domingo, 20 de junho de 2010

Entrevista: Toninho Borges

A MÚSICA QUE VEM DO VALE DO JEQUITINHONHA


Toninho Borges já percorreu diversas cidades brasileiras divulgando a música da sua terra, o Vale do Jequitinhonha. Antes de se transformar em um músico da noite, ele percorreu muitos outros caminhos. Vendeu picolés, foi ajudante de padaria, porteiro, trabalhou nos Correios, cantou em circos... Hoje Toninho apresenta seu trabalho nos principais bares de Palmas. Na capital do Tocantins ele concedeu essa entrevista para o Zona Sul. A conversa também pode ser acessada no site http://zonasulnatal.blogspot.com/ . As fotos são de Waldir Rodrigues, um contumaz colaborador do jornal. Mas vamos à entrevista, pois como se costuma dizer no mundo circense: o espetáculo não pode parar. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Como é o seu nome completo?
TONINHO – José Antonio Borges Esteves.
ZONA SUL – Em qual cidade mineira você nasceu?
TONINHO – Nasci em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. A região é conhecida pela seca, pela pobreza e também pela cultura popular, que é muito forte.
ZONA SUL – O Vale recebe muita influência do Nordeste...
TONINHO – Com certeza, é meio caminho. Lá passa a Rio-Bahia, a ligação entre o Sul e o Norte. Tudo passa pela BR-116. Vão se incorporando nordestinos àquela região, como se incorpora também o pessoal do Sul. Porém, como a carga cultural do nordestino é muito maior, a gente acaba herdando muito mais do Nordeste do que do Sul.
ZONA SUL – Você descende de nordestinos?
TONINHO – É uma descendência um pouco distante, mas o meu bisavô é nordestino. Ele é de Uauá, na Bahia. Fica perto da divisa com Alagoas.
ZONA SUL – Com qual idade você saiu de Araçuaí?
TONINHO – Eu morei no Vale do Jequitinhonha até pouco tempo. Saí de lá para Belo Horizonte, aos 22 anos, já para trabalhar com música. Voltei de novo para o Vale e fui para São Paulo. Até então eu sempre saía e voltava.
ZONA SUL – A música que você faz tem influência nordestina?
TONINHO – A influência é do Vale do Jequitinhonha. Eu canto as coisas da minha terra, as raízes do Vale. Costumo falar que canto o interior do Brasil. Você acaba encontrando o interior do Brasil em todos os lugares, e é quase sempre a mesma coisa. Muda o sotaque, mas a linguagem é sempre a mesma.
ZONA SUL – Como foi a sua infância no Vale?
TONINHO – Nasci na roça. Brinquei de cavalo de pau, ouvi canto de vaqueiro, armei arapuca na beira do rio... Meu pai, Manoel Esteves, tocava viola todos os dias, embora não profissionalmente. Ele é um violeiro nato: a música para meu pai é como se fosse uma oração. Sempre antes de dormir e antes do almoço, ele pega na violinha. Ele vai para o cabo da enxada, mas não deixa de pegar na viola todos os dias, nem que seja um pouquinho.
ZONA SUL – Sempre por prazer...
TONINHO – Por prazer, puro prazer. Nunca tocou para ganhar dinheiro.
ZONA SUL – Quer dizer que sua primeira influência musical foram os violeiros...
TONINHO – Sim, sobretudo o meu pai.
ZONA SUL – Você recorda alguma dessas músicas que seu pai costumava tocar nessa época?
TONINHO – Ele não cantava, apenas tocava e fazia muitos solos, na viola. Eram músicas, por exemplo, de Tonico e Tinoco, de Pedro Bento e Zé da Estrada e de Luiz Gonzaga... “Asa Branca” era uma delas. Ele procurava tirar o máximo na viola para fazer os solos. Outra música que nunca esqueço, da dupla Caçula e Marinheiro, e que ele toca até hoje é “A lua é testemunha”.
ZONA SUL – Violeiros conhecidos costumavam passar pela região quando você era criança?
TONINHO – Não. Eu ouvia mesmo era o meu pai e os cantadores da Folia de Reis. Até os 15 anos eu não tinha ouvido outras pessoas tocarem, a não ser através do rádio ou as pessoas da minha região. Minha família tem um grupo de Folia de Reis. Meu pai sempre carregou essa bandeira. A gente sempre cantava a Folia de Santos Reis e a Folia de São Sebastião, todos os anos. Agora, morando no Tocantins, não participo mais.
ZONA SUL – O que tocava no rádio, na época da sua infância no Vale do Jequitinhonha?
TONINHO – Essa música sertaneja, Tonico e Tinoco... As músicas que meu pai tocava ele aprendeu ouvindo pelo rádio. Eu também escutava as músicas folclóricas da região que ainda não tocavam no rádio, como “Beira-Mar” e “Ainda bem não cheguei”. Somente depois, através de Frei Chico, a cultura popular do Vale do Jequitinhonha passou a ser difundida. Frei Chico é um frade franciscano holandês que se mudou para o Brasil em 1967 e trabalhou no Vale durante dez anos.
ZONA SUL – Como foram seus estudos no Vale?
TONINHO – No Vale do Jequitinhonha estudei até a oitava série, que era o máximo que tinha por lá. O segundo grau eu já fiz em Teófilo Otoni. Foi até onde estudei.
ZONA SUL – Como surgiu sua relação mais direta com a música?
TONINHO – Eu escrevia, mas não sabia exatamente o que era aquilo que eu fazia. Eu lia poesia, mas não tinha uma noção exata do que era poesia. Então eu registrava no papel coisas que aconteciam ou sobre a casa de um passarinho, ou o vôo de um urubu, por exemplo. Mas eu nunca tinha achado que aquilo poderia ser poesia. Foi então que um professor da quarta série, quando leu, disse que era poesia. Ele me despertou para isso. Foi quando comecei a guardar aquelas coisinhas pequenas que eu fazia. Eu achava que apenas estava repetindo palavras faladas. Não havia passado pela minha cabeça, até então, que eu estava criando aquilo. Depois, já com quinze ou dezesseis anos, passei a me interessar mais por aqueles registros. Passei a cuidar mais, a incorporar música àquelas poesias.
ZONA SUL – Você começou a fazer poesias antes de tocar algum instrumento?
TONINHO – Não. Eu sempre tive contato com o violão e a viola do meu pai.
ZONA SUL – Como você aprendeu a tocar?
TONINHO – Comecei a brincar com violão antes de ir à escola. Quando eu tinha seis ou sete anos, meu pai ensinou as primeiras notas. A partir daí, desenvolvi. Sou autodidata. Como morávamos na roça, o acesso ao colégio não era fácil. Meu pai foi quem começou a me educar. Quando fui para uma sala de aula pela primeira vez, já sabia escrever o meu nome, o do meu pai e o de minha mãe e algumas palavras pequenas. Também já tinha aprendido a contar. Já fui para a escola semi-alfabetizado.
ZONA SUL – Quando você percebeu que seus escritos, mais do que poemas, poderiam se transformar em canções?
TONINHO – Eu já tinha completado dezesseis anos, por aí. Um dia eu estava cantando uma música minha e um rapaz perguntou de quem era. Respondi que não sabia de quem era. Fiquei com vergonha de dizer que eu era o compositor e ele não ter gostado daquela canção. Depois o cara falou que tinha achado linda, que era muito boa, que falava de uma maneira muito bonita das coisas da terra. Foi quando comecei a ter coragem de colocar minhas coisas na praça. O menino de roça tímido passou a se mostrar para o mercado.
ZONA SUL – O elogio serviu como um incentivo...
TONINHO – Foi. Por isso eu acho que as pessoas devem sempre elogiar ou criticar de alguma forma. O grande passo é esse.
ZONA SUL – Como foi seu período em Teófilo Otoni?
TONINHO – Mudei para lá com o objetivo de cursar o segundo grau. Fui morar na casa de uma tia. Além de estudar, eu tinha que trabalhar para poder me manter na escola. Como falei, minha família era da zona rural, não tinha condição financeira boa. Eu tinha 16 anos.
ZONA SUL – Qual foi seu primeiro emprego?
TONINHO – Em Araçuaí eu já tinha trabalhado vendendo picolé ou ajudando em padaria e loja de tecido. Em Teófilo Otoni arrumei emprego em um barzinho. O expediente era das cinco da manhã às seis da tarde. Eu almoçava lá e tudo, não tinha como estudar. Então saí e fui trabalhar como faxineiro de hotel. Depois fui promovido a porteiro. Até que aconteceu a minha primeira apresentação em um palco.
ZONA SUL – Quer dizer que mesmo se sacrificando para estudar e trabalhar você não se descuidou da música...
TONINHO – Nunca deixei meu violão de lado. Minha primeira apresentação em um palco foi num programa de calouros. Cantei uma música de Zé Ramalho: “Avôhai”.
ZONA SUL – Em Teófilo Otoni você se relacionou com os músicos da cidade?
TONINHO – Depois do programa de calouros, sim. Foi quando as coisas começaram a acontecer, pois pude manter contato com vários músicos da região. Em seguida fui aprovado em um concurso dos Correios. Trabalhei lá pouco mais de um ano. Pedi demissão porque eu queria mesmo era ser um profissional da música. Eu estava nessa batalha para alcançar meu objetivo quando fui convidado para trabalhar em um circo mambembe.
ZONA SUL – Como era o nome desse circo? Você resolveu aceitar o convite por ter se apaixonado por alguma das integrantes?
TONINHO – Circo Mágico Oriental. Eu não me apaixonei por nenhuma moça de lá. Geralmente ocorre de a mulher se apaixonar pelo palhaço. (risos). Resolvi entrar no circo para tentar mostrar a minha música. Fiquei dois anos debaixo da lona. Foi ótimo, maravilhoso.
ZONA SUL – Nesse período o circo se apresentou por onde?
TONINHO – Em várias cidades da região do Vale do Jequitinhonha, em boa parte do sul da Bahia e também no Espírito Santo. O Circo Mágico Oriental tinha uma parceria com o Circo Aquarius. Eles às vezes trocavam suas atrações. Então eu acabei viajando por várias cidades do sertão da Bahia acompanhando o Circo Aquarius também.
ZONA SUL – No circo você apenas tocava ou fazia outro tipo de apresentação?
TONINHO – Geralmente eu tocava, mas de vez em quando - quando o palhaço estava de mau humor - eu tinha que pintar a cara e entrar no picadeiro. Eu fazia parte de uma banda que tocava no início do espetáculo, quando as pessoas estavam chegando. A gente também tocava no intervalo entre um esquete e outro. A banda tinha bateria, baixo e guitarra. Eu tocava qualquer um desses instrumentos, mas principalmente a guitarra.
ZONA SUL – Como é a vida em um circo?
TONINHO – A vida debaixo da lona é cheia de magia. As pessoas que vêem o circo de fora não imaginam que lá dentro as pessoas vivem como uma família comum. As pessoas se respeitam, em cada barraca daquelas vive uma família. A alegria que o espectador vê na cara de um palhaço nem sempre é encontrada por trás das cortinas, fora do picadeiro. A gente rala muito para produzir um espetáculo e apresentá-lo em uma cidade. A vida é dura e a gente tem que batalhar para comer, para vestir... Às vezes a gente também sente saudades de uma cama, pois não é muito confortável dormir em barracas. Mas, resumindo, o circo é uma grande família. Aprendi muito vivendo lá. Acho que foi a maior experiência de vida que tive. Aprendi, por exemplo, a me desapegar do luxo e das coisas materiais. Tenho 47 anos de idade: os dois anos no circo foram a maior escola que eu tive.
ZONA SUL – Por que você deixou o circo?
TONINHO – Porque achei que tinha chegado o momento. Continuei fazendo shows em circo, mas agora como cantor - violão e voz - e não mais apenas como integrante de banda. Deixei o circo para investir na minha carreira solo. Chegou um momento em que as pessoas passaram a pedir mais uma música quando terminávamos de tocar, ao final do espetáculo no circo. E eu sempre cantando mais uma. Um dia o pessoal da banda do Circo Coliseu Mundial esteve no circo onde eu trabalhava e me convidou para também me apresentar no circo deles. Nós estávamos no norte de Minas e o circo deles estava próximo a Belo Horizonte, em Itambé do Mato Dentro. Eu fui pra lá e o circo lotou. Era menor do que o nosso. Nesse dia fizemos duas sessões. A partir daí comecei a perceber que eu poderia investir na minha carreira de cantor. Comecei a tocar em barzinhos nas cidades de Salinas, Taiobeiras, Teófilo Otoni, Araçuaí... Voltei praquela região, eu morava em Teófilo Otoni. A coisa foi amadurecendo, minhas músicas começaram a ficar conhecidas e acabei preparando meu primeiro disco vinil, que foi lançado em 1989.
ZONA SUL – Nesse disco você já incluiu músicas suas?
TONINHO – Sim. Eu sempre cantei minhas músicas. Mas também canto outros compositores. Canto mais canções dos outros do que as minhas. O primeiro disco incluiu oito músicas, todas de autoria própria. O nome era Trilhas e cantigas. Tive o prazer de vender 3.500 cópias desse disco independente. Acabei tirando três tiragens de mil e uma de 500 elepês. Foi um resultado muito bom.
ZONA SUL – Onde você vendeu esse disco? Houve distribuição?
TONINHO – Vendi nos shows. Eu faço isso até hoje.
ZONA SUL – Esse trabalho tocou em emissoras de rádio?
TONINHO – Tocou em algumas rádios da região, mas divulgação a nível nacional não houve. Aliás, eu nunca tentei fazer uma divulgação na mídia nacional. Nunca tive a oportunidade. Também nunca me apresentei em um programa de TV em rede nacional. Em emissoras regionais eu toquei várias vezes.
ZONA SUL – Além da música, você desenvolvia outro tipo de trabalho nessa época?
TONINHO – Há 27 anos eu vivo somente da música.
ZONA SUL – Após o primeiro elepê, qual foi seu próximo passo?
TONINHO – Veio o segundo disco. Eu cheguei a gravar três elepês: Trilhas e cantigas, o primeiro, gravado em 89 e lançado em 1990, Estrela-guia, em 1992, e Minas encantada, em 1994. Nessa época o CD estava chegando ao mercado, mas eu não tinha condições de gravar nesse formato, pois ficava caro. Um CD custava em torno de 30 reais. Fiz esse vinil, com 500 cópias apenas, pois eu já sabia que não iria vender tanto. Logo depois lancei uma fita cassete com o mesmo nome. Depois foi que veio o primeiro CD.
ZONA SUL – Todos os elepês foram lançados na região de Teófilo Otoni?
TONINHO – Esses CDs eu vendi também em shows que realizei em outros lugares, como São Paulo e Belo Horizonte, por exemplo. Toquei na noite de São Paulo durante três anos, a partir de 1992. Botei a mochila nas costas e peguei a estrada. Sempre tive espírito aventureiro. Foi assim também que vim para Tocantins.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre esse período em São Paulo.
TONINHO – Um dos locais onde me apresentei foi no Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC) da Faculdade de Medicina da USP. Também toquei em várias cidades do interior: Santos, São José dos Campos, São Vicente, Guararema... Inclusive cheguei a morar em Guararema, um tempo. Eu mostrava meu trabalho em barzinhos, na noite. São Paulo tem música ao vivo em praticamente todos os barzinhos, de segunda a segunda, em todos os horários. Tanto que quando toquei na Casa do Boêmio, eu começava o show às cinco da manhã. Era das cinco às sete da manhã. Esse barzinho ficava lá em Osasco.
ZONA SUL – Nesse horário você se apresentava para qual tipo de público?
TONINHO – Para o pessoal da boemia mesmo. O interessante de São Paulo é que você pode fechar contrato para tocar 45 minutos ou uma hora em um bar e agendar mais outro tanto de tempo em outro, logo em seguida.
ZONA SUL – Tocando na noite paulista você protagonizou ou testemunhou histórias pitorescas? TONINHO – Certa vez sofri um acidente. O carro tombou comigo na Rodovia Raposo Tavares e eu quebrei o pé. Depois de um tempo sem tocar, comecei a ficar sem dinheiro. Então resolvi procurar serviço. Saí de muletas em busca de trabalho e parei em uma casa chamada Esquina do Peixe. Tinha um artista se apresentando quando fui falar com o dono. Expliquei que estava precisando tocar, que era mineiro e estava mostrando meu trabalho em São Paulo, que tinha sofrido um acidente, que o dinheiro estava acabando... Quando pedi uma oportunidade, ele respondeu: “vá lá e toque uma música: se o povo gostar, eu lhe contrato para amanhã”. Quando eu estava me aproximando do palco, o dono gritou para o cantor que estava lá: “deixa o aleijado tocar uma música, pra ver se presta”. (risos). Eu cantei “Cidadão”, composição de Lúcio Barbosa que Zé Geraldo imortalizou. Acabei arrumando emprego para o outro dia. São situações pelas quais a gente passa por elas a vida inteira e que depois se tornam engraçadas.
ZONA SUL – Além de Zé Geraldo, seu repertório inclui mais o que?
TONINHO – Muitos, como Zé Ramalho, Renato Teixeira e Tadeu Franco, que praticamente é meu conterrâneo. Eu sou de Araçuaí e ele é de Itaobim. São 50 quilômetros de uma cidade para a outra.
ZONA SUL – Em São Paulo você não tentou dar um passo além na sua carreira? Você manteve contato com outros músicos?
TONINHO – Acho que o sucesso no Brasil é comprado. Aprendi em São Paulo que uma coisa é o sucesso, a outra é a fama. Eu vi isso na minha cara lá. Tive contatos e procurei algumas pessoas. Por exemplo: procurei o Moacir Franco, mas ele disse que não podia me ajudar. Tentei encontrar vários outros, mas cheguei à conclusão de que ninguém abre as portas para ninguém. As portas só são abertas se você comprar o ingresso, se você pagar para que alguém as abra. Ouvi algumas vezes que sicrano e fulano davam oportunidade. Pra falar a verdade, eu nunca vi essa oportunidade. Oportunidade é alguém que me paga 300, 400 ou 500 reais para tocar numa festa. Mas isso me levar a outra coisa, não. Me apresentei em vários programas regionais de rádio e televisão, que pra mim é o que a gente recebe a nível de força. Do contrário, nunca vi isso por aí. Se existe, eu não conheço.
ZONA SUL – Você mostrou o seu trabalho autoral em São Paulo? Alguma música sua chegou a ser gravada?
TONINHO – Continuei sim mostrando meu trabalho. Porém, nenhum artista famoso gravou até hoje composição de minha autoria. Só o pessoal da minha região mesmo.
ZONA SUL – Você costuma compor apenas sozinho ou também em parceria?
TONINHO – Componho em parceria também. Meus parceiros são amigos. Atualmente eu estou musicando algumas poesias do jornalista, compositor e poeta Tião Pinheiro, aqui do Tocantins. Também estou fazendo algumas músicas com o artista Josino Medina, conterrâneo de Araçuaí. Na minha região tem o Breno Brescia, tem vários. Tem minha irmã, Do Carmo Borges, que compõe comigo, tem o Richard Brasil, com quem fiz algumas coisas.
ZONA SUL – Você passou dois anos em São Paulo?
TONINHO – Dois anos na primeira ida, mas volta e meia estou retornando ainda. De São Paulo me fixei novamente em Teófilo Otoni, para prosseguir com o meu trabalho. Eu ia, trabalhava uma temporada, e voltava. Sempre saía de Teófilo Otoni para tocar em Belo Horizonte, em Vitória, no Espírito Santo. Não teve esse impacto ir para São Paulo. Foi uma coisa normal, apenas a sequência do meu trabalho. Passei um tempo em Teófilo Otoni e fui para Belo Horizonte. Foi quando tive contato com estúdio. Surgiu a era da informática na música. Já estava, mas até então eu não havia tido acesso. Acabei comprando um computador e levei para casa. Comecei a gravar minhas coisinhas, registrar e tudo.
ZONA SUL – Quais programas você usa para gravar o seu trabalho?
TONINHO – Cakewalk, que é o Sonar. Gosto muito do Cakewalk, do Sound Forge e do Wavelab. Uso muitos plug-ins. Esses são os programas que mais uso.
ZONA SUL – Você também usa a Internet para divulgar o seu trabalho?
TONINHO – Uso sim. Se alguém entrar no Google e digitar “Toninho Borges” vai encontrar um monte de informação. Tenho páginas no Myspace, no Palco MP3, no Orkut, no Youtube... Eu gostaria de ter mais tempo para me dedicar a esses espaços, mas não dá porque tenho que produzir o meu trabalho. Mas faço o máximo que posso. Considero a Internet o maior meio de divulgação do artista independente. Como artista, sei que estou bem na frente de outros na divulgação de um trabalho através da rede mundial. Muitos novos talentos já conseguiram despontar divulgando suas músicas pela Internet. Quem sabe não chega a minha vez?
ZONA SUL – Ao mesmo tempo em que a informática barateou a produção de um disco, ela dificultou a venda, já que hoje se baixa todo tipo de música, e de graça, nos diversos sites e blogues.
TONINHO – Eu não vejo como um problema para o artista independente o fato de as músicas serem disponibilizadas gratuitamente através da Internet. Nem todo mundo tem condições de comprar um CD por 25 reais. O meu CD é artesanal. Falo artesanal porque consigo produzi-lo todo em casa. Faço toda a gravação, a reprodução, a serigrafia em cima do CD, o rótulo... Faço tudo em casa e consigo um custo baixo. O CD virgem é barato, então acabo produzindo um disco com preço em conta. Sei que não é tão legal para o mercado da arrecadação dos impostos, mas infelizmente não tem outra forma. Não tenho condições de investir 5 mil reais no meu trabalho. Então faço em casa dez ou quinze, levo e vendo. Amanhã faço mais dez e vou vendendo. Nessa brincadeira, acho que já cheguei a vender, na carreira inteira, mais de 15 mil cópias de CD.
ZONA SUL – Parece que a proliferação de músicas para download na Internet complicou a vida dos artistas que já eram famosos e bons vendedores de disco.
TONINHO – Exatamente. Para o independente facilitou, porque ele agora dispõe de uma ótima ferramenta para divulgar seu trabalho. Um CD virgem custa 50 centavos. Não dá para pagar 25 a 30 reais em um disco. Quem faz isso está custeando a produção do cara, o programa de televisão que ele pagou para se apresentar, o transporte que ele usou para fazer seu show... Não posso, nem vou fazer isso.
ZONA SUL – Quais os CDs que você gravou?
TONINHO – Estou no décimo-primeiro CD. O primeiro foi uma releitura de todos os elepês. Dei o nome de “Fruto da terra”. Depois comecei a gravar também para divulgação, músicas de outros artistas. Recentemente gravei “Da catinga ao cerrado”, que é mais um CD independente. Sempre trabalhei com violão e voz. Quando era banda, tudo bem. Mas depois disso, sempre fui para o palco com o meu violão e gravei as coisas que eu canto, da forma que apresento no palco.
ZONA SUL – Quer dizer que os discos reproduzem seus shows...
TONINHO – Exatamente. Neles gravo músicas minhas e de vários outros compositores. Quando acontecer de uma produtora resolver gravar um CD desses, vamos ter que ir atrás de toda a documentação, resolver a questão dos direitos autorais, para poder fazer legal. Eu acho que já deveria ter acontecido, são 27 anos de carreira. São muitos ouvintes, já.
ZONA SUL – Como se deu a sua mudança para Tocantins?
TONINHO – Tem cinco anos que estou no Tocantins. Minha rotina é sempre essa, voltada para o trabalho, sempre cantando em barzinhos, divulgando minhas canções por aí. Mas a mudança para Palmas aconteceu quando minha esposa resolveu participar de um concurso que abriu aqui. A gente já tinha a intenção de sair do Vale, de conhecer lugares diferentes. Ela é enfermeira, passou no concurso e foi chamada quatro meses depois da nossa mudança. Mesmo antes do resultado das provas, a gente já tinha decidido morar em Palmas. Tanto é que fizemos a mudança de vez. Viemos de mala e cuia. Se ela não tivesse sido aprovada, teríamos ficado por aqui de qualquer maneira. Ficamos em Palmas vivendo exclusivamente da música até ela ser chamada pra assumir sua vaga. E eu continuo vivendo da minha música.
ZONA SUL – Foi difícil conseguir lugar para tocar em Palmas?
TONINHO – Eu não conhecia ninguém na cidade. No começo chorava de saudades de casa. Aqui é mais longe para voltar. Mas para conseguir espaço para tocar é sempre a mesma coisa. “Meu patrão, posso mostrar uma música para ver se você gosta do meu trabalho?”. Dei uma canja lá, o cara gostou e me convidou para tocar. Engraçado que é um trecho da Avenida JK, em Palmas, que já foi ocupado por vários bares. Esse primeiro barzinho chamava-se Sabor e Arte. Acabou o Sabor e Arte, veio o Paiol... Já passaram uns três barzinhos e continuo tocando no mesmo lugar. Estou lá no mesmo ponto praticamente há cinco anos. Mas toco em muitos outros locais também.
ZONA SUL – O fato de você ser mineiro, estado reconhecido pelos ótimos músicos que gera, também abre portas?
TONINHO – Acho que não. Não tem nada ver. O que conta mesmo é mostrar o trabalho e agradar. Geralmente o dono do bar diz: “se a clientela gostar, eu lhe contrato”. E tenho que fazer exatamente isso, tentar agradar. Que o povo tenha piedade de nós.
ZONA SUL – Existe alguma diferença entre o público tocantinense e, por exemplo, o mineiro?
TONINHO – Essa mistura cultural que tem aqui, gente do país inteiro, do norte, do sul, leste e oeste trás várias influências. Vejo em Palmas que o pessoal não é muito de aplaudir. Aconteceu um fato interessante recentemente. Eu estava tocando em uma festa e ninguém aplaudia. Nenhuma pessoa. Quando fui tocar a saideira, eu agradeci e ao mesmo tempo pedi desculpas por não ter conseguido chegar até eles com a minha música. “Mas eu queria dizer que fiz o máximo que pude pra tentar agradar. Desculpem-me, muito obrigado e até outra vez”. Foi quando levantou um cara e disse: “não, espera aí, não é assim não. Nós estávamos justamente comentando, na nossa mesa, que gostamos demais. Estávamos lhe ouvindo tocar”. Ele levantou, pegou o microfone, e todo mundo aplaudiu. Que bom. Mas eu estava preocupado, porque uma banda ia tocar depois, a banda ia me colocar no bolso, eles iam aplaudir, e eu sairia da festa com vergonha. Eu ainda estava achando isso. Mas a banda começou a tocar e ninguém falou nada. A banda entrou com uma performance toda interessante. Mas ninguém aplaudiu. Parecia que não estavam nem ouvindo.
ZONA SUL – Geralmente o artista que se apresenta em bar enfrenta esse problema.
TONINHO - Aprendi que a verdadeira atração, no bar, é a cerveja, o tira-gosto e o bate-papo de boteco. A música é apenas mais um complemento disso. Como eu vendo o meu trabalho no bar, não vou ficar cobrando aplauso de ninguém. Quando a pessoa vai para um show meu, a história é outra. O aperitivo ali, naquele momento do show, é a música, é a poesia. No bar é outra história: a música é apenas um complemento.
ZONA SUL – Quais as principais influências que a sua música recebe?
TONINHO – Além do meu pai e do povo do interior, eu canto muito essa coisa roceira, do cidadão da roça. Gosto muito do Renato Teixeira e do Zé Geraldo, com quem já estive várias vezes. Também gosto muito do Almir Sater. Canto quase todas as músicas do Zé Ramalho, gosto do Fagner, Ednardo, Gonzagão... Canto um monte de coisas dele. Gosto muito do Elomar, também. Admiro todo esse pessoal que canta a música rural, a verdadeira música rural. É esse tipo de música que acaba me oferecendo influências.
ZONA SUL – Você mantém bom relacionamento com os artistas do Tocantins?
TONINHO – Eu me dou muito bem com o pessoal que toca aqui no estado. Tem muita gente boa, como o Genésio Tocantins, o Braguinha... Vou até gravar uma música do Braguinha. Conheço muito o pessoal que toca na noite, na cidade. Eu sou músico da noite. Vivo da música da noite, sou músico de barzinho. Toco quatro ou cinco vezes por semana, chegando em casa às cinco da manhã.
ZONA SUL – Sua mulher ainda reclama ou já se acostumou?
TONINHO – Não tem jeito de ficar reclamando muito. Ela sabe que quando termina o trabalho eu vou pra casa mesmo...
ZONA SUL – Como alguém pode adquirir um disco de Toninho Borges, para conhecer melhor o seu trabalho?
TONINHO – Pode enviar um email para mim que a gente combina. Na Internet você encontra meu correio eletrônico e meu telefone. Eu deixo a minha vida exposta na Internet. Basta entrar no http://www.myspace.com/toninhoborges ou em http://palcomp3.com/toninhoborges que qualquer pessoa me encontra. Se eu enviar o disco pelos Correios, o Sedex é mais caro do que o custo do CD.
ZONA SUL – Quais seus projetos para o futuro?
TONINHO – Estou gravando o décimo-segundo CD, que é o décimo-quinto trabalho da carreira. Também pretendo continuar fazendo meus shows. Vou fazer um CD só com músicas minhas. Estou com um projeto de viajar mais. Depois que mudei para Palmas saí apenas três vezes e todas elas para tocar em Minas. Estive em Brasília e Goiânia, mas foi coisa pequena. Quero viajar mais, tocar a minha música em outros lugares. Quero dar uma saída boa, pelo Brasil inteiro, para mostrar o meu trabalho. Inclusive estou disposto a ir a Natal. É só fazer contato que eu vou por um preço bem em conta.

4 comentários:

  1. birra de bom sucesso24 de agosto de 2010 04:37

    legal a sua temporada de sucesso vai chegar

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  2. Toninho...
    Este Circo Mágico Oriental,que você se apresentava,ainda existe até hoje?Me lembro de um circo mágico oriental que passou na minha cidade(Pinheiros) há muitos anos, e era ótimo.Adoro circo...
    Lí a sua entrevista,e achei muito linda a sua história de vida...Parabéns...Vc é um Guerreiro.

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  3. Obrigado pela visita. Toninho é um artista de puro talento. Tem muita história ainda pela frente.

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  4. Nossa Senhora da boa hora!Mas que coisa boa esta prosa com o meu mamamigo Santonin. Toninho é de uma história que daria um bom filme ou quem sabe, um bom livro. Mas Toninho fez proporcionou gravar três cds fundamentais para a minha vida e de mais meu mundo de gente: O meu Sumidouro, sobre a poesia de Sônia Anja; os cds Violinha de vereda, viola de buriti e o Rodas da Comunidade Mumbuca. Este moço foi conosco lá na Comunidade Mumbuca e fizemos o cd com as cantigas de rodas transmitidas por Santinha e Martina, os toques de Maurício e Arnon com a violinha de buriti.
    Sobre a música do Toninho, volta e meia a Rádio Vale FM toca aquela sua cancão que fala das cidades e rios e pessoas do Jequitinhonha. A qualquer hora mostraremos nossas parcerias.

    Josino Medina, Araçuaí,casa das quatro ingazeiras, março de 2012.

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