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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Entrevista: Manassés Campos

A MÚSICA POTIGUAR NO VARAL DE MANASSÉS


Manassés da Silva Campos nasceu em Natal, no dia 31 de janeiro de 1962. No último sábado de junho, ele foi sabatinado, em Brasília, por uma equipe de primeira que me acompanhou nessa entrevista para o “Zona Sul”. O repórter Roque de Sá (http://agenciatempo.com.br/) cuidou não apenas da cobertura fotográfica, mas também encaixou perguntas que facilitaram a montagem do mosaico da vida de Manassés Campos. O violonista e empresário da gastronomia, Ricardo Menezes (que está de casa nova, o Ancoradouro Sushi & Grill), utilizou sua amizade de décadas com o entrevistado para preencher as lacunas da história que eu e Roque tentávamos destrinchar. E Manassés não mediu palavras para contar seu lado mais conhecido de jornalista, poeta, compositor, músico e servidor público, como também revelou a formação evangélica, a curta passagem pelo Exército e o sonho não realizado de ser um pesquisador de teoria estética da literatura. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Conte sobre sua família.
MANASSÉS – Lá em casa todos temos nome começando com a letra “M”. Miguel, meu pai, é da família Campos, de Lajes do Cabugi. Minha mãe, Maria, é de São José de Mipibu. Míriam é a irmã mais velha. Trabalhou muito tempo com o marido, Orismar Carlos, construindo aquelas lojas da Sport Master. Ela diz que ainda é empresária, mas hoje em dia não faz nada, só aproveita a vida. Milca, a segunda, é servidora pública aposentada. Moisés é servidor da Funasa. Mirtes também é aposentada do serviço público. Depois dela, eu nasci. Em seguida veio Miguel Júnior, que é servidor público da prefeitura de Natal, e Marinésio, que a gente chama de Nezinho. Ele também é funcionário público.
ZONA SUL – O que o seu pai fazia da vida?
MANASSÉS - O homem que morava no interior, naquela época, normalmente trabalhava com a terra. Fazer isso em Lajes, pleno sertão brasileiro (lá passa anos sem chover), era praticamente impossível. Meu avô tinha terras na região, mas improdutivas. Ele criava cabras e, quando chovia, gado. Papai se mudou para Natal na busca de trabalhar em alguma coisa. Virou ourives: montou uma joalheria para comercializar ouro e joias. Mamãe saiu de São José de Mipibu para estudar em Natal. Lá os dois se encontraram, casaram e formaram a família. Meus pais têm mais de 60 anos de casados. Antes de ser ourives, papai foi do Exército, na época da Segunda Guerra. Conheceu mamãe quando deixou a vida militar. Quando casaram, ele se converteu ao evangelho. A minha formação religiosa é evangélica. Meus pais são da Assembleia de Deus.
ZONA SUL – O que a religião evangélica representa para você?
MANASSÉS – Por ter sido criado dentro dos conceitos e da doutrina evangélica, eu, naturalmente, tenho um temor reverencial. Há quem discorde, mas acho que esse temor reverencial de um Deus onipotente, onisciente e onipresente é que segura a humanidade, sobre vários aspectos. Se não tiver esse freio de acreditar em Deus, as pessoas perdem o senso de humanidade.
ZONA SUL – Há diferenças entre o evangélico de ontem e o de hoje?
MANASSÉS – Os evangélicos de antigamente se modernizaram ou se adequaram a uma nova realidade. As igrejas não podem se isolar, como se num mosteiro estivessem, e fugir de um mundo real que a sociedade vive hoje. A televisão ditou novos costumes, rotas e roteiros a serem seguidos. Na minha infância, mamãe não podia usar batom, brinco ou cabelo curto. Tudo o que pudesse proporcionar uma atratividade maior às pessoas do sexo feminino era proibido. Principalmente nas igrejas evangélicas mais conservadoras e tradicionais, havia essa proibição talvez para evitar que os homens olhassem as mulheres com os olhos do desejo, digamos assim. Hoje é diferente: elas vestem calças compridas, cortam cabelo, usam brinco... ZONA SUL – Os pastores ganhavam muito dinheiro?
MANASSÉS – Só posso falar pelo que vi. Quem eu vi foi o meu pai. Ele construiu muitas igrejas, não apenas do ponto de vista religioso, mas físico também. Lembro que - com seis ou sete anos de idade - eu o via preparando a massa, carregando tijolo, manuseando a colher de pedreiro e construindo um templo. Papai nunca teve casa ou carro comprados com o dinheiro da igreja. Ao contrário: quando havia algum problema em alguma igreja evangélica do interior, quando algum tempo estava caindo, quem ia resolver era ele. Sobre essa experiência eu posso falar, a dos outros eu não sei. Papai hoje tem 86 anos e é uma referência, é um dos pilares da igreja.
ZONA SUL – E a música, como surgiu na sua vida?
MANASSÉS – Meu pai tocou saxofone, antes de eu nascer. Começou quando era militar e, depois, tocou na igreja. Não o vi tocar. Devo ter herdado geneticamente esse gosto pela música. Quando minhas irmãs se tornaram adolescentes, papai comprou para elas um acordeom. Por volta de 1974, ele adquiriu também um violão. Meu irmão, Júnior, foi quem primeiro começou a tocar alguns acordes. Pouco tempo depois, eu também comecei a me interessar pelo violão. Comecei naquele autodidatismo, buscando as notas. Todos os meus irmãos ou sabem tocar alguns acordes em acordeom ou no violão. Até mamãe tocava pandeiro.
ZONA SUL – Que tipo de música você costumava ouvir?
MANASSÉS – Comecei a me interessar pela MPB aos 12 anos, quando ouvi Milton Nascimento. Um amigo me emprestou o elepê “Milagre dos peixes”. Na mesma época, também fui atraído por músicas de Caetano, Gil e Ivan Lins, entre outros, que tocavam nos carros de som de campanhas políticas. A partir daí, juntava cada tostão que ganhava para comprar discos. Em 1978, eu já tinha uns 200 discos. Além de MPB, tinha rock pauleira (Uriah Heep, Black Sabbath e Kiss) e rock progressivo (Rush). Até hoje sinto uma identidade grande com o “Clube da Esquina”. Me identifiquei tanto com Minas Gerais, que terminei me casando com uma mineira. Quando escutei “Beijo partido” e quando ouvi “Minas” fiquei pensando: “que negócio é esse, quem é esse povo, onde é essa nação?”.
ZONA SUL – Nessa época, onde você estudava?
MANASSÉS – Estudei em São José de Mipibu até completar 14 anos e entrar na ETFRN, no curso de Mineração. Lá encontrei colegas que compartilhavam do gosto pela música. Entre eles, Sueldo Soaress, Ricardo Menezes, Santa Rosa e Zanoni, que infelizmente morreu tragicamente há pouco tempo. Na Escola estudavam pessoas de várias vertentes culturais, étnicas e sociais. A convivência no dia-a-dia permitia a cada um captar e absorver aspectos da vida do colega. Era uma coisa muito louca. Nessa época eu estava aprendendo uns acordes de violão. Quando não sabia uma música, ia procurar naquela revista Vigu (Violão e Guitarra). Ela trazia a informação musical bem organizada. Quando você tocava, sentia que o acorde encaixava direitinho. Depois surgiram outras publicações meio alinhavadas, não muito bem trabalhadas.
ZONA SUL – Por que você optou por Mineração?
MANASSÉS – Na vida, às vezes você faz escolhas sem saber o porquê. Na época a Petrobras estava se instalando no Rio Grande do Norte. Os alunos de Mineração, Eletrotécnica, Mecânica e Geologia, quando terminavam o curso, faziam um estágio de 45 dias e eram contratados, sem precisar de concurso. Não aproveitei essa facilidade porque, quando concluí Mineração, o Exército me pegou. A maioria dos meus amigos fez o alistamento militar em cidades do interior. Eu me alistei em Natal. Para complicar, o tenente que coordenava a comissão de seleção do Exército me conhecia de uma forma não muito boa. Jogando voleibol pela ETFRN, vez por outra enfrentava o time da Brigada do Exército. Além de a gente sempre vencer, em duas ou três ocasiões subi na rede e carimbei uma “medalha” no peito desse tenente. Enquanto ele ficava bravo, eu ria. No dia em que fui me apresentar, quando ele me viu, olhou pra mim e disse: “agora você vai jogar com a gente aqui no time da Brigada”. (risos). Por intermédio de Jorge Moura – nosso treinador de vôlei na Escola – ainda busquei uma alternativa para escapar do Exército e ir para a Petrobras.  O tenente respondeu ao bilhete de Jorge dizendo que não tinha quem me fizesse ser dispensado. Entrei e fiz curso para cabo e, em seguida, para sargento. Por isso tive que ficar três anos no Exército. 
ZONA SUL – Você recomendaria ao seu filho servir às Forças Armadas?
MANASSÉS – A dinâmica social, hoje, é diferente. O mundo mudou. Hoje, quando a família se organiza, ela tem condições de disciplinar e administrar a vida de um adolescente para que ele exerça sua cidadania. Por isso eu não diria a meu filho para ele cumprir o serviço militar. Mas, para mim, foi importante. Pude exercitar a autodisciplina e a determinação e também pude traçar objetivos e buscar alcançá-los. O serviço militar contribui para o amadurecimento do ser humano, o tempo que passei lá não foi perdido. Fui para o Exército na época em que estava começando a ingressar num tipo de leitura que era marginal e a me envolver com movimento estudantil. Aos 18 anos, eu estava acostumado a participar de rodas de violão com amigos, a jogar vôlei e futebol, a namorar e ir para boteco, a curtir a praia e me divertir. Nessa época eu já ensaiava tocar meia hora no “Boca da Noite”, na subida da Rio Branco. De repente esse cenário mudou radicalmente e eu me vi no Exército.
ZONA SUL – Onde você foi servir?
MANASSÉS - No 2º Batalhão de Engenharia e Construção, lá em Teresina. De lá me despacharam para o destacamento Rodrigo Otávio, entre Xambioá (na época município de Goiás, hoje pertence a Tocantins) e São Geraldo do Araguaia (no Pará). O rio era a divisão entre Goiás, Pará e o Mato Grosso. Fiquei exatamente na região onde poucos anos antes, tinha sido debelada a Guerrilha do Araguaia. O destacamento existia naquela região para não permitir a repetição da experiência.
ZONA SUL – O que de interessante, sobre a guerrilha, você pode contar?
MANASSÉS – Diziam que as armas dos guerrilheiros eram importadas da Rússia e de Cuba, mas elas não passavam de espingardas de soca usadas por trabalhadores e caçadores da floresta. Falam na prisão de gente com arma automática, mas, pelo que presenciei, elas não existiam. Não vi metralhadoras ou fuzis. Como a coisa ainda estava fresca, os moradores tinham medo de fazer muitos comentários sobre o assunto. Mas ouvi que algumas pessoas teriam chegado por lá incentivando a tal guerrilha. Porém, o povo da região nem sabia o que era. A população só veio compreender depois. O Exército pensava que queriam fazer uma revolução, mas não existia nada disso. Muita gente morreu sem saber porque. Arquivos mostram que pessoas foram presas, torturadas e mortas.
ZONA SUL – Que conclusão você tira desse período no Araguaia?
MANASSÉS – Na época, eu não tinha uma leitura política adequada. Hoje entendo que, a exemplo de tantos fatos brasileiros, sufocaram uma coisa que não existia. Houve um exagero. Em Xambioá tentaram sufocar uma guerrilha rural que na verdade não existia. O que tinha era gente passando fome e procurando terra, mas o latifúndio não deixava. Mas, naquele tempo, eu era um militar que nem sabia onde estava. Um jovem de 18 anos que tinha saído de Natal e largado aquela rotina de ir para escola, tocar violão e me divertir com os amigos. Me vi dentro do Exército, no meio do mato, na divisa do Pará. A experiência me chocou, mas também contribuiu para eu ter uma visualização de que o mundo não era só aquele habitat que eu compartilhava com a família e os amigos. Os horizontes ampliam quando você sai do seu círculo natural. Passei seis meses em Xambioá. De lá voltei para Teresina e retornei para Natal.
ZONA SUL – Que rumo sua vida tomou depois do Exército?
MANASSÉS – Quando saí do Exército, alguns amigos da minha época já estavam trabalhando, enquanto outros faziam faculdade. Saí meio sem saber o que ia fazer da vida. Não consegui estudar enquanto estava na vida militar. Depois do Exército passei dois anos parado, só estudando violão e vivendo. Com 23 anos, entrei no curso de Letras, da UFRN. A Mineração eu enterrei de vez. Talvez se eu tivesse ido para a Petrobras, não teria tentado realizar meu projeto de vida: ser um pesquisador de teoria estética da literatura.
ZONA SUL – Por favor, explique essa teoria estética da literatura.
MANASSÉS – Em resumo, ela estuda como definir os grandes clássicos da literatura, como o texto se organiza e o que o conteúdo daquele texto quer dizer. Por exemplo: quando você escreve “no meu jardim existem muitas flores e o jardineiro colhe essas flores para me dar”, não tem coisa mais lógica do que isso. Mas, quando a frase é “no meu jardim existem flores que engoliram todos os monstros”, aí é preciso interpretar o que o autor quis dizer com aquilo. Que flores são essas que engolem monstros? O autor pegou os signos, as palavras, e construiu um texto que vai possibilitar várias interpretações. De certa forma, a teoria estética da literatura é o estudo do que os autores querem dizer com seus textos. Meu projeto de vida, naquela época, era esse. Por isso fui cursar Letras, mas não terminei. No último semestre desisti de ser teórico da literatura. Falou mais alto a necessidade de existência. Mas, até então, meu projeto era ir para São Paulo, tentar ser professor da USP.
ZONA SUL – Durante esse período, onde a música se encaixava?
MANASSÉS – Sempre estive próximo da música. No tempo de São José de Mipibu eu gostava de ficar na praça, tocando com meu irmão Júnior e os amigos Eugênio Parcele e Ismael Alves. Ismael, que é de Parnamirim, nessa época morou em São José de Mipibu. Depois ele entrou em um formato de produção musical vinculado aos movimentos sociais. Na ETFRN, até nas viagens do time de voleibol a gente levava o violão. Mesmo no Exército, nunca deixei de tocar. Continuei tocando violão e lendo poesia. O que me fez sentir necessidade de compor foi ver os caras tocando na noite, em Natal. A noite sempre foi uma escola pra todo mundo.
ZONA SUL – Naquela época se tocava música autoral nos bares?
MANASSÉS – Pouco. Quem começou a tocar um pouco de música autoral foi Expedito. Depois, Nazareno voltou de São Paulo e montou o “Antigamente”. Lá, ele e Silvana tocavam composições próprias. Pedrinho Mendes e Sueldo Soaress começaram mais ou menos na mesma época. Mas a produção não era grande. Infelizmente, Natal nunca oportunizou aos seus artistas uma inserção maior no contexto cultural da cidade. Houve certa efervescência entre os anos 1990 e 2000. Depois começou a queda e hoje está em banho-maria. Natal, do ponto de vista da música popular, está congelada de uma forma meio triste. A primeira vez que toquei em bar foi no “Boca da Noite”. Ao final da apresentação de Sueldo, peguei o violão e comecei a tocar. Como as pessoas gostaram, a dona do bar me chamou e pediu para eu continuar tocando por mais meia hora. A partir daí comecei a tocar na noite, mas esse nunca foi o meu forte. Tocando em bar, fui me aperfeiçoando. Então, resolvi tentar estudar. Entrei na Escola de Música da UFRN e estudei teoria um tempo. Estudei violão clássico para ter uma base e conhecer os acordes todos. Porém, acho que para tocar bem um instrumento musical depende do instrumentista. Ou você estuda por si só, ou termina sem conhecer.
ZONA SUL – E as composições, quando começaram a surgir?
MANASSÉS - A primeira música que compus foi para participar de um festival interno da ETFRN, em 1979. A música não logrou sucesso. Na segunda tentativa, a música que inscrevi era um pouco melhor, mas também não teve boa classificação. Porém, em 1987 inscrevi duas músicas próprias e uma terceira – em parceria com Edinho Queiroz – no Festival da UFRN. Essa última, chamada “Upstairs”, ganhou o festival. Teve época de eu tocar em bar mais constantemente, mas Natal nunca oportunizou a ninguém a possibilidade de ter uma vida musical autoral fazendo shows e participando de projetos que permitissem sua sobrevivência. É bom lembrar que artista não vive de ar, nem de vento.
ZONA SUL – Será que a competitividade dos músicos potiguares entre si contribui para isso?
MANASSÉS – Até o final da década de 1980, poucos tinham ido buscar espaço no Rio de Janeiro e em São Paulo: Flor de Cactus, Nazareno, Gilson, Terezinha de Jesus, Mirabô (que depois migrou mais para o mundo sindical) e outros poucos. Pedrinho Mendes passou um tempo curtíssimo no Rio, e também não logrou êxito. Teve também Gilliard, Carlos Alexandre... Acho que o grande sucesso potiguar foi a música “Casinha branca”, de Gilson. Mas, curiosamente, o Rio Grande do Norte foi um estado que não projetou ninguém no cenário nacional daquela época. Outros estados que conseguiram formar artistas de sucesso, ainda hoje persistem. Terezinha de Jesus teve um desponte importante. Além de a música dela ser boa, ela sempre foi uma figura maravilhosa. Só Terezinha para explicar porque depois de tanto sucesso ela voltou para Natal.
ZONA SUL – Terezinha fala sobre esse tema em entrevista que deu para o “Zona Sul” e que está disponível na Internet: (http://zonasulnatal.blogspot.com.br/2009/01/entrevista-terezinha-de-jesus.html).
MANASSÉS – Talvez várias circunstâncias tenham impedido que a carreira de Terezinha e de muitos outros tenha decolado e eles não tenham hoje um nome forte nacional.
ZONA SUL – Como está a música brasileira hoje?
MANASSÉS – Esteticamente, até os anos 1990 a música brasileira era bem dividida. Tinha a música brega e uma mais elaborada que entrava no rol da MPB. Sobre a música brasileira de hoje em dia, acho que, do ponto de vista da construção e da produção musical, ela está ótima. Quem procurar vai encontrar compositores maravilhosos elaborando canções com conteúdo e esteticamente bem feitas. Dá para fazer uma listagem enorme de cantores e compositores e ninguém conhece. Por exemplo: quem ouviu falar em Sérgio Santos? É um compositor maravilhoso.
ZONA SUL – Nos anos 1980 você, Antônio Ronaldo, Leão Neto, Edimar, Sueldo e tantos outros criaram um movimento de grande repercussão na cidade. Fale sobre o “Trampo”.
MANASSÉS – O “Grupo Trampo” foi criado naquela época em que os artistas trabalhavam de forma isolada, cada um construindo o seu lado. O músico potiguar, a exemplo do músico brasileiro – principalmente o compositor –, se sentia (e acho que hoje é pior ainda) miniaturizado frente às estruturas engendradas pelo mercado. Não havia uma motivação para ele produzir e divulgar sua música autoral. O mercado não absorvia esse trabalho como deveria. Era difícil até registrar essas canções, já que o formato que a tecnologia da época permitia era muito caro. O único caminho que encontramos foi nos juntarmos e Sueldo tocar a música dele e a minha, eu tocar as minhas canções, as dele e as de Ronaldo, e Ronaldo tocar as nossas e as de não sei quem lá. Tenho até hoje um texto impresso, um compêndio de umas 50 páginas, onde tentamos interpretar aquele momento.
ZONA SUL – Quem é o autor desse texto?
MANASSÉS – Antônio Ronaldo escreveu um bocado, eu escrevi outra parte, Leão Neto corrigiu e deu muitas ideias, junto com Sueldo. Foi feito um “brainstorm” grande para discutir a música brasileira e a potiguar de antes, a daquele momento e a que poderia surgir depois. O fato é que o “Grupo Trampo” gerou um “boom”. Fizemos um show na Rua da Floresta, na Vila de Ponta Negra, que reuniu 1.300 pagantes. Depois dessa festa conversei com umas 30 pessoas do Ceará que tinham ido assistir. O “Trampo” deu uma certa impulsionada na música popular potiguar. Depois o movimento se esvaiu devido a várias circunstâncias. Do jeito que começou, acabou. Não foi um movimento planejado, como também sem planejamento nenhum acabou.
ZONA SUL – Existe a possibilidade de o “Trampo” ressurgir?
MANASSÉS – Vez por outra converso com Antônio Ronaldo e Sueldo e a gente até comenta que poderia tentar reeditar. Mas o momento hoje é diferente. O fato é que a partir do “Trampo” alguns discos foram lançados. Eu lancei um, Leão Neto e Edimar Costa lançaram outros. Até então, só Pedrinho Mendes tinha gravado dois discos. “Flor de Cactus”, Nazareno e Terezinha de Jesus tinham produzido elepês, mas fora da cidade. Demos nossa contribuição para o povo perceber que a música local tem valor.
ZONA SUL – Fale sobre esse seu primeiro disco.
MANASSÉS – Lancei em 1989. Naquela época era difícil e caro fazer um disco. O poeta e professor macauense Benito Barros, já falecido, foi quem deu a ideia e me ajudou a buscar uma forma de viabilizar o projeto. Angariamos recursos de um lado e do outro. Fui gravar no estúdio “Estação do Som”, em Recife. O disco se chamou “Nós” e foi lançado com quatro canções, duas de cada lado. Ele rendeu bons frutos, do ponto de vista da divulgação e da ampliação do trabalho musical que eu vinha fazendo. O LP me deu oportunidade de uma entrada maior, consegui participar de vários projetos no Nordeste: João Pessoa, Fortaleza, Maceió...
ZONA SUL – Quando você gravou esse disco já tinha uma ocupação profissional fora da música?
MANASSÉS – Eu era estudante universitário e ainda tinha o sonho de sobreviver da música, de trabalhar nessa área.
ZONA SUL – Quando esse sonho virou pesadelo?
MANASSÉS – Esse sonho não virou pesadelo nunca, mas migrou para o espaço mais concreto da necessidade de sobrevivência. Vendo por um ângulo poético, esse pesadelo perdura até hoje. Pesadelos se transformam em sonhos que emocionam quando consigo construir uma nova canção. Tem certas músicas que começo a tocar e não consigo terminar, emocionado. Às vezes, chego ao final da canção meio cambaleante, carregando aquela emoção forte. O artista da música popular é dotado de conjugações, cores, imagens, verbos e sons para colorir a vida e deixá-la mais prazerosa e emocionante. Ele busca transformar em uma realidade bonita esse sonho que às vezes é pesadelo.
ZONA SUL – Antes de lançar seu segundo disco, que outros caminhos você buscou para poder sobreviver?
MANASSÉS – Quando a pessoa não tem uma família que possa lhe dar uma vida nababesca ou principesca, como aqueles clãs ricos e tradicionais do Nordeste, ela normalmente tem que fazer alguma coisa na vida para sobreviver. No Nordeste - em Brasília também é assim - se procura muito o serviço público. Então decidi: se não conseguia me manter como artista seria servidor público. Fui estudar para fazer concurso público. Dessa forma ingressei no Judiciário e até hoje estou por lá.
ZONA SUL – Você se sente frustrado por isso?
MANASSÉS – Não. Até porque continuei trabalhando com música. Mas, antes de ingressar no serviço público, concluí a universidade. Quando desisti de Letras, fiz reopção e entrei em Direito. Foi outra faculdade frustrada. O Direito é muito voltado para o positivismo, para a preservação do “status quo”, do que está estabelecido, do ordenamento jurídico. Na época eu usava camisa com o poema de Brecht, “O Analfabeto Político”. Sempre tinha uma opinião diferente do que estava tradicionalmente posto. Então desisti do Direito e me direcionei para o Jornalismo. Lá encontrei tudo o que é vertente. Paralelo ao novo curso, comecei a estudar para concurso. Já são 24 anos de serviço no Tribunal Regional do Trabalho, sem abandonar a música. Nesse meio tempo, lancei meu segundo disco, “Varal do Tempo”.
ZONA SUL – Fale sobre esse CD.
MANASSÉS – Pensei no disco como ele sendo um varal onde eu expusesse a minha vida. Cada peça de roupa, cada camisa estendida seria uma canção. No disco tem canção para mim, para o meu filho, para a minha esposa, para a minha cidade, para os meus amigos, para aqueles que militavam na música... Compus uma música para cada um desses temas e joguei dentro do disco. Acho que saiu um disco bacana em estética e conteúdo. A repercussão foi muito boa, tanto que, surpreendentemente, uma das músicas foi gravada várias vezes por outras artistas. “A Lua, o Amor e o Mar” foi regravada cinco ou seis vezes. Até uma americana, chamada Kate Bentley, gravou e escolheu o nome dessa canção para ser título do seu disco lançado com canções brasileiras. A cantora carioca Claudia Amorim gravou quatro músicas minhas em um disco.
ZONA SUL – Como elas conheceram seu trabalho?
MANASSÉS – Claudia Amorim ouviu o disco, gostou e entrou em contato. Kate Bentley também. Kate é uma diplomata americana que cantava nos Estados Unidos. Morou um tempo em Recife, mas hoje reside em Londres. Fiz o lançamento do “Varal do Tempo” em Natal, Porto Alegre, Brasília e Rio de Janeiro. Um jornalista do “Jornal do Brasil” fez uma crítica interessante do CD e publicou na capa do caderno de cultura de Niterói. Fiz um show no “Armazém da Música”, em Niterói. Na plateia tinha um cara do Pará, em uma mesa com cinco pessoas. Ele foi ao show para me conhecer. Não sei como, ele possuía o meu elepê. Esse paraense comprou cinco CDs para presentear os amigos. No Rio Grande do Sul, um cara já tinha o CD por lá. Se eu fosse me dedicar exclusivamente à música, o resultado da divulgação seria bem maior, já que é um disco bacana, bem tocado. Tem Arthur Maia (baixista), Marcelo Martins (sax e flauta), Sérgio Farias, Jubileu, as cantoras Khrystal, Lene Macedo e Valéria Oliveira, Gilberto Cabral (trombone)... Ricardo deu uma contribuição grande! Agora estou preparando o terceiro.
ZONA SUL – Esse novo disco já tem nome?
MANASSÉS – Deverá se chamar “Terra à Vista”. As músicas já estão gravadas. Nele me mostro enquanto pessoa humana, artista da música e me dou oportunidade para falar sobre o que eu descobri na vida. As canções falam dos boqueirões que a vida me abriu e as interpretações que eu dei a esses boqueirões que a vida me proporcionou. Eu falo da natureza, do amor e de tudo o que acontece na vida de uma pessoa. Está quase pronto. Talvez precise de um detalhe aqui e outro ali. É quase o mesmo time que participou do primeiro: Sérgio Farias, Jubileu, Erick Firmino, Dudu Taufic e Di Stéffano. O CD tem linguagem de banda. Tem também Marcelo Martins (sax e flautas). A intenção era ter lançado no ano passado. Como esse prazo já foi para o espaço, vou ver se consigo lançar o disco até outubro.
ZONA SUL – Fale sobre sua mulher e seu filho, pessoas que compartilham mais diretamente a vida com você.
MANASSÉS – Um pescador vai para o mar na expectativa de buscar a melhor pescaria para si e para a sua família. Um garimpeiro está sempre à procura da melhor pedra preciosa, do melhor mineral. Um cavaleiro escolhe dentre os melhores cavalos a montaria que ele acha ser a ideal. Enfim, o ser humano sempre procura na vida o melhor. Na verdade, o que eu tenho de mais precioso hoje eu não procurei. Surgiu como se fosse um prêmio do qual eu talvez nem fosse merecedor. Nem saí para o mar, como o pescador; nem fui ao garimpo, como o garimpeiro; nem escrevi um bom livro, como escritor teria feito. Surgiu para mim como se presente fosse. Talvez eu até merecesse, mas não estava buscando. Baseado na minha formação religiosa, diria que esse presente me foi dado por eu ter um bom coração. Foi uma recompensa. Ana é uma pedra preciosa que já veio para mim lapidada...
ZONA SUL – ...E que você guarda como um tesouro...
MANASSÉS – Não guardo como um tesouro. Ela é uma pessoa que me traz um aprendizado constante. Aí é onde reside a maior riqueza pra mim. Esse aprendizado me projeta como ser humano. Quando a conheci, ela me deu a possibilidade de me sentir realizado como ser humano. Depois, com o nosso filho, Eduardo (Dudu), surgiu um pulso de humanidade que – nessa vida conturbada de hoje - ao mesmo tempo me enriquece e me ensina que eu tenho que estar em uma constante desaceleração da ansiedade do dia-a-dia. Quanto menos ansioso estiver, mais em paz estarei com a família. Com eles dois, consigo ser mais humano, mais pai, mais amigo, mais filho, mais indivíduo. A cada dia eles me ensinam a viver melhor.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul.
MANASSÉS – Primeiro eu gostaria de sugerir ao povo potiguar que preste mais atenção nos seus artistas. Natal tem uma possibilidade musical riquíssima, tem compositores belíssimos como Antônio Ronaldo, Babal, Cleudo, Luiz Gadelha, Sueldo Soaress, Pedro Mendes e tantos outros. Na música instrumental, também. Tem músicos de qualidade internacional, como Eduardo Taufic, Jubileu, Sérgio Farias, Sérgio Groove e Ricardo Menezes. Infelizmente os veículos de comunicação de massa no Brasil têm prestado um grande desserviço. Desde a Rede Globo até os outros, eles ideologizaram a música nacional colocando a cultura de massa em detrimento das raízes culturais do nosso povo. O que me interessa, aqui no Brasil, conhecer o funk dos Estados Unidos - ou outros ritmos estrangeiros - enquanto não tenho a possibilidade de ouvir e ver na TV o samba, o baião, a marcha-rancho e tantos outras manifestações culturais nacionais? Hoje as pessoas vivem sob a égide da TV e do rádio. O que é veiculado as pessoas absorvem, muitas vezes sem nenhum senso crítico, de goela abaixo.
ZONA SUL – Como as pessoas podem ter acesso ao seu trabalho?
MANASSÉS – Acho que o CD “Varal do Tempo” ainda pode ser encontrado na Cooperativa da Universidade e em algumas livrarias de Natal. Quem não mora em Natal pode mandar um email para manassescampos@gmail.com. Estou no Facebook com o meu nome: Manassés Campos. Para finalizar, eu gostaria de deixar registrado que as entrevistas que o “Zona Sul” está fazendo são importantes porque perpetuam as histórias que são contadas. Como todo esse material está disponível na Internet, as futuras gerações que porventura possam se interessar por esses temas terão um repertório vasto para a pesquisa. Eles poderão saber que existiram pessoas construindo histórias, fomentando novas estéticas, compondo música e fazer artístico e sabendo que a humanidade caminha no sentido da sua evolução. Diferente da sociedade de hoje, buscamos um futuro onde o homem viva em benefício do próprio homem.
 

















quarta-feira, 27 de março de 2013

Entrevista: Tertuliano Aires



 AS CABRITAGENS DO BARDO DA BOCA SUJA

Quando fui entrevistar Tertuliano Aires, muito já tinha ouvido falar a respeito de Cabrito. Mas pouco conhecia das suas músicas - que muitos classificam como pornográficas. É bom destacar que Tertuliano não concorda com essa classificação: prefere chamar suas composições de “pornofônicas”. Bem acompanhado por Roberto Fontes, Ronaldo Siqueira e Costa Júnior - trio já iniciado no universo “cabritiano” – a entrevista ocorreu em frente à Lanchonete Zé Reeira, no centro de Natal. A conversa nem precisou ser movida a álcool para se tornar apimentada. Até porque, Tertuliano não bebe. E nem precisa. Em suas respostas, ele alternou momentos de Tertuliano e de Cabrito. Na edição do texto a seguir, optamos por passar um pente fino e extirpar do texto os palavrões, digamos assim, mais “cabeludos”. Mesmo com essa precaução, é bom deixar o alerta de que a porção Cabrito de Tertuliano - que conheceremos a seguir - não é recomendável para menores. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Como é o seu nome completo?
TERTULIANO – Tertuliano Aires Primo Neto. Meu nome é assim porque sou neto de Tertuliano Aires Primo.
ZONA SUL – Essa sua explicação tem lógica... (risos)
TERTULIANO – É. Foi por isso que colocaram esse nome em mim, que é o nome do meu avô.
ZONA SUL – Onde você nasceu?
TERTULIANO – A família “Aires” é de Pau dos Ferros, mas eu nasci em Mossoró.
ZONA SUL – O que o seu pai fazia da vida?
TERTULIANO – Meu pai foi um tremendo boêmio. Foi o cara mais “bola sete” de Mossoró. Nos anos 1960 ele já se envolvia com coisas erradas. Dizem, inclusive, que ele estava envolvido em um assalto em uma salina que ocorreu naquela época. Até hoje ninguém sabe o motivo de não ter havido processo e de a polícia nunca tê-lo acusado. Não sei se a história é verdadeira. Meu pai se chamava Rui Aires. A principal função que ele exerceu foi a de herdeiro. Meu avô paterno era muito rico. Meu pai viveu gastando o patrimônio que herdou. À medida que ia recebendo, torrava.
ZONA SUL – O rico era o “Primo”?
TERTULIANO – Não, era o pai dele, o meu avô.
ZONA SUL – É isso que estamos falando: o rico era o Tertuliano Aires Primo...
TERTULIANO – É verdade!
ZONA SUL – Como ele amealhou esse patrimônio para seu pai gastar depois?
TERTULIANO – Meu pai foi embora de Pau dos Ferros para Mossoró após uma briga entre os “Aires” e os “Fernandes”, por causa de uma banda de música. Lá ele montou uma fábrica de chocalho e lamparina. Essa empresa virou uma retífica de motores e uma fundição. Depois ele comprou loja de peças e posto de gasolina. Instalou também uma fábrica de cordas e adquiriu uma fazenda para plantar o agave necessário para fazer as cordas. Meu avô também montou uma fábrica de carrocerias e comprou imóveis na cidade. Dessa forma o patrimônio foi crescendo. Quando o velho morreu, os filhos não quiseram continuar com os negócios. Eles dividiram e cada um gastou o seu. Dessa forma, meu pai foi boêmio a vida toda: só gastando.
ZONA SUL – O dinheiro foi suficiente?
TERTULIANO – Quando ele morreu, faltou dinheiro e sobrou boemia (risos). A única coisa que restou foi a casa em Natal. Ela existe até hoje.
ZONA SUL – Fale sobre a sua mãe.
TERTULIANO – Terezinha de Medeiros Aires era o seu nome. Trabalhou como costureira. Vinda de uma família pobre, ela casou com um rapaz rico. Vivia submissa. Boa parte da vida foi ela quem cuidou da gente, enquanto meu pai gastava dinheiro. Talvez meu pai achasse que herança fosse parecida com buraco, que quanto mais você tira, mais cresce. Herança é o contrário: quanto mais você tira, menor fica. Minha mãe foi quem trouxe a gente para Natal, quando eu tinha 12 anos. Ela veio trabalhar com um irmão nas Casas Gomes. Hoje estou com 56 anos.
ZONA SUL – O que você recorda da sua época em Mossoró?
TERTULIANO – De tudo. A gente morou também em Fortaleza, no ano de 1964, quando meu pai foi arrendatário de um restaurante por lá. Mas Mossoró é toda a minha memória de infância, porque foi lá que comecei a ter consciência das coisas. Lá em casa, apesar de tudo, tinha um rádio e a gente escutava muito Coronel Ludugero, Barnabé, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro... No rádio você não pode selecionar, então, tudo o que tocava a gente ouvia. Voltei a morar em Mossoró de 1965 a 1968, ano em que mudamos para Natal. ZONA SUL – Como foi sua formação escolar em Mossoró?
TERTULIANO – Estudei no Grupo Escolar Modelo. Fiz parte do primário em Mossoró. Terminei em Natal, no Instituto Municipal João XXIII.
ZONA SUL – Seu pai estudou?
TERTULIANO – Não. Apesar de ele ter certo conhecimento, não teve um nível de instrução elevado.
ZONA SUL – O lado da esculhambação você herdou dele...
TERTULIANO – Possivelmente. Não herdei dinheiro, só o espírito ruim.
ZONA SUL – Como o sexo é tema recorrente no seu trabalho musical, é quase obrigação indagar onde se deu sua iniciação sexual. Foi em Natal ou em Mossoró?
TERTULIANO – Foi há tanto tempo que não tenho nem memória pra isso. Mas lembro que na infância, em Mossoró, conheci uma menina no colégio e me apaixonei por ela. Nem sei se ela ainda existe hoje em dia, mas pensei muito nessa garota nos momentos solitários que passava no banheiro lá de casa. Eu tinha uns 12 anos. Talvez minha iniciação sexual tenha sido pensando nessa menina, que, por sinal, era lindíssima.
ZONA SUL – Qual o motivo da mudança da sua família para Natal?
TERTULIANO – Nos mudamos por causa da situação financeira. O negócio do meu pai, que era gastar herança, não tinha muito futuro e nem a regularidade que proporcionasse a manutenção da família. Em outras palavras: meu pai estourava todo o dinheiro que recebia. Quando ele vendia uma casa, comprava logo um carro e torrava o resto do dinheiro. Assim os recursos foram se exaurindo, em Mossoró. Como a minha mãe costurava bem, esse seu irmão – Geraldo Gomes – sugeriu que ela mudasse para Natal, cidade que tinha um mercado de trabalho melhor. Ela mudou e ficou costurando pra fora, no bom sentido. A família toda veio, inclusive o meu pai. A gente morou um tempo no Alecrim e depois em Lagoa Seca.
ZONA SUL – Foi bom trocar Mossoró por Natal?
TERTULIANO – Eu era uma criança de 12 anos que praticamente não conhecia nada. Só tinha ido a Fortaleza. A própria viagem de Mossoró para Natal já foi uma aventura. Foi excitante conhecer Lajes, Angicos, Açu... Nesse tempo não tinha asfalto. A gente saía, em cima de um jipe, às quatro da manhã e chegava meia-noite. Para minha idade, foi marcante. Eu não tinha ideia do que encontraria em Natal. Quando cheguei, logo percebi que Natal era completamente diferente do que se falava em Mossoró. Diziam que aqui tinha lobisomens e falavam também na Viúva Machado. Mas a primeira coisa que vi, na rodoviária, foi uma criança apanhando carteira vazia de cigarro para brincar como se fosse nota de dinheiro. Na mesma hora, pensei: é igual a Mossoró, não tem nada de diferente. Menino é menino em todo canto. Em Natal despertei para tudo na vida.
ZONA SUL – Onde você veio estudar?
TERTULIANO - Na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte. Lá era o maior quartel, a melhor escola não só para a educação formal, mas também como preparatório para a própria vida. Não era mole. Tinha muita gente vivida, uma diversificação imensa. Foi uma experiência incrível. O aluno praticamente não tinha identidade. Em uma escola com dois mil alunos, você não tem identidade, é apenas um elemento do bando.
ZONA SUL – Você foi fazer qual curso na ETFRN?
TERTULIANO – Fiz exame de admissão para o ginásio e depois cursei Mecânica. No ginásio a gente passava por todos os cursos: praticava nas oficinas de Eletrotécnica, de Mecânica, e nas demais, pra ir pensando no que queria fazer. Ingressei para o técnico no curso de Mecânica.
ZONA SUL – Você concluiu o curso?
TERTULIANO – Sim. Quando terminei, fiz vestibular. Apesar de a ETFRN primar pelo ensino técnico, foi lá onde descobri que queria trabalhar na área de humanas. Fiz vestibular para Ciências Sociais. Na UFRN me envolvi com João Emanoel, com Juliano Siqueira, Geovani Rodrigues e essa rapaziada toda do movimento estudantil da época.
ZONA SUL – Você teve participação ativa no movimento?
TERTULIANO – Não, medíocre. Eu era apenas mais um elemento do Diretório Acadêmico. Não tive nenhuma participação significativa ou efetiva, como Juliano e François Silvestre tiveram.
ZONA SUL – Você correu algum risco?
TERTULIANO – O pessoal da minha turma foi preso, mas a mim não incomodaram. João Emanoel tinha um rádio que sintonizava ondas curtas. A gente pegava a Rádio da Albânia, a Rádio Central de Moscou e outras emissoras do lado de lá do muro. Ouvia as matérias, datilografava, mimeografava e deixava nas salas-de-aula do Campus e no restaurante universitário. Dava uma confusão grande, mas ninguém nunca descobriu que era a gente.
ZONA SUL – Nessa época você já tinha algum envolvimento com a música?
TERTULIANO – Morando em Mossoró, eu já tinha a mania de cantar. Ficava deitado em uma rede, cantando. Mamãe achava que eu cantava bem. Ela prometeu que um dia compraria um violão para me dar. Em 1970 ela comprou um violão na loja de instrumentos musicais de Gumercindo Saraiva. Era um Giannini. Graças ao violão conheci uma porrada de gente boa, como o pessoal do “Alcateia Maldita” e os boêmios do Bar do Coelho.
ZONA SUL – Você aprendeu a tocar sozinho?
TERTULIANO – Sim, porque naquela época era muito difícil ter alguém que lhe ensinasse. Frequentei a Escola de Música, mas não tive saco. Estudei em casa, com aquelas revistinhas de cifras. Depois fui pegando música de ouvido, desenvolvendo e aprendendo.
ZONA SUL – Você começou logo a compor?
TERTULIANO – Comecei quando conheci a rapaziada do “Alcateia Maldita”, que era Raul, Fernandão, Edinho, Joca e muita gente boa. No início, o “Alcateia” tocava música de Jimi Hendrix, Rolling Stones, Beatles... Eu e Nagério lançamos a proposta de tocar nossa própria música. A gente começou a incutir na rapaziada essa história do autoral. E vingou.
ZONA SUL – Sua primeira banda foi o “Alcateia”?
TERTULIANO – Foi o meu primeiro entrosamento com música. Mas eu só me apresentei com eles esporadicamente. Era tanto músico bom que eu ficava meio encabulado.
ZONA SUL – Por que você se afastou do “Alcateia”?
TERTULIANO – Comecei a namorar uma moça e ela engravidou. Com ela tive meus filhos, que, graças a Deus, já estão todos criados. Então, me afastei do “Alcateia” porque tive que trabalhar. Consegui um emprego de representante de remédios na Aché e fui viajar pelo interior. Esse trabalho permitiu que eu me aproximasse de músicos do interior como João de Deus, Miltança, Carlança, Carlos Bem, Almir de Areia Branca, Dedé Nepó e vários outros. Depois voltei para trabalhar em Natal como representante de um distribuidor de autopeças de Recife. Nas folgas eu estava sempre no bar de Toinho Sete Cordas, ou mesmo andando com Pael ou com o pessoal da capoeira da Avenida Três.
ZONA SUL – Qual curso você fez na Universidade?
TERTULIANO – Fiz vestibular para Sociologia. Passei, mas não concluí porque a namorada engravidou e tive que abandonar o curso para trabalhar. No tempo em que eu fazia faculdade trabalhava na Datanorte. Saí de lá porque ganhava um salário mínimo e não era o bastante para sustentar a parada. Fui trabalhar como representante e, viajando, não podia continuar frequentando a universidade. Nunca tranquei matrícula. Simplesmente abandonei, desapareci.
ZONA SUL – Seu destino era mesmo a música...
TERTULIANO – Música de sacanagem, por sinal. Tentei de todas as formas fazer composições que as pessoas pelo menos se interessassem em ouvir. Mas me chamaram era de doido e menosprezaram esse trabalho. Agora, compondo esse tipo de música que eu classifico de pornofônica, todo mundo me respeita. Já fui até entrevistado por Margot Ferreira para a TV Cabugi! Pelo andar da carruagem, daqui a pouco vai ter música minha na novela.
ZONA SUL – Essa entrevista que você deu a Margot foi veiculada em qual programa?
TERTULIANO – No RN TV. A gravação foi difícil, pois eu tive que contar as minhas histórias, mas sem dizer as palavras certas. Fiquei só arrodeando, como diz o natalense. Só pelas beiradas. Também gravei para o programa Xeque-Mate, da TV Universitária, feito por alunos da UFRN. Durou uma hora. Mais de 50 alunos se ofereceram para me entrevistar. Eu soube que normalmente é difícil arrumar voluntários entre os estudantes de jornalismo para gravar esse programa. No meu dia, quando a entrevista acabou, fui aplaudido. O estúdio estava cheio de gente, o povo fotografando. Distribuí até autógrafos.
ZONA SUL – Como surgiu o personagem Cabrito?
TERTULIANO – Na época do “Alcateia” eu, Nagério, Raul e Edinho compusemos uma canção chamada “Feira do Alecrim”. Muitos anos depois, Cida Lobo gravou essa música, mas não deu crédito nem a mim e nem a Nagério, como compositores. Não sei se por preguiça, conveniência ou outro motivo qualquer, não botaram o nome da gente. Então resolvi compor uma música que, no dia em que gravassem, o cantor certamente faria questão de dizer quem era o autor. Hoje em dia ninguém faz questão de dizer que é parceiro de Cabrito. Alguns que são parceiros, até negam. (risos) Hoje tenho certeza que ninguém vai querer dizer que é autor das porcarias que eu componho.
ZONA SUL – E o apelido Cabrito, como surgiu?
TERTULIANO – Eu era conhecido como Terto, mas achei que devia bolar um nome diferente para esse personagem. Então lembrei que o cabrito é símbolo do demônio. Não sei se vocês já estudaram ocultismo, mas o cabrito - bafomé, o bode de mendes - é o símbolo do demônio. Eliphas Levi já escreveu sobre isso. Baseado nesse fato, pensei no nome Cabrito. Depois disso, compus uma música chamada “Minha história” falando que minha primeira namorada foi uma cabrita. Mas é bom ressaltar que a letra da música se refere à história do personagem, e não à minha.
ZONA SUL – Essa letra não tem mesmo nenhuma semelhança com a realidade?
TERTULIANO – Não, de jeito nenhum. Até porque, até hoje só transei com cabritas bípedes.
ZONA SUL – Quer dizer que você tentou mesmo fazer música séria, mas não deu certo?
TERTULIANO – No começo não deu muito certo, mas depois as pessoas acabaram gostando desse meu trabalho “sério”. Resolvi enveredar por essa linha pornofônica quando, em minhas andanças como representante, encontrei em uma loja um cara com uma fita só de paródia com música de sacanagem. Achei interessante porque mais de vinte pessoas estavam em volta do carro ouvindo aquelas músicas com ele, na maior gargalhada. Inicialmente pensei em comprar um karaokê para compor letras de sacanagem em cima de músicas já conhecidas. Mas o maestro Franklin Nogvaes sugeriu que se eu compusesse as músicas ele faria os arranjos e a gente gravaria.
ZONA SUL – Você lançou logo um CD?
TERTULIANO – Não, na época lancei uma fita cassete de 46 minutos. E esse negócio tomou uma proporção que nem eu mesmo esperava. Começou como brincadeira, mas, hoje, se vou a uma festa em qualquer lugar - pode ser em uma fazenda lá na caixa bozó - termina alguém me reconhecendo. Certa vez fui fazer uma viagem com Zé Dias e Khrystal para Maceió. Zé Dias disse que se eu fosse reconhecido lá, ele se suicidava. (risos)
ZONA SUL – Zé Dias está vivo até hoje, é sinal de que você não foi reconhecido.
TERTULIANO – Não me reconheceram, mas lá fui apresentado como o parceiro de Khrystal na música “Coisa de preto”, que faz grande sucesso na capital de Alagoas.
ZONA SUL – Como você divulgou as músicas da fita?
TERTULIANO – No corpo a corpo. No começo o trabalho foi recebido com muito preconceito. Existem histórias escabrosas e folclóricas com relação a essa fita. Por exemplo: um cara comprou uma dessas fitas e deu ao dono de uma empresa de ônibus que faz a linha Ceará Mirim-Natal. Esse empresário tinha tanta intimidade com seus funcionários que os motoristas costumavam abrir o carro dele e pegar uma fita qualquer para tocar durante a viagem. Certo dia um motorista escolheu uma fita, levou para o ônibus e, quando iniciou a viagem, fechou a porta que separa a cabine e botou pra tocar, baixinho, como som ambiente para os passageiros. Em pouco tempo chegou uma mulher braba, dando porrada na porta. “Que sacanagem é essa?”. Quando o motorista foi ver, era a minha fita que estava rolando. (risos) Minha mãe, quando escutou, pediu que eu não dissesse mais em canto nenhum que era filho dela.
ZONA SUL – E a sua mulher e seus filhos: o que acham desse trabalho?
TERTULIANO – Minha mulher detesta, minha filha também não gosta. Mas meu filho é meu fã incondicional. Ele mora em Recife.
ZONA SUL – Você já foi preso alguma vez?
CABRITO – Não. Sou esguio, cara. Sou escorregadio.
ZONA SUL – Qual foi o passo seguinte, depois da fita?
TERTULIANO – A gente transformou essa fita em CD. O mesmo repertório. O lançamento foi no Vero’s Bar, que é uma casa de meninas de vida fácil. Aliás, é bom que se diga que, na verdade, elas levam uma vida é bastante dura.
ZONA SUL – Como surgiu a ideia de lançar o CD em um cabaré?
TERTULIANO – A ideia foi de Nelson Rebouças. A gente colocou gente dentro desse cabaré que não cabia. A casa era pequena, mas 250 pessoas conseguiram entrar. Foi um caos, foi um verdadeiro cabaré! Voltou gente da porta porque não conseguiu entrar. A gente quase não conseguiu tocar porque ficavam atropelando os instrumentos. Tem alguns vídeos dessa festa no Youtube, para quem quiser ter uma ideia do que estou falando.
ZONA SUL – Como reagiram a esse seu trabalho?
TERTULIANO – Fiquei maravilhado, sobretudo porque tinha muita menina linda cantando a minha música. Eu já tinha visto homens, adolescentes, cantando as canções. Depois ainda recebi muita gente no camarim improvisado.
 ZONA SUL – Tinha até camarim?
CABRITO – Na verdade, era um quarto de despejo com um ventilador velho, móveis velhos... Esse era o nosso camarim.
ZONA SUL – Quem acompanhou você nesse show no Vero’s Bar?
TERTULIANO – Minha banda, chamada “Os Caprinos”. Essa banda é encabeçada pelo maestro Franklin Nogvaes (teclado) e conta com Ricardo Baya (guitarra), Sérgio Mendonça (baixo) e John Fidja (bateria). Às vezes, um desses não está disponível e a gente convoca outro. Fiz bem uns três shows no Castelinho para lançar esse meu primeiro CD, que é chamado “Os nominhos que ela tem”.
ZONA SUL – É verdade que ao final de um dos seus shows realizados em cabaré uma das prostitutas comentou: “ainda bem que acabou essa baixaria...”?
TERTULIANO – (risos) Já pensou um negócio desses? Outro dia, eu estava tocando em um cabaré quando a dona chegou pra mim e disse: “meu senhor, respeite a minha casa... A gente tem um cliente lá dentro”. Um dia depois do lançamento do CD, o jornalista Mário Ivo fez até uma crônica e publicou no seu blog. O título era “As putas ficaram putas”. As meninas disseram que nesse dia do show só conseguiram fazer algum programa depois da minha apresentação. Esse show foi no dia 1º de maio de 2010. A capa do CD é de Venâncio Pinheiro.
ZONA SUL – Quem mais, além de você e Franklin, participou das gravações desse disco?
TERTULIANO – Só o maestro Franklin Nogvaes teve coragem. Mas é bom destacar que ele não tem culpa nenhuma! (risos)
ZONA SUL – É verdade que algumas bandas estão montando repertório inspirado no seu trabalho?
TERTULIANO – Sim. Tem, por exemplo, o pessoal do “Cool do Elefante”. Estou fazendo escola. Por outro lado, consegui algumas inimizades dentro do movimento feminista. Algumas me destetam por achar que eu detrato as mulheres. Mas ocorre que faço justamente o contrário: eu faço é uma louvação à mulher. Tem uma banda chamada “Las Cabritas Malditas” que está preparando um show que, na visão delas, tem o objetivo de detratar os homens, como elas acham que eu detrato as mulheres. Estão preparando uma carta aberta a mim. Fui convidado – e já aceitei – para estar no palco no momento da leitura.
ZONA SUL – Tertuliano tem muita coisa de Cabrito?
TERTULIANO – Acredito que sim, já que o personagem termina se confundindo com a pessoa. Quem é que está aqui? Cabrito ou Tertuliano? Sou espirituoso, todo mundo gosta de mim por causa disso. Todo mundo adora sacanagem, mas diz que não gosta. No frigir dos ovos, todo mundo gosta. Tem muita gente que comenta, a respeito da minha música, que ela é espetacular, mas quando começo a cantar acabo com tudo.
ZONA SUL – Você se dedica a um gênero específico de música?
TERTULIANO – Tem todo tipo. Tem tango, balada, forró, todos os gêneros. Fiz de propósito, só pra chiar, só pra ser pernóstico. O título do disco seria “A cagada da minha prima”, que é uma balada. Mas, a título de marketing, a gente mudou para "Os nominhos que ela tem”. Se fosse o nome original, acho que a gente teria dificuldade de divulgar.
ZONA SUL – Você já ouviu “Velhas Virgens”?
TERTULIANO – Já. Trabalho vendendo MP3. Tudo que você imaginar de música, eu tenho. Trabalho vendendo pen drive gravado, CD. Tenho o repertório das “Velhas Virgens”.
ZONA SUL – Em que você se inspira para compor suas canções proibidas para menores de 18 anos?
TERTULIANO – É muito fácil fazer esse tipo de música. Basta assistir bastante filme de sacanagem e prestar atenção nas histórias escabrosas que são contadas nas mesas de bar. Todo frequentador de boteco tem uma história legal pra contar. Vou juntando um “causo” aqui, uma piada acolá e de repente a letra da música está pronta.
ZONA SUL – Como foi a gravação do DVD?
TERTULIANO - Hoje DVD é moda, todo mundo grava um. Por isso resolvi também gravar o meu. Um pessoal de Caicó, da “Nonsense Filmes”, fez a gravação. A “Nonsense” gravou o repertório do disco lá no Senzala, o cabaré de Abílio. Não teve participação da banda, foi só eu e Franklin Nogvaes. Franklin colocou os arranjos no computador e fez os acompanhamentos com o teclado. Com a banda toda teria dificuldades na edição.
ZONA SUL – Onde adquirir os seus trabalhos e como contratar os seus shows?
TERTULIANO – Meu CD e o DVD estão à venda lá no Sebo Balalaika (Rua Vigário Bartolomeu, 565 - Cidade Alta). Contatos para a distribuição do DVD e também para shows podem ser mantidos com Nelson Rebouças (nnelsonreboucas@yahoo.com.br – (84) 9922-8188 ou 9151-7783).
ZONA SUL – (Nesse instante chega à mesa da Lanchonete Zé Reeira o jornalista Moisés de Lima, um dos responsáveis pelo sucesso de Cabrito).

TERTULIANO – Moises de Lima é um dos culpados pela ascensão do Cabrito. Esse “fela da puta” foi um dos que mais divulgou esse trabalho. Eu querendo que ele escrevesse matéria sobre meus trabalhos sérios, evangélicos, e ele nada de querer me entrevistar. Mas foi só eu fazer essas músicas de sacanagem que ele botou no jornal. (risos)
ZONA SUL – É sério que você tem um trabalho evangélico?
TERTULIANO – Claro que não. Mas é verdade que eu gosto de estudar religião. Por incrível que pareça, frequento escola e tudo. É a minha filosofia preferida, o estudo da religião, principalmente do Cristianismo. Todos temos Deus e o demônio em nós. Por isso a espiritualidade e o lado carnal convivem muito bem em mim.
ZONA SUL – Qual a tiragem do disco e do DVD?
TERTULIANO – Do disco eu nem sei, mas do DVD a gente fez 300 cópias. Penso que já estamos precisando fazer outra tiragem. O DVD foi lançado agora em 2012. Ele tem o mesmo nome do CD: “Os nominhos que ela tem”.
ZONA SUL – O trabalho como Cabrito foi o que chamou a atenção de outros artistas para as suas músicas “censura livre”?
TERTULIANO – Não, eu já tinha toda uma história com o “Alcateia“ e participado de festivais. Em resumo: eu tinha envolvimento com a cena cultural potiguar e alguns artistas tinham gravado músicas minhas... Mas certamente esse trabalho me tornou mais conhecido.
ZONA SUL – Quem já gravou suas canções?
TERTULIANO - Carlos Bem, Krhystal, Geraldo Carvalho... Fica difícil lembrar todos.
ZONA SUL – Qual sua música preferida?
TERTULIANO – Sem dúvida nenhuma é “Natália”, que fiz em parceria com Nagério. A letra é assim: “Meu canto corta a ribeira / Cidade nova de amor / Grito pelos igapós / Um desafio em flor / Tempero a minha alma / Com um ramo de alecrim / O meu coração de rocas / Picado de maruim / E a esperança que descansa / Numa redinha pequena / Capim macio do pátio / Mãe Luiza flor morena / Dix sete botões rosados / Lagoa nova secou / O grande ponto dos sonhos / Candelária, virgem amor / O forte da negra ponta / Cantinho de Mirassol / Brasília teimosa, reis / Barreira d’água, Tirol / O morro branco que guarda / A areia preta do mar / Cidade alta de mágoas / Bom pastor a vaquejar”.
ZONA SUL – E o seu trabalho junto ao “Balalaika Brega Band”?
TERTULIANO – Surgiu pela necessidade de ganhar dinheiro. O repertório inclui músicas bem apelativas, bem bregas, como “Essa última canção” e “Eu não sou cachorro não”. Isso é para a gente ganhar dinheiro. Nessa banda eu entro como Tertuliano. A gente se apresenta em qualquer lugar.
ZONA SUL – Cabrito chegou a fazer shows fora de Natal?

TERTULIANO – Sim, mas só com voz e violão. Nelson Rebouças publicou um livro chamado “69 versos fesceninos”. Ele lançou em Natal, João Pessoa e Mossoró. Fiz participação em todos esses lançamentos. Apesar de não ter me apresentado em muitos estados, recebo e-mail do país inteiro. Tem gente do Rio Grande do Sul que escreve dizendo que estava em um churrasco no final de semana e a trilha sonora foi minha música. O cara manda a mensagem sem nem me conhecer. E olha que eu nem cultivo muito esse negócio de redes sociais.
ZONA SUL – Vimos que o seu Twitter (@CabritoDBDNSA) está bem desatualizado.
TERTULIANO – Não é meu, nunca tive Twitter. Estão utilizando meu nome. Acho uma covardia. Se você tem vontade de escrever alguma coisa, faça e assine. Não se esconda atrás do meu nome. Já vi algumas coisas escritas nesse Twitter. Garanto que eu seria bem mais criativo. Os textos lá estão muito óbvios, rasteiros.
ZONA SUL – Onde encontrar, na Internet, o Cabrito original?
TERTULIANO – Não cultivo muito a Internet porque tenho um Facebook de Tertuliano. Tenho medo de postar uma coisa em um lugar e cair no outro. Mas é fácil me encontrar no Youtube. Não apenas o trabalho como Cabrito, mas algumas canções que estão postadas no canal “Som sem plugues”.
ZONA SUL – O que você planeja agora?

TERTULIANO – Minha prioridade é trabalhar, vender CD, vender música, vender pen-drive gravado. É trabalhar nos projetos do governo, na direção de palco. Faço parte da equipe do MPBeco. Quem toma conta do palco sou eu. Minha prioridade é trabalhar e trabalhar e trabalhar. Em outra frente, estou planejando o próximo disco. Já tenho algumas músicas novas. O ano está começando, vou ver se me entendo com Franklin Nogvaes e a gente grava esse novo disco. Depois de pronto, é só organizar uma festa de lançamento.
ZONA SUL – O que faltou perguntar a você?
TERTULIANO – Acho que nada.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor.
TERTULIANO – Eu queria que as pessoas fossem compreensivas com esse trabalho de Cabrito. É apenas uma brincadeira. Não tenho a intenção de detratar ou menosprezar ninguém. Pelo contrário, o objetivo é só divertir as pessoas. Outro dia, Emanuel Grilo – o cara mais safado de Natal – inventou que eu abriria um show de Chico Buarque. Ele costuma fazer piadas comigo. Recebi muito e-mail de pessoas querendo saber se era verdade. Eu confirmei! Em torno de mim rola essa brincadeira, essa palhaçada. Isso alegra as pessoas, diverte. Meu trabalho é isso, é humor. Não tem nada de ofensivo. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Entrevista: Jonas Escurinho



O CINQUENTÃO ESCURINHO É 100 NO ZONA SUL!
O ano de 2012 tem sido especial para Jonas Epifânio dos Santos Neto. Além de completar seu quinquagésimo aniversário e de conquistar duas das principais premiações em um festival de música na terra onde nasceu – Serra Talhada – Jonas, o Escurinho, voltou a se apresentar na capital do país com a sua banda Labacé e iniciou um novo projeto que tende a render bons frutos: a ciranda de maluco. Para completar, esse paraibano nascido em Pernambuco foi o escolhido pelo Zona Sul para ser o centésimo entrevistado do jornal desde outubro de 2003. E ele se fez presente, junto com a Labacé (Alex Madureira, Igor Aires e Flávio Boy) e a sua esposa Ester Rolim. Para contrabalançar, também participaram da “festa” meus amigos Glauco Porto, sua companheira Maíra Pereira, a carioca papa-jerimum Inês Augusta e o repórter fotográfico Roque de Sá, que mostrou talento usando apenas um telefone celular Galaxy SIII, da Samsung (robertohomem@gmail.com).

ZONA SUL – Você nasceu em qual lugar de Pernambuco?
ESCURINHO – Em Serra Talhada, mas só nasci. Meus pais moravam em uma vila chamada Bom Nome, distante 20 minutos de viagem. Como lá não tinha maternidade, grande parte das grávidas tinha seus meninos em Serra Talhada e voltavam para Bom Nome.
ZONA SUL – A população de Bom Nome deve ser bem pequena...
ESCURINHO – Poucas pessoas nasceram lá, mas tem no mapa! Se botar no Google, também encontra. Meu pai era vaqueiro e agricultor. Quando a CHESF foi construir as subestações de eletricidade no interior, ele foi convidado para trabalhar desmatando terreno. Meu pai era esperto, fez amizade com todo mundo. Quando a subestação foi construída, ele ficou como eletricista. Trabalhou de 1962 a 1969 na subestação de Bom Nome, como funcionário da CHESF. Quando a companhia começou a construir subestações em municípios da Paraíba, meu pai foi para Piancó. A família deixou Pernambuco nessa ocasião, em 1969. Fui para o Vale do Piancó com sete anos de idade.
ZONA SUL – Como é o nome do seu pai?
ESCURINHO – Manoel Jonas dos Santos. Quando foi construída a subestação de Catolé do Rocha, a SAELPA (Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba) contratou alguns funcionários da Chesf, entre eles o meu pai. Mudamos para Catolé em 1973. Eu já tinha onze anos.
ZONA SUL – Você guarda alguma recordação de Serra Talhada?
ESCURINHO – É a terra de Lampião. Recentemente li que a Casa de Lampião conseguiu um projeto com a Petrobras e vai transformar a fazenda onde Lampião viveu em museu, restaurante. Minhas maiores recordações são de Bom Nome. Lembro daquelas coisas de criança, das brincadeiras, de algumas palavras... Por exemplo: tem uma palavra chamada monturo que eu não esqueço nunca. Até porque era onde a gente brincava, no monturo. No monturo era onde tinha os obstáculos e cresciam as frutas gogoia, maria preta, melão de são caetano... Recordando daquele tempo constato que, quando a gente é pequeno, as coisas parecem ser bem maiores. Por exemplo: depois de muitos anos voltei com Ester (Ester Rolim, mulher de Escurinho) e as meninas à casa onde morei em Bom Nome. Eu sempre dizia que era uma casa imensa. Quando chegamos lá, Malu viu aquela casa pequenininha e logo perguntou: “papai, cadê a casa?”. Lembro também que eram imensos os animais que eu via no Sítio Valença, que pertencia à minha família. As aranhas caranguejeiras eram enormes. No caminho de casa para a roça eu via uns bichos que, imagino hoje, deviam ser uns lagartos ou camaleões. Naquela época era como se fossem crocodilos!
ZONA SUL – Quais suas primeiras recordações musicais?
ESCURINHO – Vem das feiras de Conceição do Piancó. Na época de Bom Nome, meu avô Mané Jacinto era dono do que, na época, se chamava Clube Social Brotas. Eles faziam festas e bancavam jogo. Meu avô era uma espécie de produtor de eventos. Todo final de semana tinha a feira do Carmo, no interior, e tinha a Feira de Conceição. Sempre que ele ia, me levava. Eu achava massa porque, na volta, as moedas que ele trazia eram todas para mim. Na viagem eu via os cantadores na feira. Todos eram amigos de Mané Jacinto. Depois que os emboladores acabavam, iam tomar uma com ele. Meu avô faleceu há seis anos. As feiras do Piancó e do Carmo foram marcantes para mim.
ZONA SUL – E os estudos?
ESCURINHO – Minha família nunca vacilou nesse ponto. Naquele tempo não tinha esse negócio de ir para escola com três ou quatro anos. Entrei aos sete, mas já sabendo ler. Minha mãe, minhas tias e minha irmã mais velha ensinaram. Mas, quando entrei na escola, foi até engraçado. Ficavam me comparando com os outros: “o neguinho de Mané Jonas sabe ler e tu não sabe”. Paralelo a isso, havia minha paixão pelo circo. Antigamente todo circo tinha drama, teatro. Quando o circo saía de Piancó, ficava aquela febre de circo na cidade. Então minha mãe, uma tia que morava com a gente, minhas irmãs e algumas vizinhas montavam uns dramas, lá em casa, para arrecadar fósforo, açúcar e o que desse. Armavam uma tenda para encenar peças como “A Escrava Isaura”, “A Cabana do Pai Tomás”, “Sansão e Dalila”... Eu não tinha noção do que era teatro, mas era um momento massa.
ZONA SUL – Como foi a vida em Piancó?
ESCURINHO – Apesar das dificuldades, minha família vivia bem. Era a época dos militares, e eles não deixavam faltar nada para os funcionários da CHESF. Todo final de ano a empresa mandava um caminhão com uma super-feira. Vinha tanta coisa que dava para distribuir com os vizinhos. O almoço de domingo também era uma festa. A gente vestia a roupa de domingo, ia à missa e voltava para comer galinha, que só se comia aos finais de semana. A gente comia com salada de maionese.
ZONA SUL – Você é católico?
ESCURINHO – Minha mãe me levava para a igreja, mas não tenho vínculo com a religião. Depois dos 15 anos não voltei lá e passei a entender a igreja de outra forma. Nos tempos de Bom Nome, quando papai era vaqueiro e trabalhava na agricultura, ele gostava de cantar. Era boêmio e namorador, embora não bebesse nem fumasse. Lá em casa tinha cavaquinho e violão. Meu pai recebia em casa seus amigos, os malucos de Piancó. Muitos deles tinham retornado à cidade depois de ter passado pela universidade em João Pessoa. E tome farra! Lembro daqueles cabeludos lá em casa tocando violão. O término da hora da Ave Maria, no rádio, no final da tarde, coincidia com a hora em que ele chegava da subestação. Então tome forró. Tocava Esmeralda, Luiz Gonzaga... Mas quando a CHESF resolveu levar alguns funcionários para fazer um curso em Paulo Afonso, tudo mudou. Manoel Jonas foi um dos escolhidos. Dois meses depois, quando voltou, estava vestindo uma camisa “volta ao mundo”, que era a foda da época. Trazia também uma carteira de Hollywood no bolso. Voltou todo invocado, usando aquelas escovas de mão para pentear o cabelo, um par de óculos ray-ban e bigode... Era o satanás em gente! (risos).
ZONA SUL – O que sua mãe achou disso?
ESCURINHO - Ficou puta da vida! A partir daí, ele começou a beber e a farrear de verdade. No domingo não era mais só galinha, era cerveja também! Foi por essa loucura dele, no bom sentido, que em 1973 a gente foi embora para Catolé. Na época eu era pequeno, apenas via aquele movimento todo. Só vim entender o sofrimento da minha mãe muito tempo depois. Minha mãe, mulher de família, segurou a onda. Meu pai foi primeiro, para Catolé. Um mês depois passou um caminhão e levou a gente. A partir daí ele sossegou, mas continuou boêmio: aquela figura simpática e querida por todo mundo.
ZONA SUL – Nessa época você já era Escurinho?
ESCURINHO – Não. Quando cheguei a Catolé havia um jogador de futebol do Internacional chamado Escurinho. Ele faleceu no ano passado. Eu jogava na mesma posição do bicho, e corria pra caramba. Os colegas passaram a me chamar de Escurinho. Assim ganhei o apelido. Um ano depois, no meu envolvimento com música, o povo de Catolé já sabia que Escurinho era o neguinho da subestação, o maconheiro da subestação. Catolé foi uma cidade muito louca. Cheguei lá no momento em que estava saindo da confusão do movimento estudantil de 1968. Catolé tinha aura de revolucionária. A influência da música boa da época, a gente tinha tudo lá. Por exemplo: o disco de Elomar, “Das barrancas do Rio Gavião”, ouvi pela primeira vez em 1979, em uma feira na praça de Catolé. Eu também tinha acesso à loja onde Chico César trabalhava como balconista. Onildo trazia tudo que era novidade da Tropicália e botava lá. Foi daí que veio a ideia de fazer música e participar de festivais. Assim surgiu o “Grupo Ferradura”.
ZONA SUL – Fale sobre o “Ferradura”.
ESCURINHO – O grupo nasceu de tanto a gente ir ao Rio Agon. Quando chovia, formava umas cacimbas. A gente comprava umas garrafas de cana, uns tira-gostos, pegava o violão e ia para o rio na sexta-feira de tarde. Se os pais não fossem atrás, a gente ficava até a segunda-feira, escrevendo e fazendo música. (risos). A partir daí passamos a frequentar os festivais nas cidades próximas.
ZONA SUL – Você já começou como compositor?
ESCURINHO – Nessa época todo mundo do grupo compunha.
ZONA SUL – Você chegou a estudar música?
ESCURINHO – Depois. Na época eu tocava percussão, de maneira intuitiva. Nosso trabalho era autoral. Eu compunha, Chico César também. Branco, Adonias... Todo mundo tinha aquela veia. Mas, no final das contas, eu e o Chico - até por a gente se encontrar mais e ficar mais tempo juntos – a gente compunha mais. Adonias tocava flauta doce; Branco, violão. Mais na frente veio Zé Galinha. Chico César tocava uma viola com uma afinação diferente e uma sonoridade foda. Nem ele consegue repetir essa afinação, hoje. Depois, ele ganhou um violão de presente. Eu tocava percussão e cantava. Mas eu não gostava de cantar, tinha medo. Nos festivais todo mundo tocava e cantava. De tanto a gente ganhar festival, quando surgia um os outros concorrentes já começavam a se perguntar: “os neguinhos de Catolé vêm?” (risos). Chico César – apesar de bem magrinho, desse tamanhinho e com aquela cabeçona - quando abria o bico pra falar, todo mundo já ficava de orelha em pé. Ele sempre foi muito seguro, e não tinha boquinha, não. Ele, pra quebrar o violão na cabeça de um, bastava essa pessoa pedir pra ele tocar Roberto Carlos várias vezes, depois de a resposta ser NÃO.
ZONA SUL – A bebida em excesso não atrapalhava?
ESCURINHO – Ela foi boa pra caramba naquele momento, mas começou a ficar ruim porque passamos a exagerar. Na escola, por exemplo, na hora do recreio já ficava combinado que a gente ia se encontrar para tomar a última “meiota” pra voltar e fazer prova. E continuava a beber depois da última aula. Mas, fomos crescendo. Chico César fez vestibular em 1979 e, no ano seguinte, foi para João Pessoa, estudar. Eu fui para Recife, fazer um negócio que não tinha nada a ver comigo: o curso de técnico em Contabilidade, no Colégio Porto Carreiro. Eu queria ter ido para o Instituto da Teologia da Libertação que estava abrindo na Conde da Boa Vista. Dom Hélder Câmara estava instalando esse curso em todo canto. Minha família não deixou. Se tivesse ido, teria sido melhor pra mim: era mais profundo, mais exigente. Eu era muito louco, não tinha disciplina pra contabilidade. No caminho da escola tinha uma casa de vinho quente. Eu guardava o dinheiro da passagem, ia a pé, para tomar vinho. Ainda estava no vício de Catolé. Mas foi um ano massa porque eu saía da escola e ia direto para o Teatro do Parque, pegar o final dos shows: Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Bubuska, Vivencial, Ave Sangria... Vivi esse momento. Foi um ano inteiro assim: só ouvindo esse pessoal. Lá eu não toquei. De Recife fui para João Pessoa. Saí da capital pernambucana em fevereiro, depois do carnaval. Fui direto para a casa de Pedro Osmar, a quem eu só conhecia através da imprensa. Chico César já estava na cidade, mas fui logo procurar Pedro Osmar. Ele foi muito receptivo, ficou bem alegre. Com ele passei a conhecer um pouco do maracatu, da cultura negra. Mas a minha relação com Pedro Osmar, nesse primeiro momento, foi curta. Até porque eu tive que retornar à Catolé. Mas lá percebi que não tinha condições de ficar. Não tinha mais a música, nem os amigos: era só a família pressionando para eu dar um rumo na vida. Resolvi voltar para João Pessoa. Fui morar na Casa do Estudante. Foi quando conheci Odair Salgueiro.
ZONA SUL – Quem é essa pessoa?
ESCURINHO – O professor que formou os principais músicos que mexem com percussão na Paraíba. Comecei a estudar com ele, mas eu era muito irresponsável e louco. Ele apoiou muita gente, nessa época. Inclusive a mim. Quando eu chegava para uma de suas aulas sem ter estudado em casa, sem ter feito a lição que ele havia passado na aula anterior, Odair me dava uma bronca. Ele percebia que eu não tinha estudado logo que eu pegava nas baquetas. Então, Odair dizia: “pode parar, não vou ficar perdendo o meu tempo com quem não quer estudar”. Eu tentava enganá-lo, dizendo que tinha estudado, mas ele sabia que era mentira. Depois criei um pouco de juízo e, nos três anos que passei com Odair Salgueiro, aprendi pra caralho. Muitos aprenderam com ele, inclusive Flávio Teles (Boy), que está aqui conosco. A partir daí fui conhecendo uma turma que tocava na noite. Como eu era muito louco, nunca aceitei muito esse tipo de trabalho. Tocar na noite de João Pessoa, nessa época, era tocar por birita, para beber. Não vou negar que isso era o que eu queria, mas eu também queria pagar minhas contas. E não tinha como. Ainda toquei no Gambrinus, que pagava direitinho, e com Soraia Bandeira e João Linhares. Mas vi que aquilo não servia para mim. Eu achava que não era certo o dono do bar ganhar mais do que a gente e defendia que o “couvert” todo tinha que ser nosso. Eu era bocão. Saí da noite pensando em criar coisas, fazer músicas. Foi quando veio a história do teatro, do “Vau do Sarapalha”.
ZONA SUL – Estamos ansiosos para ouvir essa história...
ESCURINHO – O “Vau da Sarapalha” é um conto de Guimarães Rosa. O “Grupo Piolim”, de Luiz Carlos Vasconcelos, estava trabalhando na adaptação dessa obra para o teatro. Fui o responsável pela parte musical do espetáculo. Viajamos muito pelo Brasil, América do Sul e alguns países da Europa. O ponto de partida foi a visita do então ministro da Cultura, Sérgio Rouanet, a João Pessoa. Quando Luiz Carlos, doido para cavar recursos para o Piolim, soube da visita, convidou o ministro para assistir a um ensaio de “Vau da Sarapalha”. Era a forma de Sérgio Rouanet ir até o Piolim. A gente achava que esse ministro era um cara velho, grandão, importante. Mas ele era novo e já entrou na sala conversando com todo mundo. O ensaio demorou a começar, mas ele permaneceu tranquilo, aguardando. Era noite de lua, e o cenário ficou todo natural, sem aquela luz toda que veio depois. Tinha no máximo uns candeeiros. O ministro pirou. Terminou a peça, ele perguntou onde a gente ia se apresentar. Não tinha nada agendado, mas Luiz Carlos sabia que vinte dias depois seria realizado um festival em São José de Rio Preto. De tão confiante, ele mentiu para o ministro dizendo que nós participaríamos. Rouanet pediu que telefonássemos para ele quando estivéssemos em São Paulo e prometeu que apresentaríamos “Vau da Sarapalha” também em Brasília. Conseguimos participar do festival em São José do Rio Preto. Já chegamos lá com as passagens compradas para Brasília, hospedagem reservada na cidade e uma apresentação agendada no Teatro Garagem, do SESC.
ZONA SUL – Como foi o espetáculo em Brasília?
ESCURIHO – A apresentação era na segunda-feira, pois não tinha vaga na pauta de teatro da cidade. Começava às oito da noite. Duas horas antes, tinha uma fila arrodeando o SESC. Eu, matuto, nunca tinha visto aquilo. Os caras do teatro viram e cancelaram as apresentações dos grupos que se apresentariam no final de semana seguinte, para abrir espaço para o “Vau de Sarapalha”. O fato é que ficamos um mês em Brasília.
ZONA SUL – Qual a explicação para o teatro lotar em Brasília logo na primeira apresentação?
ESCURINHO – A gente tinha vencido os principais prêmios do festival de São José do Rio Preto. Houve também muito trabalho de boca a boca. Além disso, Barbara Heliodora – que tinha nos assistido em São José do Rio Preto - botou uma matéria na “Veja” exaltando a peça. O sucesso em Brasília nos garantiu uma proposta para temporada em São Paulo. Mas antes de ir para lá, voltamos a João Pessoa. Já tinha integrante do grupo reclamando: “vamos pra casa, não aguento mais, quero ir pra casa”. Fomos para São Paulo e fizemos dois dias no Teatro Vergueiro. Tinha mais gente que em Brasília! Saímos de lá para o Teatro Gláucio Gil, no Rio de Janeiro. Era uma quarta-feira e o problema se repetiu: não coube todo mundo que queria assistir. O grupo que apresentaria no final de semana nos cedeu o lugar. Depois disso, passamos mais um mês. Tudo lotado. Na sequência, fomos para Bogotá, na Colômbia. De lá para a Venezuela, onde tivemos prejuízo. O empresário não soube negociar ou roubou. O fato é que ficou de depositar o dinheiro na nossa conta, quando a gente voltasse para o Brasil, e nada...
ZONA SUL – A questão da língua, como ficou?
ESCURINHO – Nunca foi problema. Apesar do texto, a peça é muito plástica e sonora. A estética é muito forte. Nas vezes em que foi tentado botar tradução simultânea, legenda, neguinho reclamou. Na Alemanha, em Hamburgo, aconteceu isso. Colocamos legenda, mas no outro dia pediram para tirar. Enquanto estavam lendo, não assistiam ao espetáculo. Já em Portugal, amargamos um fracasso na primeira temporada. E a gente pensava que ia fazer o maior sucesso. Na primeira viagem a Europa, fizemos Bélgica, Alemanha e Portugal.
ZONA SUL – Até então você estava mais voltado para o teatro do que para a música?
ESCURINHO – Estava dividido. Mas eu sempre gostei de música, e não de teatro. Eu estava envolvido, era um momento massa, estava ganhando um dinheirinho, mas sabia que tinha que me arrumar na música. Depois de uma dessas viagens, comprei um gravador Aiwa para registrar minhas ideias, as composições que eu fazia. Eu já vinha fazendo isso quando houve uma parada do Sarapalha em João Pessoa e eu fui morar com o pessoal do “Carroça de Mamulengo”. Comecei a montar minhas coisas, a tocar em vários instrumentos e a cantar o que eu havia registrado nas viagens. Foram surgindo umas músicas e passei a mostrar esse trabalho. Depois convidei um baixista e um violonista. Rolou um show no Teatro Santa Rosa. No final da apresentação, Alex Madureira, que estava voltando do Rio, chegou gritando, cheio de cachaça: “meu irmão, esse som é muito bom, mas esse violonista não toca nada”. Eu já tinha ouvido falar muito sobre ele. Saímos de lá para a praia, onde bebemos todas. Nem lembro como cheguei em casa, mas na segunda-feira eu estava na casa de Alex, ao meio-dia. Começamos a trabalhar. Em um mês a gente já tinha várias músicas. Depois veio a banda e João Pessoa começou a conhecer o trabalho de Escurinho e Alex Madureira. Primeiro foram os bares da periferia, o Bar da Tapa e os barzinhos do centro. Gravamos o primeiro disco em um período curto.
ZONA SUL – Como é o nome?
ESCURINHO – “Labacé”, gravado em 1995. Fizemos shows em várias cidades. Uma galera de Recife, entre eles Lula Queiroga, estava nos assistindo em um bar em João Pessoa. Rolou um buchicho e logo depois fizemos um show em Recife, no “Rei do Cangaço”. De lá, a gente tocou no “Abril Pro Rock”. Assim começamos a formar um nome naquela região. Depois dessa fase de Recife, percebi que a gente tinha um produto, mas não tivemos a mesma estrutura, por exemplo, que o pessoal do Manguebeat teve. Pernambuco era um estado melhor estruturado e com uma maior visibilidade. A televisão estava se organizando, a mídia de Recife apostava na cultura local. O pernambucano tem orgulho das coisas do seu estado, se valoriza. É assim que tem que ser. Em João Pessoa ainda não tivemos isso. O Labacé fazia um som diferente do que o pessoal do Mangue estava fazendo. Na nossa mistura não entrava só o maracatu, rock, funk, música eletrônica... Nossa influência era muito mais a música da caatinga do que a do mangue. Alex tinha uma proximidade com o cariri, com a cultura indígena.
ZONA SUL – Como a Paraíba recebeu essa novidade que foi o trabalho de vocês?
ESCURINHO – Nem sei se recebeu até hoje, pois a gente ainda está no processo de fazer público, apesar de 16 anos na estrada. Teve recentemente, na Paraíba, um festival nacional de arte. Não fomos convidados para tocar. Alex tocou no circuito do frio de Pernambuco, mas não no da Paraíba. Eu toco em Garanhuns um ano sim, outro não. Mas não toco no circuito da Paraíba. A gente abriu um show para Daniela Mercury, lá no Busto de Tamandaré, em João Pessoa. Tinha gente pra caramba, mas depois nenhum empresário telefonou para negociar a contratação do nosso show. A gente tem que sempre estar correndo atrás, apesar de ter um público fiel. O ideal seria não precisar pedir passagem a um e a outro para viajar, como ocorreu agora nessa vinda a Brasília.
ZONA SUL – O segundo CD foi “Malocage”, lançado em 2003. Em 2004 saiu o DVD patrocinado pelo Itaú Cultural. Fale sobre esses trabalhos.
ESCURINHO – A gente estava interando dez anos de grupo Labacé sem nem se tocar desse aniversário. Foi quando o disco “Malocage” saiu. Um belo dia a gente estava em Recife, quando um amigo, Gil Sabino, disse que uma pessoa da gravadora Atração iria assistir a nosso show na Rua da Moeda. Ela viu o show em Recife e depois em Campina Grande. Na segunda-feira recebemos um telefonema da gravadora. Eles queriam assinar um contrato para distribuir o “Malocage”. Três meses depois do contrato assinado, surgiu a oportunidade do Itaú Cultural. Se não tivéssemos assinado, não teria dado certo, porque eles exigiram vínculo com alguma empresa ligada à música. A Atração entrou na ponte com eles e viabilizou o DVD que selou os dez anos de Labacé.
ZONA SUL – A banda Labacé são vocês quatro há quanto tempo?
ESCURINHO – Podemos dizer que, com esse núcleo aqui, já são 15 anos. Só que vai entrando e saindo gente. Hoje é outro processo, mas, mesmo assim, a gente nunca parou, nunca deixou de compor, de tocar, de viajar. Cada um, lógico, cuidando da sua própria vida. Igor Ayres, carioca, toca baixo. Ele tem a banda Unidade Móvel, que já está no segundo disco. Flávio “Boy” Teles toca guitarra. Já esteve em bandas de rock, como Gargalo, Cobaio... Todo mundo criando suas coisas. Apesar de eu não encontrar mais Alex Madureira com a mesma frequência de antes, a gente continua criando, fazendo música juntos. Se for sentar para organizar, já tem material para outro disco.
ZONA SUL – O DVD abriu portas para você?
ESCURINHO – Não abriu um portão imenso, que tenha proporcionado visibilidade internacional, mas, por exemplo, depois dele comecei a achar meu disco nas “Lojas Americanas”, na Internet, a ouvir em rádios do Japão, da Áustria... Esse processo foi feito pela Atração e, depois, pelo Itaú. Um belo dia o Itaú ligou dizendo que iriam montar um estande na Feira da Música, em Fortaleza. Mandaram as passagens, pagaram cachê, tudo. A gente sempre tocava de graça no Dragão do Mar. Então, o DVD valeu por essas coisas.
ZONA SUL – E a turnê que você fez com Chico César pela Europa?
ESCURINHO – Quando Chico César estava para lançar seu primeiro disco, me telefonou. Ele não tinha gostado do resultado de umas gravações que tinha feito com Paulo Ró. Passamos um mês produzindo, trabalhando e gravando. Quando estava perto de entrar no estúdio, eu estava em João Pessoa, preparado para voltar para gravar. Mas o negócio esfriou. Depois eu soube que Ivan Lins - que era o dono da gravadora “Velas” - tinha dito que o material era muito bom e não deveria ser produzido daquela forma. Ivan Lins desaprovou a produção que a gente tinha feito. Então Chico resolveu fazer o trabalho só. Gravou “Aos Vivos” no teatro, com Lenine e Lanny Gordon. Tudo o que Ivan Lins queria. Mas Chico me chamou para o show de lançamento, no SESC Pompeia, junto com Lanny Gordon, Lenine e Simone Soul. A platéia estava cheia de compositores e cantores, como Leila Pinheiro, Ivan Lins... O bicho detonou ali, com aquele show. Um mês depois fui com ele lançar o disco em Natal. Não tinha ninguém. Passou mais um mês e voltamos para participar do projeto Seis e Meia, no Teatro Alberto Maranhão. Casa lotada. Parecia que não cabia mais. Ainda o acompanhei em Fortaleza. Depois passei um tempo sem tocar com Chico César.
ZONA SUL – Mas você não falou ainda sobre a turnê pela Europa.
ESCURINHO – Simone Soul era quem o acompanhava. Mas quando Chico César foi fazer a turnê na Europa, ela estava comprometida em tocar bateria para os Mutantes, no projeto de retorno do grupo para se apresentar em Londres. Chico me ligou dizendo que tinha uns shows na Europa, mas não queria ir só. Eram doze shows. A maior sorte dele foi que eu estava em uma fase sem beber. E ele estava bebendo muito. Imagina dois loucos, lá do outro lado do mundo, enchendo a cara. Mas a turnê foi ótima.
ZONA SUL – Quais suas influências? Que tipo de música você faz?
ESCURINHO – Minhas influências são a música regional, o violeiro, o embolador de coco, o repentista, o forrozeiro, a literatura de cordel... Quanto ao tipo de música que faço, o normal seria eu dizer: MPB. Mas, se for entrar em detalhe, o que faço é uma mistura. Entra rock, coco, baião... Entra tanta coisa que o melhor mesmo é simplificar e dizer que a gente faz é música popular brasileira mesmo.
ZONA SUL – Você comemorou 50 anos com uma festa, um grande show rodeado de amigos, em João Pessoa.
ESCURINHO – Quando você fala em 50 anos, eu penso logo em meio século. É muita coisa, mas o importante é que a comemoração do meu aniversário foi massa demais. Apareceu até gente que eu não sabia que tocava a minha música. Teve, por exemplo, “As Calungas e Uirá Garcia” tocando um lado B do nosso disco que a gente nunca toca. O bom é que além dos amigos normais, apareceram outras bandas.
ZONA SUL – Escurinho modelo 50 anos abandonou a bebida e hoje é um homem regenerado?
ESCURINHO – Continuo degenerado, mas não bebo mais. Bebida me fez muito mal. Quem quiser beber, que beba, não tenho nada contra. Mas eu não bebo porque sinto que não tenho mais condição de beber.
ZONA SUL – Como foi ganhar o festival de Serra Talhada, sua terra natal, um mês antes de comemorar seus 50 anos?

ESCURINHO – Eu estava em casa quando Ester falou que ia ter um festival em Serra Talhada sobre o cangaço. Como eu não tinha música naquela linha, compus uma: “Nas estradas de Bom Nome”. Fala sobre o cangaço sob a ótica da história da Revolução de Princesa e do coronel José Pereira. Inscrevi-me sem esperar muito. Classificado, quando fui disputar o festival ficaram sabendo que eu tinha nascido lá. Dei entrevista para vários veículos de comunicação da cidade. Depois da apresentação - a minha era a penúltima música - achei que tinha vencido, pela reação do público. Na descida do palco, a TV Asa Branca me entrevistou também como se eu tivesse sido o vencedor. Mas ainda faltava o último se apresentar. No fundo eu pensava que ganharia o terceiro lugar. O prêmio era dois mil e pouco. Eu já estava achando massa demais. Porém, o apresentador começou a anunciar o quarto, o terceiro, o segundo lugar... E nada de chamar meu nome. Eu pensei logo: “fodeu”. Foi quando me chamaram para receber o prêmio de melhor intérprete. Imaginei que era uma premiação de consolação: R$ 2 mil. Depois que recebi, quando estava descendo, me seguraram no palco enquanto fui anunciado como o vencedor do festival. Voltei de Serra Talhada com seis mil reais em dinheiro, porque era domingo e as agências bancárias estavam fechadas.
ZONA SUL – Quais os planos para o futuro.
ESCURINHO – Com essa dificuldade toda de produzir show em João Pessoa, no ano passado me veio a idéia de desenvolver um projeto chamado “Ciranda de Maluco”. A princípio a gente quer tirar momentos dos shows para improvisar. Vamos aproveitar essas improvisações para gravar um disco. Só que está ficando meio diluído. Tem show que é gravado, mas outros não. Mas antes desse CD de cirandas, vamos lançar um disco que já está pronto, chamado “Princípio Básico”. Depois desse lançamento é que trabalharemos o disco de ciranda improvisada.
ZONA SUL – Se despeça do leitor do jornal. 
ESCURINHO – Foi ótimo dar essa entrevista aqui em Brasília na casa do meu amigo Roberto, junto com meus amigos da Paraíba Alex Madureira, Ígor e Boy, da minha mulher Ester, do maranhense Roque, da potiguar Inês e de mais tanta gente que está aqui se divertindo, comendo churrasco e fazendo planos pro futuro. E vamos embora pra frente, que a palavra do poeta é a bala e toda bala atingida tem a meta.