sexta-feira, 26 de março de 2010

Entrevista: Pedro Mendes

AS ESQUINAS DE PEDRO, PEDRINHO E PEDRÃO

O combinado era entrevistar Romildo Soares. Marcamos no Restaurante Veleiros, que é o palco oficial das entrevistas do Zona Sul em Natal. Estávamos lá: eu, os jornalistas Costa Júnior e Roberto Fontes (autor das fotos), o advogado e meu irmão Ronaldo Siqueira, e o amigo policial legislativo Carlos Cézar Soares. E foram chegando alguns dos principais nomes do cenário musical potiguar: Geraldinho Carvalho, Carlinhos Moreno, Nélson Rebouças e Ricardo Menezes, além de Romildo Soares e Pedrinho Mendes. Foi então que Romildo sugeriu que, ao invés dele, o entrevistado do mês fosse Pedro Mendes. Proposta aceita sem problemas. Qual o jornalista que não sonha em entrevistar o compositor do hino não-oficial de Natal? Quem não quer compartilhar as histórias do cantor que se tornou ícone nos tempos das batucadas do Moenda e do Boteco? Isso sem falar na sua faceta de atleta, o Pedrão campeão dos saltos. Para quem desde sempre escuta as canções desse craque da música, foi um prazer. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL - Como é o seu nome completo?
PEDRO – Pedro Inácio Filho.
ZONA SUL – E o Mendes?
PEDRO – Minha família, por parte de mãe, é toda Mendes. O nome de papai é Pedro Inácio do Nascimento. Mas o velho parece que é tão amarrado que nem o sobrenome me deu. Na verdade eu teria que ser Pedro Inácio do Nascimento Filho.
ZONA SUL – Talvez ele tenha preferido não ser redundante e optou por não colocar o sobrenome “Nascimento”, já que você havia acabado de nascer. Seu nascimento bastou.
PEDRO – Pode ser, mas ele nunca me disse. A minha mãe é Raimunda Mendes, a minha avó é Mercedes Mendes. Todo mundo é Mendes. Antes de começar a cantar na noite, eu era apenas Pedro. Quando fui cantar no “Boca da Noite”, anônimo, Nazareno - que foi parceiro de Pena Branca e era dono do bar – me apresentou como Pedrinho. Eu tinha 18 anos. O nome Pedrinho pegou tanto que continuam me chamando assim mesmo eu usando o Pedro Mendes como capa de disco e cartaz de show há muito tempo. Quando comecei a fazer shows no teatro, a cantar no “Projeto Pixinguinha”, adotei o Mendes, já que não ficava bom só o Pedrinho. Como papai não colocou o Nascimento como meu sobrenome, preferi o Mendes por achá-lo mais sonoro. Até meus filhos têm Mendes.
ZONA SUL – Você nasceu em Natal?
PEDRO – Não. Nasci em Parnamirim. Papai era da Aeronáutica. Mas só nasci, lá. Com 19 dias de nascido vim para o Barro Vermelho, onde moro até hoje. Meu pai não foi casado com minha mãe. Foi extra. Ele tinha uma noiva, ia casar. Meu pai era músico da Aeronáutica.
ZONA SUL – Qual o instrumento?
PEDRO – Ele era um grande clarinetista. Minha mãe o conheceu como músico, nos bailes da Base Aérea. Nasci em Parnamirim, mas não tenho intimidade com a cidade, mesmo sendo tão perto. Minha intimidade sempre foi com Natal.
ZONA SUL – Como foi sua infância no Barro Vermelho?
PEDRO – Nasci em 1963, naquela época o Barro Vermelho era um bairro que tinha as ruas e as calçadas de areia. A gente jogava bola nos quintais e brincava de biloca. Brincadeira de criança, pra mim, foi baladeira, foi derrubar manga com pedra e brincar de pique-esconde e garrafão...
ZONA SUL – Depois veio a fase de “tô no poço”...
PEDRO – Tô no poço, bandeirinha... Estudei em um colégio no Viaduto do Baldo que quando chovia não tinha aula, pois alagava.
ZONA SUL – Naquela época, diferente de hoje, raramente chovia em Natal.
PEDRO – Mas quando chovia, a gente ficava dois dias sem aula.
ZONA SUL – Nessas brincadeiras tinha alguma ligada à música?
PEDRO – Descobri a música através de meus tios. Fui criado por minha avó. Eles sempre gostaram muito de música: Maeterlinck Rêgo, que é médico do América, e Marilande Rêgo, que foi professora da Escola Doméstica. Eles sempre escutaram boa música. Eu, talvez pela herança genética, também tinha um bom gosto musical. As pessoas de casa começaram a perceber que eu gostava de imitar vozes. Imitava também Tony Tornado e Michael Jackson dançando. Quando completei dez anos, minha tia teve a sacação de me presentear com um violão. Eu me empolguei. Na rua, dois amigos tocavam. Um, o Tonho, faleceu há pouco tempo. O outro ainda hoje mora no Barro Vermelho: João Caduco. Eu levava o violão e eles me passavam um acorde ou outro... Virei o que eu chamo verminoso: passei a me dedicar horas por dia. Cada um dos tios comprava, todo mês, cinco elepês. Era Gonzaguinha, Chico, Tom Jobim, Jackson do Pandeiro e Banda de Pífano de Caruaru. Milton, Caetano, Luiz Melodia, Luiz Gonzaga e Elino Julião. Essa foi a minha escola. Vivia em casa ouvindo e tocando junto. Papai é músico de carreira, escreve e tudo. Eu, não. Aprendi no ouvido.
ZONA SUL – Seu pai tinha aproximação com você? Deu dicas sobre como tocar?
PEDRO – A influência que papai teve sobre mim como músico foi mínima. A não ser no momento em que fui estudar em Fortaleza, quando ele foi transferido para a Base Aérea de lá. Fui estudar na capital do Ceará já tocando, aos 14 anos. Em Fortaleza, mesmo meu pai morando com a família dele e eu interno no Colégio Militar, tivemos uma aproximação. Nessa época me interessei também por instrumento de sopro, passei também a tocar flauta doce. Quando entrei no colégio, vi a banda e me deslumbrei com aquilo. Queria tocar instrumentos de sopro, mas iniciei pela percussão: caixa, tarol e tal. Até passar para o sax. Teve um período que toquei sax tenor, sax alto. Foi aí que meu pai influenciou, contribuiu de alguma forma, com meu lado musical. Vez em quando eu perguntava uma coisa ou outra sobre o instrumento. Papai era clarinetista, mas também tocava saxofone. Estudei três anos no Colégio Militar. Lá tinha uma bandinha, onde eu tocava guitarra e toquei um pouco de bateria. Eu também cantava e comecei a compor. Era o auge de Fagner, daquele disco “Quem viver chorará”. Belchior, Ednardo e Amelinha também estouraram nesse período, entre 1977 e 78.
ZONA SUL – Você chegou a ter contato com esse pessoal do Ceará?
PEDRO – Muito pouco. Alguns músicos do colégio tinham. Existia um grupo de Fortaleza chamado “Quinteto Agreste” com o qual nós tínhamos um pouco de aproximação. Não tivemos contato muito direto, mas sofremos influência.
ZONA SUL – Sobre o que tratavam suas primeiras composições?
PEDRO – A princípio minha música sofreu influência muito forte da proposta desses cearenses. Eram canções, um romance nordestino, baladas românticas falando um pouco de mar ou um pouco de rio.
ZONA SUL – Esse material foi aproveitado por você posteriormente ou continua inédito?
PEDRO – Não aproveitei em disco, mas já toquei em shows. Tenho canções inéditas do período. Minha primeira composição, “Sonho concreto”, foi feita, aos 14 anos, em Fortaleza, em 1977. Fiz um show há uns dois anos no Teatro de Cultura Popular chamado “Desentoca e toca”. Mostrei essa e outras músicas que nunca lancei em disco.
ZONA SUL – De Fortaleza você voltou para Natal? Por que esse retorno?
PEDRO – Quando papai me convidou para estudar em Fortaleza, senti certa empolgação com o militarismo. Mas me desencantei. Nos três anos de colégio passei a me interessar mais pela música. Deixei de achar legal a farda, acordar às seis, café às seis e vinte, aula às sete... Mesmo sendo época da ditadura, a princípio o colégio me empolgou, também pelo fato de o meu pai ter sido militar. Quando voltei, entrei na ETFRN (Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte), que hoje é CEFET (Centro Federal de Educação Tecnológica).
ZONA SUL – Qual curso?
PEDRO – Eletrotécnica, mas não concluí. Tem um detalhe: fui atleta durante muito tempo. No Colégio Militar, pratiquei basquete, vôlei... Mas me descobri um grande saltador. Eu tinha uma impulsão muito grande, e uma altura boa. Comecei a praticar atletismo: salto em altura, salto triplo, salto em distância... Quando voltei de Fortaleza, passei a ser atleta da ETFRN e comecei a perder o encantamento pela profissão de técnico. Entrei na escola porque todo adolescente queria passar no mini-vestibular de lá. Nem sei porque escolhi Eletrotécnica. Podia ter feito Edificações, Estradas... Quando voltei de Fortaleza, eu já fazia o segundo grau. Fiquei cursando o primeiro ano técnico e o segundo do segundo grau, paralelo. Quando passei para o pré-vestibular, larguei a escola.
ZONA SUL – Onde você fazia o segundo grau?
PEDRO – No Anfilóquio Câmara. Estudava lá à noite e pela manhã na ETFRN. Quando passei para o pré, fui para o Hipócrates. Minha família não tinha muitas condições, mas conseguiu. Larguei a Escola e passei no meu primeiro vestibular, para Fisioterapia.
ZONA SUL – Você atirou para todos os lados.
PEDRO – A história da Fisioterapia já tinha envolvimento com Maeterlinck. Meu irmão mais velho estava se formando em educação física. Meu tio (e ao mesmo tempo irmão de criação) Maeterlinck, tinha especialização em medicina esportiva e era médico do América. Havia um projeto da família de montarmos uma clínica. Faltava o fisioterapeuta. Novamente me empolguei e comecei o curso, mas continuei músico e atleta.
ZONA SUL – Nessa época você já fazia shows?
PEDRO – Já. Comecei Fisioterapia em 1982, ano do meu primeiro show em teatro. Fiz parte do “Projeto Memória”, daqueles discos que Diógenes da Cunha Lima produziu na UFRN. Um belo dia estava em uma aula de bioquímica. Olhei para o professor, pedi licença e fui embora. Nunca mais voltei. Estudando Fisioterapia de verdade, fiquei apenas um ano. Permaneci mais tempo na universidade como atleta. Disputei alguns Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), na modalidade salto em altura. Só ia competir, não estudava. Fui para os JUBs de Recife, em 82, para os de Belo Horizonte, em 83, e em 84 fui terceiro lugar em Natal. Só fazia a matrícula para ter acesso ao atletismo e para pegar a carteira de estudante.
ZONA SUL – Para qual lado sua vida deu outra guinada quando você abandonou a universidade?
PEDRO – Depois disso fui bancário. Comecei a sentir necessidade de, como músico, ter um sustento. Sempre foi difícil viver só da música. Trabalhei dois anos no Banco Econômico, que hoje não existe mais. Fui caixa, trabalhei na compensação. Usava roupinha social e cabelinho curto. Era uma busca de afirmação salarial. Pensei: é melhor ter um salário e continuar músico. Durante o período em que fui do banco, comecei a pensar em gravar um disco. Eu já havia composto “Linda Baby”, a música era conhecida.
ZONA SUL – Antes de falarmos nesse disco, conte como você começou a fazer shows.
PEDRO – Comecei a tocar na noite quando voltei de Fortaleza, no final de 79. Tinha 16 anos. Existia o “Beco da Música”, que era nos fundos da Ordem dos Músicos. Era de Chico Elion. Fui lá com um amigo mais velho e demos uma canja. Agradei e a partir daí passei a ir toda semana. A princípio, no “Beco da Música” não tinha cachê. Mas a partir dali apareceram convites para tocar nos bares da praia, nas galeterias da Prudente de Morais. Os cachês eram pequenos. Fiquei fazendo esses shows até o “Boca da Noite”, em 1982.
ZONA SUL – Você já tocava suas canções? Qual repertório costumava apresentar?
PEDRO – Até 82 eu fazia muito cover. Um lado forte do meu trabalho é que, como sempre fui muito verminoso, com 18 ou 19 anos eu já cantava mil músicas. Saía um disco de Chico ou Luiz Melodia: eu aprendia todas. Não descansava enquanto não aprendia aquelas canções. Fazia isso também com Ivan Lins, Elba, Zé Ramalho, Djavan, Tom Jobim, Fagner...
ZONA SUL – Gilberto Gil...

PEDRO – Sofri muita influência do Gil porque meu timbre é parecido com o dele. Sempre tive facilidade de cantar as coisas dele. Foi assim também com Djavan, Luiz Melodia... O fato de eu ouvir de tudo - Banda de Pífanos de Caruau, Pixinguinha, Ivanildo o Sax de Ouro, Antonio Carlos e Jocafi, Clara Nunes, Sivuca, Milton Nascimento - me fez chegar aos 19 anos com um repertório que impressionava. Comecei a me empolgar: “parece que meu dom realmente é uma coisa que vai me fazer ser músico”. Foi quando desisti da universidade e fiz meu primeiro show no Teatro, junto com Sueldo, que também tocou no “Boca da Noite”. O show chamou-se “Tinta viva” nome de uma música minha e de um primo de Sueldo que fez parte de um festival em 1980, da Rádio Poti, no Palácio dos Esportes. Expedito, João de Orestes e Liz Nôga, veteranos da música de Natal, já eram desse festival e eu ali no meio deles.
ZONA SUL – Nesse show com Sueldo você cantou suas músicas?
PEDRO – Eu e Sueldo tínhamos parcerias. Mesclamos. Fizemos coisas autorais na metade do show – umas minhas, umas dele e outras nossas – e a outra metade com músicas consagradas de Milton, Djavan e coisas da época. Passei a me empolgar como compositor. Veio o Festival da UFRN e eu, com 18 anos fui o único a classificar duas músicas entre as dez finalistas. Fui terceiro e quinto no mesmo festival. A música vencedora foi “Punaú”, de Carlinhos Moreno. Teve Wigder, Cleudo, Antonio Ronaldo. “Sétimo sonho” ficou em terceiro lugar e “Amanhecer” em quinto.
ZONA SUL – Foi um festival de nível altíssimo.
PEDRO – Foi maravilhoso. Depois rendeu a gravação, no Rio de Janeiro, de um elepê. Gravamos no estúdio Transamérica, que na época era o melhor do Rio. Fomos eu, Heraldo Palmeira, Wigder... Comecei a me empolgar. No segundo festival da UFRN, em 1985, fui o vencedor. Era universitário apenas de carteira. Eu e Sueldo ganhamos com “Raça”, parceria que está no meu primeiro elepê, “Esquina do continente”.
ZONA SUL – “Linda Baby”, que também é desse disco, tem uma história interessante.
PEDRO – Essa música causa controvérsias. Como falo em Avenida São João, as pessoas pensam que a “linda baby” era paulista. Quando compus a música, em 1981, eu namorava uma menina que tinha umas primas de Recife que sempre apareciam em Natal. Recife sempre foi uma cidade grande. Elas moravam em Boa Viagem, que já tinha aquela infra de metrópole. Eu ficava incomodado quando elas diziam que em Natal não tinha nem escada rolante. (risos). “Natal não tem laundromatic (lavanderia automática), Natal não tem não sei o que”. Foi daí que deu vontade de dizer “Sempre que estiveste por aqui / Não observaste o nosso ser / Nem aproveitaste o lindo olhar ao céu”. Como ela realmente era uma menina muito bonita, eu a chamava de Linda Baby. Ela dizia que conhecia São Paulo, que conhecia o Rio.
ZONA SUL – Pelo visto só não conhecia Natal, apesar de vir sempre por aqui.
PEDRO – Tanto que, no final, eu digo “Linda baby, baby linda, volte sempre aqui”. Como quem diz: apesar de tudo isso, observe e volte.
ZONA SUL – Qual a reação da sua amiga ao conhecer a música? Pediu você em casamento?
PEDRO – A princípio mandei só a letra. Não me pediu em casamento. Eu namorava sua prima. Nunca tive nada físico com a Linda Baby. Era apenas amizade. Muita gente não acredita. Quando eu falo em “Aqui não tem Avenida São João”, escolhi a Avenida São João porque, na época, “Sampa”, de Caetano, estava no auge. Essa música me rendeu popularidade.
ZONA SUL – Em 1986, você começou a gravar “Esquina do continente”, seu primeiro elepê. Como foi?
PEDRO – Eu já fazia shows no teatro, tinha participado de discos no projeto Memória e estava fazendo sucesso das batucadas no “Moenda” e no “Boteco”, na praia. Tornei-me um cara popular e veio a empolgação de fazer um disco. Mas eu não tinha capital, gravadora, nem patrocinador. Fui convidado para trabalhar no comitê jovem da campanha de Geraldo Melo ao governo do estado. Recebia um cachê - a preço de hoje –de mil reais por dia, de terça a sábado. Ao final de dois meses eu tinha 100 mil reais. Todo mundo me aconselhava a comprar um imóvel ou não sei o que. Preferi bancar meu disco. Fui pra Recife e aluguei a Somax, de Luiz Rozenblit, que era o melhor estúdio de Recife. Levei 12 músicos de Natal e dois percussionistas baianos que moravam no Rio. Heraldo Palmeira fez a co-produção. Ele entrou depois da gravação, já no trabalho de prensagem, no Rio de Janeiro, de capa. De Natal, levei para os vocais Joãozinho (Grafith), Wigder e Raquel. Levei Bauru, que era o melhor baterista da cidade. Levei Franklin Novaes. Levei Roberto Taufic, que hoje mora na Itália, levei Aluízio que era do Cantocalismo.
ZONA SUL – Uma Seleção Brasileira...
PEDRO – Levei de Natal o que eu podia de melhor. E trouxe os percussionistas Marquinhos Lobo - que tocou com Djavan, Caetano e todo mundo - e Bajara, que há algum tempo é do Asa de Águia. A produção que banquei para aquele disco foi no nível de gravadora. Coloquei os músicos em hotel três estrelas. Paguei um cachê bacana. Os do Rio vieram de avião. Banquei as fotos feitas por Esam Elali, paguei a prensagem, a capa... Quando fui fazer a mixagem, no Rio, ainda peguei Mingo Araújo para participar. Aí alisei. Em compensação esse foi o primeiro disco da minha geração. Como ninguém tinha disco, parti na frente. Alisei, mas investi no meu trabalho.
ZONA SUL – Teve retorno do ponto de vista financeiro? Ou o disco funcionou apenas para você se apresentar ao mercado?
PEDRO – Houve retorno. Só que investi 100 mil em um mês e esse dinheiro voltou em dois ou três anos, com a venda dos elepês e também dos shows. O disco abriu campo para show no estado todo.
ZONA SUL – Você também fez shows fora do RN para lançar o disco?
PEDRO – Não. Mas fui morar no Rio de Janeiro, em 89, com o propósito de investir na carreira. Deixei alguns discos na loja de Jatobá, no Leblon, e em outras. E passei a trabalhar na noite do Rio. Me rendeu outros shows e participações no Pixingão, com João do Vale e Tetê Espíndola. Eu era molecão, e eles já de nome.
ZONA SUL – O segundo elepê surgiu no Rio ou em Natal?
PEDRO – Depois de morar 1989 no Rio, a rotina da cidade começou a ficar parecida com a de Natal: trabalhava em barzinho, dava uma entrevista no “Sem Censura” ou no “Jornal do Brasil”... Nada que me desse
uma sustentação profissional. Voltei pra casa. Minha avó, a quem eu chamo de mãe até hoje, se desfez de uma casa e resolveu distribuir o dinheiro como se fosse uma herança, dando a parte que cabia a cada um. Peguei a minha e fui de novo pra Recife. Dessa vez aluguei o estúdio da “Estação do Som”, que era de Tovinho, que tocava com Alceu Valença. Levei Bauru, de novo, Franklin... Não trouxe Marco Lobo, mas em seu lugar veio Orlando Costa, outro baiano renomado. Fiz um novo disco: “Um Pedro a mais”. Foi uma tentativa de partir de novo para o Rio de Janeiro. A diferença é que quando fui à Polygram para prensar o disco, no Rio, conheci a gerente dos distribuídos. Por coincidência ou não, ela perguntou se eu tinha uma fita. Apresentei uma fita a ela, que ouviu, gostou e levou, poucos dias depois, para uma convenção nacional da gravadora. Todo mundo gostou. Mas como estavam contratando Cássia Eller e Selma Reis, perdi a chance. Pelo menos não paguei a prensagem. A Polygram prensou e distribuiu nacionalmente. Na Paraíba e no Ceará repercutiu muito bem. Também me rendeu shows, inclusive no Rio. Como a música-tema, “Um Pedro a mais”, era samba, ela me botou em uma noite de samba no “Asa Branca” junto com Almir Guineto, Dominguinhos do Estácio, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. O show me rendeu um dos maiores elogios que recebi. O cara que tava assumindo o lugar de Adelzon Alves, “o amigo da madrugada”, na Rádio Globo, mandou um bilhetinho para o camarim, ao final da apresentação, pedindo que eu fosse até sua mesa. Fui. Ele se apresentou: acho que o nome era Cleber Sayão. Eu participava do programa de Adelzon desde o Pinxingão, quando cantei com João do Vale. Sayão disse que queria me dizer algo: “eu pensei que a música popular tinha morrido, mas quando ouvi o seu samba, tive a certeza de que não morreu ainda”.
ZONA SUL – Grande elogio.
PEDRO - Ouvir isso no Rio, terra do samba, é demais. Principalmente depois de uma apresentação que contou com Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Dominguinhos do Estácio. Ele me convidou de novo para ir ao programa. Fiz shows no “Asa Branca” durante um mês, mais ou menos, sempre às segundas-feiras. Mas ficou naquilo. Eu não tinha empresário, a Polygram apenas distribuiu o disco. Meu lado empresarial sempre foi fraco. Fui meio relapso, não dei conta da coisa, não soube conduzir minha carreira empresarialmente.
ZONA SUL – Faltou um bom empresário para que você pudesse explorar mais o seu talento e chegar mais longe na sua carreira?


PEDRO – Sim. Dei uma entrevista há um ano para o jornal “A Semana”, que circula em todos os estados. A repórter escreveu: “Eles têm Garota de Ipanema, nós temos Linda Baby”. Ela enfatizou muito a questão do quase na minha vida. Quase fui militar, quase fui técnico, quase fui fisioterapeuta, quase fui bancário... E o quase também na música. Por exemplo: quando Luiz Gonzaga morreu, eu morava no Rio e conheci um cara chamado Paulo Neto, que era um dos diretores da Globo. Foi ele quem levou Xuxa da Manchete para a Globo. Foi quem produziu os especiais Pirlimpimpim, A arca de Noé e todos aqueles infantis da época. Fui morar em Itaipuaçu, no Rio, e o conheci. Ele gostou do meu trabalho. Quando mostrei uma música minha chamada “Baião de dois”, em homenagem a Luiz Gonzaga, ele disse: “vai ter um especial da Globo em homenagem a Luiz Gonzaga, me dê seu material”. Levou a música e voltou com uma notícia melhor ainda: “sua música vai ser o tema do especial”. Mas vieram aquelas confusões: Walter Lacet brigou não sei com quem, mudaram o piloto todo e caí fora. Se tivesse acontecido, poderia ter dado outro rumo à minha carreira. Quase fui contratado pela Polygram, no episódio que contei de Selma Reis e Cássia Eller. A coisa do quase aconteceu comigo em alguns momentos. Mas o segundo disco também rendeu bem.
ZONA SUL – Então, mais uma vez você voltou para Natal.
PEDRO – Sim. E desde o segundo disco pra cá nunca mais lancei um disco solo. O último foi em 90. Lá se vão 20 anos. Passei fazer shows daqueles trabalhos, a compor para outros artistas. Participei do Canta Nordeste, venci um festival grande no Amazonas, em Itacoatiara, em 1994. Geraldo Carvalho, inclusive, interpretou essa mesma música no Crato, no Ceará. Ela, “Cores e Flores” se classificou em dois festivais simultaneamente. Música minha e de Babal. No Crato se foi pra final e em Itacoatiara foi a vencedora. Também fiz parte de vários discos. Faltou estrutura para fazer um disco no molde dos outros dois. Mas continuei compondo e tenho muitas músicas gravadas por vários intérpretes.
ZONA SUL – Se aparecesse alguém disposto a bancar um disco seu só com músicas inéditas, você teria acervo?
PEDRO – Tenho material para uns dez discos. Sou parceiro de Geraldo Carvalho, de Babal, de Sueldo... Tenho muita coisa só. Se tivesse que fazer um inédito de música nunca gravada, eu faria uns três de cara.
ZONA SUL – Você não tem condições de bancar às próprias custas um novo disco, mas não há uma forma de conseguir apoio?
PEDRO – Existem projetos, leis de incentivo, mas sou de desistir quando o “não” vem de cara. Se eu pedir um apoio a um dono de empresa e ele disser: “Pedro, eu dou, mas como estamos em mês de recesso, volte aqui em junho”. Nunca mais vou voltar. Crio uma resistência e não volto mais. Parece que é medo de um novo “não”. Conheço os políticos e os empresários do Rio Grande do Norte, e eles me conhecem. Fui eleito o mais popular do estado, nessa área, pelo Diário de Natal. Até me surpreendeu porque fiquei acima de Elinio Julião, de Gilliard e de Carlos Alexandre. Mas eu tenho essa trava. Comecei a gravar um disco em 97, ele está no estúdio até hoje porque comecei a fazê-lo como eu fiz os outros. Chama-se “Fera nova”. Está 80% pronto. Se um empresário chegasse com 10 ou 15 mil, a gente resgatava e lançava bacana.
ZONA SUL – No começo da entrevista você comentou que antigamente era muito difícil viver de música. E hoje?
PEDRO – Hoje é mais difícil ainda. Só que aí eu finquei o pé. Claro que - como tenho pai, mãe, tios e irmãos - tem meses que quem banca é o “paitrocínio” mesmo. É a mãe que chega junto no aluguel, é o irmão que paga a escola do meu filho porque naquele mês não deu pra pagar, é Maeterlinck que chega com o fardamento escolar. Porque não dá pra sustentar. A gente faz alguns shows durante o ano, como o Projeto Seis e Meia, Circo da Luz e Cientec (Semana de Ciências, Tecnologia e Cultura), mas se for somar, não dá nem um show desses por mês, quando se ganha um cachê diferenciado. Aí tenho que cantar em um buffet onde alguém está comemorando bodas de prata, recebemdp , cachê menor. Como os dois elepês viraram CDs, e depois eu lancei outros dois discos, um eu interpretando e outro eu interpretado, coloco esses discos na bolsa e vendo. Passei a ser vendedor. Se os caras vendem discos-pirata dos outros, porque não posso vender original meu? Rende uma certa condição de tirar o mês.
ZONA SUL – Direito autoral não rende nada?
PEDRO – “Linda Baby” e “Esquina do Continente” começaram a render alguma coisa. Usaram em 300 mil vídeos de turismo sobre Natal. Uma coisa inexplicável é nunca terem me chamado para cantar nos encontros da Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagens), nem quando o evento foi realizado em Natal. Eu não vou, mas minhas músicas vão como trilha de diversos vídeos sobre a cidade. Não é justo.
ZONA SUL – Mesmo sem apoio da Abav, você andou tocando na Itália.
PEDRO – Logo depois de “Um Pedro a mais”, de 90 pra 91, surgiu o convite. Uma cantora mineira, Marta Serrat, que era casada com um militar daqui, separou do marido e foi morar na Itália. Ela foi viver com um empresário e esse cara, que gostava muito da música brasileira, resolveu produzir um festival na região Le Marche, em Ancona. Fomos eu, Márcio Montarroyos, Miltança... Fiz shows em Pesaro, Marota, San Benedetto, Porto Recanatte... Alguns anos depois houve uma bienal em Loreto, na mesma região, e fui convidado de novo. Se eu utilizasse melhor a Internet poderia ter conquistado muito mais.
ZONA SUL – Como você avalia o fato de o poder público contratar artistas de fora por pequenas fortunas, pagar seus cachês em dia, e dispensar para o artista local um tratamento exatamente o oposto?
PEDRO – Natal é muito madrasta: sempre adota os filhos dos outros, aos quais acha lindos, e acha os seus próprios filhos feinhos. Isso é um fator provinciano. Há um excesso de hospitalidade e de se impressionar com uma coisa só porque não é daqui. Fiz um show de 1.500 reais pra Prefeitura no dia 4 de julho e só recebi na primeira quinzena de janeiro. Não discuto quando se paga 220 mil reais para Padre Fábio. Mas se tem condições de pagar 220 mil por um show dele, subentende-se que tem 30 mil pra pagar um show de Valéria, Sueldo, Babal ou Pedro Mendes. Mas pagam mil, dois ou três mil. Essa diferença enorme prejudica e muito o artista local. Às vezes saio daqui, como fui a Icapuí, no Ceará, para cantar quatro músicas em um acampamento sul-americano da juventude, e ganhei 1.500 reais. Cachê que pra receber em Natal eu tenho que fazer um Seis e Meia, com banda, e cantar uma hora. Acho que há até uma falta de respeito. Sou autor de uma música que é considerada o hino extra-oficial da cidade. Já cantei “Linda Baby” muitas vezes para o hasteamento da bandeira de Natal. Às vezes eu abro show aqui para gente que tava enterrada lá em São Paulo, que nunca mais tinha feito um show na vida. Ele leva vinte mil e eu ganho mil.
ZONA SUL – Como alguém que ler essa entrevista pode entrar em contato com você para adquirir CDs, contratar shows ou trocar idéias sobre música...
PEDRO – Infelizmente ainda não tenho site, mas podem mandar um email para
pedroimendes@yahoo.com.br ou potiguarmusical@hotmail.com . Também tenho uma página no Orkut, basta procurar por Pedro Mendes. A partir desses contatos a gente pode trocar uma idéia.

5 comentários:

  1. -Linda Baby é uma das minhas musicas preferidas, e a tenho como o hino "oficial" de Natal.
    -Roberto, é verdade que esta entrevista , quase entra pra mais "quase" do pedrinho, pois ela "quase" foi interrompida pelo Cesar (de Brasilia)??????????
    -Apesar do parentesco com o Dr. maertelink, Pedrinho é ABCDISTA?????????

    abraços
    sergio almeida

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  2. Roberto,
    É verdade que a próxima entrevista é com o Advogado, artitsta plástico e ex-auditor do TCE-RN Aécio Emerênciano????

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  3. Sérgio,
    "Linda Baby" também é uma das canções que mais gosto. Um detalhe é que na gravação original dessa música há a participação especial de um outro entrevistado do Zona Sul, o multimídia Heraldo Palmeira. Quanto ao próximo entrevistado, vc errou por pouco. É o guitarrista Ricardo Menezes, ex-Cabeças Errantes e Cantocalismo, e dono do
    Restaurante Veleiros. César participou das entrevistas com Pedrinho e Ricardo. Ele conversou um bocado com o "empresário" Costa Júnior. Aécio Emerenciano será o entrevistado de maio. Gde abraço!

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  4. Bons tempos, aqueles da musicarada e dos musicos maravilhosos que comigo tocaram e me acompanharam nas minhas andanças. Guardo lembranças impagáveis do Rio Grande do Norte. De Caicó e Natal. Um beijo carinhoso para todos.
    Marta Serrat
    serratmarta@hotmail.com

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  5. Acompanhei o início da carreira de Pedrinho e jamais vou esquecer uma canção que dizia: "Passando a mão sensivelmente sobre o mar, encontrei uma razão para amar, e pedi ao Deus do céu que desse sem parar, uma vida calma a cada rosa que brotar....
    Seja feliz, amigo!!!!

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