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sábado, 29 de junho de 2013

Entrevista: Falves Silva

OS 70 ANOS DO POETA “MALDITO” DA IMAGEM

Foi Falves Silva quem viabilizou a primeira entrevista dessa série de trabalhos que faço com a ajuda de amigos para o “Zona Sul”. Ele foi quem conduziu a sua companheira, Terezinha de Jesus, para a conversa realizada na I Bienal do Livro de Natal, em 2003, no Centro de Convenções. Dez anos passaram até que surgisse a oportunidade de eu satisfazer o sonho profissional de entrevistá-lo também. Como as melhores coisas da vida, a ocasião veio por acaso. Melhor não sairia se fosse combinado previamente. Estávamos todos no Sebo Vermelho, de Abimael Silva. Saímos direto para o bar “Point da Princesa”, na Princesa Isabel, centro de Natal. Graças às intervenções do próprio Abimael, do músico Paula Neto; da blogueira (http://escritosdealicen.blogspot.com.br/), escritora e professora Cellina Muniz; e do meu parceiro e amigo para todas as horas, o jornalista Roberto Fontes, acredito que essa entrevista poderá servir como presente para o septuagenário Falves Silva. Que Natal também possa oferecer uma homenagem digna ao nosso maior poeta visual. Todas as mais de 100 entrevistas que fiz para o “Zona Sul” estão disponíveis, na íntegra, no site http://zonasulnatal.blogspot.com.br/. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Como é o seu nome verdadeiro?
FALVES – Meu nome verdadeiro é Falves Silva. O mentiroso é Francisco Alves da Silva. (risos)
ZONA SUL – Você não manteve o Francisco Alves para não ofuscar o cantor homônimo, Francisco Alves, considerado “o rei da voz”?
FALVES – Para falar a verdade, a história foi outra. O Falves surgiu depois que eu fiz um curso de desenho por correspondência, em 1964. Um dos ensinamentos do curso era o fato de o artista - da mesma forma que o jornalista, o cientista e o escritor – poder mudar ou criar seu próprio nome. Pensei em escolher Chico da Silva, mas já havia um pintor do Acre, descendente de cearense, que havia ficado famoso com esse nome. Resolvi, então, colocar Falves Silva. Inicialmente confundiram um pouco. Talvez devido ao movimento de pintura “fauvista”, chegaram a escrever meu nome como Fauves, com “u”. Com o tempo, corrigiram. Resolvi mudar o nome porque, desde criança, sempre pretendi ser artista.
ZONA SUL – Vamos retroceder um pouco na sua história. Onde você nasceu?
FALVES – Em Cacimba de Dentro, uma cidade pequena da Paraíba. Só fiz nascer lá. Minha mãe e meu pai eram itinerantes. Logo cedo fomos para Japi, terra da minha mãe. Depois mudamos para Nova Cruz. Aos cinco, fui morar em Santa Rita. Fiquei lá até os dez anos. Em 1953 meus pais se separaram e eu mudei para Natal com a minha mãe.
ZONA SUL – Seus pais faziam o que da vida?
FALVES – Meu pai era carpinteiro e a minha mãe cuidava da casa. Meu pai é de uma família de Rio Tinto, na Paraíba. Ele era muito violento: batia na minha mãe e em mim também. Minha mãe teve vários filhos, mas só escapamos eu e um irmão. Naquela época, a mortalidade infantil era grande: quando sobrevivia um filho, escapava fedendo (risos). Vim para Natal e foi aqui onde aprendi a discernir a vida.
ZONA SUL – De onde são as suas primeiras recordações? Da Paraíba?
FALVES – Algumas são de lá, mas outras tantas são daqui também. De lá recordo o fato de eu ter começado a desenhar desde menino. Antes de completar cinco anos, eu já desenhava. Certa ocasião, desenhei as partes genitais de uma mulher, por cima de um desenho de um vestido publicado por uma revista de moda. Esse desenho foi uma coisa rude. Quando meu pai viu, me deu um grande esculacho. Chorei que só a porra! Provavelmente por conta disso, depois que aprendi a desenhar o corpo da mulher, era como se eu estivesse fazendo uma coisa contra o meu pai.
ZONA SUL – Menino, morando no interior, como você conseguia material para desenhar?
FALVES – Nesse início, eu desenhava com lápis. Tenho uma fixação pela imagem. Menino curioso, sempre gostei de fotografia, desenho e de ler histórias em quadrinhos. Naquela época eu já dizia que quando crescesse ia mexer com desenho. Acho bonito no objeto da arte quando ele é reproduzido. Do original, nem gosto tanto. Gosto de vê-lo reproduzido... Tem outro brilho.
ZONA SUL – Você valoriza mais a reprodução que retrata fielmente o original ou aquela que acrescenta algo?
FALVES – Depende. Gosto das ampliações e das reduções. Estou com a ideia de fazer uma exposição com trabalhos bem ampliados. Mas, hoje em dia, devido aos custos, fica difícil trabalhar com ampliação.
ZONA SUL – Quando você veio para Natal com sua mãe e o seu irmão, vieram morar onde?
FALVES – Fomos morar com minhas tias em um local que antigamente era conhecido como “Alto do Juruá”, em Petrópolis. A viagem para Natal foi de trem. Tinha uma linha que vinha de Recife e fazia uma parada em João Pessoa. Foi uma viagem longa, chovia pra cacete. Quando cheguei, estava chovendo muito. Após o desembarque, quando estava subindo a ladeira da Junqueira Aires, vi aquele relógio do SESC batendo nove horas da noite. Depois de três meses, foi preciso eu começar a trabalhar. Eu tinha 10 anos e pouco quando a família começou a reclamar: “esse menino tem que trabalhar”, e tal... Eu era o filho mais velho. Meu irmão é mais novo do que eu seis anos.
ZONA SUL – Arrumaram o que para você?
FALVES – Fui trabalhar n’“A República”, como distribuidor de jornal. Depois de algum tempo, saí de lá para o “Diário de Natal”, nessa mesma proposta de distribuir jornais, só que em bairros diferentes. Fiquei conhecendo a cidade toda. Naquele tempo Natal devia ter uns 90 mil habitantes, no máximo 100 mil. Era uma cidade pequena. Como tinha amigos que gostavam de cinema, começamos a assistir filmes assiduamente, quase todos os dias. Passei a me reunir com esse grupo de amigos na Juventude Operária Católica (JOC), uma organização da Igreja Católica. Aprendi muita coisa por lá. Por volta de 1960, o padre Barbosa, da Igreja Santa Terezinha – que sempre gostou de cinema – convidou a gente para participar de umas reuniões. Desses encontros surgiu o “Cineclube Tirol”, em 1961. Lá se reuniram os caras mais importantes da cidade, ainda até hoje: Moacy Cirne, Anchieta Fernandes, Nei Leandro de Castro, Juliano Siqueira, Marcos Silva, Dailor Varela, Fernando Pimenta, João Xavier, Antonio e Franklin Capistrano, Bené Chaves, Francisco Sobreira... O Cineclube foi um verdadeiro foco de novos intelectuais, artistas, críticos de cinema, poetas, romancistas, artistas visuais e políticos. Fizemos três filmes no Cineclube. Filmezinhos curtos, preto e branco, de oito milímetros. Naquele tempo não tinha a tecnologia de hoje. O resultado foi bem interessante, para a época.
ZONA SUL – Como eram esses filmes?
FALVES – Um foi baseado em um texto de Nei Leandro de Castro, “Romance da Cidade do Natal”, dirigido por Moacy Cirne. Outro teve o Forte dos Reis Magos como tema. Foi dirigido por Gilberto Stabili, Franklin Capistrano e Francisco Sobreira. O terceiro, dirigido por mim e Alderico Leandro, foi uma adaptação livre de um conto de Willian Soroyan: “O Ousado Rapaz do Trapézio Suspenso”. Fiz esse filme porque sempre gostei da literatura americana, e pelo fato de o contista Willian Soroyan ter me impressionado. Também porque me identifiquei com o personagem. No fundo eu achava que era o ousado rapaz do trapézio suspenso. O filme ficou legal, mas perdemos todas as películas. Não existe mais nada desses filmes. A película é muito perecível, especialmente aquela antiga.
ZONA SUL – Depois do emprego como entregador de jornais, que rumo a sua vida tomou?
FALVES – É bom dizer que, mesmo trabalhando nessa função, eu estudava no Colégio Alberto Torres. Meu único diploma acadêmico é o ginásio. Como sempre gostei de cinema, de arte e de ler, a leitura me orientou melhor para a vida. Junto com o JOC - que exigia um pouco de leitura - e trocando conversas, terminávamos entrosando os conhecimentos. Porém, eu precisava trabalhar. Depois de passar por “A República” e o “Diário”, fui trabalhar como ajudante de sacristão, na Catedral.
ZONA SUL – Existe essa profissão?
FALVES – Não tem ajudante de pistoleiro? Por que não teria ajudante de sacristão? Interessante é que a minha mãe sempre foi protestante, mas eu me desviei e fui para o catolicismo.
ZONA SUL – É raro um artista assumir que tem uma religião.
FALVES – Não sou frequentador assíduo, mas lá dentro sinto que a coisa da religiosidade, da Igreja Católica, tem muita força sobre mim.
ZONA SUL – Você seria um “católico do IBGE”?
FALVES – Acho que sim. Sou aquele católico que aparece na estatística, mas pouco comparece às missas. Depois da experiência com o padre, fiz de tudo. Até vendi cocada e laranja na praia, pra escapar. Em 1976 fui a trabalhar na Tipografia Galhardo, que era embaixo da “Boate Arpége”. Comecei varrendo e ajudando na limpeza. Depois, aprendi a profissão de gráfico. Nesse trabalho, me especializei em cortar papel. Sempre gostei de papel, de sua parte física. Esse primeiro emprego de carteira assinada data de 1957. Trabalhei lá até 1964. De lá fui para a Livraria Ismael Pereira, tomar conta do depósito, de todo almoxarifado que chegava. Por isso é que me arrisco a dizer que fui o primeiro cara a ler “Ulysses”, de Joyce, em Natal. Quando veio a primeira remessa, quando abriu a caixa, eu já comprei um exemplar. Parte do dinheiro que eu ganhava trabalhando ficava lá mesmo, porque eu sempre comprava muito livro. Depois de Valter Pereira, onde fiquei durante cinco anos, passei um período de bobeira, naquela coisa de porra louca.
ZONA SUL – Você tentou sobreviver da arte?
FALVES – Nunca sobrevivi de arte, antes pelo contrário. Do pouco salário que recebia, gastava comprando material, tirando cópias e enviando meus trabalhos pelo correio. Nunca ganhei dinheiro com arte, salvo – evidentemente - aqui e acolá, quando fazia uma exposição ou acontecia algo diferente e eu vendia um ou dois trabalhos. Mas isso não é suficiente para sobreviver. Por ter consciência disso, nunca me arrisquei. Aliás, até me arrisquei nesse período entre 1968 e 1971, mas não deu certo.
ZONA SUL – Como foi essa experiência?
FALVES – Horrível! Eu morava em Mãe Luiza com o meu irmão, Natanael Virgínio, que era jornalista da “Tribuna do Norte”. Ele trabalhou lá durante 21 anos, depois foi para o “Diário”. Vivi esse período na porra-louquice de só ficar curtindo, tomando birita e tirando onda. Passei dois anos sem trabalhar. Nessa época conheci todo tipo de droga. Tinha uma lenda, na cidade, dizendo que a fumaça da maconha fazia o usuário adormecer para os ladrões roubarem. (risos).
ZONA SUL – A droga ajuda o artista a produzir mais?
FALVES – Depende muito. Eu não gosto de fazer nada drogado, nem com bebida. Não gosto de cocaína, nem de pico, a cerveja é a minha droga predileta. A mim a droga não estimula. Só trabalho sem o efeito da droga. Sou um cara totalmente metódico. Todo meu trabalho é feito com linhas, precisão matemática e tal.
ZONA SUL – Mas você estava contando sobre seu período de porra-louquice...
FALVES – Fiquei nessa vida até que Pedro Vicente, sabendo que eu estava desempregado, me arranjou um trabalho na Tipografia Relâmpago, na Ribeira. Fiquei lá durante 15 anos. Me tornei chefe de oficina e editei meus primeiros livros lá. Tipograficamente, ainda sem a tecnologia do offset. Eu aproveitava a sobra de papel. Antigamente, quando se comprava uma resma de papel, sempre vinha uma folha de suporte em cima e outra embaixo. Resolvi aproveitar essa sobra para fazer um livro meu. Não tinha custo para a empresa. Consegui produzir um livro “fodidamente” bonito, “Elementos da Semiótica”, em 1982.
ZONA SUL – Quando foi sua primeira exposição?
FALVES – Foi em 1966, na Galeria de Artes da Praça André de Albuquerque, durante a administração do prefeito Agnelo Alves. Minha exposição foi a primeira ação da proposta cultural dele de fazer a arte natalense crescer. O problema é que depois ele foi cassado e a coisa não andou. Essa minha exposição estava prevista para permanecer um mês, mas durou apenas uma semana. Só soube há pouco tempo que essa exposição talvez tenha sido censurada por conta da igreja que tinha em frente. Até então eu pensava que tinha sido censura da política.
ZONA SUL – O que você expôs que poderia ser censurado?
FALVES – Tudo! (risos). Ou seja, nada! (mais risos). Tinha uns nus, mas eram nus bem feitos, sem escancaramento.
ZONA SUL – Quer dizer que era uma exposição erótica, apoiada pelo prefeito.
FALVES – Exatamente, recebi apoio oficial da Prefeitura de Natal. Quem me apresentou artisticamente à cidade foi Nei Leandro de Castro. Naquele tempo não tinha televisão. Dei entrevista na “Rádio Cabugi”. Dailor Varela fez o texto do catálogo. Era um catálogo simples, naquele tempo era comum fazer coisas simples. Não tinha offset, nem porra nenhuma. No ano seguinte à proibição dessa exposição, eu, Dailor Varela, Marcos Silva, Alexis Gurgel e mais dois amigos resolvemos fazer uma exposição em um cabaré, só para tirar onda. Como na praça foi proibido, resolvemos fazer a exposição no “Francesinha”, que era um local de dança onde você marcava e pegava o itinerário. Essa exposição foi um terror, a sociedade toda de Natal foi. Até Luiz Maria Alves, que mandava no “Diário de Natal”, foi. A divulgação foi só em jornal e rádio. Dailor trabalhava na “Tribuna do Norte” e Alexis no “Diário de Natal”.
ZONA SUL – Qual a reação das pessoas ao chegar no “Francesinha”?
FALVES – Gostaram muito. Passados quarenta e tantos anos, ainda encontro gente comentando: “você é aquele cara da exposição”. Aí eu pergunto qual exposição, mas já sabendo que ele vai responder que é a do “Francesinha”. Há dois anos encontrei um que me fez essa pergunta.
ZONA SUL – Você foi um grande consumidor de revistas eróticas? Onde comprava?
FALVES - Sempre gostei de comprar livros e revistas. Tenho fixação por fotos, imagens. Eu comprava no Sebo de Cazuza, que funcionava na Rua Ulysses Caldas, em frente ao Camelódromo. Eu comprava muito livro e aquelas revistas proibidas de nudismo. Na ótica de hoje, eram publicações pudicas. Cazuza camuflava, escondia as revistas por baixo das outras. Quem comprava, já sabia onde procurar. Frequentei outros sebos e livrarias, como a Livraria Universitária, que de 1965 até setenta e pouco foi importante ponto de encontro da cidade.
ZONA SUL – Nessas exposições você vendeu muito?
FALVES – Não, só ganhei mixaria com elas. A exposição na qual ganhei mais dinheiro foi a do último “Encontro de Escritores de Natal”, quando roubaram uns trabalhos meus e eu fui indenizado.
ZONA SUL - Seus trabalhos foram expostos e sua obra divulgada em vários países da Europa e das Américas. Você tem memória dessas coisas?

FALVES – Tenho todo esse material arquivado em casa: catálogos, livros, documentações, revistas... O ponto mais alto que cheguei como artista foi ter um trabalho meu publicado na revista “Art in América”, que é editada nos Estados Unidos. É a revista de arte mais importante. Um crítico da revista escreveu sobre a exposição organizada por uma poetisa brasileira que mora em Austin, no Texas, Regina Vater. Essa exposição, em 2002, contou com 57 poetas brasileiros ligados à visualidade, poetas semióticos. Entre esses poetas estão Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Humberto de Campos, Caetano Veloso e sete do Rio Grande do Norte. Tudo isso por conta daquele movimento que nós criamos, o “poema/processo”, de 1967. 
ZONA SUL – Em quais circunstâncias o “poema/processo” foi criado em Natal?
FALVES – A coisa começou com Moacy Cirne, que também pertencia ao “Cineclube Tirol”. Ele viajou, em 1965, ao Rio e voltou com uma série de novidades, entre elas um exemplar da revista “Invenção”, publicação literária criada pelos poetas concretos. Apesar de consolidado no Brasil, o movimento da poesia concreta, criado nos anos 1950, ainda era visto com reticências... Anos depois, um dos fundadores da poesia concreta, o poeta Wlademir Dias-Pino, criou uma dissidência. Ele resolveu se separar do pessoal por questões que nunca contou. Wlademir criou um método, um manifesto, com seus poemas espaciais contidos nos livros “Ave” e “Solida”. Com Moacy no Rio, a coisa foi se amplificando. Moacy, Dias-Pino, Alvaro de Sá e Neide de Sá criaram um intercâmbio. Com Moacy sempre voltando a Natal e trazendo as novidades, resolvemos lançar o movimento poema/processo simultaneamente em Natal e no Rio de Janeiro, em dezembro de 1967. A tendência era a de substituir a palavra e dar mais ênfase à imagem. Combinava perfeitamente com a nossa geração, toda ela fanática por cinema.
ZONA SUL – Como o poema/processo extrapolou o eixo Rio-Natal?
FALVES – A partir de exposições que fizemos em outras capitais, especialmente do Nordeste. O pessoal da poesia concreta se concentrava no centro (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais) e no exterior. Resolvemos investir no Nordeste. Realizamos exposições em João Pessoa, Fortaleza, Recife... Outras pessoas foram se engajando, como José Nêumane Pinto, que fez poema/processo quando morava em Campina Grande. Walter Carvalho, aquele cineasta e fotógrafo paraibano, também fez. O maestro pernambucano Marcus Vinicius de Andrade, que é uma figura genial, foi outro que mexeu com poema/processo. Dessa forma o poema/processo, aos poucos, foi se espalhando.
ZONA SUL – Como o movimento chegou ao exterior?
FALVES - Em 1969 fomos convidados para participar da “Exposição Internacional de Novíssima Poesia”, no “Instituto Torcuato di Tella”, em Buenos Aires.  Como não tínhamos condições financeiras de ir, mandamos os poemas. Nossos trabalhos fizeram grande sucesso. Coincidiu que estava passando por lá o poeta francês Julien Blaine. Ele viu, documentou boa parte dessa exposição e publicou em uma revista cultural francesa. Assim o poema/processo tomou um rumo mais internacional. O poema/processo sempre foi de encontro ao livro tradicional. A gente sempre preferiu produzir páginas soltas, e enviar para centros culturais e artísticos dentro de envelopes. Dessa forma a ideia foi se espalhando. Nesse período também começaram a surgir publicações alternativas. A xerox estava surgindo, de forma embrionária, para substituir o mimeógrafo. A gente foi se adaptando às novas tecnologias e fazendo publicações as mais variadas possíveis. As tiragens eram pequenas, de 100 cópias. Mas elas eram enviadas para pessoas estrategicamente selecionadas, até para fora do Brasil. A gente também recebia experiências análogas às que estava fazendo, relacionadas com a semiótica.
ZONA SUL – Como os irmãos Campos, Décio Pignatari e o restante da turma da poesia concreta recebeu o poema/processo?
FALVES – Eles não gostaram muito e não gostam até hoje, por conta dessa briga com Dias-Pino. Trataram como uma dissidência, sem alimentar muita conversa. Soube recentemente que, depois da morte de Haroldo de Campos, Augusto de Campos tentou entrar em contato com Wlademir Dias-Pino, mas ele recusou. Deve ter sido uma coisa muito chocante para Wlademir até hoje agir dessa forma. Tenho uma afinidade muito grande com ele, que também foi gráfico. Os trabalhos de Wlademir são perfeitos. Cada página é uma surpresa que você tem. ZONA SUL – O poema/processo conseguiu criar um público, uma legião de fãs ou seguidores em Natal?

FALVES – Seguidores, com certeza. Duas dezenas, ou talvez mais. Posso até citar o nome de pessoas que, direta ou indiretamente, sofreram influência do poema-processo: Alderico Leandro, Alexis Gurgel, Bianor Paulino, Franklin Capistrano, Enoque Domingos, Venâncio Pinheiro, Racine Santos, Iaperi Araújo, Bené Chaves... Nei Leandro fez poema processo durante cinco anos. Resolvemos fazer uma parada tática em 1972, para avaliação. Cada artista continuou fazendo suas experimentações da maneira que quis.
ZONA SUL – Você, por exemplo, foi fazer o que?
FALVES – Continuei pesquisando na área da visualidade, sempre desenhando muito. Arrisco-me a dizer que sou um bom desenhista. Gosto do preto e branco, mas fiz experiências com várias técnicas. Tentei pintar, no início, mas devido a um problema de intoxicação, perdi o interesse. Gosto mesmo é de desenho ou de trabalhar com colagens e montagens...
ZONA SUL – O erotismo é o tema principal da sua obra?
FALVES – Não. Sou mais conhecido pela parte ótica, pelo trabalho com cores e tal. Esse é o meu carro-chefe, mas trabalho em várias vertentes.
ZONA SUL – Vamos falar sobre os seus trabalhos.
FALVES – A ideia do primeiro, “Elementos da Semiótica”, é que livros não são feitos necessariamente com palavras, mas sim com ideias. É uma mistura - no sentido contrário - do que dizia Mallarmé (que um livro se faz com palavras, e não com ideias), com correspondências que troquei com Wlademir Dias-Pino. Meu livro trata das coisas da semiótica.
ZONA SUL – A ditadura militar o perseguiu de alguma maneira?

FALVES – Não. Quando o poema/processo surgiu, em 1967, a palavra ainda era fundamental. Hoje, não. A televisão está aí para provar que a imagem tem muito mais força do que a palavra. O regime militar não compreendia o nosso trabalho, não conseguia detectar o efeito simbólico e satírico dele. Por isso, nunca houve perseguição do ponto de vista político. A gente sempre agiu de maneira sorrateira perante a ditadura. Não só nós, do Rio Grande do Norte, mas os nossos colegas da Paraíba, do Rio de Janeiro, todo mundo agia assim. Na primeira exposição, no Rio, tinha um cartaz: “Abaixo a ditadura da palavra”. Da palavra, do verbo, e na política. Tinha um significado de duplo sentido. Defendia o fim da ditadura, em si, e a extinção da ditadura da palavra. A acadêmica, especialmente.
ZONA SUL – Amante das letras, você nunca pensou em seguir uma carreira dentro da academia, até mesmo para aperfeiçoar e embasar melhor o seu trabalho? Em outras palavras: por que você preferiu o autodidatismo?
FALVES – Nunca pensei em seguir uma carreira acadêmica porque me sinto mais à vontade estudando por conta própria. Óbvio que a questão econômica facilitou essa minha decisão. Nunca tive nada contra a academia, antes pelo contrário.
ZONA SUL – Então vamos voltar a falar sobre suas publicações. Depois de “Elementos da Semiótica”, o que veio?

FALVES – Publiquei o segundo, “Erótica”, pela Fundação José Augusto, em 1975. Mais uma vez sofri com a censura. Tarcísio Gurgel, que trabalhava na gráfica da Fundação, foi quem me convidou para preparar esse trabalho. O objetivo era lançar em dezembro, no final do ano, quando as pessoas gastavam um pouquinho com arte.  A publicação são onze gravuras de nus, impressas. Não sei por que cargas d’água, Sanderson Negreiros, que era presidente da Fundação, vetou a saída do livro, depois de tudo impresso. Depois de tomar conhecimento dessa censura, falei com Chico Alves - que era chefe da gráfica – e pedi para levar algumas cópias do livro. Ele autorizou. Peguei esse material e enviei para várias partes do mundo: Espanha, França, Bélgica, Estados Unidos... E também para vários jornais alternativos brasileiros, que viviam um “boom”. Resultado: o trabalho proibido aqui foi publicado em todos os jornais para onde mandei. Tenho tudo isso em casa, não é lorota. Cinco anos depois, quando Cláudio Emerenciano assumiu a presidência da Fundação, o livro foi liberado. Mas ficou só aquela coisa simbólica, pois o trabalho já tinha se espalhado pelo mundo.
ZONA SUL – Mais algum caso de censura?
FALVES – Sim, nos anos 1970. Eu tinha exposição agendada na galeria da “Biblioteca Câmara Cascudo”, que era dirigida por Zila Mamede. Antes de chegar na data, Diógenes da Cunha Lima assumiu a presidência da Fundação e cancelou a exposição. A censura se deu ainda em virtude da minha primeira exposição e do “Francesinha”. Dei entrevista a Djair Dantas, marido de Diva Cunha, no Diário de Natal. Ele avisou a Diógenes. No outro dia foram Zila Mamede e Mirabô Dantas pedir para eu reconsiderar, para retirar o que tinha dito ao jornal. Não aceitei. No final, concordei em retirar uns trabalhos que fiz com John Lennon e Yoko Ono nus e Jimi Hendrix com um baseado, além de outros dois, para a exposição ser viabilizada. Depois, nós fizemos as pazes: eu e a instituição Diógenes da Cunha Lima. Porque ele não é apenas uma pessoa, é uma instituição.
ZONA SUL – Depois desse, qual o livro seguinte?
FALVES – “Intersigno”, que tem uma apresentação de Dácio Galvão. É um trabalho de folhas soltas, para ser enviado. Em seguida, continuei fazendo experimentações, como livros de carimbo e, em 1978, realizei a exposição de arte correio “Olho Mágico”, na Cooperativa dos Jornalistas, em Natal. Mandei convite para vários artistas. Os cartões que eu enviei tinham só um círculo desenhado no meio, para o cara trabalhar da maneira que quisesse. Houve uma devolução grande e eu fiz essa exposição. Essa exposição foi feita em Recife (1979), João Pessoa (1980) e repetida em Natal (1982).
ZONA SUL – Quem mais mexeu com “Mail Art” em Natal?
FALVES – Fui o primeiro a mexer com isso, a convite de Clemente Padin, com quem eu me correspondia desde o início do poema processo. Ele me chamou, em 1974, para participar de uma exposição no Uruguai. Bosco Lopes tinha editado seu livro há um ano e pouco, e tinham sobrado algumas imagens. Fiz alguns cartões dele e os meus e mandamos. Essa foi a primeira exposição internacional de arte correio que teve a participação de artistas do Rio Grande do Norte. O meu poema relacionado a isso foi “Sorria”. Alexis Gurgel trabalhava no “Diário de Natal” e fez uma matéria de uma página. “Falves Silva: o operário comum, o artista maldito”. Por causa desse título, até hoje sou conhecido como artista maldito. (risos).
ZONA SUL – Quem influenciou você?

FALVES – Na literatura, Edgar Alan Poe, Dostoievski, Kafka e, sobretudo, James Joyce, em quem me espelho bastante. Também leio muito Umberto Eco. Filosoficamente, prefiro a semiótica de Charles Peirce e Giambattista Vico. Nas artes gráficas: Vladimir Dias-Pino, Décio Pignatari e os demais poetas que fazem referência à arte visual. No cinema sou entusiasta de Godard, Hitchcock, Fritz Lang, Nicholas Ray, Buñuel, Fellini e todo esse pessoal.
ZONA SUL – Na literatura você não recebeu influência de nenhum brasileiro?
FALVES – Guimarães Rosa. E no cinema, Glauber Rocha. Gosto também de Anselmo Duarte, especialmente de “O pagador de promessas”, apesar de os intelectuais considerarem meio careta a sua maneira de fazer cinema. O padrão dele é o americano, o de Glauber é o europeu. São dois cinemas diferentes.
ZONA SUL – Você se define como poeta, artista plástico ou como o que?
FALVES – Esse negócio de rótulo é meio complicado, mas sou um artista multifacetário. Gosto de experimentar linguagens, novas probabilidades dentro da visualidade. Acho que o artista tem que experimentar sempre.
ZONA SUL – Ao completar 70 anos, qual seria a homenagem que você gostaria de receber de Natal, a cidade que você escolheu para viver?
FALVES – Pelo menos que eu pudesse fazer uma exposição digna de quem está completando 70 anos. Um artista que vem trabalhando durante meio século tem que pelo menos tentar reverter essa coisa de que o santo de casa não faz milagre. Quero apresentar coisas inéditas e também fazer uma retrospectiva. Estou fazendo livros únicos de toda a minha trajetória. Já tenho 40 volumes prontos, um exemplar de cada. Se eu lançar esse material, o livro que cada pessoa comprar será único. Esse livro será como um objeto de arte. Como se fosse uma tela. ZONA SUL – Fale sobre suas mais recentes exposições.
FALVES – Fiz uma em Fortaleza, no lançamento da revista “Pindaíba”. A revista tem uma entrevista de Celinna Muniz comigo. A “Capitania das Artes” lançou uma edição especial da revista “Brouhaha” quando o poema/processo completou 40 anos. No ano passado fiz uma exposição no Beco da Lama, quando completei 69. Fiz de deboche, só pra curtir.
ZONA SUL – É melhor comemorar o 69 ou 70?
FALVES – Agora reiou-se! Particularmente, prefiro o 69. Mas acontece que a vida continua... (risos). Esqueci-me de contar que na década de 1980 criamos aqui em Natal (eu, Anchieta Fernandes e Franklin Capistrano) um jornal chamado “À Margem”. Nossa proposta, o próprio título do jornal já diz, era divulgar artistas que estavam à margem do sistema literário linear ou tradicional. A intenção era publicar abertamente, sem censura. O que o cara mandava, era publicado sem interferência editorial, mas a responsabilidade era dele. Editamos esse jornal de 1986 até 2001. Era distribuído gratuitamente. Saíram uns 35 números. A tiragem era de 500 cópias. Arte é uma maldição, não é todo mundo que gosta dela. A primeira tiragem de Ulysses, de Joyce, lá em Paris, em 1922, foi de mil cópias. Um ano depois ele voltou para saber como andavam as vendas e soube que apenas cento e poucos haviam sido comprados. Ou seja, só os intelectuais de Paris compraram o livro dele: Henry Miller, Hemingway, Scott Fitzgerald, Ezra Pound... A gente tirava 500 para mandar para as instituições e os amigos.
ZONA SUL – Você teve algum sonho que não conseguiu realizar no ramo da arte?
FALVES – Um sonho que tenho desde pequeno é o de ver meu trabalho publicado em livros didáticos. De certa maneira, eu consegui. Em Natal saiu uma edição do livro “Introdução da Cultura Norte-Rio-Grandense”, com 33 mil cópias, contendo uma boa referência e reprodução de alguns dos meus trabalhos. Em São Paulo, a “Editora Global” publicou, há uns dois anos, um trabalho meu para o ensino fundamental. O livro continha trabalho de oito poetas, dentre eles, o meu. Tenho trabalhos publicados em vários outros livros. Na Espanha, tem um de Álvaro de Sá: “A Poética de Vanguarda do Brasil”. Ele era crítico e grande poeta. Morreu há pouco tempo. Esteve em Natal com sua esposa, que também é poeta. Veio conhecer e dialogar comigo, Jota Medeiros e Anchieta Fernandes.
ZONA SUL – Geralmente a arte e a boêmia andam juntas. Essa afirmação é verdadeira no seu caso?
FALVES – Sempre fui meio boêmio. Não tive regras na minha juventude, pois fui meu próprio pai, já que não tive um por perto e a minha mãe era mais fácil de controlar.
ZONA SUL – Depois que veio morar em Natal você chegou a reencontrar seu pai?
FALVES – Ele esteve aqui uma única vez. Eu também estive em João Pessoa. Tirei umas férias e fui lá. Logo que cheguei a João Pessoa, comecei a tomar umas cervejas. Saí do bar e vi que estava passando o filme “A Doce Vida”, que eu já tinha visto em Natal. Entrei no cinema muito bêbado. Depois de algum tempo, fui ao banheiro. Vomitei e adormeci por lá. Mandaram chamar a polícia. Foi a única vez que fui preso. Depois de um banho me botaram em uma cela. Ainda bem que não havia outro preso, senão os caras tinham me comido e eu nem ia saber. No dia seguinte meu pai foi me buscar. Eu com uma vergonha danada. Nessa viagem foi a última vez que o vi.
ZONA SUL – Que recomendação ou orientação você daria a alguém que está tentando enveredar no campo da arte?
FALVES – A persistência é que faz o artista. Durante todo esse percurso conheci muita gente que se dizia artista, mas desistia. O artista é aquele que persiste, que continua fazendo. Fui a uma excursão no Recife e ouvi aquele famoso escultor, Brennand, contar que ele tinha um ajudante que era um “pintor arretado”. Certo dia o cara chegou pra Brennand e disse que não queria mais trabalhar com ele porque tinha comprado um caminhão e ia voltar para a cidade natal. Esse cara não era pintor, ele era motorista de caminhão!
ZONA SUL – A tecnologia lhe ajuda?
FALVES – Não consegui me adaptar ao computador, até porque o computador não faz arte. O artista é quem usa a imaginação e utiliza um determinado meio para transformar aquela ideia em um trabalho. Eu faço manualmente, outros usam o computador. Eu não estou sozinho. Outros poetas da minha geração também não usam. Caetano Veloso disse que não tem nem celular!
ZONA SUL – Quem seria o herdeiro do seu trabalho, a pessoa que continuaria a sua obra? Você está passando seu conhecimento para alguém?
FALVES – Já passei pra muita gente nesse período todo. Herdeiro, eu diria que Jota Medeiros é um deles. Tem Avelino de Araújo, também.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do jornal.
FALVES – Aprendam a ler. Não só as palavras, mas, sobretudo a imagem. Uma boa imagem vale mais do que mil palavras. Já dizia o velho ditado chinês. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Entrevista: Tertuliano Aires



 AS CABRITAGENS DO BARDO DA BOCA SUJA

Quando fui entrevistar Tertuliano Aires, muito já tinha ouvido falar a respeito de Cabrito. Mas pouco conhecia das suas músicas - que muitos classificam como pornográficas. É bom destacar que Tertuliano não concorda com essa classificação: prefere chamar suas composições de “pornofônicas”. Bem acompanhado por Roberto Fontes, Ronaldo Siqueira e Costa Júnior - trio já iniciado no universo “cabritiano” – a entrevista ocorreu em frente à Lanchonete Zé Reeira, no centro de Natal. A conversa nem precisou ser movida a álcool para se tornar apimentada. Até porque, Tertuliano não bebe. E nem precisa. Em suas respostas, ele alternou momentos de Tertuliano e de Cabrito. Na edição do texto a seguir, optamos por passar um pente fino e extirpar do texto os palavrões, digamos assim, mais “cabeludos”. Mesmo com essa precaução, é bom deixar o alerta de que a porção Cabrito de Tertuliano - que conheceremos a seguir - não é recomendável para menores. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Como é o seu nome completo?
TERTULIANO – Tertuliano Aires Primo Neto. Meu nome é assim porque sou neto de Tertuliano Aires Primo.
ZONA SUL – Essa sua explicação tem lógica... (risos)
TERTULIANO – É. Foi por isso que colocaram esse nome em mim, que é o nome do meu avô.
ZONA SUL – Onde você nasceu?
TERTULIANO – A família “Aires” é de Pau dos Ferros, mas eu nasci em Mossoró.
ZONA SUL – O que o seu pai fazia da vida?
TERTULIANO – Meu pai foi um tremendo boêmio. Foi o cara mais “bola sete” de Mossoró. Nos anos 1960 ele já se envolvia com coisas erradas. Dizem, inclusive, que ele estava envolvido em um assalto em uma salina que ocorreu naquela época. Até hoje ninguém sabe o motivo de não ter havido processo e de a polícia nunca tê-lo acusado. Não sei se a história é verdadeira. Meu pai se chamava Rui Aires. A principal função que ele exerceu foi a de herdeiro. Meu avô paterno era muito rico. Meu pai viveu gastando o patrimônio que herdou. À medida que ia recebendo, torrava.
ZONA SUL – O rico era o “Primo”?
TERTULIANO – Não, era o pai dele, o meu avô.
ZONA SUL – É isso que estamos falando: o rico era o Tertuliano Aires Primo...
TERTULIANO – É verdade!
ZONA SUL – Como ele amealhou esse patrimônio para seu pai gastar depois?
TERTULIANO – Meu pai foi embora de Pau dos Ferros para Mossoró após uma briga entre os “Aires” e os “Fernandes”, por causa de uma banda de música. Lá ele montou uma fábrica de chocalho e lamparina. Essa empresa virou uma retífica de motores e uma fundição. Depois ele comprou loja de peças e posto de gasolina. Instalou também uma fábrica de cordas e adquiriu uma fazenda para plantar o agave necessário para fazer as cordas. Meu avô também montou uma fábrica de carrocerias e comprou imóveis na cidade. Dessa forma o patrimônio foi crescendo. Quando o velho morreu, os filhos não quiseram continuar com os negócios. Eles dividiram e cada um gastou o seu. Dessa forma, meu pai foi boêmio a vida toda: só gastando.
ZONA SUL – O dinheiro foi suficiente?
TERTULIANO – Quando ele morreu, faltou dinheiro e sobrou boemia (risos). A única coisa que restou foi a casa em Natal. Ela existe até hoje.
ZONA SUL – Fale sobre a sua mãe.
TERTULIANO – Terezinha de Medeiros Aires era o seu nome. Trabalhou como costureira. Vinda de uma família pobre, ela casou com um rapaz rico. Vivia submissa. Boa parte da vida foi ela quem cuidou da gente, enquanto meu pai gastava dinheiro. Talvez meu pai achasse que herança fosse parecida com buraco, que quanto mais você tira, mais cresce. Herança é o contrário: quanto mais você tira, menor fica. Minha mãe foi quem trouxe a gente para Natal, quando eu tinha 12 anos. Ela veio trabalhar com um irmão nas Casas Gomes. Hoje estou com 56 anos.
ZONA SUL – O que você recorda da sua época em Mossoró?
TERTULIANO – De tudo. A gente morou também em Fortaleza, no ano de 1964, quando meu pai foi arrendatário de um restaurante por lá. Mas Mossoró é toda a minha memória de infância, porque foi lá que comecei a ter consciência das coisas. Lá em casa, apesar de tudo, tinha um rádio e a gente escutava muito Coronel Ludugero, Barnabé, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro... No rádio você não pode selecionar, então, tudo o que tocava a gente ouvia. Voltei a morar em Mossoró de 1965 a 1968, ano em que mudamos para Natal. ZONA SUL – Como foi sua formação escolar em Mossoró?
TERTULIANO – Estudei no Grupo Escolar Modelo. Fiz parte do primário em Mossoró. Terminei em Natal, no Instituto Municipal João XXIII.
ZONA SUL – Seu pai estudou?
TERTULIANO – Não. Apesar de ele ter certo conhecimento, não teve um nível de instrução elevado.
ZONA SUL – O lado da esculhambação você herdou dele...
TERTULIANO – Possivelmente. Não herdei dinheiro, só o espírito ruim.
ZONA SUL – Como o sexo é tema recorrente no seu trabalho musical, é quase obrigação indagar onde se deu sua iniciação sexual. Foi em Natal ou em Mossoró?
TERTULIANO – Foi há tanto tempo que não tenho nem memória pra isso. Mas lembro que na infância, em Mossoró, conheci uma menina no colégio e me apaixonei por ela. Nem sei se ela ainda existe hoje em dia, mas pensei muito nessa garota nos momentos solitários que passava no banheiro lá de casa. Eu tinha uns 12 anos. Talvez minha iniciação sexual tenha sido pensando nessa menina, que, por sinal, era lindíssima.
ZONA SUL – Qual o motivo da mudança da sua família para Natal?
TERTULIANO – Nos mudamos por causa da situação financeira. O negócio do meu pai, que era gastar herança, não tinha muito futuro e nem a regularidade que proporcionasse a manutenção da família. Em outras palavras: meu pai estourava todo o dinheiro que recebia. Quando ele vendia uma casa, comprava logo um carro e torrava o resto do dinheiro. Assim os recursos foram se exaurindo, em Mossoró. Como a minha mãe costurava bem, esse seu irmão – Geraldo Gomes – sugeriu que ela mudasse para Natal, cidade que tinha um mercado de trabalho melhor. Ela mudou e ficou costurando pra fora, no bom sentido. A família toda veio, inclusive o meu pai. A gente morou um tempo no Alecrim e depois em Lagoa Seca.
ZONA SUL – Foi bom trocar Mossoró por Natal?
TERTULIANO – Eu era uma criança de 12 anos que praticamente não conhecia nada. Só tinha ido a Fortaleza. A própria viagem de Mossoró para Natal já foi uma aventura. Foi excitante conhecer Lajes, Angicos, Açu... Nesse tempo não tinha asfalto. A gente saía, em cima de um jipe, às quatro da manhã e chegava meia-noite. Para minha idade, foi marcante. Eu não tinha ideia do que encontraria em Natal. Quando cheguei, logo percebi que Natal era completamente diferente do que se falava em Mossoró. Diziam que aqui tinha lobisomens e falavam também na Viúva Machado. Mas a primeira coisa que vi, na rodoviária, foi uma criança apanhando carteira vazia de cigarro para brincar como se fosse nota de dinheiro. Na mesma hora, pensei: é igual a Mossoró, não tem nada de diferente. Menino é menino em todo canto. Em Natal despertei para tudo na vida.
ZONA SUL – Onde você veio estudar?
TERTULIANO - Na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte. Lá era o maior quartel, a melhor escola não só para a educação formal, mas também como preparatório para a própria vida. Não era mole. Tinha muita gente vivida, uma diversificação imensa. Foi uma experiência incrível. O aluno praticamente não tinha identidade. Em uma escola com dois mil alunos, você não tem identidade, é apenas um elemento do bando.
ZONA SUL – Você foi fazer qual curso na ETFRN?
TERTULIANO – Fiz exame de admissão para o ginásio e depois cursei Mecânica. No ginásio a gente passava por todos os cursos: praticava nas oficinas de Eletrotécnica, de Mecânica, e nas demais, pra ir pensando no que queria fazer. Ingressei para o técnico no curso de Mecânica.
ZONA SUL – Você concluiu o curso?
TERTULIANO – Sim. Quando terminei, fiz vestibular. Apesar de a ETFRN primar pelo ensino técnico, foi lá onde descobri que queria trabalhar na área de humanas. Fiz vestibular para Ciências Sociais. Na UFRN me envolvi com João Emanoel, com Juliano Siqueira, Geovani Rodrigues e essa rapaziada toda do movimento estudantil da época.
ZONA SUL – Você teve participação ativa no movimento?
TERTULIANO – Não, medíocre. Eu era apenas mais um elemento do Diretório Acadêmico. Não tive nenhuma participação significativa ou efetiva, como Juliano e François Silvestre tiveram.
ZONA SUL – Você correu algum risco?
TERTULIANO – O pessoal da minha turma foi preso, mas a mim não incomodaram. João Emanoel tinha um rádio que sintonizava ondas curtas. A gente pegava a Rádio da Albânia, a Rádio Central de Moscou e outras emissoras do lado de lá do muro. Ouvia as matérias, datilografava, mimeografava e deixava nas salas-de-aula do Campus e no restaurante universitário. Dava uma confusão grande, mas ninguém nunca descobriu que era a gente.
ZONA SUL – Nessa época você já tinha algum envolvimento com a música?
TERTULIANO – Morando em Mossoró, eu já tinha a mania de cantar. Ficava deitado em uma rede, cantando. Mamãe achava que eu cantava bem. Ela prometeu que um dia compraria um violão para me dar. Em 1970 ela comprou um violão na loja de instrumentos musicais de Gumercindo Saraiva. Era um Giannini. Graças ao violão conheci uma porrada de gente boa, como o pessoal do “Alcateia Maldita” e os boêmios do Bar do Coelho.
ZONA SUL – Você aprendeu a tocar sozinho?
TERTULIANO – Sim, porque naquela época era muito difícil ter alguém que lhe ensinasse. Frequentei a Escola de Música, mas não tive saco. Estudei em casa, com aquelas revistinhas de cifras. Depois fui pegando música de ouvido, desenvolvendo e aprendendo.
ZONA SUL – Você começou logo a compor?
TERTULIANO – Comecei quando conheci a rapaziada do “Alcateia Maldita”, que era Raul, Fernandão, Edinho, Joca e muita gente boa. No início, o “Alcateia” tocava música de Jimi Hendrix, Rolling Stones, Beatles... Eu e Nagério lançamos a proposta de tocar nossa própria música. A gente começou a incutir na rapaziada essa história do autoral. E vingou.
ZONA SUL – Sua primeira banda foi o “Alcateia”?
TERTULIANO – Foi o meu primeiro entrosamento com música. Mas eu só me apresentei com eles esporadicamente. Era tanto músico bom que eu ficava meio encabulado.
ZONA SUL – Por que você se afastou do “Alcateia”?
TERTULIANO – Comecei a namorar uma moça e ela engravidou. Com ela tive meus filhos, que, graças a Deus, já estão todos criados. Então, me afastei do “Alcateia” porque tive que trabalhar. Consegui um emprego de representante de remédios na Aché e fui viajar pelo interior. Esse trabalho permitiu que eu me aproximasse de músicos do interior como João de Deus, Miltança, Carlança, Carlos Bem, Almir de Areia Branca, Dedé Nepó e vários outros. Depois voltei para trabalhar em Natal como representante de um distribuidor de autopeças de Recife. Nas folgas eu estava sempre no bar de Toinho Sete Cordas, ou mesmo andando com Pael ou com o pessoal da capoeira da Avenida Três.
ZONA SUL – Qual curso você fez na Universidade?
TERTULIANO – Fiz vestibular para Sociologia. Passei, mas não concluí porque a namorada engravidou e tive que abandonar o curso para trabalhar. No tempo em que eu fazia faculdade trabalhava na Datanorte. Saí de lá porque ganhava um salário mínimo e não era o bastante para sustentar a parada. Fui trabalhar como representante e, viajando, não podia continuar frequentando a universidade. Nunca tranquei matrícula. Simplesmente abandonei, desapareci.
ZONA SUL – Seu destino era mesmo a música...
TERTULIANO – Música de sacanagem, por sinal. Tentei de todas as formas fazer composições que as pessoas pelo menos se interessassem em ouvir. Mas me chamaram era de doido e menosprezaram esse trabalho. Agora, compondo esse tipo de música que eu classifico de pornofônica, todo mundo me respeita. Já fui até entrevistado por Margot Ferreira para a TV Cabugi! Pelo andar da carruagem, daqui a pouco vai ter música minha na novela.
ZONA SUL – Essa entrevista que você deu a Margot foi veiculada em qual programa?
TERTULIANO – No RN TV. A gravação foi difícil, pois eu tive que contar as minhas histórias, mas sem dizer as palavras certas. Fiquei só arrodeando, como diz o natalense. Só pelas beiradas. Também gravei para o programa Xeque-Mate, da TV Universitária, feito por alunos da UFRN. Durou uma hora. Mais de 50 alunos se ofereceram para me entrevistar. Eu soube que normalmente é difícil arrumar voluntários entre os estudantes de jornalismo para gravar esse programa. No meu dia, quando a entrevista acabou, fui aplaudido. O estúdio estava cheio de gente, o povo fotografando. Distribuí até autógrafos.
ZONA SUL – Como surgiu o personagem Cabrito?
TERTULIANO – Na época do “Alcateia” eu, Nagério, Raul e Edinho compusemos uma canção chamada “Feira do Alecrim”. Muitos anos depois, Cida Lobo gravou essa música, mas não deu crédito nem a mim e nem a Nagério, como compositores. Não sei se por preguiça, conveniência ou outro motivo qualquer, não botaram o nome da gente. Então resolvi compor uma música que, no dia em que gravassem, o cantor certamente faria questão de dizer quem era o autor. Hoje em dia ninguém faz questão de dizer que é parceiro de Cabrito. Alguns que são parceiros, até negam. (risos) Hoje tenho certeza que ninguém vai querer dizer que é autor das porcarias que eu componho.
ZONA SUL – E o apelido Cabrito, como surgiu?
TERTULIANO – Eu era conhecido como Terto, mas achei que devia bolar um nome diferente para esse personagem. Então lembrei que o cabrito é símbolo do demônio. Não sei se vocês já estudaram ocultismo, mas o cabrito - bafomé, o bode de mendes - é o símbolo do demônio. Eliphas Levi já escreveu sobre isso. Baseado nesse fato, pensei no nome Cabrito. Depois disso, compus uma música chamada “Minha história” falando que minha primeira namorada foi uma cabrita. Mas é bom ressaltar que a letra da música se refere à história do personagem, e não à minha.
ZONA SUL – Essa letra não tem mesmo nenhuma semelhança com a realidade?
TERTULIANO – Não, de jeito nenhum. Até porque, até hoje só transei com cabritas bípedes.
ZONA SUL – Quer dizer que você tentou mesmo fazer música séria, mas não deu certo?
TERTULIANO – No começo não deu muito certo, mas depois as pessoas acabaram gostando desse meu trabalho “sério”. Resolvi enveredar por essa linha pornofônica quando, em minhas andanças como representante, encontrei em uma loja um cara com uma fita só de paródia com música de sacanagem. Achei interessante porque mais de vinte pessoas estavam em volta do carro ouvindo aquelas músicas com ele, na maior gargalhada. Inicialmente pensei em comprar um karaokê para compor letras de sacanagem em cima de músicas já conhecidas. Mas o maestro Franklin Nogvaes sugeriu que se eu compusesse as músicas ele faria os arranjos e a gente gravaria.
ZONA SUL – Você lançou logo um CD?
TERTULIANO – Não, na época lancei uma fita cassete de 46 minutos. E esse negócio tomou uma proporção que nem eu mesmo esperava. Começou como brincadeira, mas, hoje, se vou a uma festa em qualquer lugar - pode ser em uma fazenda lá na caixa bozó - termina alguém me reconhecendo. Certa vez fui fazer uma viagem com Zé Dias e Khrystal para Maceió. Zé Dias disse que se eu fosse reconhecido lá, ele se suicidava. (risos)
ZONA SUL – Zé Dias está vivo até hoje, é sinal de que você não foi reconhecido.
TERTULIANO – Não me reconheceram, mas lá fui apresentado como o parceiro de Khrystal na música “Coisa de preto”, que faz grande sucesso na capital de Alagoas.
ZONA SUL – Como você divulgou as músicas da fita?
TERTULIANO – No corpo a corpo. No começo o trabalho foi recebido com muito preconceito. Existem histórias escabrosas e folclóricas com relação a essa fita. Por exemplo: um cara comprou uma dessas fitas e deu ao dono de uma empresa de ônibus que faz a linha Ceará Mirim-Natal. Esse empresário tinha tanta intimidade com seus funcionários que os motoristas costumavam abrir o carro dele e pegar uma fita qualquer para tocar durante a viagem. Certo dia um motorista escolheu uma fita, levou para o ônibus e, quando iniciou a viagem, fechou a porta que separa a cabine e botou pra tocar, baixinho, como som ambiente para os passageiros. Em pouco tempo chegou uma mulher braba, dando porrada na porta. “Que sacanagem é essa?”. Quando o motorista foi ver, era a minha fita que estava rolando. (risos) Minha mãe, quando escutou, pediu que eu não dissesse mais em canto nenhum que era filho dela.
ZONA SUL – E a sua mulher e seus filhos: o que acham desse trabalho?
TERTULIANO – Minha mulher detesta, minha filha também não gosta. Mas meu filho é meu fã incondicional. Ele mora em Recife.
ZONA SUL – Você já foi preso alguma vez?
CABRITO – Não. Sou esguio, cara. Sou escorregadio.
ZONA SUL – Qual foi o passo seguinte, depois da fita?
TERTULIANO – A gente transformou essa fita em CD. O mesmo repertório. O lançamento foi no Vero’s Bar, que é uma casa de meninas de vida fácil. Aliás, é bom que se diga que, na verdade, elas levam uma vida é bastante dura.
ZONA SUL – Como surgiu a ideia de lançar o CD em um cabaré?
TERTULIANO – A ideia foi de Nelson Rebouças. A gente colocou gente dentro desse cabaré que não cabia. A casa era pequena, mas 250 pessoas conseguiram entrar. Foi um caos, foi um verdadeiro cabaré! Voltou gente da porta porque não conseguiu entrar. A gente quase não conseguiu tocar porque ficavam atropelando os instrumentos. Tem alguns vídeos dessa festa no Youtube, para quem quiser ter uma ideia do que estou falando.
ZONA SUL – Como reagiram a esse seu trabalho?
TERTULIANO – Fiquei maravilhado, sobretudo porque tinha muita menina linda cantando a minha música. Eu já tinha visto homens, adolescentes, cantando as canções. Depois ainda recebi muita gente no camarim improvisado.
 ZONA SUL – Tinha até camarim?
CABRITO – Na verdade, era um quarto de despejo com um ventilador velho, móveis velhos... Esse era o nosso camarim.
ZONA SUL – Quem acompanhou você nesse show no Vero’s Bar?
TERTULIANO – Minha banda, chamada “Os Caprinos”. Essa banda é encabeçada pelo maestro Franklin Nogvaes (teclado) e conta com Ricardo Baya (guitarra), Sérgio Mendonça (baixo) e John Fidja (bateria). Às vezes, um desses não está disponível e a gente convoca outro. Fiz bem uns três shows no Castelinho para lançar esse meu primeiro CD, que é chamado “Os nominhos que ela tem”.
ZONA SUL – É verdade que ao final de um dos seus shows realizados em cabaré uma das prostitutas comentou: “ainda bem que acabou essa baixaria...”?
TERTULIANO – (risos) Já pensou um negócio desses? Outro dia, eu estava tocando em um cabaré quando a dona chegou pra mim e disse: “meu senhor, respeite a minha casa... A gente tem um cliente lá dentro”. Um dia depois do lançamento do CD, o jornalista Mário Ivo fez até uma crônica e publicou no seu blog. O título era “As putas ficaram putas”. As meninas disseram que nesse dia do show só conseguiram fazer algum programa depois da minha apresentação. Esse show foi no dia 1º de maio de 2010. A capa do CD é de Venâncio Pinheiro.
ZONA SUL – Quem mais, além de você e Franklin, participou das gravações desse disco?
TERTULIANO – Só o maestro Franklin Nogvaes teve coragem. Mas é bom destacar que ele não tem culpa nenhuma! (risos)
ZONA SUL – É verdade que algumas bandas estão montando repertório inspirado no seu trabalho?
TERTULIANO – Sim. Tem, por exemplo, o pessoal do “Cool do Elefante”. Estou fazendo escola. Por outro lado, consegui algumas inimizades dentro do movimento feminista. Algumas me destetam por achar que eu detrato as mulheres. Mas ocorre que faço justamente o contrário: eu faço é uma louvação à mulher. Tem uma banda chamada “Las Cabritas Malditas” que está preparando um show que, na visão delas, tem o objetivo de detratar os homens, como elas acham que eu detrato as mulheres. Estão preparando uma carta aberta a mim. Fui convidado – e já aceitei – para estar no palco no momento da leitura.
ZONA SUL – Tertuliano tem muita coisa de Cabrito?
TERTULIANO – Acredito que sim, já que o personagem termina se confundindo com a pessoa. Quem é que está aqui? Cabrito ou Tertuliano? Sou espirituoso, todo mundo gosta de mim por causa disso. Todo mundo adora sacanagem, mas diz que não gosta. No frigir dos ovos, todo mundo gosta. Tem muita gente que comenta, a respeito da minha música, que ela é espetacular, mas quando começo a cantar acabo com tudo.
ZONA SUL – Você se dedica a um gênero específico de música?
TERTULIANO – Tem todo tipo. Tem tango, balada, forró, todos os gêneros. Fiz de propósito, só pra chiar, só pra ser pernóstico. O título do disco seria “A cagada da minha prima”, que é uma balada. Mas, a título de marketing, a gente mudou para "Os nominhos que ela tem”. Se fosse o nome original, acho que a gente teria dificuldade de divulgar.
ZONA SUL – Você já ouviu “Velhas Virgens”?
TERTULIANO – Já. Trabalho vendendo MP3. Tudo que você imaginar de música, eu tenho. Trabalho vendendo pen drive gravado, CD. Tenho o repertório das “Velhas Virgens”.
ZONA SUL – Em que você se inspira para compor suas canções proibidas para menores de 18 anos?
TERTULIANO – É muito fácil fazer esse tipo de música. Basta assistir bastante filme de sacanagem e prestar atenção nas histórias escabrosas que são contadas nas mesas de bar. Todo frequentador de boteco tem uma história legal pra contar. Vou juntando um “causo” aqui, uma piada acolá e de repente a letra da música está pronta.
ZONA SUL – Como foi a gravação do DVD?
TERTULIANO - Hoje DVD é moda, todo mundo grava um. Por isso resolvi também gravar o meu. Um pessoal de Caicó, da “Nonsense Filmes”, fez a gravação. A “Nonsense” gravou o repertório do disco lá no Senzala, o cabaré de Abílio. Não teve participação da banda, foi só eu e Franklin Nogvaes. Franklin colocou os arranjos no computador e fez os acompanhamentos com o teclado. Com a banda toda teria dificuldades na edição.
ZONA SUL – Onde adquirir os seus trabalhos e como contratar os seus shows?
TERTULIANO – Meu CD e o DVD estão à venda lá no Sebo Balalaika (Rua Vigário Bartolomeu, 565 - Cidade Alta). Contatos para a distribuição do DVD e também para shows podem ser mantidos com Nelson Rebouças (nnelsonreboucas@yahoo.com.br – (84) 9922-8188 ou 9151-7783).
ZONA SUL – (Nesse instante chega à mesa da Lanchonete Zé Reeira o jornalista Moisés de Lima, um dos responsáveis pelo sucesso de Cabrito).

TERTULIANO – Moises de Lima é um dos culpados pela ascensão do Cabrito. Esse “fela da puta” foi um dos que mais divulgou esse trabalho. Eu querendo que ele escrevesse matéria sobre meus trabalhos sérios, evangélicos, e ele nada de querer me entrevistar. Mas foi só eu fazer essas músicas de sacanagem que ele botou no jornal. (risos)
ZONA SUL – É sério que você tem um trabalho evangélico?
TERTULIANO – Claro que não. Mas é verdade que eu gosto de estudar religião. Por incrível que pareça, frequento escola e tudo. É a minha filosofia preferida, o estudo da religião, principalmente do Cristianismo. Todos temos Deus e o demônio em nós. Por isso a espiritualidade e o lado carnal convivem muito bem em mim.
ZONA SUL – Qual a tiragem do disco e do DVD?
TERTULIANO – Do disco eu nem sei, mas do DVD a gente fez 300 cópias. Penso que já estamos precisando fazer outra tiragem. O DVD foi lançado agora em 2012. Ele tem o mesmo nome do CD: “Os nominhos que ela tem”.
ZONA SUL – O trabalho como Cabrito foi o que chamou a atenção de outros artistas para as suas músicas “censura livre”?
TERTULIANO – Não, eu já tinha toda uma história com o “Alcateia“ e participado de festivais. Em resumo: eu tinha envolvimento com a cena cultural potiguar e alguns artistas tinham gravado músicas minhas... Mas certamente esse trabalho me tornou mais conhecido.
ZONA SUL – Quem já gravou suas canções?
TERTULIANO - Carlos Bem, Krhystal, Geraldo Carvalho... Fica difícil lembrar todos.
ZONA SUL – Qual sua música preferida?
TERTULIANO – Sem dúvida nenhuma é “Natália”, que fiz em parceria com Nagério. A letra é assim: “Meu canto corta a ribeira / Cidade nova de amor / Grito pelos igapós / Um desafio em flor / Tempero a minha alma / Com um ramo de alecrim / O meu coração de rocas / Picado de maruim / E a esperança que descansa / Numa redinha pequena / Capim macio do pátio / Mãe Luiza flor morena / Dix sete botões rosados / Lagoa nova secou / O grande ponto dos sonhos / Candelária, virgem amor / O forte da negra ponta / Cantinho de Mirassol / Brasília teimosa, reis / Barreira d’água, Tirol / O morro branco que guarda / A areia preta do mar / Cidade alta de mágoas / Bom pastor a vaquejar”.
ZONA SUL – E o seu trabalho junto ao “Balalaika Brega Band”?
TERTULIANO – Surgiu pela necessidade de ganhar dinheiro. O repertório inclui músicas bem apelativas, bem bregas, como “Essa última canção” e “Eu não sou cachorro não”. Isso é para a gente ganhar dinheiro. Nessa banda eu entro como Tertuliano. A gente se apresenta em qualquer lugar.
ZONA SUL – Cabrito chegou a fazer shows fora de Natal?

TERTULIANO – Sim, mas só com voz e violão. Nelson Rebouças publicou um livro chamado “69 versos fesceninos”. Ele lançou em Natal, João Pessoa e Mossoró. Fiz participação em todos esses lançamentos. Apesar de não ter me apresentado em muitos estados, recebo e-mail do país inteiro. Tem gente do Rio Grande do Sul que escreve dizendo que estava em um churrasco no final de semana e a trilha sonora foi minha música. O cara manda a mensagem sem nem me conhecer. E olha que eu nem cultivo muito esse negócio de redes sociais.
ZONA SUL – Vimos que o seu Twitter (@CabritoDBDNSA) está bem desatualizado.
TERTULIANO – Não é meu, nunca tive Twitter. Estão utilizando meu nome. Acho uma covardia. Se você tem vontade de escrever alguma coisa, faça e assine. Não se esconda atrás do meu nome. Já vi algumas coisas escritas nesse Twitter. Garanto que eu seria bem mais criativo. Os textos lá estão muito óbvios, rasteiros.
ZONA SUL – Onde encontrar, na Internet, o Cabrito original?
TERTULIANO – Não cultivo muito a Internet porque tenho um Facebook de Tertuliano. Tenho medo de postar uma coisa em um lugar e cair no outro. Mas é fácil me encontrar no Youtube. Não apenas o trabalho como Cabrito, mas algumas canções que estão postadas no canal “Som sem plugues”.
ZONA SUL – O que você planeja agora?

TERTULIANO – Minha prioridade é trabalhar, vender CD, vender música, vender pen-drive gravado. É trabalhar nos projetos do governo, na direção de palco. Faço parte da equipe do MPBeco. Quem toma conta do palco sou eu. Minha prioridade é trabalhar e trabalhar e trabalhar. Em outra frente, estou planejando o próximo disco. Já tenho algumas músicas novas. O ano está começando, vou ver se me entendo com Franklin Nogvaes e a gente grava esse novo disco. Depois de pronto, é só organizar uma festa de lançamento.
ZONA SUL – O que faltou perguntar a você?
TERTULIANO – Acho que nada.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor.
TERTULIANO – Eu queria que as pessoas fossem compreensivas com esse trabalho de Cabrito. É apenas uma brincadeira. Não tenho a intenção de detratar ou menosprezar ninguém. Pelo contrário, o objetivo é só divertir as pessoas. Outro dia, Emanuel Grilo – o cara mais safado de Natal – inventou que eu abriria um show de Chico Buarque. Ele costuma fazer piadas comigo. Recebi muito e-mail de pessoas querendo saber se era verdade. Eu confirmei! Em torno de mim rola essa brincadeira, essa palhaçada. Isso alegra as pessoas, diverte. Meu trabalho é isso, é humor. Não tem nada de ofensivo. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Entrevista: Castilho Sávio


 O filho do homem que tocava trumpete

Castilho Sávio de Carvalho Silva nasceu em Natal, no bairro de Petrópolis, no tempo em que a cidade e a vida eram outras. Eu, Aderson Neto, Franklin Mario, João Paulo Madruga e Valéria ouvimos Castilho contar a sua história no último sábado de 2012. A conversa se deu no Bar de Zé Reeira, no centro da capital potiguar. Como não poderia deixar de ser, música foi o principal assunto, sobretudo a banda que fez história no pop-rock do Rio Grande do Norte: Inácio Toca Trumpete. Tudo foi regado a bastante cerveja e carneiro cozido. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Você é filho do homem que toca trumpete...
CASTILHO – Meu pai tocou trumpete, ele faleceu em 1990. Papai nasceu no sertão do Ceará. Seu nome era Ascendino Inácio da Silva. Na verdade, o Inácio não era nome, mas, sobrenome de família. Quando foi militar, veio morar no Rio Grande do Norte. Depois, passou em um concurso do IBGE e se mudou para João Câmara, que na época se chamava Baixa Verde. Em seguida, assumiu o cargo de tabelião do 1º Cartório de João Câmara.
ZONA SUL – Onde o trumpete entra nessa história?
CASTILHO – Meu pai aprendeu a tocar trumpete ainda no Exército. Nas horas vagas, principalmente nas tardes dos sábados, ele tocava esse instrumento - que também era chamado de “trumpet”, pistão ou pistom - como “hobby”. Como meu pai tinha muita musicalidade, também tocava gaita. Herdei no sangue essa tendência para ser instrumentista, essa vontade de querer fazer alguma coisa para o lado da música.
ZONA SUL – Qual era o repertório que o seu pai costumava tocar?
CASTILHO – Apesar de morar em uma cidade do interior, em João Câmara, meu pai era aberto para o mundo. Para você ter uma ideia, ele mandou buscar, na Inglaterra, uma Land Rover, em 1958. Papai escutava muito “foxtrot” e blues americano, ritmo que terminou dando origem ao rock. Nas emissoras de rádio nacionais, ele ouvia o samba brasileiro. Era o que ele ouvia e tocava, lá pelos anos 1950, em João Câmara. Depois, em meados dos anos 1960, ele comprou uma casa em Natal, próximo ao Marista. Em seguida, mudamos para a Avenida Alexandrino de Alencar.
ZONA SUL – Inácio chegou a participar de algum grupo musical?
CASTILHO – Não, ele tocava com os amigos, aos sábados. Como morava em frente ao clube de João Câmara, sempre encontrava por lá alguém para fazer uma percussão, tocar um bandolim ou outro instrumento de sopro. Os comerciantes, pequenos empresários da época, funcionários públicos e outros amigos se juntavam e faziam aquela roda. Tocavam vários estilos, dentro do clube de João Câmara. Meu pai não compunha, era só musicista, só instrumentista.
ZONA SUL – Você chegou a testemunhar esses encontros musicais?
CASTILHO – Ouvi algumas vezes. Mas eu gostaria de dizer que, mais ou menos em 1969, meu pai participou de um sorteio, que na época se chamava rifa, e foi contemplado com uma sanfona igual à de Luiz Gonzaga. Ele tentou tocar esse instrumento, mas não conseguiu. A sanfona exige uma praticidade muito grande. A tendência do meu pai era mesmo para o instrumento de sopro. Prova disso é que ele comprou uma gaita e aprendeu com facilidade. Quando eu tinha entre 13 e 15 anos, na data de aniversário da minha namorada ele costumava tocar parabéns pra você na gaita, pelo telefone, me ajudando a prestar aquela homenagem. Ele fazia o mesmo com as namoradas dos meus irmãos.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre a sua mãe.
CASTILHO – Mamãe é da família Teixeira Carvalho. Maria da Conceição Teixeira de Carvalho. Na realidade ela é Procópio Teixeira Carvalho. É natural de João Câmara, da família que criou a cachaça Murim Mirim, a primeira aguardente filtrada. Meus avós eram pernambucanos. Minha mãe era de vanguarda. Só ela e mais duas pessoas da cidade, naquela época, tinham assinatura da revista Seleções. Ela sempre foi muito curiosa. Ela tinha uma tendência muito grande para o designer. A casa grande, do interior, tinha uma mesa com 12 cadeiras. A cada duas cadeiras, o forro do tecido era diferente. Em 1950 ela já tinha essa visão de arquitetura interna. Ela ia para Recife, comprar os tecidos. Mas mamãe sempre foi dona de casa. Seu sonho era se tornar atriz. Depois quis até que uma neta seguisse esta carreira. Ela sempre gostou de teatro, mas não conseguiu realizar o sonho. A vida e a época em que viveu não permitiram. Morando em um estado pequeno, como o Rio Grande do Norte, ela teria que se mudar para o Rio ou São Paulo se quisesse tentar realizar esse sonho. Casada, com filhos, não foi possível.
ZONA SUL – Como foi a sua infância?
CASTILHO – Foi uma infância que atualmente a meninada não tem mais oportunidade de desfrutar. Hoje a infância é vivida através da eletrônica, da cibernética e da tecnologia. A convergência tecnológica está se dando por meio do celular. Nesse aparelho pequeno, que cabe na palma da mão, você tem entre 30 e 40 equipamentos: televisão, rádio, máquina fotográfica, GPS, telefone, editor de texto, calendário, agenda, instrumentos de previsão do tempo, aplicativos de compra online... Todas as informações a um toque de dedos: acessar a internet, movimentar conta bancária, enviar e receber mensagens... Na minha época eu andava de patinete, subia em árvores, jogava futebol, ativava com estilingue ou baladeira, corria atrás de pássaros, andava em perna de pau, carro de rolimã ou cocão... Tinha prazer em construir carro de lata com madeira. Nessa atividade, a gente desenvolvia o raciocínio. Hoje, não. A infância é em casa, preso a um teclado, criando cacoete, isso e aquilo. No meu tempo a gente podia se tornar muito mais criativo, tinha liberdade de brincar com os amigos na rua. Minha infância foi envolvida com biloca, cocão, a prática de esportes, os álbuns de figurinha, o jogo de bafo. Hoje não se vê mais, a tecnologia não permite que você crie mais nada. Digo muito a meu filho que a minha geração criou o computador. As gerações anteriores criaram a lâmpada, o rádio, a televisão, o carro, a tecnologia e o telefone. Pergunto a ele: “sua geração está criando o que? Desenvolveu o que?”. Essa é a grande pergunta. Vivi a fase de me juntar com os amigos para criar ideias. Chegamos a construir os instrumentos de uma banda com materiais como lata, cabo de vassoura e caixa de papelão.
ZONA SUL – Quando a música despertou a sua atenção?
CASTILHO – Ela sempre despertou minha atenção. Estudei uma época no Marista. Muito novo, ainda, saí de lá quando recebi uma bolsa para jogar handebol pelo Sagrada Família. Eu queria fazer parte da banda do novo colégio. Queria desfilar no 7 de Setembro. Comecei tocando surdo. O maestro da banda era Geraldo, um engenheiro químico da Caern. No meu segundo ano de Sagrada Família, toquei caixa. Aos 12, estava tocando tarol. Os instrumentos de percussão me encantaram. Nesse segundo ano, quando passei a tocar tarol, eu passei a ser o que hoje na escola se chama de puxador. É quem faz os contratempos, as viradas e a marcação da mudança da batida e do ritmo. Por infelicidade do destino, esse regente, que gostava de fazer mergulho e pescar de arpão, morreu praticando esse esporte náutico. Faltava três meses para o desfile de 7 de Setembro. Sem ninguém para ocupar o posto deixado pelo professor Geraldo, assumi a regência da banda da escola.
ZONA SUL – Que idade você tinha?
CASTILHO – Aos 16 anos fui regente da banda marcial da escola. Na época, a grande banda de escola era a da ETFRN, que hoje se chama IFRN. A gente criou uma batida diferente, com vários contratempos. A banda vinha em uma batida, quando eu dava três apitos, os instrumentos paravam, o tarol fazia um “rif” e entrava em outra batida, que se chama contratempo. É o tempo inverso daquele que você estava batendo. O Sagrada Família sempre desfilou com três contratempos. Quando fui regente, desfilamos com seis contratempos. Foi anunciado no palanque que era um aluno que estava regendo. Ninguém nunca me ensinou regência. O cavalo passou selado, eu montei e assumi a responsabilidade de ser regente. A partir daí tive a certeza de que eu podia tocar.
ZONA SUL – O que você costumava ouvir?
CASTILHO – Minha formação musical é eclética: vai de Luiz Gonzaga – que ouvi muito na minha casa – passa por Roberto Carlos e Beatles, até chegar em Santana, Rolling Stones, Black Sabbath, Deep Purple e outras bandas. Baseado nisso se formou meu gosto musical. Ouvi também muito Paralamas, Titãs, Renato Russo, Jota Quest e LS Jack. Eu não gostava de Chico Buarque, mas apreciava Milton e o Clube da Esquina. Da música brasileira sempre gostei mais de rock e de Luiz Gonzaga.
ZONA SUL – Seu grupo de amigos, nos tempos de escola, também se interessava por música?
CASTILHO – Os amigos sempre me chamavam, no final de semana, para eu fazer uma “percussãozinha” nas festas improvisadas. Comecei a adquirir alguns instrumentos para tocar em aniversários e nessas festinhas. Comprei tumbadora, tantã e outras percussões. Logo que concluí o pré-vestibular, entrei na Caixa Econômica. Lá tinha músicos, colegas que já tocavam violão, guitarra e já cantavam. Todo final de semana eu estava tocando e batendo algum instrumento de percussão. Isso durou três ou quatro anos, até realmente eu definir o que eu queria fazer dentro da percussão.
ZONA SUL – Qual seu primeiro grupo?
CASTILHO – Foi com meu irmão Carísio Eugênio de Carvalho. Ele ligou dizendo que tinha comprado vários instrumentos de percussão e chamou para fazer uma roda de samba. Cheguei à casa dele, Carísio tinha comprado surdão, surdinho, bombo, tantã, repique, caixa, tarol, afoxé, agogô, reco-reco... Quando eu estava olhando tudo aquilo, ele disse: “Primeiro você vai ensinar para depois a gente começar a tocar”. Começamos com Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa, na casa do meu irmão. Depois passamos a tocar na casa de praia. Foi quando começou a aparecer violão, um, dois, três; cavaquinho, banjo... Mas, nada profissional, tudo muito amador. Depois de um tempo, a gente parou. Foi quando resolvi comprar uma percussão completa. Eu já estava na Caixa, foi em 1998. Fui a uma loja e selecionei todos os instrumentos que eu queria. O valor total foi 2.800 reais. Eram tantos instrumentos que não caberiam na sala da minha casa. Foi quando o vendedor sugeriu que eu comprasse uma bateria, ao invés de todos aqueles equipamentos de percussão. Além de a bateria ser uma percussão completa, ela tinha as vantagens de caber na mala do carro e ser mais barata, custava 2.600 reais.
ZONA SUL – Era uma boa bateria?
CASTILHO – Era uma bateria americana, de qualidade média. Não era “top” de linha, mas não fazia vergonha. A bateria se mede pelo som que ela emite, que depende do tipo da madeira, da forma como ela é curtida, e da capacidade de pegar determinada afinação. Minha intenção não era a de montar banda, mas apenas tocar com os amigos. Comprei essa bateria às 4 da tarde. Às seis horas da noite, com o equipamento montado, comecei com aquele paque-paque, tuco-tuco. Logo de cara, notei o quanto era absurdamente diferente tocar percussão e bateria. Na bateria você tem que ter independência nas mãos e nas pernas, nos quatro membros individuais. A mão esquerda faz uma coisa, a direita faz outra, a perna esquerda faz outra e a direita também. Encontrei no jornal um anúncio de professor de bateria. O contratei para ele me dar algumas aulas, até para eu ter noção do instrumento e saber como me comportar diante da bateria. No domingo, esse professor chegou lá em casa e me explicou para que servia cada parte da bateria. Na segunda-feira ele me deu outra aula. A partir daí fiquei por minha própria conta e comecei a exercitar independência. Na quinta-feira à noite chamei um sobrinho que tocava violão e um enteado do meu irmão, que tocava baixo. Fomos lá pra casa e começamos a tocar Legião Urbana. Depois, juntou-se a nós um tecladista que estudava no Auxiliadora. Passamos a ensaiar lá em casa na tarde dos sábados, e no domingo o dia todo.
ZONA SUL – Os vizinhos devem ter adorado essa movimentação toda...
CASTILHO – Os vizinhos começaram a ligar, reclamando. Uma vizinha, médica, pedia insistentemente para baixar o volume. Ela dizia: “não tem quem aguente mais esse taco-taco e teco-teco, ninguém dorme mais”. E eu numa seca danada para tocar. Mas em um mês eu já estava tocando um repertório de Legião Urbana, Paralamas e aquelas músicas do rock nacional que fizeram sucesso nos anos 1980. Dois anos e meio depois, foi que resolvemos montar a banda.
ZONA SUL – Como surgiu o nome Inácio Toca Trumpete?
CASTILHO – Quando comecei a procurar o nome da banda, liguei para alguns amigos que trabalhavam com marketing. Falei com João Dias, que hoje é do jornal O Botequeiro; telefonei para Astrogildo Cruz, da banda Caixa Dois, e criador do nome da Banda Cantocalismo, nos anos 1970. Também entrei em contato com o jornalista João Bezerra Júnior. Pedi que eles me ajudassem a bolar o nome da banda. Eu não queria um nome comum, mas algo que chamasse atenção. No marketing o que marca é ou o muito belo ou o muito feio. O comum passa despercebido, você não lembra. O que chama atenção é o que marca. Em Natal já existia muita banda com nome comum, eu não queria ficar nessa linha. Por ser uma banda de rock, eu queria algo irreverente. Um dia, guiando o carro pela Via Costeira para ir trabalhar na Caixa Econômica, tentando encontrar um nome para a banda, pensei no nome do meu pai. Inácio é um nome do povo, comum e popular, mas sem ser tão simples. Foi quando pensei em Inácio Toca Trumpete. Imediatamente percebi que o nome da banda tinha que ser aquele. Quando cheguei na Caixa, pedi a opinião de Astrogildo, que  trabalhava comigo. Ele comentou: “matou, você acertou em cheio”.
ZONA SUL – Os demais integrantes da banda também gostaram do nome?
CASTILHO – Na época eu tinha trinta e poucos anos, eles estavam entre 18 e 19, naquela fase da autoafirmação. Quando falei o nome, eles imploraram para a gente escolher outro. “Se ficar esse nome o povo vai mangar da gente”, era o que eles diziam. Pedi calma e disse que garantia o sucesso do nome da banda. Eu trabalhava na Caixa, era chefe de gabinete da superintendência e assessor institucional. Tinha visão de marketing e sabia que o nome ia pegar, como de fato pegou. Pacificados os ânimos, encomendei a João Dias a logomarca da banda. Ele bolou uma letra “I” grande e um cara encostado nela tocando trumpete. Ele sugeriu que as cores fossem vermelho e branco, mas preferi trocar o vermelho pelo preto, que é mais rock and roll. O preto também funciona melhor em cima do branco e do prata. Fizemos o lançamento da banda no Clube da Petrobras. Confeccionei 150 camisas e vendi aos amigos cada uma por cinco reais. Junto com a camiseta, eu entregava um mapa com as informações para chegar ao local da festa. Contratei palco, iluminação e som. Fiz toda a logística do show. Tocamos duas horas e meia.
ZONA SUL – A diferença etária entre você e os demais integrantes da banda dificultou na escolha do repertório?
CASTILHO – Não porque tínhamos gostos comuns. Eu e eles gostávamos do Legião, Paralamas, Titãs, Skank... É importante dizer que a banda tinha quatro integrantes, mas minha intenção era chegar a sete pessoas. Eu queria três nos vocais para dar uma força de voz junto com o instrumental. Enquanto um ficava na frente do palco, dois estavam atrás, fazendo “backing vocal”. Já tinha uma vocalista que era aluna de canto, mas ela não aceitava certas músicas, não gostava da linha moderna que estava acontecendo na época. Comecei a fazer testes. Passaram 53 músicos lá em casa para ver quem ia ficar como vocalista. Foi assim que a gente encontrou Karol Posadzki. Com ela a banda construiu outra visão musical. Ela trouxe essa linha do rock pop: Alanis Morissette, No Doubt, The Cranberries, The Doors e outros. Karol estudava com o baixista e com o tecladista da banda. Nos anos 80, em Natal, surgiram muitas bandas. A gente foi um dos percussores desse movimento. Inácio ajudou a crescer o movimento da Ribeira.
ZONA SUL – Como ficou a formação oficial?
CASTILHO – Saímos com três vocalistas: Eugênio Bezerra, Karol Posadzki e Fátima Paiva. O baixista Maykel Câmara. Jormar Oliveira e Jorge Medeiros nas guitarras. Bruno Maciel no teclado e eu na bateria. Só que, com um mês e pouco de banda, Fátima pediu para sair. Depois houve um problema interno e Eugênio também saiu. Ficou só Karol. Foi quando a gente direcionou mais a linha para Sheryl Crow, mais Alanis, No Doubt, Cranberries, Natalie Imbruglia... Mantivemos The Beatles e The Doors e incluímos Deep Purple, Charlie Brown, Paralamas, Titãs e montamos dois shows. O repertório, dependendo do show, tinha 45 músicas.
ZONA SUL – Como foi o primeiro show?
CASTILHO – Foi um sucesso. O espaço só cabia 150 pessoas, mas o público chegou a 380. Foi lá na Associação dos Engenheiros da Petrobras, na praia de Ponta Negra. A divulgação foi boca a boca e também saíram matérias no Diário de Natal, Tribuna e na televisão. Visitamos as redações. Canindé Soares foi nosso fotógrafo. Simone Silva e Raíssa Pacheco foram nossas primeiras assessoras de imprensa. Em pouco tempo a banda atingiu o ápice. A gente fez shows em Recife, João Pessoa, Maceió, Aracajú, Mossoró, Caicó, Areia Branca...
ZONA SUL – Como foi a recepção nos outros estados?
CASTILHO – A gente agradava muito porque usava a estratégia de tocar o que o público gostava. A cada show do Inácio o pessoal que fazia a assessoria de logística distribuía uma pergunta: qual a música que você quer que o Inácio toque? No final eu tinha uns 200 papéis com sugestões de música. Assim a gente só tocava o que o povo queria. Uma banda que tocamos muito, e eu esqueci de dizer, foi Pink Floyd. Certa vez, tocando no Projeto Seis e Meia, quando terminamos o show o artista principal da noite, Lô Borges, veio nos cumprimentar e disse: “fazia muito tempo que eu não me arrepiava escutando Pink Floyd em um show acústico”. Outra ocasião, no Circo da Folia, quando terminamos de tocar para oito mil pessoas e o locutor anunciou a atração principal, a Banda Raça Negra, o povo começou a vaiar e a gritar I-ná-cio, I-ná-cio. Chorei feito criança, na bateria. Não conseguia me segurar. Meu filho estava comigo... (Castilho suspira, emocionado)... e chorava também. O líder da banda, Luiz Carlos, pegou o microfone e disse: “nós também estamos adorando o show, e já que o público quer que a banda continue, eles vão tocar mais um tempo e a gente volta quando vocês quiserem”. A gente tocou mais umas seis músicas naquela vibração incrível.
ZONA SUL – Vocês abriram shows de muitas bandas em Natal.
CASTILHO - Inácio Toca Trumpete foi a banda local que mais abriu show nacional aqui. Dividimos palco com Titãs, Skank, Capital Inicial, Charlie Brown, LS Jack, Jota Quest, Paulo Ricardo, RPM, Lô Borges... O último show do Paralamas antes do acidente com Herbert Viana fomos nós que abrimos, na Via Costeira. Naquela ocasião, Alexandre Maia queria que a gente tocasse com um som pequeno. Mas recusei e contratei com Helison um som tão grande quanto o que o Paralamas ia usar. Quem fez a mesa foi Tesourão, mesário de Helison que fazia as bandas nacionais. Demos uma paulada nesse show. Paralamas estava vindo com show acústico e nós entramos com show elétrico. Quando a gente desceu do palco, eles disseram: “vocês mataram a gente”. Mas como matar o Paralamas? Quando Paralamas começou a tocar, ainda gritaram o nome do Inácio.
ZONA SUL – Dá para trocar alguma ideia com os músicos de fora abrindo esses shows?
CASTILHO – Dá. Fernanda Takai, do Pato Fu, é gente finíssima. Conversou muito com a gente. O pessoal do Jota Quest também. O próprio Herbert e João Baroni... Fechei um contrato com o naipe de metais do Paralamas para tocar com a gente em um show. Na volta do primeiro show do Paralamas em Natal, onde hoje é o Atacadão, foi o Inácio que abriu aquele espaço para eventos. Nessa ocasião, abrindo de novo para o Paralamas, a gente já fez outra linha. Eles vieram com elétrico e nós montamos um acústico. Depois, Querosene contratou para repetirmos esse show três ou quatro vezes para a própria FM. Na coxia já estávamos com disco autoral e demos pro Herbert Viana. Ele perguntou se não tínhamos interesse em sair, ir para fora. Eu disse que era difícil, já que todos, com exceção de mim, ainda estavam estudando. Herbert Viana comentou que tínhamos tudo para crescer e que o caminho era aquele mesmo. Barone e o naipe de metais do Paralamas também elogiaram muito. Depois disso trouxemos Derico, da banda do Sexteto do Jô, para dois shows com o Inácio. A banda era muito bem ensaiada. Certa vez a gente estava tocando a música Tintura Íntima, do Kid Abelha. O show era na Praça das Flores. No meio da música tem uma parada, mas, como pensei que a música tinha terminado, parei. Karol começou a cantar a capela, junto com o público. Devia ter umas duas mil pessoas cantando com ela. A banda voltou num peso grande. Esse erro se incorporou ao arranjo. A partir daí passamos a tocar a música dessa forma, em todos os shows.
ZONA SUL – Que outra boa história daquele tempo você recorda?
CASTILHO – Nós acompanhamos o primeiro show que Tuca Fernandes, da banda Jammil e Uma Noites, fez em Natal. Wellington Paim disse que estava precisando de uma banda para acompanhar Tuca Fernandes em seis músicas. Ensaiamos as músicas que Tuca iria tocar, sem a presença dele, que estava em Salvador. O previsto era ele tocar essas seis conosco e outras quatro sozinho. Começou o show, tudo funcionou perfeitamente. Terminada a sexta música, ele parou para nos elogiar. Disse ao público que não tínhamos ensaiado nenhuma vez com ele e que estávamos tocando extremamente bem e de forma correta. Avisou que a partir dali faria só voz e violão. Começou a tocar uma canção de Tim Maia. Essa música fazia parte do nosso repertório. Nosso arranjo era parecido com o dele. Quando Tuca começou, a banda se olhou entre si e combinou entrar junto. Quando ele percebeu, fez um gesto de positivo, para a gente continuar. Fizemos com ele aquele show até o final. Meu irmão chorava e eu tocava emocionado por estar ali fazendo algo que não era fácil de fazer. Em outros shows, artistas da Globo que estavam em Natal para se apresentar no teatro, subiram no palco para tocar e cantar com a gente. Foi o caso de Matheus Nachtergaele e Luana Piovani.
ZONA SUL – E o disco? Concreto é o nome.
CASTILHO – O disco foi um filho projetado, planejado, mas que não saiu como eu queria. O problema é que gravamos um repertório diferente do show. A gente nem divulgou muito, porque não era a cara da banda. São coisas distintas o palco ao vivo e você produzir música. Para gravar é necessário todo um conhecimento de composição, de arranjo, e no Brasil tem pouco produtor de pop rock. Ou você faz rock, MPB ou samba. Quando você vai gravar uma coisa como a gente fazia - um pop americano ou um pop irlandês - aí não encontra. Se no Brasil existe essa dificuldade, imagine em Natal. De qualquer forma, eu queria apenas gravar o disco para deixar um registro e funcionar como nosso cartão de visitas. Mas o disco ficou bem feito, bem elaborado, bem gravado e bem arranjado. Foi gravado em Natal, mas mixado e masterizado em Fortaleza. No mesmo estúdio onde foi feita gravação, a mixagem e a produção do disco de Jota Quest. Foi dirigido por Jubileu Filho, um excelente músico e produtor. A gente até vendeu músicas para propaganda de algumas lojas. Até hoje o disco toca na FM Universitária e tem gente que pede pela Internet. Minha intenção é que o Inácio volte, pelo menos para fazer um último show. Fizemos dois shows agora em dezembro de 2011 e janeiro de 2012.
ZONA SUL – Por que o Inácio parou?
CASTILHO – Depois da morte de Paulo Ubarana, que era dono do Blackout, a Ribeira acabou. O fechamento do Chaplin também contribuiu. Natal ficou sem opção de espaços para sediar shows de pop-rock. Até porque as bandas não podem depender de um empresário, de um bar, restaurante ou casa noturna. Quando o artista se qualifica, seu trabalho por si se valoriza e tem um preço. Não adianta tocar em uma casa noturna e receber um cachê que não dá nem para pagar os músicos e o local de ensaio. A gente parou também porque a moda era o forró. Proliferaram em Natal as casas de show de forró. Diante desse quadro, ao invés de tocar regularmente, prefiro organizar um show único para grande público do que simplesmente tocar todo final de semana só para dizer que está tocando. Melhor se preservar, gravar as boas lembranças e tentar fazer um ou dois shows por ano. Mas fazer uma coisa qualificada, bem produzida e bem elaborada.
ZONA SUL – Como foi o retorno para shows no final de 2011 e início de 2012?
CASTILHO – Muito bom, tocamos na festa do colunista social Jota Oliveira, no Espaço Ecomax, em janeiro, no aniversário dele. Devia ter mais de duas mil pessoas. Dividimos o palco com a Banda Pura Tentação. Foi uma grande festa. Dia 16 de dezembro tínhamos tocado no Blackout, na Ribeira, em uma produção independente. Foi a volta de Karol e Eugênio no palco, à formação inicial. As festas produzidas pelo Inácio sempre deram mais público do que as apresentações das bandas nacionais aqui em Natal. No lançamento do CD, tivemos 1.600 pessoas. Kid Abelha, Rappa ou qualquer outra banda na Ribeira dá 1.100, 800 ou 900 pessoas.
ZONA SUL - Conte alguma história interessante dos tempos do Inácio.
CASTILHO - Fomos contratados para tocar em uma boate em João Pessoa. Antes do início, chegou um ônibus lotado com um pessoal da terceira idade. Tive a percepção de entender que aquele pessoal estava vindo para o show de um trompetista, não de uma banda de rock. Fui lá e comuniquei que não era um trompetista. Mesmo assim eles disseram que ia ficar. Então eu disse que, em homenagem a eles, a gente ia fazer um repertório com muito Beatles. Fizemos um show de 40 minutos, uma hora de Beatles. Esse povo dançou e não queria que a gente parasse. Outra vez, na festa de segundo anviersário do Inácio, lá na Ribeira, fui avisado de que o então governador Garibaldi Alves Filho estava na fila. Acho que ele foi lá também induzido pelo nome. Acomodei o governador em uma mesa no mezanino. Ele, gentil como sempre, assistiu o show com sua esposa, Denise. Inácio foi a única banda de pop-rock que teve o privilégio de ter o governador do estado assistindo a seu show.
ZONA SUL – Se despeça do leitor.
CASTILHO - Quero deixar um abraço grande e aproveito para alimentar uma expectativa. A banda Inácio Toca Trumpete vai voltar. Nem que seja para um show de despedida e a gravação de um CD e DVD ao vivo. Esse disco terá a cara do Inácio. Vamos voltar e botar a cara para porrada novamente. Esse show pode até nem ser o último, mas o início de vários outros.