção dos nativos, dos goianos. Eles achavam interessante o nosso modo de falar...

ZONA SUL – Chamava atenção das nativas também?
FLORIAN – Naquele tempo eu ainda não tinha despertado para as nativas. Ainda estava naquela fase meio lá meio cá...

ZONA SUL – É bom você explicar o que significa essa fase “meio lá meio cá”...
FLORIAN – (risos) Eu estava naquela de ser meio menino, meio rapaz. Mas fui para Goiânia e foi lá que comecei na política estudantil. Até porque foi naquele período, em 1961, que Jânio Quadros tinha assumido a Presidência e renunciado sete meses depois, deixando o país mergulhado em uma crise política que veio desaguar na ditadura de 64. Mas em Goiânia já existia um foco de política estudantil bem elaborado, já existiam grêmios estudantis nos colégios. Fui estudar no Colégio Estadual Pedro Gomes, no bairro de Campinas. Tinha um grêmio estruturado, tinha a União Goiana dos Estudantes Secundários que fazia grandes movimentos, greves, reivindicações estudantis. Comecei a descobrir esse lado e gostei. Engajei-me na política estudantil e participei ativamente desse movimento até 1965. Também houve a queda de Mauro Borges, que era o governador do estado de Goiás, e que resistiu até a sua derrubada, no Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica de Goiânia. Eu estava presente no dia em que as tropas do Exército entraram palácio adentro e depuseram Mauro Borges, filho do fundador de Goiânia, senador Pedro Ludovico Teixeira. Eu já estava participando ativamente da atividade estudantil, das greves e das passeatas contra o movimento militar. Já estava bem engajado nisso aí.

ZONA SUL – Qual seu próximo itinerário depois de sair de Natal e morar em Recife e Goiânia?
FLORIAN – Em 1965 mudamos para Brasília, quando a ditadura já estava bastante efervescente. Era o governo Castelo Branco. Brasília tinha uma atividade política muito mais forte do que a de Goiânia, e o movimento estudantil estava bem melhor organizado. Fui morar em Taguatinga e estudar no Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab). Era o segundo maior colégio de Brasília. O primeiro era o Elefante Branco, do Plano Piloto. Fui fazer o segundo grau e comecei a participar do movimento estudantil, junto com outros colegas, e terminei eleito presidente do grêmio estudantil do Cemab, de 1965 até 1967. No período, houve grandes passeatas e aquele movimento todo contra os americanos. Era moda na época: “yankees, go home”. Corri muito da polícia, levei muita cacetada nos pés e nas pernas. Fizemos um protesto em determinado 7 de setembro, desfilando com uma fitinha preta, como se estivéssemos de luto. Durante esses três anos, de 65 a 67, a ditadura recrudesceu, e muita gente teve que sair daqui. Alguns desapareceram, outros foram presos, muitos se exilaram. A ditadura bateu forte, os grêmios estudantis foram todos destruídos, as sedes dos grêmios foram invadidas por agentes da repressão.

ZONA SUL – Até a Universidade de Brasília (UnB) foi invadida...
FLORIAN – Aconteceu em 1968, eu estava lá presente. Mas em razão de toda essa perseguição, me afastei um pouco do movimento estudantil. Cheguei a depor umas duas vezes, mas felizmente não houve nada mais grave. Eles queriam mais os cabeças, os líderes. Alguns foram presos, até exilados. Quando terminei o segundo grau, deixei a atividade estudantil e achei que devia tomar outro rumo na vida, porque aquele estava insuportável.

ZONA SUL – Qual foi o rumo que você tomou?
FLORIAN – Fui para a universidade estudar e também percebi que estava na hora de começar a trabalhar. Simultaneamente passei no vestibular, para letras, e em um concurso para a UnB, isso em 1970. Fui ser servidor da Unb e estudante do Ceub. Na Unb, fui trabalhar no departamento de direito como escriturário, mas com poucos meses, eles precisaram nomear para os departamentos, e eu fui designado subsecretário do departamento de línguas clássicas e modernas do Instituto de Letras da Unb. Trabalhava no Instituto de Letras durante o dia e fazia letras, à noite, no Ceub. De 1970 até 1974 fui servidor da Unb. Depois que deixei o departamento de línguas fui ser secretário do Instituto de Letras. Fiquei lá dois anos. Nesse período eu estava me formando no Ceub. Eu tinha aula à noite e durante o dia tirava as dúvidas com os professores da UnB. No final de 1973 surgiu a oportunidade de eu vir trabalhar no Senado. Meu irmão Carlyle já trabalhava na Gráfica do Senado. Em setembro de 1973 houve um processo seletivo. Naquela época não se realizava concurso público no Senado. O ingresso na Casa se dava através de processo seletivo. A Gráfica estava precisando de revisores. Passei na seleção e fui chamado imediatamente. Então surgiu uma grande dúvida: se eu continuava como funcionário da UnB ou vinha trabalhar como servidor do Senado. O salário da UnB era muito maior. Eu, como secretário do Instituto de Letras, recebia três vezes mais do que o salário que o Senado oferecia para revisor. Eu era solteiro e morava com meu pai. Ele disse pra mim: “peça demissão da UnB e vá para o Senado, porque você não vai se arrepender”. Eu obedeci o conselho do meu pai e pedi demissão da UnB chateado, preocupado. A partir daí, estou no Senado até hoje. Desde 1973.

ZONA SUL – Você permaneceu durante muito tempo ainda solteiro?
FLORIAN – Quando morava em Taguatinga, conheci uma moça no Cemab. Era uma moça muito bonita. Chamava atenção pela sua beleza física. Mas em razão da minha atividade político-estudantil, nunca me aproximei dela. Ela também evitava se aproximar de mim por não querer saber de ter nenhum contato com “aqueles agitadores” estudantis. Ficou nisso. Ela distante de um lado e eu de outro. Na minha cabeça, naquele tempo, só entrava política estudantil. Trabalhando na UnB, reencontrei essa moça. Ela, estudante de Letras, e eu, secretário do Instituto de Letras. Ela me reconheceu de uma forma que eu não imaginava nunca. Na época de política estudantil, além de usar o cabelo grande - como era próprio da época - eu usava barba à moda Che Guevara. Quando fui trabalhar na UnB passei a pentear o cabelo e tirei a barba. Fiquei um tipo mais civilizado. Mas ela me reconheceu: “olha como você está diferente”. Daí começou uma aproximação com aquela moça lá do Cemab. Começamos a namorar ainda na UnB: eu como funcionário, ela como aluna. Casamos quando ela concluiu o curso de letras. Vanda é o nome dela. Você perguntou antes se lá em Goiânia eu já tinha despertado para o sexo oposto, ainda não, mas Vanda é goiana e Goiânia tem fama de ser terra das mulheres bonitas.

ZONA SUL – Há quanto tempo vocês já estão casados?
FLORIAN - Estamos casados há 32 anos e temos três filhos maravilhosos. O mais velho chama-se Ravvi Augusto, em homenagem ao grande músico indiano chamado Ravi Shankar. Tenho também uma moça, uma filha, chama-se Cecília. O Ravvi é funcionário público, trabalha no Ministério da Justiça. É formado em relações internacionais e em direito. A Cecília é fisioterapeuta, tem uma clínica em Brasília e também trabalha no Hospital Naval, da Marinha. O caçula tem o meu nome, Florian Augusto, sem o júnior. Eu não coloquei júnior de propósito. Do contrário todos o chamariam de Júnior. Ele é publicitário, formado pela UnB. Meus filhos são muito bonitos, somos muito unidos. Fazemos parte de uma família tranqüila, normal e procuramos viver sempre em harmonia, dentro da religião que nós professamos, que é a católica. Tenho também vários irmãos que moram aqui em Brasília. Somos seis em Brasília.

ZONA SUL – Mas, voltando aos tempos da Gráfica, você passou quanto tempo na revisão?
FLORIAN – Só na Gráfica do Senado fiquei 28 anos. Primeiro como revisor. Comecei trabalhando à noite. Entrava às sete da noite e não tinha hora para sair. Normalmente voltava para casa às três, quatro horas da madrugada. Naquele tempo era linotipo. As atas da sessão da tarde vinham datilografadas pela taquigrafia. Aquilo tudo tinha que ser composto, depois que fazíamos a primeira revisão, voltava para a emenda da linotipo. Em seguida vinha a paginação e depois subia novamente para a revisão, para a última leitura e correção dos erros. Somente após isso tudo é que o jornal descia para o processo industrial. Tinha também os avulsos, os projetos de lei que eram apresentados à tarde. E não só as proposições dos senadores, mas as dos deputados também. Em média chegavam uns 50 projetos para ser compostos por dia na Gráfica. E tinham que estar prontos até às nove horas da manhã do dia seguinte, no gabinete do deputado ou do senador. Eu só ia embora depois que o Diário e os avulsos estavam na rotativa imprimindo. Fiquei sete anos nesse horário, trabalhando à noite. Com cinco anos de revisão veio a primeira oportunidade de exercer um cargo de chefia. Fui designado para ser encarregado da sessão de revisão do turno noturno. Fiquei algum tempo, depois surgiu uma vaga durante o dia para chefiar a sessão de revisão. Ocupei esse cargo durante um bom tempo até 1980, mais ou menos.

ZONA SUL – Você trabalhava somente no Senado?
FLORIAN - Desde o tempo do colégio, em Taguatinga, eu sentia uma queda pelo jornalismo. Fui redator de um jornal no Cemab. Depois tivemos uma revista, da qual também fui redator. Na Gráfica do Senado, no início da década de 80, surgiu, através da direção, um jornal chamado Traço de União e fui seu editor até ele se extinguir. Paralelamente à chefia da revisão na Gráfica do Senado, fui convidado a trabalhar no Jornal de Brasília, criado em 1974 pelos irmãos Câmara, que já tinham o jornal O Popular em Goiânia. Brasília só tinha o Correio Brasiliense. O Jornal de Brasília era diferente, veio com uma proposta de ser o Washington Post do Planalto Central. Essa era a idéia. Tinha uma equipe fantástica de jornalistas. Luiz Gutemberg era o diretor-geral, Hélio Doyle o diretor-executivo e o brilhante jornalista Antonio Teixeira Júnior, conhecido mais como Teixeirinha, era o editor de política. Como era amigo de Teixeirinha, ele me convidou para ser o chefe da revisão do Jornal de Brasília. Fiquei lá dois anos até receber um convite do Correio Brasiliense para chefiar a revisão de lá. Fui e fiquei também algum tempo. Era uma atividade estressante e cansativa: revisão no Correio e no Senado, trabalhando de dia e de noite. Por isso, optei por ficar só no Senado Federal. Continuei na Gráfica.

ZONA SUL – Na Gráfica do Senado você foi sempre revisor?
FLORIAN - Depois da revisão fui ser coordenador gráfico e, em 1983, fui convidado para ser chefe de gabinete da diretoria-executiva da Gráfica. Nesse período acumulei a chefia de gabinete com o cargo de diretor-adjunto, que foi criado para acompanhar as atividades da Gráfica à noite. Voltei a trabalhar à noite. Passava uma parte do dia aqui e outra parte à noite. Fiquei nesse cargo durante um bom tempo. Foram 28 anos de um trabalho fascinante na Gráfica, até porque é gratificante você trabalhar com livro, seja qual livro for. Não tem nada mais interessante do que a leitura. Lembro de uma frase do senador Marco Maciel, que li em um artigo que ele escreveu para o Correio Brasiliense no início de fevereiro. Ele disse que depois da invenção da escrita, a mais fascinante invenção do homem foi o livro. Tem razão. Depois desse tempo todo na Gráfica, em 2001, recebi um convite para vir dirigir o Instituto Legislativo Brasileiro (ILB). É um órgão do Senado que trata da capacitação dos servidores não só do Senado. A proposta do ILB, quando foi criado pelo senador José Sarney, em 1997, era de ser o órgão de capacitação dos servidores de todo o legislativo brasileiro. Capacitar os servidores do Senado, do Congresso Nacional, das assembléias legislativas e das câmaras municipais, para que qualquer servidor que trabalhe em qualquer nível do poder legislativo do Brasil tivesse o mesmo tipo de treinamento. Estamos desenvolvendo esse trabalho desde 2001.

ZONA SUL – Qual balanço você faz desse seu trabalho a frente do ILB?
FLORIAN – O diretor-geral do Senado, Agaciel da Silva Maia, costuma dizer que o parlamento brasileiro começou a se modernizar na sua transferência para Brasília. O primeiro passo importante, na sua opinião, ocorreu em 1963 quando foi criada a Gráfica do Senado. Em seguida, na década de 70, outro avanço importante foi a criação do Prodasen, quando pouco se falava de informática no Brasil. Na década seguinte, a de 80, Agaciel atribui a criação da estrutura de comunicação social do Senado como outro passo na direção da modernização da Casa. Com o início do século XXI, a partir do ano 2000, o diretor-geral disse que a grande revolução passou a ser a educação no legislativo. Aí entra o ILB, com seus cursos presenciais e à distância, e, a partir de 2001, a Universidade do Legislativo Brasileiro (Unilegis), uma coisa inédita no mundo. Não existe nenhuma universidade especializada em poder legislativo como a Unilegis. O relator da Lei de Diretrizes e Bases, o saudoso senador Darcy Ribeiro, colocou lá: existem três tipos de universidade, a tradicional (que todos nós conhecemos), a corporativa (dos grandes conglomerados) e a universidade especializada, que é o caso da Unilegis, especializada em poder legislativo. E ela não é apenas voltada para formar quadros para o legislativo. O cidadão comum que quiser conhecer o poder legislativo, estudá-lo, vai ter oportunidade de fazer os cursos que essa universidade vai oferecer. Ela está em fase de implantação. Esse trabalho que estamos realizando aqui a frente do ILB e implantando a universidade, é fascinante. O Senado tem ainda um terceiro órgão que é o Interlegis, que trata especificamente da modernização do poder legislativo brasileiro.
ZONA SUL – Como está o Rio Grande do Norte diante desse contexto?
FLORIAN – Aí vem a nossa vaidade de potiguar que somos, de ver que no Rio Grande do Norte esse é um projeto que tem sido levado muito a sério não só pela Assembléia Legislativa, que inclusive criou uma escola do legislativo com nome de instituto também. O Instituto Legislativo Potiguar está instalado e funcionando na Assembléia Legislativa. O atual presidente da assembléia, que foi reeleito agora, o deputado Robinson Faria, tem afirmado que vai dar uma grande prioridade ao funcionamento do ILP, que é dirigido por uma jovem parlamentar, a deputada Larissa Rosado. A Câmara Municipal de Natal também acabou de instalar a sua escola do legislativo. Chama-se Escola do Legislativo Governador Miguel Arraes, uma homenagem que o então presidente da Câmara Municipal, vereador Rogério Marinho, hoje deputado federal, prestou a esse grande brasileiro, esse pernambucano que foi um grande líder inclusive na resistência à ditadura e foi governador de Pernambuco em três mandatos. A escola está funcionando nas dependências da Câmara Municipal. Também no Rio Grande do Norte temos o Tribunal de Contas, que hoje é presidido pelo conselheiro Paulo Chaves Alves, que tem a escola de contas. Temos também criado no Rio Grande do Norte uma escola do legislativo na Câmara Municipal de Parnamirim, que tem a vereadora Kátia a frente. O Rio Grande do Norte foi realmente entendeu que é através da educação que se melhora as condições de trabalho das pessoas e se auxilia na atividade parlamentar dos seus deputados e vereadores. É bom frisar que essa área de educação legislativa tem sido levada tão a sério que em 2003 foi criada a Associação Brasileira das Escolas do Legislativo, Abel, com o objetivo de congregar essas entidades que trabalham com educação legislativa. Em 2003 só tinha quatro escolas funcionando, e graças a esse trabalho que o Senado vem fazendo através do ILB, da Unilegis e do Interlegis, e com a criação da Abel, hoje são 25 escolas funcionando nas assembléias legislativas, várias em câmaras municipais e outras tantas em tribunais de contas.

ZONA SUL – Você continua exercendo o jornalismo?
FLORIAN – Continuo. Esse é um vício que depois que inocula ele no sangue não tem antibiótico que tire. É impressionante. Continuo exercendo o jornalismo aqui em Brasília, através da Revista Foco, que já circula há doze anos. Foi criada por Consuelo Badra, que é uma grande jornalista, com uma folha de importantes serviços prestados ao jornalismo brasileiro. É uma revista mensal de alta qualidade gráfico-editorial e eu colaboro mensalmente através de um artigo e participando do seu conselho editorial.

ZONA SUL – Dentre os artigos que você já escreveu para a Revista Foco, qual deles você emolduraria? E qual artigo você não escreveu ainda e gostaria de escrever?
FLORIAN – Devo ter escrito mais ou menos uns 140 artigos. Eu destacaria todos aqueles nos quais abordei a educação como tema. Um artigo que não escrevi ainda, mas que pretendo escrever, é sobre a Natal da década de 50, a Natal que eu vivi.

ZONA SUL – Dê umas pinceladas sobre como será esse artigo...
FLORIAN – Nele vou falar sobre a Avenida Junqueira Aires, sobre a festa de Santos Reis, na Igreja dos Reis Magos, lá no bairro de Santos Reis, quando se comemora o dia 6 de janeiro. Vou falar ainda sobre a Praça André de Albuquerque, em frente à antiga catedral. Logicamente também tenho que falar alguma coisa sobre o rio Potengi daquele tempo. Não esquecerei de um dos locais que mais marcaram a minha infância em Natal: a antiga Praça Pedro Velho. Ela foi uma das praças mais lindas que existiu no mundo. Hoje está totalmente diferente daquela época. Nem parece mais ser uma praça. Essa é uma Natal que eu vivi. Ainda peguei o final do Grande Ponto. O Grande Ponto era o ponto de encontro dos natalenses, onde se falava de política, de religião e se falava mal dos outros. Logicamente tenho que falar no Cine Rex, que exibia os seriados dominicais e os bangue-bangues que a gente assistia. Do cine Rio Grande também, que era um cinema distinto. Logicamente, tenho que falar no corso carnavalesco na avenida Deodoro da Fonseca, quando ainda se brincava carnaval inocentemente com lança-perfume. O carnaval começou a decair justamente quando o uso da lança-perfume foi proibido. No bom sentido, é claro. (risos).

ZONA SUL – Hoje em dia qual é sua relação com Natal?
FLORIAN – Eu vou a Natal pelo menos três vezes por ano. Não fico sem ir. Tenho parentes, vou lá visitá-los. Tenho três irmãos em Natal: Woden, Liszt e Marcius. Tenho primos. Vou a Natal para revê-los. Não freqüento as praias nem do litoral norte nem do litoral sul, apesar de conhecê-las. Vou ainda às praias que eu freqüentava quando era menino, que são as praias que muita gente não vai mais, alegando que não freqüentam as praias do centro da cidade. Eu faço questão de, toda vez que vou a Natal, passar em Areia Preta, na Praia do Meio e na Praia do Forte. E não deixo de ir ao cais da Tavares de Lira, onde pegávamos a barca para passar o domingo na Redinha. Acho que essa barca ainda existe, já que a ponte nova ainda não foi inaugurada.

ZONA SUL – O que você acha da construção dessa ponte ligando Natal à Redinha?
FLORIAN – Uma vez ouvi do arquiteto Oscar Niemeyer, quando fomos tratar do projeto arquitetônico da Unilegis, que é dele. Eu dizia para ele que Brasília - que na época tinha apenas 42 anos - me impressionava porque o centro da cidade já estava decadente. Ele respondeu: “olha, meu filho, as cidades são como as pessoas, envelhecem, você tem que trazer o progresso para elas”. Vejo a ponte como um sinal de progresso, a cidade cresceu. Não se restringe mais ao que era nas décadas de 50 ou 60. Hoje os bairros populares estão praticamente situados na zona norte. A construção da ponte sobre o rio Potengi vai facilitar a vida dessas pessoas. E vai também, para quem gosta de ir para as praias do litoral norte, facilitar bastante o trânsito, até porque hoje é meio caótico você sair de Natal para aquele lado. Espero que ela fique pronta o mais rápido possível para que eu possa matar a saudade lá da Redinha.

ZONA SUL – Apesar de tanto tempo em uma casa política você nunca se interessou em candidatar-se a alguma coisa?
FLORIAN – Fui convidado algumas vezes para ingressar em partidos políticos. Também já ouvi algumas insinuações sobre eu me candidatar a algum cargo eletivo, principalmente em Brasília. Mas nunca me interessei, até porque, aqui no Senado, nós os servidores mais antigos costumamos dizer que temos 81 patrões, e eles integram partidos políticos diferentes. Prefiro trabalhar sendo servidor da Casa, me esforçando para que os senadores desempenhem bem suas atividades, do que pertencer a partido político. Não tenho a menor pretensão de disputar cargo político. Talvez, algum dia, se tiver tempo, vou me candidatar a diretor de harmonia de uma escola de samba que está sendo fundada na cidade satélite de São Sebastião. Quero ser eleito para diretor de harmonia, se for possível. (risos). Mas isso é mais adiante, isso é projeto para uns dez anos.

ZONA SUL – Você tem uma grande paixão por São Francisco. Como é isso? Seu irmão, Carlyle, costuma dizer que você é o “papa-hóstia” da família...
FLORIAN – (risos) Eu estudei em dois colégios protestantes - naquele tempo chamavam de protestante, hoje preferem chamar de evangélico. Estudei no Instituto Batista de Natal e no Colégio Americano Batista. Estudei também em um colégio católico, o Maria Auxiliadora, de orientação salesiana. Mas venho de uma família basicamente católica. Meu pai foi seminarista do Seminário São Pedro, em Natal, e sempre professou a religião católica. Fui educado nessa religião e sempre pratiquei o catolicismo. Talvez por ter nascido no dia de São Francisco de Assis, tenha me apegado a ele. Sempre, em momentos de reflexão, lembro dele. Li e tenho várias biografias de São Francisco de Assis. Ele é um exemplo para a humanidade. São Francisco, apesar de ter mais de 800 anos, está aí atualíssimo. Você cita São Francisco de Assis como se ele estivesse vivendo nesse momento. É um exemplo de cidadão, de religioso e de homem de caráter. Essa aproximação com ele fez com que eu procurasse cada vez mais conhecer melhor a sua vida. Comecei também, já há algum tempo, a colecionar imagens de São Francisco de Assis. Ele é o santo que tem mais imagens no mundo todo. Em qualquer lugar que você chegar, encontra em lojas de souvenirs imagens de São Francisco de Assis, e às vezes até com características daquela cidade. Isso tanto no Brasil quanto fora do país. Hoje tenho mais de uma centena de imagens dele, com tamanhos e poses diferentes.

ZONA SUL – Deixe uma mensagem para seus conterrâneos potiguares.
FLORIAN – Natal é a minha cidade, e como a minha cidade, ela sempre esteve dentro de mim. Meu pai disse uma vez para mim, e eu costumo repetir para meus amigos: quando Deus quis criar o mundo, imaginou que o mundo seria um paraíso, que o homem ia viver no Éden. Mas Ele não fazia idéia de como seria esse Éden. Então, para se inspirar, Deus foi para Natal. Natal é isso. É um paraíso. Não existe nenhuma cidade no mundo parecida com Natal. Todos que vão a Natal ficam encantados, principalmente com o povo natalense. Aquela forma geográfica da cidade, incrustada entre o mar e o rio também fascina. O fato de Natal ser a única cidade do mundo que tem três padroeiros, os Reis Magos, também deve ajudar. Tudo isso faz com que ela seja uma cidade que encanta as pessoas.

4 comentários:

  1. Interessante, porque também vivi no periodo de juventude de Florian Madruga em Natal, cidade que amo de paixão, embora tenha nascido em Maceió. Sou irmã de Marconi Brennand, que foi amigo dos irmãos Madruga: Carlayle e Florian. Tenho boas recordações dessa família. Esta entrevista me fez rever os tempos bons da minha adolesceñcia.

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  2. fiquei tão empolgada que não me identifiquei. Sou Maria da conceição Câmara Martins. email: ceicamartins_3@hotmail.com

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  3. fiquei tão empolgada que não me identifiquei. Sou Maria da conceição Câmara Martins. email: ceicamartins_3@hotmail.com

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  4. Interessante, porque também vivi no periodo de juventude de Florian Madruga em Natal, cidade que amo de paixão, embora tenha nascido em Maceió. Sou irmã de Marconi Brennand, que foi amigo dos irmãos Madruga: Carlayle e Florian. Tenho boas recordações dessa família. Esta entrevista me fez rever os tempos bons da minha adolesceñcia.

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