quinta-feira, 16 de março de 2006

Entrevista: CARLYLE MADRUGA

UMA EVOCAÇÃO DE SAUDADE À NATAL




Carlyle Coutinho Madruga nasceu em uma Natal de outros tempos, na rua das Laranjeiras, no dia 14 de outubro de 1946. Filho de José Coutinho Madruga e Nívea de Andrade Madruga, ele mora há quase 40 anos em Brasília. É funcionário da Gráfica do Senado. Como membro do Conselho Editorial da instituição, foi uma das pessoas que emitiu parecer favorável para que o Senado lance um livro inédito de Câmara Cascudo: A Casa de Cunhaú. A entrevista com Carlyle, iniciada no final do ano passado, em Porto Alegre, e concluída em meados de março, em São Paulo, é uma verdadeira declaração de amor à cidade na qual ele nasceu e teve que abandonar de forma curiosa. Confira os detalhes a seguir. (Roberto Homem)





ZONA SUL – Fale um pouco sobre seus pais.
CARLYLE – Meu pai, professor e advogado, aposentou-se como consultor jurídico na Câmara Municipal de Natal. Minha mãe, professora, foi diretora da Escola Técnica de Comércio Visconde de Cairu, posteriormente Instituto Andrade Madruga de Educação. Ela também foi funcionária de carreira do Departamento de Estatística do Rio Grande do Norte.

ZONA SUL – Vocês são em quantos irmãos?
CARLYLE – Vou ter que contar... Obedecendo a ordem cronológica: Woden, Liszt, Marcius, Carlyle, Florian, Goethe, Publílio, Antúlio, Néjea e Tagore. Papai tinha esse costume de batizar os filhos com nomes históricos ou de pessoas ligadas à cultura. Carlyle foi em função do grande economista e pensador Thomas Carlyle. Woden, segundo a versão de papai, era o nome de um príncipe viking. Listz, grande compositor. Tagore, poeta indiano. Antúlio, Publílio e Marcius, ele tirou do direito romano. Goethe é homenagem ao grande escritor. Néjea foi o único nome bolado, vamos assim dizer, por ele. Quem sabe ele não quis se esmerar por ser a única mulher...

ZONA SUL – Como foi sua infância em Natal?
CARLYLE – Apesar dos pesares e de alguns problemas de âmbito familiar, minha infância foi saudável. Ela foi muito diferente da dos meus filhos, sem dúvida alguma. A coisa era mais solta, mais tranqüila. Com menos violência, mais segurança. Era aquela história: você de calção, nu da cintura pra cima, correndo pelas campinas, sem medo de nada. Correndo atrás de uma bola, de uma ave, subindo em uma árvore para tirar uma fruta. Caindo dela de vez em quando. Da árvore, claro. Sem machucar a fruta... (risos)

ZONA SUL – E a cidade, como era?
CARLYLE – A cidade de Natal era pacífica, ordeira. Sem os atropelos que a vida urbana moderna hoje nos oferece. Você podia andar tranqüilo nas ruas, podia sentar-se à tardinha, à noite ou a qualquer hora nas calçadas, nas esquinas da vida, sem problema algum. O que é difícil fazer atualmente. A vida sedentária hoje não nos permite esse luxo.

ZONA SUL – Fisicamente Natal era bem menor...
CARLYLE – Natal, na minha época, ía do Canto do Mangue ao Aeroclube. Não havia o outro lado do rio Potengi. O outro lado do rio, cuja travessia era uma façanha, se resumia à Redinha. Do Aeroclube para lá, era mato. Ir a Ponta Negra era uma viagem. Era praia de veraneio. Estudante do Colégio 7 de Setembro, fui em uma excursão a Ponta Negra. Foi uma aventura. Hoje você vai num piscar d’olhos, até contornando as dunas, pela Via Costeira.

ZONA SUL – E a época de estudo, quando criança?
CARLYLE – Fiz o jardim de infância, hoje nem sei se existe mais, no Colégio Maria Auxiliadora, lá na Hermes da Fonseca. Morava nas proximidades, na rua Mossoró. O primário eu fiz no Grupo Modelo, próximo à antiga Praça Pedro Velho, no Instituto Batista e concluí no 7 de Setembro. Posteriormente me preparei para o exame de admissão com a professora Gláucia e o professor Saturnino. Fui aprovado, fiz o primeiro e o segundo ano na Escola Técnica de Comércio Visconde de Cairu. O terceiro ano já fiz em Recife, no Colégio Americano Batista, mas essa já é uma outra história.

ZONA SUL – Quais as circunstâncias da ida de sua família para Recife?
CARLYLE – Saí de Natal com 14 anos. Diz a lenda que foi devido a um problema político. Naquela eleição de 1960, se não me engano, o Djalma Marinho disputando a governadoria com Aluísio Alves, papai, Dinartista roxo, ferrenho, não se conteve ante a derrota de Djalma Marinho e, em represália, em protesto, saiu de Natal. Recife foi um pit stop. Quando saiu de Natal, papai já tinha a idéia fixa de morar em Brasília. Tinha em mente fazer dois pit stops. Um em Recife e outro em Goiânia. Cumpriu à risca essa programação. A saída para Recife foi um pit stop rápido, de um ano. Ele saiu mais em função de ter que cumprir com o que tinha prometido. “Se Djalma Marinho perder a eleição eu saio de Natal”.

ZONA SUL – Era uma pessoa de palavra...
CARLYLE – Era Madruga. Deus ajuda a quem cedo madruga... (risos)

ZONA SUL – Houve algum choque cultural trocar o Nordeste pelo Planalto Central?
CARLYLE – Houve. Principalmente, acho eu, devido à nossa saída um tanto o quanto intempestiva de Natal. Pra nós, semi-adolescentes, ela foi meio traumática. Não fomos preparados para a saída. Quando menos a gente viu, estávamos na estrada. Mas mudar do Nordeste para Goiânia provocou mesmo grande choque cultural. Saí do “oxente” para o “vai, sô”. O choque foi também gastronômico, já que tive que trocar o sarapatel e a buchada de bode pelo arroz com pequi. (risos)

ZONA SUL – A dificuldade maior foi trocar Natal por Recife ou sair de Recife pra Goiânia?
CARLYLE – Acredito que foi de Natal para Recife. Eu era adolescente, ou quase isso, aos 14 anos. Já tinha uma certa base sedimentada com relação a amigos, a estudo e até com planos já futuros.

ZONA SUL – Deixou alguma namorada em Natal?
CARLYLE – Deixei. Inclusive, em certo momento em Recife, pensei em voltar para Natal. Não só por causa dela, mas também dos amigos e, principalmente, da cidade. Ao mudar para Recife eu também tive que deixar o emprego. Aprendi o ofício de revisor, aos 13 anos, no jornal A República, com o chefe da revisão Ademar, que está vivo até hoje. Fiz mesa, na revisão, com Ribamar. Hoje ele é advogado. Foi presidente da OAB-RN. Depois fui contratado pelo Diário de Natal. Eu recebia semanalmente uma nota, se não me engano, de um mil réis. Tinha a efígie de Pedro Álvares Cabral. Eu religiosamente entregava esse dinheiro a papai para ele colocar em uma caderneta de poupança.

ZONA SUL – Esse dinheiro rendeu juros?
CARLYLE – Deve estar rendendo até hoje (risos).

ZONA SUL – Em Recife você continuou a trabalhar ou apenas ficou estudando?
CARLYLE – Lá cheguei a iniciar no Jornal do Commercio, também na área de revisão. Mas, logo em seguida, houve a saída para Goiânia, em 1962.

ZONA SUL – Como foi em Goiânia?
CARLYLE – Lá eu trabalhei na Folha de Goiás, órgão dos Diários Associados, e posteriormente fui admitido na Imprensa Universitária, que editava um jornal hebdomadário, O Quarto Poder. A Imprensa Universitária pertencia à Universidade Federal de Goiás, cujo reitor, Colemar Natal e Silva, foi cassado pela Revolução de 1964. Iniciei minhas atividades de revisor na Imprensa Universitária em janeiro de 1963, com 17 anos. Em função desse emprego, em 1964, quando papai mudou-se para Brasília, eu ponderei para não ir. Ele aceitou a argumentação, e fiquei em Goiânia. Eu e Deus.

ZONA SUL – Mas foi só o emprego que o motivou a ficar ou havia também alguma namorada?
CARLYLE – Tinha uma namorada também. Esses olhos azuis sempre exerceram uma atração danada, viu? (risos)

ZONA SUL – E os estudos?
CARLYLE – Naquela época, com 17 anos, eu estava no segundo ano do científico. Não sei por que cargas d’agua, mas eu pensava ser engenheiro. Que desastre, hein? Cheguei a fazer o Colégio Universitário, em Goiânia, que preparava o aluno voltado especificamente para o curso por ele pretendido. Era uma espécie do que hoje chamamos de cursinho preparatório. Quando estudei lá fiz o curso voltado para as ciências exatas, para engenharia. Meu primeiro vestibular foi abortado em função de eu estar servindo ao glorioso Exército brasileiro.

ZONA SUL – Como foi essa experiência militar? Você recomenda?
CARLYLE – Recomendo. Foi uma experiência válida e altamente salutar. Foi uma escola. Servi em Goiânia, no 10º Batalhão de Caçadores. Fiquei grande parte do meu tempo de serviço, que teve a duração de um ano, isso em 1966, aquartelado. O motivo era aquela turbulência que o país vivenciava. Lembro que, coincidentemente, aquele foi o ano da indicação ou da eleição, entre aspas, do Costa e Silva para a Presidência da República. Eu era graduado, era cabo. Na época da eleição de Costa e Silva, fui comandando - olha só - um destacamento para uma cidade do interior de Goiás chamada Mineiros. O Exército foi convocado para garantir a paz, a segurança e a ordem do pleito. Eu, como bom soldado, fui lá comandando esse destacamento.

ZONA SUL – Você tinha algum ideal político, algum envolvimento, naquela época? Como você, dentro do Exército, via o regime militar?
CARLYLE – No Exército eu tive dois convites, feitos por superiores militares, para seguir carreira. Um foi para cursar a Escola de Sargentos das Armas (ESA), com sede, me parece, em Vitória, no Espírito Santo. O outro foi para fazer academia, feito pelo comandante, na época, capitão Rego Monteiro. Ele foi um grande militar e grande homem. Mas eu não tinha nenhuma afinidade com a vida militar. Para você ter uma idéia, as minhas insígnias de cabo nunca foram costuradas no fardamento. Eram pregadas com alfinete. De vez em quando uma caía ao sabor do vento. O próprio capitão Rego Monteiro uma vez falou: “é, Carlyle, não dá pra você realmente seguir a carreira militar não”.

ZONA SUL – Como você encarava aquela efervescência política no meio da população?
CARLYLE – Minha situação realmente era um tanto o quanto desconfortável. Primeiro pelo meu próprio grau de instrução, que já me propiciava um feedback da situação que o país estava passando. Em contrapartida, eu, quer quisesse ou não, fazia parte das Forças Armadas. Durante aquele período, de certa forma, fui preparado para defender o regime. Mas graças a Deus não cheguei a participar de nenhuma operação de cunho político. Eu vivia naquele dilema.

ZONA SUL – Depois de cumprido o período no Exército você foi fazer o que da vida?
CARLYLE – Eu até diria que a minha permanência no Exército brasileiro não passou de uma alfinetada. Literalmente. Mas cumpri o período com galhardia. Quando saí, tentei me readaptar à vida de civil, de estudante secundarista, fui me preparar para o vestibular. A vida continuou.

ZONA SUL – Você foi logo em seguida para Brasília?
CARLYLE – Fui em 1967. Em 1965, antes de ingressar no Exército, passei em um concurso para a gráfica do Senado. Quando fui chamado, tinha acabado de ingressar no Exército. Logo que dei baixa, fui a Brasília e me apresentei ao superintendente da gráfica, que na época era o seu fundador: Wilson Menezes Pedrosa. Lá fiz uma prova prática complementar que foi exigida, fui aprovado e mudei em definitivo para a cidade.

ZONA SUL – Você ainda era solteiro?
CARLYLE – Sim, solteiro, mas já namorando com a Lígia, que hoje é minha esposa. Eu a conheci em Anápolis. Ela estudava em um colégio interno, o Couto Magalhães. Seus pais moravam no Maranhão. Ela tinha tios em Anápolis. Por causa dessas coincidências da vida, um amigo meu, de Goiânia namorava uma irmã da Lígia, que também estudava em Anápolis. Numa dessas idas dele a Anápolis para ver a namorada, Silvia, ele me convidou para acompanhá-lo. Deu no que deu.

ZONA SUL – Quando você foi para Brasília Lígia ficou em Anápolis...
CARLYLE – Sim. Dois anos depois que eu já tinha me fixado em Brasília, em 1969, por uma outra coincidência do destino, os pais dela resolveram mudar para a capital do país. Foram ser vizinhos de papai.

ZONA SUL – Quer dizer que os dois anos investindo em selos para enviar cartas valeram a pena...
CARLYLE – Foram bastante proveitosos. Foi um grande investimento, resultando, disso aí, em quatro filhos lindíssimos: Eric, Inessa, Iuri e Igor. Casamos em 15 de julho de 1972. Ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo.

ZONA SUL – E a universidade?
CARLYLE – Em 1968 iniciei um curso de administração na Universidade do Distrito Federal (UDF). A engenharia já tinha ido para o espaço. Mas cheguei a fazer um vestibular para arquitetura, antes de cursar administração, em 1967, na Universidade de Brasília (UnB). Nem sei porque fiz, já que eu não tinha afinidade nenhuma com o traço, com desenho, nem nada. Então Um ano depois de ter iniciado administração na UDF, fiz vestibular para economia na UnB. Passei e abandonei administração. Achei que tinha encontrado o curso ideal, mas era mais em função daquela onda de economistas que havia naquela época. Foi mais um balão de ensaio. Ainda fiz outro vestibular para administração na UnB. Cheguei a cursar um ano e meio. Deixei novamente. Estudei economia até o penúltimo semestre, quando resolvi fazer vestibular para direito, na UDF. Quer dizer: depois que fiz tudo errado, resolvi fazer direito. Vim concluir o curso de direito no Centro de Ensino Unificado de Brasília (Ceub), acho que em 1990. Mas nesse meio tempo fiz um outro vestibular na UnB para uma área que tenho até uma certa afinidade, literatura portuguesa. Cursei um ano e depois também deixei. Minha quase interminável carreira universitária encerrou aí. Mas antes de tudo, ainda em Goiânia, fiz um curso de jornalismo, reconhecido pelo MEC, patrocinado pela Associação Goiana de Imprensa (AGI). Esse curso foi que me alavancou para o emprego da Imprensa Universitária. O presidente da AGI, Geraldo Vale, já falecido, foi dirigir a Imprensa Universitária e me chamou.

ZONA SUL – E sua história dentro da gráfica do Senado?
CARLYLE – Comecei como revisor. Profissionalmente cresci na instituição, passei por vários estágios. Fui chefe da revisão, assessor da diretoria industrial, assessor da diretoria executiva, coordenador de treinamento profissionalizante, coordenador de informatização e desenvolvimento, coordenador de controle de qualidade e hoje faço parte do Conselho Editorial do Senado.

ZONA SUL – O Conselho Editorial está preparando um livro inédito de Câmara Cascudo. Como é essa história?
CARLYLE – Esse inédito de Câmara Cascudo, cujo título é A Casa de Cunhaú, foi escrito nos idos de 1935... Na década de 1930. Essa propriedade da família dos Albuquerque Maranhão hoje está dentro do território do município de Vila Flor. Parte desse trabalho Cascudo o reproduziu na coluna Acta Diurna, que tinha no jornal A República, fundado no início do século passado por Pedro Velho. Era um órgão vinculado ao governo do estado. Ele foi desativado em um dos governos José Agripino. Esse trabalho do Câmara Cascudo, não se sabe porque, não veio a ser publicado. O livro está relacionado com genealogia dos Albuquerque Maranhão, desde o fundador de Natal, Jerônimo de Albuquerque. Essa obra ficou adormecida durante esse tempo todo. Nunca foi publicada. Os originais foram encontrados na biblioteca dos Albuquerque Maranhão, segundo informações fornecidas pela Ana Maria Cascudo (filha de Câmara Cascudo) e pelo professor e historiador Paulo Albuquerque Maranhão, que está concluindo a introdução e as notas comentadas dessa publicação. Ele mora no Rio de Janeiro e faz parte da linhagem direta dos Albuquerque Maranhão.

ZONA SUL – Fale um pouco mais sobre o livro.
CARLYLE – O livro é um resumo familiar. Cascudo vai destrinchando, ao longo dos anos, a história da família. A publicação deverá ter em torno de 200 páginas. O lançamento estava previsto para ser feito na 19ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada em março, mas o trabalho não foi concluído. O professor Paulo Albuquerque Maranhão está aperfeiçoando principalmente as notas comentadas do livro. Vamos tentar viabilizar o lançamento para a Feira do Livro de Mossoró, prevista para agosto desse ano.

ZONA SUL – Como o mundo literário está reagindo a esse novo livro de Cascudo?
CARLYLE – Ainda não houve divulgação dessa publicação. Recebemos os originais, sem as notas comentadas do professor Paulo Albuquerque Maranhão, e a formalização da solicitação para que o Conselho Editorial do Senado apreciasse e viabilizasse a edição. Reunimos-nos, analisamos e aprovamos. Como não viabilizar a publicação de um inédito de Câmara Cascudo? Então, não houve ainda repercussão porque não começamos a divulgar ainda essa obra em si. Estamos aguardando a conclusão dessa parte introdutória mais as notas comentadas para, aí sim, entrarmos no esquema de produção gráfica e passarmos à divulgação da obra propriamente dita.

ZONA SUL – Depois de quase 40 anos em Brasília já conseguiu criar laços afetivos com a cidade?
CARLYLE – Sem dúvidas. Hoje tenho um vínculo estreitíssimo com Brasília. Sinto saudades quando saio de lá. Mas Natal é Natal. É a cidade mãe, foi a cidade que me viu nascer. As reminiscências e a saudade daquela Natal de antigamente sempre existirão. Saudade daquele período de infância. A meninice ninguém nunca esquece. Dos primeiros chutes na bola de meia, depois na bola de borracha. Das primeiras traquinagens. Da Natal do Cambraia, do Bicanha, do Caju, de Maria Mula Manca. Todos personagens de rua. Cambraia era um negro, hoje tem que falar um negro, mas era um preto retinto naquela época. Hoje, negro retinto. Ele andava pelas ruas da cidade vendendo o Jornal de Natal, que era um órgão do Café Filho. Maria Mula Manca também vendia jornal e era eleitora ferrenha de Dinarte Mariz. Bicanha e Caju eram moradores de rua mesmo. Dormiam pelas calçadas, sem o risco de serem mortos, perambulando pelas ruas. Sinto saudade das matinês ou vesperais da Rádio Poti, daqueles programas de auditório realizados aos sábados. O Trio Irakitan, antes de se tornar famoso, era presença certa. Morei em frente, na Rua Mossoró, da casa de um dos integrantes do trio, o Gilvan Bezerril.

ZONA SUL – Do que mais você sente saudades de Natal?
CARLYLE – Tenho saudade da Rua Mossoró sem calçamento, das peladas nos campos de areia. Saudade do Colégio Maria Auxiliadora, onde fui coroinha e muito querido pelas freiras. Saudade do Colégio Salesiano, onde jogava futebol aos sábados. Os times eram formados por crianças e rapazes ali da Junqueira Ayres, Gonçalves Dias e Padre Manuel. Saudade das missas e dos namoricos no átrio da Igreja do Rosário, de onde podíamos visualizar o mais bonito pôr-do-sol em Natal. Saudade do estádio Juvenal Lamartine, onde, aos domingos, infalivelmente, ía assistir a mais um show de bola do ABC.

ZONA SUL – Mas se hoje jogar ABC contra Brasiliense, você vai torcer por qual dos dois?
CARLYLE – Sou ABC. A origem bate mais forte. O ABC do Ribamar, no gol, ou Édson. Dos zagueiros Biró e Tomé. Jorginho e Sileno, no meio-campo. Também sinto saudade da Natal onde dei os primeiros passos na vida maçônica. Tive a oportunidade e o prazer de ter tido como padrinho, na maçonaria, segundo papai dizia com toda a ênfase: “a figura que representava a honestidade e a retidão de caráter de uma pessoa”. Estou falando do seu avô Oscar Homem de Siqueira, com aquela elegância que lhe era peculiar. Posição ereta. Eu o achava parecido com o príncipe Philip, da Inglaterra. Com toda aquela elegância. Saudade do cine Rex, onde eu via as matinais dos domingos. O primeiro filme que assisti foi lá.

ZONA SUL – Você lembra qual foi?
CARLYLE – Um filme de guerra. Se não me falha a memória, foi A glória de um covarde, com Audie Murphy. Nessas matinais eram exibidos seriados como O maravilhoso mascarado e Zorro. Também tenho saudade do Rio Grande, onde assisti ao primeiro filme em cinemascope, O Príncipe Valente. Saudade do carnaval do AeroClube, da primeira lança-perfume que usei - para brincar o carnaval, logicamente. Saudade dos amigos da época, dois dos quais me marcaram muito Felix Wilson Meneses de Carvalho e Carlison Reginaldo Soares, irmão de Carliete e Carlizete. Natal é altamente saudosa.

ZONA SUL – E pelo que está deixando transparecer pela sua emoção, Natal está bem viva ainda dentro de você.
CARLYLE – Viva, marcante e permanente. Tenho saudade dos domingos quando a família toda, levada por papai, atravessava o Rio Potengi para passar o dia na praia da Redinha, comendo peixe frito com tapioca. Saudade de sair da Rua São Tomé, onde moramos, ou, posteriormente, da Junqueira Ayres, para ir ao Canto do Mangue buscar peixes. Saudade da Natal do Teatro Alberto Maranhão, onde encenei o papel principal da peça de Maria Clara Machado, O rapto das cebolinhas, contracenando com Wilson Maux.

ZONA SUL – Você sempre volta a Natal?
CARLYLE – Sim. Sempre fico hospedado no Natal Mar Hotel. Mas nessa evocação de saudade eu gostaria de falar na tradicional macarronada italiana que existia no Hotel Rio Branco, hotel que hoje não existe mais. A melhor macarronada que já saboreei. Ela fazia parte dos nossos almoços dominicais. Realmente é uma evocação de saudades quando falo de Natal. Saudade dos banhos do Rio Potengi, onde aprendi a nadar. Saudade dos banhos de mar na Praia do Forte. Saudade dos parques de diversões, das rodas-gigantes da vida. Saíamos da Junqueira Ayres para o Alecrim, onde proliferavam esses parques de diversões, ali na Presidente Bandeira. Saudade dos circos, do Circo Garcia, que permanentemente ia a Natal. São saudades.

ZONA SUL – Você ainda planeja morar em Natal?
CARLYLE – Não. Criei raízes profundas em Brasília. Os filhos estão cada um com o seu rumo delineado. Eric, o mais velho, é advogado, funcionário do Superior Tribunal de Justiça. Ele é assessor do ministro Fernando Gonçalves. A Inessa, advogada também, é coordenadora do departamento jurídico da Caixa Econômica Federal. O Iuri está cursando a Escola de Magistratura e se preparando também para concursos e o Igor concluindo o curso de direito nesse final do ano. Então, a volta para Natal não está mais nos meus planos.

ZONA SUL – Pelo que estou sentindo, talvez não precise mais voltar para Natal porque a cidade nunca deixou de morar dentro de você?
CARLYLE – Pode ser. Tenho saudade, ainda, dos pés de sapoti no quintal da Junqueira Ayres. Da Natal das pitangas, das maçarandubas e das mangabas. Saudade das regatas no Potengi. Do ginásio 7 de Setembro dos professores Fagundes e Nogueira. Se for evocar todas as saudades de Natal, passaremos a noite aqui. Agradeço ao Zona Sul porque essa entrevista me fez evocar toda essa saudade que sinto a todo momento pela nossa cidade Natal. Você está vendo a emoção que fica cada vez mais forte. Agora que chegamos ao fim, vou começar a ter saudade da saudade que tive de Natal.

Um comentário:

  1. Gostei da entrevista. Seria interessante entrevistar Woden. O pai dinartista e ele ha muitos anos colunista da Tribuna de Aluizio Alves. Tambem sugiro Lizt, que foi ator de cinema no Rio.

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