sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Entrevista: DAVI EMERICH

AS AVENTURAS DE UM COMUNISTA

O jornalista Davi Emerich nasceu em Martinópolis, cidade do interior de São Paulo localizada a 450 km da capital. Cortada por uma estrada de ferro, ela fica a 20 km de Presidente Prudente, perto da divisa paulista com o Paraná e o Mato Grosso. Dirigente do Partido Comunista Brasileiro (hoje PPS) desde 1974, ele foi amigo de Giocondo Dias, um dos líderes da Intentona Comunista em Natal, no ano de 1935. O dia em que conheceu Luis Carlos Prestes, a visita à União Soviética, a transformação do PCB em PPS, os anos assessorando Roberto Freire e a época do regime militar são alguns dos temas da entrevista que Davi Emerich concedeu ao Zona Sul, nos últimos dias de janeiro. (Roberto Homem)



ZONA SUL – Esse sobrenome Emerich indica que você é descendente de europeus?
DAVI – Meus pais nasceram nas imediações de Nova Friburgo (RJ), mas eram descendentes de alemães que chegaram ao Brasil em 1822. De duas famílias que vieram já reformadas, ou seja, já luteranas. Depois aderiram ao Presbiterianismo. Meus pais aportaram em Martinópolis na década de 1940, quando houve um ciclo migratório. Os terrenos em Nova Friburgo eram muito pequenos e as regiões muito acidentadas. Então, com o crescimento das famílias, houve essa migração em direção ao interior de São Paulo.

ZONA SUL – Como foram os primeiros anos em Martinópolis?
DAVI – Meus pais eram analfabetos. Minha mãe, totalmente; meu pai ainda teve três meses de aula: aprendeu a escrever alguma coisa, mas lia muito mal. Nasci na zona rural, num distrito chamado Teçaindá. Nessa época meu pai mexia com roça, depois teve um pequeno açougue, em seguida virou tocador de boi e na seqüência montou um bar. A vida toda foi assim: vendia o bar, comprava um sítio... Ele mexia com rolo, era rolista, trocador. Trocava bicicleta por égua, égua por revólver, revólver por bicicleta, bicicleta por cabrito e assim por diante.

ZONA SUL – Seus pais ainda estão vivos?
DAVI – Minha mãe está viva, meu pai faleceu. Minha mãe tem 86 anos, mora em Ourinhos (SP). Bebe que nem uma gambá: quatro ou cinco cervejas por dia. Tem resistência a morar com gente, com outras pessoas. Tem uma saúde grande.

ZONA SUL – Você nasceu em qual ano?
DAVI – Nasci em abril de 1955. Sou o mais novo de quatro irmãos. O mais velho é pastor presbiteriano, o outro é professor de educação física, mora em Palmas (TO), o imediatamente mais velho do que eu um ano, faleceu em 2004, aqui em Brasília. Acho que ele morreu de AVC (acidente vascular cerebral), como meu pai. Mas bebia como um caipora e fumava muito. Fumava cinco, seis maços por dia. Estudou na Universidade de Brasília (UnB), fez matemática. Também fez engenharia em São Paulo. Abandonou tudo por causa de mulher e bebida. Acho que viveu melhor do que eu... (risos)

ZONA SUL – Com qual idade você saiu da roça?
DAVI – Até os 17 anos eu nunca tinha saído a uma distância maior do que 30 ou 40 km da minha cidade. Conhecia Regente Feijó, Caiabu, Adamantina, Oswaldo Cruz, Prudente, Indiana, Rancharia... Usava muito a estrada de ferro para não pagar passagem. Quando você entrava em um trem daqueles e o cara vinha lhe cobrar, se você não pagasse, ele lhe despejava obrigatoriamente na próxima estação. A primeira viagem que eu fiz, com 17 anos, na época da conclusão do científico, foi de ônibus para o Rio Grande do Sul. Nessa ocasião conheci o mar, no Paraná. Acho que também foi a primeira vez que conheci uma mulher...

ZONA SUL – E a sua saída para morar fora de Martinópolis?
DAVI – Minha família era pobre, não tinha condições de mandar os filhos completar os estudos fora. Meu irmão conseguiu entrar em uma faculdade particular de educação física em uma cidade chamada Tupã, a 80 km de Martinópolis. Ele conseguiu emprego para dar umas aulinhas na rede escolar do estado. Naquela época não tinha professor de educação física. Dessa forma ele conseguiu pagar seu curso. Logo em seguida a Escola Superior de Educação Física de Goiânia começou a aceitar alunos do interior de São Paulo. Então ele trocou Tupã pela capital de Goiás. Ao terminar o segundo grau, fui morar com ele. Quando cheguei já tinha passado o vestibular em Goiânia. Mudei decidido a estudar comunicação. Uma professora minha falava que eu escrevia bem porque eu fazia aqueles discursos de Sete de Setembro, aquelas besteiras...

ZONA SUL – A favor do regime militar?
DAVI – Nem sabia o que escrevia. Era só besteira, esse negócio que jornalista faz, essa nossa capacidade de enrolar. Ela falou: “você é um bom jornalista, pode escrever”. Fiquei com aquilo na cabeça. Como tinha passado o vestibular de Goiânia, sugeriram que eu fosse a Brasília, pois ficava perto. Fui para o trevo de Goiânia e peguei uma carona. Nessa noite dormi na rodoviária de Brasília. Fui à UnB, peguei o prospecto do concurso anterior e voltei de carona para Goiânia. De lá retornei para Martinópolis, para minha casa. Lá perto tinha uma biblioteca municipal com alguns livros: uns romances, uns títulos de biologia, matemática, português... Estudei três meses. Voltei para prestar vestibular. Passei na UnB. Entrei em julho de 1973. Não tinha parente algum na cidade.

ZONA SUL – Onde foi morar?
DAVI – Fiquei uns dias dormindo na rodoviária. Então meu pai me deu 50 cruzeiros, acho que era cruzeiro. O dinheiro deu para pagar dois meses de aluguel. Naquela época era difícil arrumar um lugar para morar em Brasília. Era costume os funcionários públicos mais pobres colocarem divisórias nas suas salas para alugar. Fui morar em uma dessas salinhas. Quando estava terminando o segundo mês, consegui uma vaga no centro olímpico da UnB. Morei lá dois anos e pouco. Ali foi o céu, mesmo tendo que dividir o quarto com seis machos. Era amplo, e ainda tinha o centro olímpico para nadar, correr, fazer exercício... Foi meu primeiro salto econômico. Senti como se tivesse ficado rico. Por eu ser aluno carente, a UnB me deu uma bolsa de estudo: meio salário mínimo. Trabalhei na biblioteca: na recepção e repondo livros. O conhecimento que tenho hoje de biblioteconomia foi em função desse trabalho. Depois, com essa bolsa, fui trabalhar no CNPq. O título era de estagiário de jornalismo, mas o serviço era recortar jornal. Sobrava dinheiro. Com isso pude trazer o meu irmão para Brasília, esse que depois morreu.

ZONA SUL – Foi na universidade que você passou a simpatizar com a esquerda?
DAVI – Acho que foi. Fui formado absolutamente dentro da ética protestante. Antes da ética do Partido Comunista, a protestante prevalece. Desde menino eu tinha uma certa revolta interior. Por exemplo: na minha cidade chegavam dois exemplares do jornal Pasquim. Eu, com 13, 14 anos, comprava um. O outro era devolvido. Eu lia o Pasquim sem saber o que era aquilo. Acho que eu comprava mais pelas mulheres peladas e pela safadeza do que pela política. Aquelas fotos da Leila Diniz na praia, aquelas coisas. Também tinha mania de ler biografias. Adquiri simpatia pelo Josef Stalin quando li sua biografia. Gostava das personalidades fortes. Ao mesmo tempo eu tinha uma formação teológica muito forte. Eu estudava muito a Bíblia. Li de capa a capa. Ganhei concurso de manuseio de Bíblia na minha igreja. A igreja tinha muitos diáconos. Eles ficavam acompanhando nós jovens, como olheiros, para nos denunciar. Não podíamos beber, namorar, ir para bar, para a farra... Uma vez me pegaram num baile com mais dois ou três. A cidade tinha uma influência muito grande nordestina, principalmente do pessoal da Paraíba. Tinha muito forró. E a gente adorava forró. Um dia, estávamos na igreja, o pastor se levantou e deu uma espinafrada na gente. Eu moleque. Me envergonhou de tal forma que nunca mais voltei lá. Meu materialismo começou dali, da vergonha que passei levando aquela espinafrada do pastor.

ZONA SUL – E o movimento estudantil?
DAVI – Não sei porque entrei no movimento estudantil. Acho que um pouco por essa revolta interior. Naquela época eu já era influenciado por algumas músicas de protesto, por Geraldo Vandré, pela turma do Pasquim... Eu tinha uma idéia de heroísmo besta. Já cheguei na UnB um pouco anti-regime militar. Comecei a freqüentar as assembléias estudantis. Na primeira assembléia me meti a besta de falar e já me escolheram para a representação estudantil e para o diretório universitário. Essa minha atitude de, menino novo, criticar o regime militar, chamou atenção. Então um cara do PCB, o hoje jornalista Osvaldo Morgado - que fazia parte de um grupo com o hoje deputado distrital de Brasília, Augusto Carvalho - me procurou. Saímos os três para tomar cerveja. Fizeram perguntas, quiseram saber sobre minha família. Naquela época, todo mundo tinha medo de agente da polícia. Todos em potencial eram agentes da polícia. Um dia eles tiveram coragem e me deram o primeiro documento do PCB: o Manifesto do Partido Comunista. O Manifesto deve ter umas 60 páginas. A versão que me deram era uma reduzida, do tamanho da metade de uma carteira de cigarros, com uma letrinha desgraçada. Foi o primeiro contato formal que tive com a esquerda. A partir dali passei a integrar o grupo. Fomos nós que reorganizamos o Partido Comunista em Brasília. Os antigos militantes foram presos ou tinham sumido do mapa. Começamos a trabalhar no recrutamento de novos adeptos. Foi quando trouxemos o João Maia (ex-secretário do governo Vilma de Faria, no RN) para o partido, o irmão do Agaciel Maia (potiguar diretor-geral do Senado).

ZONA SUL – Depois de entrar no PCB você continuou atuando no movimento estudantil?
DAVI – Com o golpe de 1964, os comunistas foram acusados por não terem enfrentado o regime militar, de não terem pegado em armas e tal. Então a extrema esquerda cresceu. Os comunistas foram defenestrados do movimento estudantil. Só que, depois da queda da Guerrilha do Araguaia, o Partido Comunista voltou a ter peso por defender uma política de alianças. Em 1975 eu era representante estudantil. Tinham dois grupos básicos na UnB: Unidade, do qual eu fazia parte, e o Oficina. Esses dois grupos lançaram chapas para concorrer ao Diretório Universitário. Eu era candidato a presidente, e João Maia era meu vice, pelo grupo Unidade. Dos 22 departamentos da UnB, tínhamos vencido em 19 na eleição das representações estudantis, um mês antes da data prevista para a eleição do Departamento. A campanha foi se desenrolando violentamente contra o regime militar. Então o vice-reitor José Carlos Azevedo suspendeu as eleições e iniciou processos de expulsão de membros das duas chapas. Na época eu já tinha levado três suspensões. A primeira, de 30 dias. Antes de cumprir esse tempo, levei mais 60 dias de suspensão. E antes ainda de pagar a primeira, fui suspenso por mais 120 dias. Resultado: perdi o semestre. Em 1976 fomos expulsos: eu, João Maia e um outro companheiro, o Beto. Do lado do Oficina foram expulsos quatro.

ZONA SUL – Você chegou a fazer treinamento de guerrilha ou a se envolver na luta armada?
DAVI - Quando eu entrei na Universidade, em julho de 1973, a luta armada já tinha sido desarmada. Se tivesse entrado na UnB em 1969, provavelmente teria participado. Não fiz treinamento de guerrilha. Eu tinha um medo grande de dar tiro. Alguns integrantes do PCB queriam que eu fosse profissional do partido. Fui sondado para ir, com as tropas cubanas, para Angola. Eu era moleque, ainda. Havia um processo de descolonização da África. Os comunistas queriam transferir para forças de esquerda todas as colônias que estavam se libertando de Portugal. Os Estados Unidos reforçaram, em Angola, Jonas Savimbi e Holden Roberto. Nós éramos vinculados mais ao MPLA, de Agostinho Neto. Os Estados Unidos foram pegos de surpresa quando a União Soviética deu sustentação com aqueles aviões Antonov. Os soviéticos jogaram Cuba dentro de Angola e garantiram o poder ao MPLA. Foi quando o partido quis que eu fosse para lá. Pensei comigo: “o que é que vou fazer lá se não consigo nem matar uma formiga...”. Acabei não indo. Acho que acertei. Sempre tive aversão a esse negócio de violência.

ZONA SUL – Você chegou a morar no exterior?
DAVI – Morar não. Minha experiência de exterior não é muito grande. Uma vez o partido me mandou para a União Soviética. Fiquei um mês lá. Foi depois da morte do Leonid Brejnev, quando morreram vários dirigentes importantes do PC de lá. Devo ter ido depois que o Yuri Andropov substituiu o Brejnev, em 1982. Fui o único do Brasil. Fui participar de um seminário sobre comunicação. Esses encontros eram mais para formação de quadros políticos. Era aquela peroração comunista desgraçada. Me meteram num avião da Varig. Eu não podia dizer que ia para lá. Fui para Lima, no Peru, e de lá para Cuba. Peguei um avião da Aeroflot, atravessei o Atlântico e fui bater na Ilha do Sal, Cabo Verde.

ZONA SUL – O que lhe marcou dessa experiência?
DAVI – A União Soviética já enfrentava uma crise muito grande. Cheguei ainda embevecido com a viagem. Como Davi Emerich eu jamais teria condições de ter ido a União Soviética. A primeira coisa impressionante que vi foi a neve: eu nunca tinha visto na minha vida. Eu via pela janela aquele negócio caindo e os caras querendo que eu vestisse roupão e casaco, para sair. E eu resistindo, não sentia frio, porque todos os ambientes fechados são calafetados. Mas quando você sai, não anda três metros. Tem que voltar por causa do frio.

ZONA SUL – E o país?
DAVI - Naquela ocasião eu já estava um pouco crítico com o comunismo. Mesmo assim eu fiquei embevecido por estar na pátria do Lênin. O túmulo do Lênin ali, eu passando perto... Só não consegui vê-lo porque estavam reformando a sua múmia. Moscou é uma cidade muito bonita, tem o Kremlin, aquelas igrejas milenares... Ruim é que eu não falo russo e o meu inglês se resume a “I love you”. Fiz amizade com alguns portugueses e angolanos que também foram participar do seminário. Enchíamos a cara quase todo dia. Vodca. Fomos recebidos como chefes de estado. Um carro preto foi me receber no aeroporto, com uma intérprete que ficou 30 dias comigo. Essa viagem aumentou minha desconfiança sobre a viabilidade do regime. Tinha umas lojas que só estrangeiros ou membros do Partido Comunista podiam comprar. Vi que aquele treco não podia dar certo. Havia uma apartação, que do ponto de vista democrático, não podia dar certo. Também era tudo muito tecnologicamente atrasado. Impressionante. A gente saía daqui com uma visão de tecnologia tal e levava um susto quando chegava lá.

ZONA SUL – Foi o único país comunista que você conheceu?
DAVI – Eu passei por Cuba, mas em Cuba fiquei pouco. Não conheci. Na volta vim pela Itália e fiquei uns dois ou três dias por lá.

ZONA SUL – O comunismo acabou?
DAVI – Acho que acabou. O comunismo se protagonizou muito no século XIX, quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista, em 1848, a partir de idéias utópicas, dos socialistas utópicos, tal. Quando a gente fala comunismo é o movimento socialista. Na verdade, comunismo nunca existiu. Na concepção Marxista, o comunismo só existiria de fato no momento em que a sociedade não tivesse mais estado, governo, forças armadas, espoliação de classes ou fronteiras. Você teria o chamado cidadão do mundo. Isso tinha lógica em função de um capitalismo cruel, que punha menino para trabalhar 18 horas por dia, um capitalismo baseado no transporte apenas de mercadorias, espoliativo. Que gerava guerras por mercados nacionais. Quando o comunismo apareceu com a idéia utópica de acabar com tudo isso, de transformar os povos em irmãos, essa concepção caiu como uma luva. Marx entendia que o capitalismo era o coveiro dele mesmo.
ZONA SUL – Como assim?
DAVI - Da mesma forma que o capitalismo sepultou o feudalismo, que era o modo de produção preponderante da época, ele gerou a classe operária como classe antagônica a ele próprio. A mesma classe operária que ajudou o capitalismo a fazer a revolução. A Revolução Francesa nada mais foi do que uma aliança da classe operária nascente com o capitalismo. Mas, ao gerar a própria classe operária, o capitalismo gerou os coveiros que iriam destruí-lo. Sepultado o capitalismo, não haveria mais classe social, seria a sociedade da fraternidade. Só que essa previsão marxista não se confirmou. E na medida em que a classe operária foi se afirmando com a urbanização da sociedade, ela deixou de ser uma coisa pequena e se agigantou. Apesar disso, a classe operária deixou de ter sua importância, do ponto de vista marxista, como agente de transformação histórica. A classe operária se plasmou na sociedade, o que significa que deixou de haver uma classe social revolucionária. Nem o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que é um movimento morto, tem caráter revolucionário. A base social do MST não existe mais, morreu. É um movimento esperneante. Não existe mais a classe operária em seu conceito tradicional. Hoje você tem o assalariado. Então, nesse sentido, o comunismo acabou.

ZONA SUL – O que aconteceu depois de sua expulsão da UnB?
DAVI – Fui expulso da UnB no início de 1976. Me lasquei todo porque não tinha a mínima condição de ir para São Paulo ou Rio de Janeiro continuar os estudos. A sorte é que naquela época ainda era possível trabalhar na área de jornalismo sem o diploma, apenas com o registro profissional provisionado. Fui contratado pelo Sindicato dos Jornalistas e virei diretor da gráfica do Sindicato. Foi quando aprendi sobre papel, textura, gramatura, orçamento de livros... Naquela época havia uma aliança tácita entre os donos de jornal e a turma da esquerda. Os donos de jornal gostavam de ter repórteres de esquerda nas suas redações. Apesar de ter linha editorial conservadora, os jornais não eram avessos à militância de esquerda. Dessa forma fui para o Correio Braziliense. Em três períodos distintos, trabalhei sete ou oito anos no Correio. Paralelo a isso, mudei para Ceilândia e depois voltei para Taguatinga. Fui organizar associações de moradores, principalmente de favelas. Eu era especialista em criar estatuto de associação de morador. Devo ter atuado em umas 20 associações de favela em Taguatinga. Eu tinha aversão à mulher de classe média. Eu gostava era de garotas da classe operária. Casei com minha mulher em Taguatinga. Depois fui eleito secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas. Também fui presidente do PCB na clandestinidade.

ZONA SUL – Alguma vez correu o risco de ser preso?
DAVI – Corri. Sou dirigente do partido desde 1974, ininterruptamente. Fui presidente, secretário-geral e membro do diretório nacional do partido, cargo no qual estou até hoje. Em alguns momentos corri o risco de ser preso. Não fui por estar fora daquele período mais draconiano da ditadura. Mas ainda peguei o período do Vladimir Herzog. Eu era o representante da comunicação do PCB. Quando Herzog foi morto, a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) organizou uma missa e nós fizemos uma assembléia que lotou. Foi uma comoção: a morte dele e a do Manoel Fiel Filho. Mas principalmente a do Herzog. Aprovamos, na assembléia, uma nota violentíssima contra o regime militar. A turma do Pompeu de Souza, que era o presidente da ABI, me procurou. “Davi, não vamos distribuir essa nota na missa, porque a missa está toda infiltrada. Vão prender todo mundo”. Procurei a turma da comunicação e contei. Eles insistiram. “Vocês são traidores da classe operária histórica”, aquela coisa de esquerdista. Eu respondi: “tudo bem, mas eu não distribuo”. Comuniquei ao Pompeu: “a turma não aceitou”. Foi todo mundo preso. Saí dessa missa com o hoje deputado federal Sigmaringa Seixas diretamente para o apartamento de um deputado chamado Santilo Sobrinho. Fiquei um mês recolhido dentro desse apartamento. Prenderam muita gente na cidade, eu escapei.

ZONA SUL – Você conseguiu voltar para a UnB?
DAVI – Com a anistia, em 1979, tentamos voltar, mas o Azevedo não aceitou a nossa volta. Então o Sigmaringa entrou com uma ação na justiça e nós ganhamos. Nos matriculamos via justiça.

ZONA SUL – Como foi a história de quando você conheceu o Prestes?
DAVI – Quando eu estudava no interior de São Paulo, Prestes era uma figura a quem eu admirava. O movimento comunista era muito dividido. Tinha a turma da União Soviética, que seguia o conceito de revolução do Lênin, de insurreição popular armada. A revolução dirigida pela classe operária, da qual o campo era subordinado. Com a revolução da China, em 1949, Mao Tse Tung subordinou a classe operária ao campo, através do conceito de GPP (Guerra Popular Prolongada). Já começou a dar briga. Então veio o Fidel Castro e criou o conceito de grupos bem treinados, armados, para movimentos de guerrilha. Ficaram esses três paradigmas. Isso gerou uma divisão enorme no movimento comunista internacional. Cada movimento propunha uma coisa. O PCB propunha uma revolução controlada pela classe operária. Já o PCdoB defendia a revolução via campo, daí a guerrilha no Araguaia. E os outros, que eram ligados a Marighela, queriam organizar grupos bem treinados de militantes com capacidade armada para incendiar o país e tomar o poder. O Prestes sempre esteve ao lado dos soviéticos. Ele sempre foi muito anti-China e anti-Fidel Castro. Prestes, por exemplo, em 1964, foi contra a luta armada. Nós tínhamos um grupo armado, comandado pelo Salomão Malina, com algum treinamento em Cuba. Se fosse preciso, o grupo entraria na luta armada. Isso não ocorreu por causa do Prestes. Ele foi contra. Quando começou a crise na União Soviética, Prestes ficou em uma posição difícil. Ele era contra as mudanças, e a maioria do partido apoiava essa renovação dentro do socialismo. Então veio o Mikhail Gorbachev. Prestes ficou totalmente contra o Gorbachev. Começou a achar que o Gorbachev era traidor da classe operária. Com a anistia, Prestes voltou ao país achando que o PCB tinha se burocratizado, não tinha mais nenhuma vocação revolucionária. Ele veio com o interesse de criar um novo partido ou ganhar o partido por dentro. Então Prestes lançou um documento chamado Carta aos Comunistas, que provocou uma divisão na cúpula do PCB no país e em Brasília. O Osvaldo Morgado era a favor do Prestes, eu era contra. O Augusto Carvalho era meio-termo: não sabia se ficava ao lado do Prestes ou do Giocondo Dias. Por conta disso, Prestes veio a Brasília para uma reunião com o grupo dirigente do Partido.

ZONA SUL – Só um parêntese: você conheceu Giocondo Dias?
DAVI – Sim, o Cabo Dias era um cara a quem eu adorava! Foi muito amigo meu. Sempre estava na minha casa aqui em Brasília, ele já velho. Ele gostava muito da minha família. Foi ele quem fez um levante em Natal e implantou uma república socialista na cidade.

ZONA SUL – Voltemos ao seu encontro com Prestes...
DAVI – Fizemos uma reunião no apartamento do Osvaldo Morgado. O anfitrião, eu, Augusto Carvalho e o Prestes. Eu quase desmaie quando o vi, fiquei branco. Ele ali na minha frente. O pior de tudo é que eu, moleque besta, tive a petulância de questionar o Prestes, de ser contra ele. Hoje em dia fico até com pena de mim. Acho que ele também teve pena. Deve ter pensado: “isso é um menino”. O Prestes ficou ali reunido com a gente algumas horas, naquele encontro secreto. Ele explicou a idéia dele sobre o socialismo, falou da Coluna Prestes... O interessante é que ele não impôs nada. Ao final, disse: “minha opinião é essa”. Osvaldo Morgado ficou com ele. Eu fiquei contra, e depois o Augusto também veio para o nosso lado. Foi um momento marcante. Eu poderia falar: “eu enfrentei o Prestes, debati com ele”. Pura besteira. Enfrentei coisa nenhuma. Nem argumentos eu tinha para enfrentá-lo. Fui é petulante, menino bobo, de expor idéias. E ele foi de uma gentileza incrível. Poderia simplesmente ter falado: “esse aí é um imbecil”. Mas respeitou. Foi um negócio bonito.

ZONA SUL – E sua ligação com Roberto Freire?
DAVI – Fui assessor do Roberto durante 15 anos. Houve uma época em Brasília que a gente não podia votar em candidatos do Distrito Federal, porque aqui não tinha eleição. A gente votava nos candidatos dos respectivos títulos eleitorais. Meu título era de São Paulo, então, nas eleições, eu podia votar nos candidatos de São Paulo. Em 1978 nós já estávamos com mais de 200 pessoas no PCB. Então, começamos a pedir votos para os candidatos do Partido Comunista em todos os estados. O Roberto Freire se impressionou. Se não me engano, demos 600 e poucos votos para ele aqui. E o Roberto nem sabia desse nosso trabalho. Quando ele veio para Brasília, chegou impressionado com os votos que obteve na cidade. Procurou a turma do partido e pagou um churrasco. Desde essa época ficamos muito próximos. Quando ele assumiu sua cadeira na Câmara. eu estava trocando o Correio Braziliense pelo O Globo. Fui cobrir o Ministério da Fazenda. No jornalismo eu sempre procurei cobrir economia, para não criar crise ética na minha cabeça, cobrindo política. Eu estava há dois anos n’O Globo, quando o Roberto foi indicado líder do PCB na Câmara. Foi quando ele me convidou para ser assessor da liderança. Pagou um terço a mais do que eu ganhava. Como eu já era militante, fui.

ZONA SUL – Como foi o fim do PCB e sua transformação em PPS?
DAVI – Foi uma tragédia no sentido humano, uma coisa muito difícil. Acreditávamos em um país, na União Soviética, acreditávamos no socialismo, e tudo aquilo foi por água abaixo. Alguns companheiros até se suicidaram. Aquilo foi um drama, do ponto de vista existencial. Acreditávamos que o Gorbachev daria a volta por cima e renovaria o socialismo. Nosso discurso era esse. Mas aquilo era uma crise brutal e acabou caindo tudo. Como já vínhamos em um processo de renovação, já tínhamos vencido a disputa com o Prestes, realizamos um congresso em São Paulo para mudar de nome. Foi um congresso muito tenso. Vinte e cinco por cento não aceitaram a troca. Eles depois até conseguiram recuperar a sigla PCB, que até hoje existe. Está com a turma do Oscar Niemeyer. Foram inscritas mais de 300 propostas de novo nome. Todos diferentes. Nunca vi, com três letras, 300 sugestões de nome. PPS foi sugestão do João Hermann, deputado que hoje é filiado ao PDT. O congresso foi no Teatro Zaccaro. A partir dali foi criado o PPS.

ZONA SUL – E sua candidatura a deputado distrital em Brasília?
DAVI – Minha candidatura foi uma maluquice. Não minha, mas do partido. Eu nunca quis ser candidato. Provavelmente eu teria sido eleito quando presidi o partido e detinha mais de 70% dos votos para indicar o candidato a deputado federal. Cedi o lugar para o Augusto Carvalho. Ele era do Sindicato dos Bancários. Se eu tivesse sido eleito, provavelmente o partido teria hoje uma concentração popular maior, já que eu pretendia deslocá-lo para as cidades satélites. Mas eu não tenho vocação para buscar voto. Eu gosto muito da preguiça, de dormir, de beber cachaça... Não gosto de falar coisa que não acredito. Mas, na ocasião em que me candidatei, o partido resolveu lançar chapa própria e precisava de gente para fazer coeficiente. Entrei por isso. Fui sabendo que não tinha chance nenhuma. Mesmo assim foi uma campanha boa: tive 1.500 votos. Fui o sexto ou sétimo colocado do partido. Mas se um dia me chamarem pra ser candidato novamente, eu dou um tiro! (risos).

ZONA SUL – E Natal. O que a cidade significa para você?
DAVI – Fui ao Rio Grande do Norte dar uns cursos pelo Sebrae. Estive em Caicó e encontrei uma secura só. Nunca tinha visto seca tão grande na minha vida. Vi aqueles burrinhos carregando água... Isso tem uns 15 anos. Eu já tinha ouvido falar em rio seco, mas não acreditava. Lá em São Paulo rio seco não existe. Fiquei escandalizado com aquilo, com toda aquela miséria no Nordeste. Também fui a Natal algumas vezes. Natal, pra mim, é uma das coisas mais fantásticas do Brasil. Você tem aquela praia aberta. Eu não tenho pele para praia. Aquelas dunas do Exército também me impressionaram muito. Fiquei perto do Morro do Careca, naquele hotel que os padres tomam conta e onde o Papa João Paulo II se hospedou. Em outras ocasiões fiquei em hotéis da orla. Tenho um primo na cidade, o Celso. Ele é dono da churrascaria Pantanal, na Estrada de Ponta Negra, e da Barraca do Caranguejo, acho. Penso que Natal será um dos pontos turísticos mais expressivos do Brasil. Vai superar a Bahia. Desde que não estrague as praias, não polua e mantenha uma recepção turística boa. Mas, sobretudo, Natal me lembra o Giocondo Dias. Ele é um herói da esquerda. Também lembro de uma piadinha que o pessoal do PCB sempre contava. Diziam que quando os americanos chegaram em Natal, na Segunda Guerra, tomaram todas as prostitutas da cidade. Como pagavam em dólar, todas queriam ficar com eles. Mas o PCB tinha um mecânico trabalhando na Base Aérea. Ele tinha uma namorada na zona. O fato dos americanos transarem com a namorada dele não o impressionava. Esse descaso um dia provocou a fúria dos soldados americanos, que lhe aplicaram uma surra violenta. A resposta que o PCB deu mostra como era a verve do nosso partido. No dia seguinte, ou uma semana depois, o jornal do PCB em Natal publicou como manchete: “Truman manda espancar o comunista Zezinho”.

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