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sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Entrevista: Valdir Julião

O OPERÁRIO DA NOTÍCIA

José Valdir Julião comemora, em fevereiro de 2014, 35 anos de jornalismo. Apesar de há quase três décadas e meia estar correndo atrás da notícia para bem informar aos seus leitores, esse cerro-coraense ainda não demonstra sinais de cansaço. Ao contrário: ele continua tão entusiasmado com o que faz que sequer cogita trocar a caderneta de anotações e o gravador – ferramentas que utiliza para arrancar as declarações que se transformarão em manchete do dia seguinte – por softwares manuseados pelos editores como Quark Express e Pagemaker. A conversa com Julião ocorreu via Skype, no comecinho da noite de uma sexta-feira. Convido o leitor a acompanhar a história que Julião me contou. Os créditos das fotos são de João Maria Alves, o primeiro fotojornalista sindicalizado do Rio Grande do Norte. (robertohomem@gmail.com)

JULIÃO – Antes de qualquer coisa, quero registrar que essas entrevistas que o Zona Sul tem publicado são maravilhosas. Por aqui já passou gente de todo o tipo: tanto pessoas humildes, como outros que têm uma posição vitoriosa na vida e na carreira. Adorei, por exemplo, a entrevista que você fez com o jornalista João Bosco. Ri demais com as histórias que ele contou.
ZONA SUL – Naquela ocasião, durante mais de quatro horas Bosco foi sabatinado por mim e pelo repórter fotográfico Roque de Sá, aqui de Brasília; e por meu irmão Ronaldo Siqueira e o jornalista Roberto Fontes - via Skype - aí de Natal.
JULIÃO – Com Bosco você recolheu histórias para publicar um livro. Comigo vai ser diferente, sou um cara do interior, um matuto...
ZONA SUL – Bosco também conta muitas de suas histórias em seu blog, que pode ser acessado no endereço http://www.assessorn.com/. Vale a pena conferir.
JULIÃO – Vou dar uma olhada, até porque gosto muito dele. Mas acho que já podemos começar a nossa conversa.
ZONA SUL – Onde você nasceu?
JULIÃO – Em Cerro Corá, no dia 13 de abril de 1958. A cidade tinha acabado de se emancipar politicamente de Currais Novos. Nasci na Maternidade Clotilde Santina. O nome foi escolhido em homenagem à filha de Sérvulo Pereira de Araújo, magnata da scheelita no Rio Grande do Norte entre os anos 1940 e 1960. Ele foi dono da Mineração Bodó, que, embora explorasse minério no município de Santana do Matos, tinha escritório em Cerro Corá, devido à maior proximidade com Natal e ao fato de Sérvulo ser filho de um dos fundadores da cidade, Tomas Pereira de Araújo (primo do ex-governador Cortez Pereira). Essa maternidade foi uma das primeiras do Rio Grande do Norte a ser administrada pela extinta Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Os apartamentos onde as mães tinham os seus bebês levavam nomes de minérios. Eu nasci na sala “Berilo”.
ZONA SUL – Seus pais faziam o que da vida?
JULIÃO – Meu pai, José Julião Neto, foi eleito 12 vezes vereador de Cerro Corá. Também foi vice-prefeito e chegou a assumir a prefeitura durante um ano, em 1971. Ele era filho do que naquele tempo se chamava tropeiro. Era o cara que saía em lombo de burro negociando em uma cidade e outra. Meu avô era lá do Pataxó, do Vale do Açu. Depois ele mudou para São Romão, que hoje é Fernando Pedroza. Ele andava no sertão vendendo as mercadorias que transportava em tropa de burro. Como meu pai não queria essa vida, meu avô pediu a um amigo, lá em Santana do Matos, que o empregasse e ensinasse a ele o ofício do comércio, das vendas no balcão de mercearia. Depois meu pai mudou para Cerro Corá, onde fez muitos amigos. Pelas mãos de Chico Canário, que não queria mais mexer com política, meu pai foi eleito vereador. Só saiu da política em 1976, depois que perdeu uma campanha para a prefeitura.
ZONA SUL – A vida de um vereador nas pequenas cidades do interior do estado não era como hoje...
JULIÃO – Naquele tempo o vereador não ganhava dinheiro, nem tinha salário. Só se dedicava à política aquelas pessoas que gostavam de prestar favor. Meu pai era um desses. Por exemplo: naquela época ele era o doador de sangue da cidade. Hoje em dia, ainda é difícil conseguir quem faça isso. Ele salvou muitas vidas doando sangue na maternidade onde eu nasci. Meu pai foi dono de padarias e abriu falência várias vezes por causa da política. Ele também gostava muito de jogar futebol, mas costumava dizer que só conseguia um lugar no time porque era o dono da bola. Não jogava porra nenhuma!
ZONA SUL – Por qual time ele torcia?
JULIÃO – Pelo Botafogo e pelo América de Natal. Começou a torcer pelo Botafogo em 1948, com 18 anos, quando o time – depois de mais de duas décadas sem ser campeão – venceu o Vasco por 3 a 1, lá no antigo estádio de General Severiano. Naquele tempo se ouvia muito, em rádios a válvula, as emissoras do Rio de Janeiro, como Nacional, Globo e Tupi. Ele começou a torcer pelo Botafogo por ter achado engraçada a história de Biriba, um cachorro preto e branco que se tornou amuleto da sorte do time. Toda vez que o diretor Carlito Rocha levava Biriba para o gramado, o Botafogo ganhava. O time tem muito dessas superstições. Naquele ano de 1948, o Botafogo derrotou o Vasco e foi campeão com Biriba entrando em campo. Por causa dessa história engraçada, meu pai simpatizou com o Botafogo. Por consequência, eu e o meu irmão gêmeo - José Vanilson Julião, que também é jornalista - viramos botafoguenses. Tornei-me americano ouvindo, pela Rádio Nordeste, a final na qual o América venceu o ABC por um a zero, com um gol de Alemão. (Com a vitória o América forçou uma quarta partida e derrotou o rival por 2x0, com gols de Bagadão e Alemão, levantando o título de campeão estadual de 1969). O ABC era favorito e o América era mais humilde, mais fraquinho.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre a sua mãe.
JULIÃO – É dona de casa, mas quando meu pai teve bar e padaria, ela era uma espécie de anjo da guarda. Meus pais são a confirmação daquele ditado que diz “por trás de um grande homem sempre tem uma grande mulher”. Minha mãe é quem sustentava o tranco no balcão, ou administrando a padaria e o bar. Quando sobrava um dinheirinho, meu pai tirava da gaveta para gastar com time de futebol ou com as pessoas necessitadas de Cerro Corá. Anos depois de ter perdido a campanha política para prefeito, ele arranjou um emprego público na Companhia de Desenvolvimento de Recursos Minerais do Rio Grande do Norte (CDM), atualmente extinta. Quem conseguiu para ele foi o deputado Cipriano Correia. Naquele tempo as pessoas conseguiam se empregar sem concurso. O nome da minha mãe é Damiana Ribeiro Julião, mas ela é mais conhecida pelo apelido de Tinoca. Ela ainda está viva, mas meu pai morreu em 1989, de enfarte, depois de fazer uma cirurgia para troca de válvulas. Meu irmão Vanilson Julião já trabalhou na Tribuna do Norte, Diário de Natal, Jornal de Natal e hoje atua como freelance. Tenho também uma irmã, Maria José Julião, que é dona de casa. A gente a chama de Mariazinha. Minha mãe tinha um irmão gêmeo, que já faleceu, minha irmã é gêmea com nosso irmão que morreu recém-nascido. Uma irmã da minha mãe também teve filhos gêmeos.
ZONA SUL – Até quando você morou em Cerro Corá?
JULIÃO – Até fevereiro de 1975. Para estudar o segundo grau, a gente teve que mudar para Natal. Mesmo financeiramente falido, meu pai fez um esforço enorme e trouxe toda a família para cá. A gente morou em uma vilazinha que ficava onde hoje é a esquina da Romualdo Galvão com a Bernardo Vieira. A gente foi morar lá porque era fácil ir e voltar a pé para a Escola Técnica Federal.
ZONA SUL – O que de mais expressivo você recorda dos tempos de Cerro Corá?
JULIÃO – Tive uma infância normal, dentro das condições da época, sem muitos atropelos. A gente brincava de cavalo de pau, bola de gude, carrinho de rolimã e jogava bola de meia. Cerro Corá era pacata e maravilhosa. A gente não tinha jornais, nem TV. A televisão só chegou na década de 1970. Um compadre do meu pai, que morava em frente, foi o primeiro da rua a ter uma TV em casa. A casa dele virava um verdadeiro cinema pois todos iam assistir a única emissora que pegava, a Tupi. Os sucessos eram “Meu pé de laranja lima”, “A fábrica”... Hoje a gente ainda tem o prazer de rever alguns seriados daquele tempo, como “Jeannie é um gênio”, “A feiticeira” e “Perdidos no espaço”, que faziam o maior sucesso entre a garotada da época. Quando meu pai foi prefeito comprou uma televisão e instalou na praça, em frente à prefeitura. Começou assim a era da mídia eletrônica em Cerro Corá.
ZONA SUL – Você já se interessava pelas notícias?
JULIÃO – Naquela época não havia as facilidades de hoje. Eu costumava ler jornais de outro comerciante da cidade, João Bezerra Galvão. Quando ele vinha a Natal, comprava jornal velho para enrolar sabão. Eu conhecia principalmente “O Poti” e o “Diário de Natal”, que eram as coqueluches da época. João Bezerra deixava esses jornais em cima do balcão. Eu, menino, encostava no balcão e lia esses jornais de enrolar sabão. Por sinal, foi “n’O Poti” que eu vi a famosa entrevista que Alberi deu, dizendo que tinha recebido de luvas uma radiola para renovar seu contrato com o ABC.
ZONA SUL – Como foi trocar Cerro Corá por Natal?
JULIÃO – Uma tia nossa já morava nas Quintas desde os anos 1940. Então, desde os seis ou sete anos a gente vinha para cá passar férias. Naquele tempo não tinha ônibus regular. Hoje também não tem mais, depois dessas crises. Certa vez a gente veio em cima do caminhão de Maria de Chico de Brito, que era comadre da minha mãe. Quando chegou na altura de Macaíba, ele deu o prego. Fui dormir em uma rede, embaixo do caminhão. Só que o caminhão também estava levando para a feira goma, milho, galinha... Acordei às cinco da manhã, o sol já levantando, todo cagado por duas galinhas que estavam bem em cima da gente. Alcancei o tempo em que o cobrador andava com o dinheiro enrolado no dedo para passar o troco aos passageiros.
ZONA SUL – Como foi sua vida estudantil?
JULIÃO – Em 1970, como não tinha o ensino do ginásio em Cerro Corá, meu pai - que na época era vice-prefeito - fez um movimento com alguns amigos e juntos fundaram o Ginásio Comercial Pedro II, que era vinculado à Campanha Nacional das Escolas da Comunidade (CNEC). Depois, quando o governo do estado construiu uma escola, esse Ginásio foi extinto. Fiz as três primeiras séries do ginásio em Cerro Corá. A quarta série fiz em Açu, no Ginásio Estadual JK. Fui com meu irmão morar na casa de uma tia. Ao concluir, prestamos um minivestibular para a ETFRN, em 1975. Muitos amigos de Cerro Corá também se submeteram a essa prova. Todos nós passamos, para você ver o nível do ensino público daquela época, mesmo em uma cidade pequena do interior.
ZONA SUL – Você concluiu o curso na então Escola Técnica?
JULIÃO – Terminei o curso de Geologia em 1977 e fiz o estágio na Nuclan, que era subsidiária da Nuclebras. Depois fui contratado pela empresa. Trabalhei cinco meses pesquisando urânio em Patos, Campina Grande, Borborema, Dona Inês, São José de Espinharas e Pirpirituba. A gente trabalhava 20 dias e tinha uma semana de folga. Em um desses períodos de descanso, resolvi fazer vestibular em Natal. Como não era bom em Física, Química e Matemática, nem tentei Geologia. Eu poderia ter feito História, mas optei por Jornalismo. Depois que saí da Nuclan, abracei o jornalismo. No próximo ano comemoro 35 anos dentro de redação. Entrei nessa brincadeira e não consegui sair mais. Vou ser dos poucos jornalistas que aposentaram como repórter, na essência da redação. A maioria não aguenta o tranco, o repuxo. Vira publicitário, assessor de imprensa ou dono de jornal, ou desiste da carreira.
ZONA SUL – Onde foi o seu primeiro emprego como jornalista?
JULIÃO - Quando fui estudar jornalismo na UFRN, fui procurar emprego, já que era um cara pobre, liso, solteiro e estava doido para ganhar dinheiro pelo menos para pagar as farras. Um dos meus companheiros de faculdade era o radialista Exmar Tavares. Uma semana depois de eu ter falado para a turma toda que estava querendo trabalhar, ele me procurou. Disse que Givaldo Batista, o Gigi da Mangueira, estava precisando de um repórter. Dessa forma entrei no jornal A República. Minha primeira tarefa foi entrevistar um diretor do América. Hoje em dia o estagiário chega e já ganha uma bolsa do IEL, entregam a ele um telefone, a pauta e orientam a pegar um carro da empresa para ele cumprir seu trabalho. Comigo foi o contrário. Não recebi orientação nenhuma. Chovia torrencialmente na cidade. Peguei um ônibus, fui ao trabalho do meu pai pegar o carro dele emprestado para fazer a entrevista. Muitos anos depois eu soube que esse diretor disse a Givaldo Batista que eu não tinha condições de ser repórter. Como alguém pode analisar um iniciante que nunca tinha sequer entrado em uma redação, na sua primeira pauta? Como prever se esse cara dá ou não para o troço? Pelo menos para ser um jornalista de província, acho que dei o meu recado.
ZONA SUL – Quem era esse diretor?
JULIÃO – Nem vou dizer, para não criar constrangimento. (risos). Mas ele é gente boa, polêmico. Talvez nem lembre mais disso. Mas eu fui trabalhar na editoria de esportes com Givaldo Batista. Como ele também era dublê de editor de polícia, pedia para eu fazer as matérias que Ubiratan Camilo trazia das delegacias. Ubiratan não escrevia, só fazia as anotações.
ZONA SUL – Era igual a Pepe dos Santos.
JULIÃO – Sim. Hoje Pepe vive uma situação difícil, está com mal de Alzheimer, internado há alguns meses e precisando de ajuda financeira. A entrada de Ubiratan Camilo n’A República foi interessante. Ele veio de Recife cumprir em Natal um resto de pena por homicídio cometido lá. Ubiratan me contou que um vizinho xingou a sua esposa e ele, quando chegou do trabalho, foi tomar satisfação. Terminou atirando no rapaz. Em Natal, quando saiu da prisão, desempregado, foi pedir emprego a Lavoisier Maia. O então governador o mandou ir falar com o diretor do jornal A República. Trabalhou uns dois anos com a gente e foi para a Rádio Cabugi. Lá n’A República trabalhei com grandes profissionais como Carlos Morais (editor e jornalista), Franklin Machado (hoje da TV Tropical e Rádio CBN) e Fernando Farias, que foi atleta de basquete e atualmente mora em João Pessoa. Fiquei no jornal até o seu fechamento, no governo Geraldo Melo.
ZONA SUL – Que matéria ou acontecimento poderia simbolizar sua passagem pelo jornal A República?
JULIÃO – Nossa editoria de esportes não tinha sequer carro para acompanhar o treino dos clubes. A gente ia a pé ou de ônibus. Muitas das matérias que redigi foram baseadas em entrevistas transmitidas pelas emissoras de rádio. Para complicar mais ainda, a ordem era fechar a página de esportes às quatro da tarde, horário em que ainda estão rolando os treinos as notícias começando a surgir. Mesmo assim, em 1982 conseguimos ser eleitos pela crítica como a melhor página de esportes de Natal. Paulo Tarcísio era o diretor geral da Companhia Editora do Rio Grande do Norte (CERN), responsável pelo Diário Oficial e pelo jornal. Eu, Carlos Morais e Fernando Baleia fizemos um suplemento sobre a Copa de 1982. Com menos condições logísticas e operacionais, conseguimos bater o Diário de Natal, campeão de vendas no estado, e a Tribuna do Norte, o segundo lugar. Lembrei agora de um personagem interessante, gazeteiro chamado Alberi, que vendia jornais nas redondezas da Rodoviária Velha. Quando acabavam os exemplares do Diário de Natal, ele enrolava ou a Tribuna ou A República em uma capa do Diário e vendia para os matutos no bom sentido. Ele gritava assim: “olha o Diáris!”. Fazia isso para ganhar o dinheirinho dele.
ZONA SUL – Com o fechamento d’A República você foi fazer o que?
JULIÃO – Passei um tempo como plantonista esportivo na Rádio Tropical, levado pelo jornalista e amigo Wilson Gomes. Depois de oito meses, saí por razões que não vale a pena comentar agora. Foi bom porque adquiri uma experiência no rádio que eu não tinha. Quando saí da rádio, Roberto Guedes me chamou para ser subeditor do jornal Dois Pontos. Ele era o diretor de redação. Quando Roberto saiu, continuei lá. Um dia, perto do feriado de 7 de setembro de 1989, fui visitar meu irmão na Tribuna do Norte. A gente tinha combinado de sair para tomar uma, depois do expediente. É difícil ter um jornalista que não seja boêmio, você sabe bem disso. Roberto Guedes era o editor de política da Tribuna. Quando me viu, perguntou: “quer vir para cá?”. Eu perguntei se era para começar na segunda-feira. Ele disse que não: era para iniciar já no dia seguinte. Véspera de 7 de setembro, uma quarta-feira, comecei na Tribuna do Norte.
ZONA SUL – Lá você começou trabalhando em qual editoria?
JULIÃO – Política. Daquele tempo para cá, passou muita gente pela editoria, e eu fui ficando: Conceição Almeida, Márcio César, Herbert de Freitas, Aldemar Freire (que hoje é editor), Vicente Neto, Alexandre Cavalcanti, Edilson Braga, Paulo Tarcísio Cavalcanti... Aprendi com todos, mas foi maravilhoso trabalhar com Paulo Tarcísio, um gentleman. Ele só tem um defeito: é torcedor do Fluminense. Na editoria geral passaram vários, como Talvane Guedes, Roberto Guedes, Osair Vasconcelos, Edilson Braga, Paulo Tarcísio e, agora, Carlos Peixoto.
ZONA SUL – Como é trabalhar em um jornal que pertence a uma das mais tradicionais famílias políticas do Rio Grande do Norte?
JULIÃO – É mais fácil. A linha editorial da Tribuna é conhecida por todos. Complicado é estar em um veículo sem saber quem é o dono ou quem manda. Não tive muitos problemas, tanto é que estou lá há tanto tempo. Não tenho muito a reclamar. Teria com relação ao salário, mas a gente sabe que jornalista não ganha. Quem quiser enricar, vai ter que ser em outra profissão.  
ZONA SUL – A questão salarial dos jornalistas parece ser mais complicada aí do que na maioria dos estados.
JULIÃO – Quem está começando agora no jornalismo e é contratado para receber o piso, enfrenta séria dificuldade. Com a Internet, cada dia estão exigindo mais do jornalista, mas não está havendo uma contrapartida. Isso é contraditório.
ZONA SUL – A dificuldade salarial não é específica de um veículo. Alcança até os jornalistas que trabalham no Governo do Estado. Eu soube que o salário pago hoje não sofre alterações há mais de 15 anos!
JULIÃO – Eu ia dizer isso a você agora. É o mesmo salário de quando Garibaldi Filho deixou o governo. De 1995 pra cá é o mesmo salário.
ZONA SUL – Você foi eleito para compor a diretoria do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte.
JULIÃO – Eu não estava pensando em ingressar em nenhuma chapa, entrei por acidente. Eu já tinha sido duas vezes do Conselho Fiscal. Dessa vez eu só topei entrar em uma chapa porque achava que ela seria única, não haveria disputa. Só soube que teria concorrência quando fui fazer a minha inscrição. Mas aí eu já tinha comprometido a minha palavra, não ia quebra-la. O jornalismo é uma categoria diferenciada, onde o corporativismo não é tão acentuado quanto em outras categorias. É muito difícil tocar uma política sindical sem haver união, sem que as pessoas se ajudem ou compareçam ao sindicato. A gente está iniciando essa gestão e vamos ver no que vai dar. O Breno Perruci é uma pessoa boa e bem intencionada.
ZONA SUL – E do seu trabalho na Tribuna, o que você destacaria?
JULIÃO – O que mais me gratifica no jornalismo não é premiação, nem salário enorme. É o feedback da rua. É quando vou cruzando uma esquina e alguém comenta que gostou de determinada matéria que eu escrevi. Ou então quando uma fonte confessa que prefere me dar entrevista porque sabe que suas ideias não serão deturpadas. Dia desses Demétrio Torres me disse: “Julião, você não repete ipsis litteris o que é dito, mas transmite com fidelidade o pensamento e a ideia do entrevistado”. Isso não é uma questão de ter o ego massageado, mas é um importante reconhecimento. Nas redações os elogios são escassos. Por isso, quando um companheiro de jornal faz uma boa matéria, gosto de ir ao pé do ouvido dele para cumprimenta-lo.
ZONA SUL – Você é um repórter da época da máquina de escrever. Trace um paralelo daquela época para a de hoje.
JULIÃO – Hoje está uma maravilha fazer jornalismo com as informações disponíveis na Internet. Mas tem que saber usar. Por exemplo: notícias de Brasília, que demoravam meses para chegar por aqui, agora estão disponíveis nos sites da Câmara ou do Senado Federal. É só recolher aquela informação e contextualizar entrevistando mais três ou quatro políticos e a matéria está pronta. Naquela época, além da escassez de informações, o repórter escrevia a matéria com três cópias, utilizando papel carbono. Para alterar o texto, depois de ele iniciado, geralmente tinha que rasgar o que já estava pronto para começar tudo de novo. Além disso, hoje o Doutor Google aqui e acolá auxilia a gente.
ZONA SUL – Se facilitou por um lado, por outro provocou a distorção de todo mundo hoje se achar jornalista. Foi melhor ou pior, para o jornalista, esse progresso?
JULIÃO – Foi melhor, até porque o jornalista, na essência, sempre será um jornalista. Os blogs proporcionaram oportunidade para pessoas que não tinham essa possibilidade, de se comunicar. O cara que não era dono de veículo não tinha acesso a nada. Hoje, ou escrevendo bem ou mal, ou divulgando a notícia correta ou não, ele pode ter o seu blog e virar também emissor de informação. Mas, no frigir dos ovos, quem entende e sabe o que é jornalismo, consegue diferenciar onde tem informação que vale a pena nessa enxurrada de notícias que povoa a internet.
ZONA SUL – Ao completar 35 anos de profissão você vai pedir aposentadoria?
JULIÃO – Estou com um grande dilema. Esse tal de fator previdenciário é terrível para o trabalhador. O salário já é uma merreca e fica menor ainda quando a pessoa se aposenta. Por isso estou analisando se me aposento ou não. Mas, mesmo que me aposente, não vou deixar de trabalhar porque acho que é muito chato o cabra ficar sem fazer nada em casa. Quero me manter em atividade pelo menos meio expediente. No restante do tempo posso investir em jornalismo online. Já estou treinando no blog que criei dedicado a Cerro Corá.
ZONA SUL – Fale um pouco sobre esse seu blog. Como surgiu a ideia?
JULIÃO – Em termos de design, meu blog não é esse balaio todo. Uso só a plataforma de blog e pronto. Ele é uma maneira de eu ir treinando, mas também de resgatar a história de Cerro Corá e do seu povo. Quem quiser, pode conhecer no endereço http://cerrocoranews.blogspot.com.br/. Ele não é campeão de audiência porque no meu blog não entra crime nem violência. É um espaço para resgatar a memória e falar da cidade e do povo cerro-coraense.
ZONA SUL – Você comercializa espaço para anunciantes em seu blog?
JULIÃO – O curso de Jornalismo deveria criar uma cadeira de gestor em comunicação, ou algo parecido. É difícil achar um jornalista que saiba correr atrás de anúncio. Eu não sei. Acho que vou ter que aprender, para que o blog tenha alguma rentabilidade.
ZONA SUL – Em qual perfil de jornalista você se enquadraria?
JULIÃO – Meu estilo não é lírico, nem poético. É mais feijão com arroz, ou pé de balcão. Gosto de dar a notícia, de oferecer um dado, uma informação. Mas vou começar a ler uns jornalistas bons que nós temos, como Rubens Lemos Filho. Ele tem um texto espetacular! Paulo Tarcísio e Vicente Serejo também. Vou me espelhar neles para ver se escrevo alguns “causos” que eu presenciei, erros que cometi e sacanagens que fizeram comigo. Como já tenho uma filha, só falta plantar a árvore e escrever esse livro.
ZONA SUL – Qual teria sido seu grande furo no jornalismo?
JULIÃO – Certa vez escrevi um textozinho, uma notinha, e no dia seguinte caíram dois secretários de Estado, no governo José Agripino. Mas foi sem querer. Em outra ocasião, quando caiu um helicóptero da Petrobras em Guamaré, eu e o repórter de polícia de A República conseguimos com exclusividade a relação das onze pessoas que tinham morrido naquele desastre. Mas era um sábado à tarde e o jornal já havia fechado. Ficamos com aquele furo na mão. Tem gente que acha que a notícia está como em uma prateleira de mercearia, e a gente vai lá e pega. É conversando que a gente consegue uma notícia. Às vezes a gente tem que ter paciência para construir uma informação. A notícia não tem hora marcada. Pode acontecer de ela passar na frente e a gente nem perceber. Para conseguir um furo, é preciso ter um bom ouvido e bons olhos. Um dia eu estava no Tribunal de Justiça, sem notícia nenhuma. Valdeci Santana era o assessor de imprensa de lá. Ele me levou para falar com o presidente, o saudoso Ítalo Pinheiro. Durante a conversa, entrou um assessor e, sem atentar que eu era jornalista, passou uma informação importante, que eu não lembro qual era. Na mesma hora percebi que tinha encontrado a manchete do dia seguinte. Quando o assessor saiu, Ítalo Pinheiro teve que me detalhar essa informação.
ZONA SUL – Fale sobre a sua família.
JULIÃO – Tenho uma filha apenas, porque jornalista não pode ter mais de um filho. Como vai educar? Comer o feijão, a rapadura, o macarrão, a melancia, o jerimum, uma pizza com camarão, isso é fácil. Complicado é custear a educação e a saúde. Por não confiar nos serviços públicos, a gente tem que tirar do nosso parco salário para pagar um plano de saúde e uma escola particular para os filhos. Minha filha, Ana Vanessa Julião, acabou de se formar em Farmácia. Minha esposa, Ana Selma Julião, tem um ateliê na garagem lá de casa. Ela é o suporte da família. Nasceu em Santana do Matos, mas gosta mais de Cerro Corá do que da terra dela.
ZONA SUL – Gostando tanto de Cerro Corá vocês não planejam morar por lá quando a aposentadoria chegar?
JULIÃO – Um primo já me deu um terreno, só falta arrumar o dinheiro para construir um chalezinho. Quero que o local tenha um espaço amplo para eu botar uns livros, instalar uma TV de 50 ou 60 polegadas. Quero assistir bangue-bangue em preto e branco, principalmente estrelado por John Ford e John Wayne, e alguns clássicos do cinema. Também vou ter lá um computadorzinho e uma rede para me balançar. De lá mesmo posso ter na Internet um jornalzinho online. Não é obrigado estar em Natal para acompanhar as coisas.
ZONA SUL – E esse livro que você pretende escrever? O que pode ser adiantado sobre ele?
JULIÃO – Quero escrever sobre o dia a dia que vivenciei. Já tem muita publicação a respeito de teses e sobre o lado acadêmico do jornalismo. Pretendo explorar o ambiente na redação, o relacionamento com as fontes, a dificuldade que é entrevistar alguém que “trava” quando se aproxima de um microfone. Tem outros que só falam em um papo informal. Se for um pingue-pongue, não sai nada. Certa vez fiz uma entrevista de página inteira que eu só transcrevi por obrigação, porque era pago para isso. O cara não tinha dito coisa com coisa. Quando o editor viu, refugou a matéria. Tem hora que o repórter pensa que pode ter sido ele quem não elaborou bem as perguntas. Mas se ele arrodeou de todo jeito, e o cara não respondeu... São esses episódios que quero botar no livro: as pressões que a gente sofre, as bobeiras que a gente também comete. Por falar em livro, queria aproveitar para sugerir aos filhos de Eugênio Neto que resgatem e publiquem as histórias inéditas que ele vinha escrevendo antes de morrer. Convivi com Eugênio Neto na cobertura da Assembleia Legislativa. Eu cobrava muito dele a publicação desse livro. Ele tinha muito o que contar. Costumava dizer que quando era adversário de Aluízio Alves publicou um livro de um jeito. Quando voltaram a ser amigos, tirou todos os ataques e publicou o livro dizendo o contrário. Nesse livro que pretendo publicar quero contar a história dos amigos também. Muita gente acha que o jornalismo é glamour. Mas a gente passa por muitos problemas. Meu livro não é para ser best seller. Acho que nem lançamento eu quero.
ZONA SUL – Mas tem que lançar. Em Natal se vende mais livro em lançamento do que nas livrarias.
JULIÃO – Até hoje só comprei um livro em lançamento. Até porque não sobra muito dinheiro para jornalista comprar livro. Fui ao lançamento do livro de fotografia de João Maria Alves, editado pelo Sebo Vermelho. Comprei o livro e ainda tomei uma cervejinha, à custa de Abimael.
ZONA SUL – Agora só falta você deixar um recado para o leitor do Zona Sul.

JULIÃO – Quero lhe parabenizar entrevistas que você está fazendo com personagens de todos os níveis, gente popular, cantor, artista, gente do povo, seus amigos, companheiros de trabalho, políticos, pessoas com quem você trabalhou... Também quero dar os parabéns a Edson Benigno e ao amigo Costa Júnior. Por sinal, fui eu quem coloquei o nome jornalístico dele. Costa queria assinar como Francisco Pedro da Costa Júnior. Como já existia Francisco Macedo, assinei as matérias dele no jornal Dois Pontos como Costa Júnior. Pegou. Também seria bonito Francisco Costa Júnior, mas eu preferi só Costa Júnior. Quero dar os parabéns ao Zona Sul, que, apesar das dificuldades de se fazer um jornal impresso, continua circulando na cidade. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Entrevista: Manassés Campos

A MÚSICA POTIGUAR NO VARAL DE MANASSÉS


Manassés da Silva Campos nasceu em Natal, no dia 31 de janeiro de 1962. No último sábado de junho, ele foi sabatinado, em Brasília, por uma equipe de primeira que me acompanhou nessa entrevista para o “Zona Sul”. O repórter Roque de Sá (http://agenciatempo.com.br/) cuidou não apenas da cobertura fotográfica, mas também encaixou perguntas que facilitaram a montagem do mosaico da vida de Manassés Campos. O violonista e empresário da gastronomia, Ricardo Menezes (que está de casa nova, o Ancoradouro Sushi & Grill), utilizou sua amizade de décadas com o entrevistado para preencher as lacunas da história que eu e Roque tentávamos destrinchar. E Manassés não mediu palavras para contar seu lado mais conhecido de jornalista, poeta, compositor, músico e servidor público, como também revelou a formação evangélica, a curta passagem pelo Exército e o sonho não realizado de ser um pesquisador de teoria estética da literatura. (robertohomem@gmail.com)


ZONA SUL – Conte sobre sua família.
MANASSÉS – Lá em casa todos temos nome começando com a letra “M”. Miguel, meu pai, é da família Campos, de Lajes do Cabugi. Minha mãe, Maria, é de São José de Mipibu. Míriam é a irmã mais velha. Trabalhou muito tempo com o marido, Orismar Carlos, construindo aquelas lojas da Sport Master. Ela diz que ainda é empresária, mas hoje em dia não faz nada, só aproveita a vida. Milca, a segunda, é servidora pública aposentada. Moisés é servidor da Funasa. Mirtes também é aposentada do serviço público. Depois dela, eu nasci. Em seguida veio Miguel Júnior, que é servidor público da prefeitura de Natal, e Marinésio, que a gente chama de Nezinho. Ele também é funcionário público.
ZONA SUL – O que o seu pai fazia da vida?
MANASSÉS - O homem que morava no interior, naquela época, normalmente trabalhava com a terra. Fazer isso em Lajes, pleno sertão brasileiro (lá passa anos sem chover), era praticamente impossível. Meu avô tinha terras na região, mas improdutivas. Ele criava cabras e, quando chovia, gado. Papai se mudou para Natal na busca de trabalhar em alguma coisa. Virou ourives: montou uma joalheria para comercializar ouro e joias. Mamãe saiu de São José de Mipibu para estudar em Natal. Lá os dois se encontraram, casaram e formaram a família. Meus pais têm mais de 60 anos de casados. Antes de ser ourives, papai foi do Exército, na época da Segunda Guerra. Conheceu mamãe quando deixou a vida militar. Quando casaram, ele se converteu ao evangelho. A minha formação religiosa é evangélica. Meus pais são da Assembleia de Deus.
ZONA SUL – O que a religião evangélica representa para você?
MANASSÉS – Por ter sido criado dentro dos conceitos e da doutrina evangélica, eu, naturalmente, tenho um temor reverencial. Há quem discorde, mas acho que esse temor reverencial de um Deus onipotente, onisciente e onipresente é que segura a humanidade, sobre vários aspectos. Se não tiver esse freio de acreditar em Deus, as pessoas perdem o senso de humanidade.
ZONA SUL – Há diferenças entre o evangélico de ontem e o de hoje?
MANASSÉS – Os evangélicos de antigamente se modernizaram ou se adequaram a uma nova realidade. As igrejas não podem se isolar, como se num mosteiro estivessem, e fugir de um mundo real que a sociedade vive hoje. A televisão ditou novos costumes, rotas e roteiros a serem seguidos. Na minha infância, mamãe não podia usar batom, brinco ou cabelo curto. Tudo o que pudesse proporcionar uma atratividade maior às pessoas do sexo feminino era proibido. Principalmente nas igrejas evangélicas mais conservadoras e tradicionais, havia essa proibição talvez para evitar que os homens olhassem as mulheres com os olhos do desejo, digamos assim. Hoje é diferente: elas vestem calças compridas, cortam cabelo, usam brinco... ZONA SUL – Os pastores ganhavam muito dinheiro?
MANASSÉS – Só posso falar pelo que vi. Quem eu vi foi o meu pai. Ele construiu muitas igrejas, não apenas do ponto de vista religioso, mas físico também. Lembro que - com seis ou sete anos de idade - eu o via preparando a massa, carregando tijolo, manuseando a colher de pedreiro e construindo um templo. Papai nunca teve casa ou carro comprados com o dinheiro da igreja. Ao contrário: quando havia algum problema em alguma igreja evangélica do interior, quando algum tempo estava caindo, quem ia resolver era ele. Sobre essa experiência eu posso falar, a dos outros eu não sei. Papai hoje tem 86 anos e é uma referência, é um dos pilares da igreja.
ZONA SUL – E a música, como surgiu na sua vida?
MANASSÉS – Meu pai tocou saxofone, antes de eu nascer. Começou quando era militar e, depois, tocou na igreja. Não o vi tocar. Devo ter herdado geneticamente esse gosto pela música. Quando minhas irmãs se tornaram adolescentes, papai comprou para elas um acordeom. Por volta de 1974, ele adquiriu também um violão. Meu irmão, Júnior, foi quem primeiro começou a tocar alguns acordes. Pouco tempo depois, eu também comecei a me interessar pelo violão. Comecei naquele autodidatismo, buscando as notas. Todos os meus irmãos ou sabem tocar alguns acordes em acordeom ou no violão. Até mamãe tocava pandeiro.
ZONA SUL – Que tipo de música você costumava ouvir?
MANASSÉS – Comecei a me interessar pela MPB aos 12 anos, quando ouvi Milton Nascimento. Um amigo me emprestou o elepê “Milagre dos peixes”. Na mesma época, também fui atraído por músicas de Caetano, Gil e Ivan Lins, entre outros, que tocavam nos carros de som de campanhas políticas. A partir daí, juntava cada tostão que ganhava para comprar discos. Em 1978, eu já tinha uns 200 discos. Além de MPB, tinha rock pauleira (Uriah Heep, Black Sabbath e Kiss) e rock progressivo (Rush). Até hoje sinto uma identidade grande com o “Clube da Esquina”. Me identifiquei tanto com Minas Gerais, que terminei me casando com uma mineira. Quando escutei “Beijo partido” e quando ouvi “Minas” fiquei pensando: “que negócio é esse, quem é esse povo, onde é essa nação?”.
ZONA SUL – Nessa época, onde você estudava?
MANASSÉS – Estudei em São José de Mipibu até completar 14 anos e entrar na ETFRN, no curso de Mineração. Lá encontrei colegas que compartilhavam do gosto pela música. Entre eles, Sueldo Soaress, Ricardo Menezes, Santa Rosa e Zanoni, que infelizmente morreu tragicamente há pouco tempo. Na Escola estudavam pessoas de várias vertentes culturais, étnicas e sociais. A convivência no dia-a-dia permitia a cada um captar e absorver aspectos da vida do colega. Era uma coisa muito louca. Nessa época eu estava aprendendo uns acordes de violão. Quando não sabia uma música, ia procurar naquela revista Vigu (Violão e Guitarra). Ela trazia a informação musical bem organizada. Quando você tocava, sentia que o acorde encaixava direitinho. Depois surgiram outras publicações meio alinhavadas, não muito bem trabalhadas.
ZONA SUL – Por que você optou por Mineração?
MANASSÉS – Na vida, às vezes você faz escolhas sem saber o porquê. Na época a Petrobras estava se instalando no Rio Grande do Norte. Os alunos de Mineração, Eletrotécnica, Mecânica e Geologia, quando terminavam o curso, faziam um estágio de 45 dias e eram contratados, sem precisar de concurso. Não aproveitei essa facilidade porque, quando concluí Mineração, o Exército me pegou. A maioria dos meus amigos fez o alistamento militar em cidades do interior. Eu me alistei em Natal. Para complicar, o tenente que coordenava a comissão de seleção do Exército me conhecia de uma forma não muito boa. Jogando voleibol pela ETFRN, vez por outra enfrentava o time da Brigada do Exército. Além de a gente sempre vencer, em duas ou três ocasiões subi na rede e carimbei uma “medalha” no peito desse tenente. Enquanto ele ficava bravo, eu ria. No dia em que fui me apresentar, quando ele me viu, olhou pra mim e disse: “agora você vai jogar com a gente aqui no time da Brigada”. (risos). Por intermédio de Jorge Moura – nosso treinador de vôlei na Escola – ainda busquei uma alternativa para escapar do Exército e ir para a Petrobras.  O tenente respondeu ao bilhete de Jorge dizendo que não tinha quem me fizesse ser dispensado. Entrei e fiz curso para cabo e, em seguida, para sargento. Por isso tive que ficar três anos no Exército. 
ZONA SUL – Você recomendaria ao seu filho servir às Forças Armadas?
MANASSÉS – A dinâmica social, hoje, é diferente. O mundo mudou. Hoje, quando a família se organiza, ela tem condições de disciplinar e administrar a vida de um adolescente para que ele exerça sua cidadania. Por isso eu não diria a meu filho para ele cumprir o serviço militar. Mas, para mim, foi importante. Pude exercitar a autodisciplina e a determinação e também pude traçar objetivos e buscar alcançá-los. O serviço militar contribui para o amadurecimento do ser humano, o tempo que passei lá não foi perdido. Fui para o Exército na época em que estava começando a ingressar num tipo de leitura que era marginal e a me envolver com movimento estudantil. Aos 18 anos, eu estava acostumado a participar de rodas de violão com amigos, a jogar vôlei e futebol, a namorar e ir para boteco, a curtir a praia e me divertir. Nessa época eu já ensaiava tocar meia hora no “Boca da Noite”, na subida da Rio Branco. De repente esse cenário mudou radicalmente e eu me vi no Exército.
ZONA SUL – Onde você foi servir?
MANASSÉS - No 2º Batalhão de Engenharia e Construção, lá em Teresina. De lá me despacharam para o destacamento Rodrigo Otávio, entre Xambioá (na época município de Goiás, hoje pertence a Tocantins) e São Geraldo do Araguaia (no Pará). O rio era a divisão entre Goiás, Pará e o Mato Grosso. Fiquei exatamente na região onde poucos anos antes, tinha sido debelada a Guerrilha do Araguaia. O destacamento existia naquela região para não permitir a repetição da experiência.
ZONA SUL – O que de interessante, sobre a guerrilha, você pode contar?
MANASSÉS – Diziam que as armas dos guerrilheiros eram importadas da Rússia e de Cuba, mas elas não passavam de espingardas de soca usadas por trabalhadores e caçadores da floresta. Falam na prisão de gente com arma automática, mas, pelo que presenciei, elas não existiam. Não vi metralhadoras ou fuzis. Como a coisa ainda estava fresca, os moradores tinham medo de fazer muitos comentários sobre o assunto. Mas ouvi que algumas pessoas teriam chegado por lá incentivando a tal guerrilha. Porém, o povo da região nem sabia o que era. A população só veio compreender depois. O Exército pensava que queriam fazer uma revolução, mas não existia nada disso. Muita gente morreu sem saber porque. Arquivos mostram que pessoas foram presas, torturadas e mortas.
ZONA SUL – Que conclusão você tira desse período no Araguaia?
MANASSÉS – Na época, eu não tinha uma leitura política adequada. Hoje entendo que, a exemplo de tantos fatos brasileiros, sufocaram uma coisa que não existia. Houve um exagero. Em Xambioá tentaram sufocar uma guerrilha rural que na verdade não existia. O que tinha era gente passando fome e procurando terra, mas o latifúndio não deixava. Mas, naquele tempo, eu era um militar que nem sabia onde estava. Um jovem de 18 anos que tinha saído de Natal e largado aquela rotina de ir para escola, tocar violão e me divertir com os amigos. Me vi dentro do Exército, no meio do mato, na divisa do Pará. A experiência me chocou, mas também contribuiu para eu ter uma visualização de que o mundo não era só aquele habitat que eu compartilhava com a família e os amigos. Os horizontes ampliam quando você sai do seu círculo natural. Passei seis meses em Xambioá. De lá voltei para Teresina e retornei para Natal.
ZONA SUL – Que rumo sua vida tomou depois do Exército?
MANASSÉS – Quando saí do Exército, alguns amigos da minha época já estavam trabalhando, enquanto outros faziam faculdade. Saí meio sem saber o que ia fazer da vida. Não consegui estudar enquanto estava na vida militar. Depois do Exército passei dois anos parado, só estudando violão e vivendo. Com 23 anos, entrei no curso de Letras, da UFRN. A Mineração eu enterrei de vez. Talvez se eu tivesse ido para a Petrobras, não teria tentado realizar meu projeto de vida: ser um pesquisador de teoria estética da literatura.
ZONA SUL – Por favor, explique essa teoria estética da literatura.
MANASSÉS – Em resumo, ela estuda como definir os grandes clássicos da literatura, como o texto se organiza e o que o conteúdo daquele texto quer dizer. Por exemplo: quando você escreve “no meu jardim existem muitas flores e o jardineiro colhe essas flores para me dar”, não tem coisa mais lógica do que isso. Mas, quando a frase é “no meu jardim existem flores que engoliram todos os monstros”, aí é preciso interpretar o que o autor quis dizer com aquilo. Que flores são essas que engolem monstros? O autor pegou os signos, as palavras, e construiu um texto que vai possibilitar várias interpretações. De certa forma, a teoria estética da literatura é o estudo do que os autores querem dizer com seus textos. Meu projeto de vida, naquela época, era esse. Por isso fui cursar Letras, mas não terminei. No último semestre desisti de ser teórico da literatura. Falou mais alto a necessidade de existência. Mas, até então, meu projeto era ir para São Paulo, tentar ser professor da USP.
ZONA SUL – Durante esse período, onde a música se encaixava?
MANASSÉS – Sempre estive próximo da música. No tempo de São José de Mipibu eu gostava de ficar na praça, tocando com meu irmão Júnior e os amigos Eugênio Parcele e Ismael Alves. Ismael, que é de Parnamirim, nessa época morou em São José de Mipibu. Depois ele entrou em um formato de produção musical vinculado aos movimentos sociais. Na ETFRN, até nas viagens do time de voleibol a gente levava o violão. Mesmo no Exército, nunca deixei de tocar. Continuei tocando violão e lendo poesia. O que me fez sentir necessidade de compor foi ver os caras tocando na noite, em Natal. A noite sempre foi uma escola pra todo mundo.
ZONA SUL – Naquela época se tocava música autoral nos bares?
MANASSÉS – Pouco. Quem começou a tocar um pouco de música autoral foi Expedito. Depois, Nazareno voltou de São Paulo e montou o “Antigamente”. Lá, ele e Silvana tocavam composições próprias. Pedrinho Mendes e Sueldo Soaress começaram mais ou menos na mesma época. Mas a produção não era grande. Infelizmente, Natal nunca oportunizou aos seus artistas uma inserção maior no contexto cultural da cidade. Houve certa efervescência entre os anos 1990 e 2000. Depois começou a queda e hoje está em banho-maria. Natal, do ponto de vista da música popular, está congelada de uma forma meio triste. A primeira vez que toquei em bar foi no “Boca da Noite”. Ao final da apresentação de Sueldo, peguei o violão e comecei a tocar. Como as pessoas gostaram, a dona do bar me chamou e pediu para eu continuar tocando por mais meia hora. A partir daí comecei a tocar na noite, mas esse nunca foi o meu forte. Tocando em bar, fui me aperfeiçoando. Então, resolvi tentar estudar. Entrei na Escola de Música da UFRN e estudei teoria um tempo. Estudei violão clássico para ter uma base e conhecer os acordes todos. Porém, acho que para tocar bem um instrumento musical depende do instrumentista. Ou você estuda por si só, ou termina sem conhecer.
ZONA SUL – E as composições, quando começaram a surgir?
MANASSÉS - A primeira música que compus foi para participar de um festival interno da ETFRN, em 1979. A música não logrou sucesso. Na segunda tentativa, a música que inscrevi era um pouco melhor, mas também não teve boa classificação. Porém, em 1987 inscrevi duas músicas próprias e uma terceira – em parceria com Edinho Queiroz – no Festival da UFRN. Essa última, chamada “Upstairs”, ganhou o festival. Teve época de eu tocar em bar mais constantemente, mas Natal nunca oportunizou a ninguém a possibilidade de ter uma vida musical autoral fazendo shows e participando de projetos que permitissem sua sobrevivência. É bom lembrar que artista não vive de ar, nem de vento.
ZONA SUL – Será que a competitividade dos músicos potiguares entre si contribui para isso?
MANASSÉS – Até o final da década de 1980, poucos tinham ido buscar espaço no Rio de Janeiro e em São Paulo: Flor de Cactus, Nazareno, Gilson, Terezinha de Jesus, Mirabô (que depois migrou mais para o mundo sindical) e outros poucos. Pedrinho Mendes passou um tempo curtíssimo no Rio, e também não logrou êxito. Teve também Gilliard, Carlos Alexandre... Acho que o grande sucesso potiguar foi a música “Casinha branca”, de Gilson. Mas, curiosamente, o Rio Grande do Norte foi um estado que não projetou ninguém no cenário nacional daquela época. Outros estados que conseguiram formar artistas de sucesso, ainda hoje persistem. Terezinha de Jesus teve um desponte importante. Além de a música dela ser boa, ela sempre foi uma figura maravilhosa. Só Terezinha para explicar porque depois de tanto sucesso ela voltou para Natal.
ZONA SUL – Terezinha fala sobre esse tema em entrevista que deu para o “Zona Sul” e que está disponível na Internet: (http://zonasulnatal.blogspot.com.br/2009/01/entrevista-terezinha-de-jesus.html).
MANASSÉS – Talvez várias circunstâncias tenham impedido que a carreira de Terezinha e de muitos outros tenha decolado e eles não tenham hoje um nome forte nacional.
ZONA SUL – Como está a música brasileira hoje?
MANASSÉS – Esteticamente, até os anos 1990 a música brasileira era bem dividida. Tinha a música brega e uma mais elaborada que entrava no rol da MPB. Sobre a música brasileira de hoje em dia, acho que, do ponto de vista da construção e da produção musical, ela está ótima. Quem procurar vai encontrar compositores maravilhosos elaborando canções com conteúdo e esteticamente bem feitas. Dá para fazer uma listagem enorme de cantores e compositores e ninguém conhece. Por exemplo: quem ouviu falar em Sérgio Santos? É um compositor maravilhoso.
ZONA SUL – Nos anos 1980 você, Antônio Ronaldo, Leão Neto, Edimar, Sueldo e tantos outros criaram um movimento de grande repercussão na cidade. Fale sobre o “Trampo”.
MANASSÉS – O “Grupo Trampo” foi criado naquela época em que os artistas trabalhavam de forma isolada, cada um construindo o seu lado. O músico potiguar, a exemplo do músico brasileiro – principalmente o compositor –, se sentia (e acho que hoje é pior ainda) miniaturizado frente às estruturas engendradas pelo mercado. Não havia uma motivação para ele produzir e divulgar sua música autoral. O mercado não absorvia esse trabalho como deveria. Era difícil até registrar essas canções, já que o formato que a tecnologia da época permitia era muito caro. O único caminho que encontramos foi nos juntarmos e Sueldo tocar a música dele e a minha, eu tocar as minhas canções, as dele e as de Ronaldo, e Ronaldo tocar as nossas e as de não sei quem lá. Tenho até hoje um texto impresso, um compêndio de umas 50 páginas, onde tentamos interpretar aquele momento.
ZONA SUL – Quem é o autor desse texto?
MANASSÉS – Antônio Ronaldo escreveu um bocado, eu escrevi outra parte, Leão Neto corrigiu e deu muitas ideias, junto com Sueldo. Foi feito um “brainstorm” grande para discutir a música brasileira e a potiguar de antes, a daquele momento e a que poderia surgir depois. O fato é que o “Grupo Trampo” gerou um “boom”. Fizemos um show na Rua da Floresta, na Vila de Ponta Negra, que reuniu 1.300 pagantes. Depois dessa festa conversei com umas 30 pessoas do Ceará que tinham ido assistir. O “Trampo” deu uma certa impulsionada na música popular potiguar. Depois o movimento se esvaiu devido a várias circunstâncias. Do jeito que começou, acabou. Não foi um movimento planejado, como também sem planejamento nenhum acabou.
ZONA SUL – Existe a possibilidade de o “Trampo” ressurgir?
MANASSÉS – Vez por outra converso com Antônio Ronaldo e Sueldo e a gente até comenta que poderia tentar reeditar. Mas o momento hoje é diferente. O fato é que a partir do “Trampo” alguns discos foram lançados. Eu lancei um, Leão Neto e Edimar Costa lançaram outros. Até então, só Pedrinho Mendes tinha gravado dois discos. “Flor de Cactus”, Nazareno e Terezinha de Jesus tinham produzido elepês, mas fora da cidade. Demos nossa contribuição para o povo perceber que a música local tem valor.
ZONA SUL – Fale sobre esse seu primeiro disco.
MANASSÉS – Lancei em 1989. Naquela época era difícil e caro fazer um disco. O poeta e professor macauense Benito Barros, já falecido, foi quem deu a ideia e me ajudou a buscar uma forma de viabilizar o projeto. Angariamos recursos de um lado e do outro. Fui gravar no estúdio “Estação do Som”, em Recife. O disco se chamou “Nós” e foi lançado com quatro canções, duas de cada lado. Ele rendeu bons frutos, do ponto de vista da divulgação e da ampliação do trabalho musical que eu vinha fazendo. O LP me deu oportunidade de uma entrada maior, consegui participar de vários projetos no Nordeste: João Pessoa, Fortaleza, Maceió...
ZONA SUL – Quando você gravou esse disco já tinha uma ocupação profissional fora da música?
MANASSÉS – Eu era estudante universitário e ainda tinha o sonho de sobreviver da música, de trabalhar nessa área.
ZONA SUL – Quando esse sonho virou pesadelo?
MANASSÉS – Esse sonho não virou pesadelo nunca, mas migrou para o espaço mais concreto da necessidade de sobrevivência. Vendo por um ângulo poético, esse pesadelo perdura até hoje. Pesadelos se transformam em sonhos que emocionam quando consigo construir uma nova canção. Tem certas músicas que começo a tocar e não consigo terminar, emocionado. Às vezes, chego ao final da canção meio cambaleante, carregando aquela emoção forte. O artista da música popular é dotado de conjugações, cores, imagens, verbos e sons para colorir a vida e deixá-la mais prazerosa e emocionante. Ele busca transformar em uma realidade bonita esse sonho que às vezes é pesadelo.
ZONA SUL – Antes de lançar seu segundo disco, que outros caminhos você buscou para poder sobreviver?
MANASSÉS – Quando a pessoa não tem uma família que possa lhe dar uma vida nababesca ou principesca, como aqueles clãs ricos e tradicionais do Nordeste, ela normalmente tem que fazer alguma coisa na vida para sobreviver. No Nordeste - em Brasília também é assim - se procura muito o serviço público. Então decidi: se não conseguia me manter como artista seria servidor público. Fui estudar para fazer concurso público. Dessa forma ingressei no Judiciário e até hoje estou por lá.
ZONA SUL – Você se sente frustrado por isso?
MANASSÉS – Não. Até porque continuei trabalhando com música. Mas, antes de ingressar no serviço público, concluí a universidade. Quando desisti de Letras, fiz reopção e entrei em Direito. Foi outra faculdade frustrada. O Direito é muito voltado para o positivismo, para a preservação do “status quo”, do que está estabelecido, do ordenamento jurídico. Na época eu usava camisa com o poema de Brecht, “O Analfabeto Político”. Sempre tinha uma opinião diferente do que estava tradicionalmente posto. Então desisti do Direito e me direcionei para o Jornalismo. Lá encontrei tudo o que é vertente. Paralelo ao novo curso, comecei a estudar para concurso. Já são 24 anos de serviço no Tribunal Regional do Trabalho, sem abandonar a música. Nesse meio tempo, lancei meu segundo disco, “Varal do Tempo”.
ZONA SUL – Fale sobre esse CD.
MANASSÉS – Pensei no disco como ele sendo um varal onde eu expusesse a minha vida. Cada peça de roupa, cada camisa estendida seria uma canção. No disco tem canção para mim, para o meu filho, para a minha esposa, para a minha cidade, para os meus amigos, para aqueles que militavam na música... Compus uma música para cada um desses temas e joguei dentro do disco. Acho que saiu um disco bacana em estética e conteúdo. A repercussão foi muito boa, tanto que, surpreendentemente, uma das músicas foi gravada várias vezes por outras artistas. “A Lua, o Amor e o Mar” foi regravada cinco ou seis vezes. Até uma americana, chamada Kate Bentley, gravou e escolheu o nome dessa canção para ser título do seu disco lançado com canções brasileiras. A cantora carioca Claudia Amorim gravou quatro músicas minhas em um disco.
ZONA SUL – Como elas conheceram seu trabalho?
MANASSÉS – Claudia Amorim ouviu o disco, gostou e entrou em contato. Kate Bentley também. Kate é uma diplomata americana que cantava nos Estados Unidos. Morou um tempo em Recife, mas hoje reside em Londres. Fiz o lançamento do “Varal do Tempo” em Natal, Porto Alegre, Brasília e Rio de Janeiro. Um jornalista do “Jornal do Brasil” fez uma crítica interessante do CD e publicou na capa do caderno de cultura de Niterói. Fiz um show no “Armazém da Música”, em Niterói. Na plateia tinha um cara do Pará, em uma mesa com cinco pessoas. Ele foi ao show para me conhecer. Não sei como, ele possuía o meu elepê. Esse paraense comprou cinco CDs para presentear os amigos. No Rio Grande do Sul, um cara já tinha o CD por lá. Se eu fosse me dedicar exclusivamente à música, o resultado da divulgação seria bem maior, já que é um disco bacana, bem tocado. Tem Arthur Maia (baixista), Marcelo Martins (sax e flauta), Sérgio Farias, Jubileu, as cantoras Khrystal, Lene Macedo e Valéria Oliveira, Gilberto Cabral (trombone)... Ricardo deu uma contribuição grande! Agora estou preparando o terceiro.
ZONA SUL – Esse novo disco já tem nome?
MANASSÉS – Deverá se chamar “Terra à Vista”. As músicas já estão gravadas. Nele me mostro enquanto pessoa humana, artista da música e me dou oportunidade para falar sobre o que eu descobri na vida. As canções falam dos boqueirões que a vida me abriu e as interpretações que eu dei a esses boqueirões que a vida me proporcionou. Eu falo da natureza, do amor e de tudo o que acontece na vida de uma pessoa. Está quase pronto. Talvez precise de um detalhe aqui e outro ali. É quase o mesmo time que participou do primeiro: Sérgio Farias, Jubileu, Erick Firmino, Dudu Taufic e Di Stéffano. O CD tem linguagem de banda. Tem também Marcelo Martins (sax e flautas). A intenção era ter lançado no ano passado. Como esse prazo já foi para o espaço, vou ver se consigo lançar o disco até outubro.
ZONA SUL – Fale sobre sua mulher e seu filho, pessoas que compartilham mais diretamente a vida com você.
MANASSÉS – Um pescador vai para o mar na expectativa de buscar a melhor pescaria para si e para a sua família. Um garimpeiro está sempre à procura da melhor pedra preciosa, do melhor mineral. Um cavaleiro escolhe dentre os melhores cavalos a montaria que ele acha ser a ideal. Enfim, o ser humano sempre procura na vida o melhor. Na verdade, o que eu tenho de mais precioso hoje eu não procurei. Surgiu como se fosse um prêmio do qual eu talvez nem fosse merecedor. Nem saí para o mar, como o pescador; nem fui ao garimpo, como o garimpeiro; nem escrevi um bom livro, como escritor teria feito. Surgiu para mim como se presente fosse. Talvez eu até merecesse, mas não estava buscando. Baseado na minha formação religiosa, diria que esse presente me foi dado por eu ter um bom coração. Foi uma recompensa. Ana é uma pedra preciosa que já veio para mim lapidada...
ZONA SUL – ...E que você guarda como um tesouro...
MANASSÉS – Não guardo como um tesouro. Ela é uma pessoa que me traz um aprendizado constante. Aí é onde reside a maior riqueza pra mim. Esse aprendizado me projeta como ser humano. Quando a conheci, ela me deu a possibilidade de me sentir realizado como ser humano. Depois, com o nosso filho, Eduardo (Dudu), surgiu um pulso de humanidade que – nessa vida conturbada de hoje - ao mesmo tempo me enriquece e me ensina que eu tenho que estar em uma constante desaceleração da ansiedade do dia-a-dia. Quanto menos ansioso estiver, mais em paz estarei com a família. Com eles dois, consigo ser mais humano, mais pai, mais amigo, mais filho, mais indivíduo. A cada dia eles me ensinam a viver melhor.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul.
MANASSÉS – Primeiro eu gostaria de sugerir ao povo potiguar que preste mais atenção nos seus artistas. Natal tem uma possibilidade musical riquíssima, tem compositores belíssimos como Antônio Ronaldo, Babal, Cleudo, Luiz Gadelha, Sueldo Soaress, Pedro Mendes e tantos outros. Na música instrumental, também. Tem músicos de qualidade internacional, como Eduardo Taufic, Jubileu, Sérgio Farias, Sérgio Groove e Ricardo Menezes. Infelizmente os veículos de comunicação de massa no Brasil têm prestado um grande desserviço. Desde a Rede Globo até os outros, eles ideologizaram a música nacional colocando a cultura de massa em detrimento das raízes culturais do nosso povo. O que me interessa, aqui no Brasil, conhecer o funk dos Estados Unidos - ou outros ritmos estrangeiros - enquanto não tenho a possibilidade de ouvir e ver na TV o samba, o baião, a marcha-rancho e tantos outras manifestações culturais nacionais? Hoje as pessoas vivem sob a égide da TV e do rádio. O que é veiculado as pessoas absorvem, muitas vezes sem nenhum senso crítico, de goela abaixo.
ZONA SUL – Como as pessoas podem ter acesso ao seu trabalho?
MANASSÉS – Acho que o CD “Varal do Tempo” ainda pode ser encontrado na Cooperativa da Universidade e em algumas livrarias de Natal. Quem não mora em Natal pode mandar um email para manassescampos@gmail.com. Estou no Facebook com o meu nome: Manassés Campos. Para finalizar, eu gostaria de deixar registrado que as entrevistas que o “Zona Sul” está fazendo são importantes porque perpetuam as histórias que são contadas. Como todo esse material está disponível na Internet, as futuras gerações que porventura possam se interessar por esses temas terão um repertório vasto para a pesquisa. Eles poderão saber que existiram pessoas construindo histórias, fomentando novas estéticas, compondo música e fazer artístico e sabendo que a humanidade caminha no sentido da sua evolução. Diferente da sociedade de hoje, buscamos um futuro onde o homem viva em benefício do próprio homem.
 

















sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Entrevista: Nicolas Gomes


FOTÓGRAFO DO ROCK E GUITARRISTA DAS IMAGENS


Por trás da faceta de roqueiro e de um homem acostumado a coberturas jornalísticas e de eventos musicais, a imagem que Nicolas Gomes deixa transparecer é a de um cara discreto, tímido, econômico nas palavras e bom caráter. A rebeldia – que caracteriza o rock and roll – pode ser percebida nas tatuagens espalhadas pelo corpo, mas não no comportamento. Bem educado, o que ele demonstra mesmo sem reservas é o amor pelos filhos Lucas e Alice. Recebi Nicolas em minha casa para que ele contasse ao leitor do Zona Sul a sua história. Foi uma noite divertida regada a risadas, vinho e cerveja. Ele falou sobre rock, fotografia, Vasco da Gama e, sobretudo, contou sua vida. Vamos conferir um resumo da conversa. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL - Nicolas Lira Gomes...
NICOLAS – O sobrenome Lira é por parte da minha mãe, Celi Maria Lira Gomes. Gomes eu herdei do meu pai, Heriberto de Sousa Gomes. Embora a família da minha mãe seja caicoense, ela nasceu em Natal. Meus pais moram em Natal. Tenho um irmão mais velho, Igor Lira Gomes. Minha mãe se formou em Economia, na UFRN, e é funcionária pública. Hoje ela está no Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do RN). Meu pai se formou em Odontologia, na UFRN. Entrou na Marinha por concurso público. Hoje está na reserva, aposentado. Nasci em 1981, em 1985 mudamos para Recife. Depois fomos para o Rio de Janeiro.
ZONA SUL – Você guarda alguma recordação da primeira fase que morou em Natal?
NICOLAS – Minha família morava em Morro Branco, perto da CEFET, quase esquina com a Rui Barbosa. Quando a gente foi para Recife, esse imóvel ficou alugado. Dessa época lembro-me de festas e eventos comemorativos de datas como “Dia do Índio”, no Colégio das Neves. Também me lembro de ir brincar e andar de bicicleta no Bosque dos Namorados. Mas a maior parte dessas recordações veio depois, vendo fotografias. Meu pai tinha uma casa em Cotovelo. A gente ia para lá quase todo final de semana. Nasci em outubro: em dezembro já estava veraneando. Às vezes até acho que sou mais de Cotovelo do que de Natal. Quando a gente voltou, depois de morar em Recife e no Rio, ficou morando um tempo na praia, até a casa de Morro Branco, que estava em reforma, ficar pronta.
ZONA SUL – Você morou o suficiente em Recife para torcer por algum time pernambucano?
NICOLAS – Não, mas quase. Se eu ficasse mais tempo ia escolher o Sport, que era o mais forte da época. Comecei a acompanhar futebol em 1988. Torci muito contra o Santa Cruz, ouvindo no rádio com o porteiro do prédio. Meu primeiro time foi o Vasco. Apesar de o time ter Romário e Bebeto, eu admirava era o goleiro Acácio, que foi um grande pegador de pênalti. Foi aí que comecei a gostar de futebol. Naquela época eu também era fissurado em jogo de botão.
ZONA SUL – O rádio, além das transmissões esportivas, chegou a ser importante para você como fonte de música?
NICOLAS – Nossa! Boa parte do que sou hoje devo ao rádio. Em Recife mesmo, nessa época, eu e meu irmão ganhamos de minha mãe um microsystem pequeno. Veio com duas fitas e um curso de inglês. Não cheguei a ouvir até o final nenhuma das oito fitas que vieram com o curso. Comecei a gravar as músicas que eu gostava por cima delas.
ZONA SUL – O que você ouvia nessa época?
NICOLAS – Sempre ouvi rock, nunca gostei de outro tipo de música. Ouvia, basicamente, rock nacional: Paralamas, Titãs, Ira!, Inimigos do Rei, Engenheiros do Hawaii... Comecei escutando pelo rádio, depois passei para as fitas e os elepês. O primeiro vinil que ganhei foi do Bom Jovi. A partir daí passei a pedir fita e vinil de presente de aniversário. Também passei a juntar dinheiro para comprar fitas e fui procurando grupos internacionais, como Guns N' Roses.
ZONA SUL – Seus pais ouviam o que?
NICOLAS – Basicamente MPB: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Marisa Monte... Lembro muito de Marina Lima. Minha mãe comprava discos de Cazuza, Lulu Santos...
Eles também ouviam Beatles.
ZONA SUL – Os Beatles lhe interessavam?
NICOLAS – Claro. Mas eu acho que só fui perceber depois, quando comecei a fazer as minhas coletâneas. A partir daí passei a ouvir com calma os discos que tinha lá em casa.
ZONA SUL – Na escola você foi bom aluno?
NICOLAS – Não, sempre fui mediano. Nunca me interessei muito pelo que se ensinava lá. A exceção era Geografia. Era das poucas matérias que eu sempre tirava 9 ou 10. Mas, em 1992 trocamos Recife pelo Rio.
ZONA SUL – Você ofereceu alguma resistência quando soube que teria que ir morar em outra cidade? Foi difícil a mudança?
NICOLAS – Eu tinha apenas onze anos: sabia que ia ser chato, mas não era nada do outro mundo. Meu pai tinha duas opções: Brasília ou Rio. Meu pai nunca gostou do Rio. Nas vezes que tinha ido lá a experiência não foi boa. Minha mãe, utilizando desenhos, pediu nossa opinião. Eu e Igor escolhemos o Rio. Meu pai, que tinha o poder de decidir, foi voto vencido. Senti bastante a mudança, ela foi brutal. O preconceito contra o nordestino, no Rio, é gigante. Naquela época era muito pior. Minha experiência é com aquele Rio não pacificado. Os anos 1990, no Rio, foram muito difíceis, a violência estava espalhada.
ZONA SUL – Onde vocês foram morar?
NICOLAS – Meus pais passaram um mês no Rio procurando apartamento, enquanto nós passávamos as férias em Natal. Encontraram alguns apartamentos pequenos, de dois quartos, mas não muito legais. Perto da data da mudança, eles estavam tristes porque não tinham encontrado um local legal. Foi quando surgiu um amigo da minha avó por parte de pai. Ele tinha um apartamento fechado na Avenida Jardim Botânico. Era um cara rico que não tinha interesse em alugar. Através da amizade com a minha avó, ele topou abrir uma exceção. Era em um bloco que tinha sido da Aeronáutica e que depois teve unidades vendidas também para não militares. O apartamento era pequeno, de três quartos, mas a localização era fantástica. Ficava a duas quadras de um clube da Marinha, chamado Piraquê, que é coisa de outro mundo. Minha vida no Rio foi toda dentro desse clube.
ZONA SUL – Onde vocês foram estudar?
NICOLAS – No Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em Botafogo, vizinho ao Jardim Botânico. Era um bom ensino a um preço razoável. O custo de vida na Zona Sul era muito alto.
ZONA SUL – Como você enfrentou o preconceito contra nordestino?
NICOLAS – Comecei a superar o preconceito quando comecei a não ligar mais para ele. No começo era muito chato. No Rio você é Paraíba. Em São Paulo você chamado de baiano. A princípio eu tentava explicar que não era da Paraíba, mas do Rio Grande do Norte. Inocência. Como esse preconceito vinha basicamente dos meninos, me aproximei mais das meninas do que dos caras. Elas tinham mais curiosidade do que preconceito.
ZONA SUL – No Rio, o que você buscou primeiro: a música ou o Vasco?
NICOLAS – Saí de Recife sem ser um torcedor fanático pelo Vasco. A paixão pelo time veio naturalmente. A força do futebol foi primeira coisa que senti ao chegar ao Rio. Na escola, na segunda-feira, todo mundo comentava. O futebol me marcou primeiro, até porque o Rio de Janeiro nunca foi forte para o rock. O que me chocou lá foi o funk. Depois de um tempo, cheguei a frequentar bastante as festas e a dançar aquela música tão exótica. É como o forró, no Nordeste. Como a maioria curte, é o que mais toca nas festas.
ZONA SUL – E o rock?
NICOLAS – Em 1992 conheci muitas bandas de punk rock, como Ramones, Nofx, Bad Religion... Em Recife, o rádio só tocava música nacional. O máximo, de internacional, era Guns N' Roses, Iron Maiden... No Rio conheci bandas mais undergrounds, punks. Eu escutava rock em casa e ia curtir o funk na rua. Nas festas, em determinado momento a gente dominava o som e botava nossos discos e fitas. Ninguém gostava quando a gente tocava Ratos de Porão e Sepultura. Enquanto a minha turma vibrava, o resto do povo ficava esperando a hora do funk. Aconteceu o mesmo em Natal, depois, com o forró.
ZONA SUL – Você morou quanto tempo no Rio?
NICOLAS – Fiquei de 1992 a 1997. O clube Piraquê foi muito importante nesse período todo. Quando não estava na escola, ia para lá. Fiz todos os esportes: basquete, futebol, tênis, tênis de mesa... O clube tinha cabeleireiro, boate, restaurante... Era completo. Depois fiz remo, no Botafogo. Apesar de morar no Jardim Botânico, a vida da minha família sempre foi muito simples. Meus pais são muito regrados, nunca valorizaram o luxo. A gente juntava dinheiro para ir para Natal no final do ano. Além do fato de ser nordestino, conviver com o pessoal rico também foi difícil, por causa do preconceito social.
ZONA SUL – A fotografia já lhe chamava atenção nessa época?
NICOLAS – Não, ela veio depois. Porém, de uma maneira subjetiva, eu convivia com a imagem. A especialidade do meu pai, como dentista da Marinha, é radiografia. Ele faz documentação ortodôntica. No Rio ele comprou uma câmera especial só para tirar foto de dente, chamada “dental eye”. Era caríssima. Ele carregava em uma maleta toda alcochoada. Na época de Recife ele reunia os amigos para mostrar os slides das viagens que fazia. Ele só fotografava em positivo, em slide. Fazia um jantar para os amigos e mostrava as fotos.
ZONA SUL – Você guarda algum fragmento na memória de sua primeira ida ao Maracanã?
NICOLAS – Lembro do jogo Brasil e Uruguai, eliminatório para a Copa de 1994. Foi minha primeira ida ao Maracanã. Fomos eu, meu irmão, meu pai e um colega da escola que morava no mesmo prédio. Só não gostei porque a gente ficou do lado da torcida do Flamengo. Mesmo sendo jogo do Brasil, a torcida do Vasco sempre fica de um lado e a do Flamengo do outro. A gente ficou na torcida do Flamengo porque – fazendo uma comparação com o Machadão, seria a torcida do Alecrim – é o lugar onde fica a sombra e sopra um ventinho. As pessoas cantavam as músicas do Flamengo antes do jogo. O clima era como se fosse de Vasco e Flamengo, só que com o Brasil jogando. Depois passei a frequentar o estádio com o meu pai, já que ele não deixava a gente ir sozinho. Uma vez a gente ia para jogo do Vasco, na seguinte para jogo do Flamengo, que era o time de preferência do meu irmão. Tinha também a opção de não querer ir.
ZONA SUL – E as praias do Rio?
NICOLAS – Na época em que morei lá acho que sou fui à praia duas vezes. Aquela água gelada não me fazia falta, até porque eu passava as férias em Natal. Em compensação, quando minha avó por parte de pai, Idelzuithe, ia visitar a gente, mandava carta para a Globo se inscrevendo para assistir o programa do Faustão. Íamos: eu, meu irmão, ela e meu avô. Depois disso a gente chegou a ir a programas que duraram pouco, como o do Luiz Thunderbird. No Jardim Botânico a gente morava ao lado do teatro da Globo. Era o Teatro Fênix, antes de a Globo se transferir integralmente para o Projac.
ZONA SUL – Voltar para uma Natal que até então você só conhecia nas férias foi bom?
NICOLAS – Foi péssimo. Sair de uma metrópole onde eu tinha tudo nas mãos, todo mundo estava envolvido com tudo o que estava acontecendo e voltar para Natal foi horrível. Passei um ano muito ruim, de adaptação. O segundo ano foi de exclusão por opção. Finalizei meus estudos na CAP Colégio e Curso. Quando voltei para Natal foi quando me formei roqueiro mesmo. Foi quando decidi tocar guitarra.
ZONA SUL – Como foi a repercussão familiar dessa decisão de se tornar roqueiro?
NICOLAS – A pior possível. Meus pais sempre foram muito compreensíveis, a gente sempre conversou muito. Eles nunca foram de reprimir, de proibir. Sempre foram abertos. Mas eu decidi a partir da minha experiência pessoal e de amigos também. Envolvi-me por minha conta e risco. Se fosse depender dos meus pais, eu teria seguido a vida do meu irmão: ele se formou em Odontologia, na UFRN, fez o concurso para oficial da Marinha, entrou, e está lá até hoje. Mora no Rio.
ZONA SUL – Como foi o processo para você se tornar um roqueiro?
NICOLAS – Quando voltei para Natal mudei muito e os meus interesses também mudaram bastante. Conheci uma turma legal. Meus primeiros colegas em Natal foram dessa turma. Um deles hoje é músico, Diogo das Virgens. Aprendi a tocar violão através dele. Nunca tive aula, sempre fui autodidata, mas Diogo me ensinou os primeiros acordes. Logo que voltei, nos primeiros dias de aula, sem conhecer ninguém, me sentei ao lado dele. Diogo viu nos meus cadernos os adesivos das bandas Foo Fighters e Green Day. Ele olhou e puxou assunto. Foi minha primeira amizade fora de Cotovelo. Eu tinha decidido que ia tocar guitarra por influência do Slash, guitarrista do Guns N' Roses. Como Diogo já tinha guitarra, pedi que me ajudasse. Ele recomendou que antes eu tinha que aprender a tocar violão, para conhecer os acordes, a teoria. Comprei um violãozinho de 80 reais. Diogo ensinou três acordes e me deu um livrinho. No terceiro mês de treino, consegui tocar a minha primeira música. Tive que passar por essa fase pra comprar a guitarra.
ZONA SUL – Além de tocar, você também compõe...
NICOLAS – Quando aprendi as três primeiras notas já comecei a compor, mesmo toscamente. Eu acordava de madrugada e ia escrever uma letra qualquer pra conseguir tocar. Acho que isso me afastou um pouco de Diogo, que nunca se interessou em compor. O negócio dele, até hoje, é fazer cover bem. Então, com poucas amizades, fiquei um tempo sem sair, entocado. Foi assim até eu prestar vestibular. Eu não sabia para qual curso eu queria fazer. Até que um dia vi um, chamado Engenharia de Produção. Li em um livro sobre profissões que minha mãe tinha me dado, que o cara dessa função ficava na fábrica vendo o controle de produção. Pensei: “se é para ser qualquer coisa, que seja isso”. Fiz o vestibular, mas claro que não passei, porque não estudava. Nessa época eu ficava traduzindo músicas das bandas. Lembro que comecei a acessar a internet entre 1997 e 98. Eu só procurava sobre rock. E era um rock bem específico, não comecei escutando Led Zeppelin ou Black Sabbath, mas bandas bem undergrounds, punks e hardcores da Califórnia. A primeira vez que ouvi uma música de punk-rock fiquei muitos anos só pesquisando e escutando isso.
ZONA SUL – Qual sua primeira banda em Natal?
NICOLAS – No começo tive muitas bandas de ensaio, mas nenhuma que chegasse a ter nome. A primeira vez que gravei foi em 2003, na Banda Radial, integrada por colegas que tenho até hoje em Natal. São os irmãos Rocha (Henrique Geladeira e Gustavo Macaco), Rodrigo Sérvulo (O Homenzinho), e o baterista Augusto. Com exceção do Rodrigo, que era vocalista, os demais continuam envolvidos com música. Tive bandas que não chegaram a gravar nada relevante. Toquei com algumas pessoas conhecidas na cena do rock como Solano (Jane Fonda), Fabio Nunes (Carbura), David Fonseca (Folclore), Rogério Pitomba (grande baterista que hoje toca com vários artistas de Natal), Flavio França (Expose Yout Hate, Outset) e Jussian (O Surto).
ZONA SUL – Nessa época você já fotografava?
NICOLAS – Comecei nessa época da Banda Radial, quando meu irmão foi fazer um curso no Chile e voltou com uma câmera digital. Eu ainda não havia passado no vestibular. Minha mãe sugeriu que eu fizesse para algum curso da UNP, que era perto de casa. Como tinha feito para Engenharia de Produção na UFRN, botei na cabeça que teria que fazer para alguma Engenharia: entrei em Engenharia da Computação. Gosto de computador, tenho facilidade com informática e tecnologia. Mas nunca me dediquei ao curso, que é bem difícil. A pessoa tem que ralar muito para conseguir alguma coisa. No final de 2001 consegui estágio na Caixa Econômica, através do curso de Computação. Fiz um curso de engenharia de redes, da Cisco. Foi o único curso para o qual me dediquei de verdade. Com seis meses de Caixa fui admitido para trabalhar com gerenciamento de redes. Na CEF, trabalhava na agência da Ribeira, onde ficavam todos os roteadores. Eu monitorava a comunicação de todas as agências do estado. Meu turno era o da manhã, era complicado porque eu tinha que estar lá às 7 da manhã com tudo ok. Tinha que acordar muito cedo, foi bem difícil. Foram dois anos bem de ralação.
ZONA SUL – Mas você estava falando da câmera que o seu irmão trouxe.
NICOLAS – Ele trouxe a câmera, mas eu tomei conta dela. No começo, quando precisava, ele até pedia. Essa câmera normal, dessas cybershot, foi a minha escola. A partir dela comecei a tirar foto. As primeiras fotos que fiz já saíram boas. Tenho até hoje. A visão já veio automática. Demorei um tempo para fazer curso. A fotografia estava adormecida, foi um estalo completamente inusitado.
ZONA SUL – Essas primeiras fotos retratam o que?
NICOLAS – Peguei a câmera, abri a porta de casa e fui para a rua tirar foto de qualquer coisa. Saí andando ali pelo lado do CEFET, naquela pracinha ao lado. Tirei foto das árvores, das ruas, de detalhes. Foi a primeira saída fotográfica que dei. Depois abri um fotolog, um site onde você bota foto e as pessoas comentam. Lá publiquei um dos primeiros ensaios da Banda Radial. Levei a câmera, fiz umas fotos e postei. Em pouco tempo as pessoas começaram a elogiar. Fiquei surpreso porque pra mim era normal, não tinha nada demais. Naquela época as pessoas não tinham muito contato com a fotografia, que se popularizou quando se tornou digital. Antigamente todo mundo tinha que posar para o registro. Fotografia custava caro, não dava para ficar tirando foto de qualquer coisa. Com a câmera digital eu tirava foto de tudo: era só descarregar e deletar o que não tinha ficado bom. Não parei mais. O segundo ano que passei na Caixa Econômica foi todo juntando dinheiro para comprar uma câmera profissional.
ZONA SUL – Você saiu da Caixa antes de começar a ganhar dinheiro com fotografia?
NICOLAS – Comecei a trabalhar com fotografia antes de sair da Caixa. O objetivo de comprar o equipamento deu forças para eu acordar às 5h30 para ir trabalhar. Ainda na CEF, fiz um editorial de moda para O Poti com a cybershot. Fui indicado por uma amiga que trabalhava com moda. O produtor me ligou, e a gente marcou. Quando cheguei ao local combinado, que tirei a cybershot da mochila, ele olhou pra mim e disse: “sério que é você quem vai tirar essas fotos?”. Foi um bullying daqueles. Mas as fotos ficaram boas, saiu no jornal e ele gostou. Tanto rolou que depois fiz outros trabalhos para ele. Quanto terminou o segundo ano, a empresa terceirizada pela qual eu prestava serviço à CEF estava meio enrolada. Conversei com meu chefe e ele concordou em facilitar minha saída, dando todos os benefícios. Assim decidi que ia viver me dedicando à música e à fotografia. Eu já não estava mais fazendo Engenharia da Computação e já sabia que não ia terminar esse curso. Ao sair da CEF, fiquei seis meses com o seguro-desemprego, que me permitiu comprar os equipamentos que eu precisava. Com o dinheiro do FGTS comprei uma ilha de edição. Foi nessa época que comecei a parceria com Anderson Foca, do DoSol. Até então eles não tinham nada de documentação de foto e vídeo.
ZONA SUL – Isso tudo foi em 2003?
NICOLAS – Sim, esse ano foi o que marcou tudo: minha primeira banda, deixei o emprego e descobri a minha vocação. Como eu dizia, comprei uma ilha completa, computador, mesa, impressora, câmera, câmera de filmar, mochila. Tudo que é necessário para fazer vídeo e foto eu tinha. A primeira coisa que fiz foi o Festival DoSol, os shows no DoSol Rock Bar, que tinha aberto e videoclipes para bandas que o Foca gravava. Fiquei seis meses fazendo isso. Eu nunca tinha feito um clipe na vida. Cheguei, filmei uma banda e na frente do computador aprendi a editar em três dias, na marra. Aprendi a pegar as imagens e cortar e juntar, botar uma cor. Até hoje mantenho esse perfil de manter as coisas simples, sem muito efeito. Fazer uma boa fotografia, cortar, juntar tudo e fazer o vídeo: essa é mais ou menos a minha filosofia até hoje. Em 2004 eu já estava à toda: tocando, cobrindo festival, fotografando. Já tinha me tornado conhecido em Natal pela fotografia. Todo mundo sabia quem era o Nicbraw das fotos. Foi quando entrei no AllFace, a convite de Anderson. A banda já existia. Foi a época mais legal, em termos de banda. Com AllFace viajei de norte a sul tocando nos melhores festivais do Brasil. Fizemos turnês com bandas que hoje são famosas, como Fresno e NX Zero. Muita gente passou pelo AllFace, como Rafael Calango, Eduardo Passaia, Júlio Cortez, Rafael Bender, Ana Morena, Jussian, Vinicius Menna e Paulinho. A banda sempre foi uma coisa de amizade, de pessoas próximas que estavam ali tocando. Até hoje funciona desse jeito. Não tem competição, é um negócio bem aberto mesmo. A primeira vez que vim a Brasília foi por causa da banda. A gente tocou em Taguatinga, no ano de 2006, em um festival do Senhor F. Um ano depois a gente tocou no Porão do Rock. A gente também tocou bastante em Fortaleza, Recife, Teresina, Brasília, Goiânia, São Paulo e, claro, em Natal.
ZONA SUL – E depois do AllFace?
NICOLAS – No final de 2007 a banda diminuiu bastante o ritmo, ela meio que acabou sem nenhuma nota oficial. Na virada para 2008, conheci a Cynthia, lá em Natal. A gente começou a namorar. Ela nasceu em Recife, mas morou a vida toda em Brasília. Foi para Natal fazer faculdade. Seu pai mora lá com outra família, três filhos e tudo. Com quatro ou cinco meses de namoro, ela ficou grávida. Eu estava no meu último ano da faculdade de Publicidade.
ZONA SUL – Ainda não falamos nessa faculdade.
NICOLAS - Em 2005 - eu já fotógrafo e roqueiro – ouvindo sempre meu pai repetir aquela história de que eu tinha feito um monte de coisa, mas não tinha terminado nada. Resolvi fazer Publicidade, que era mais próximo da minha área. Cheguei a pesquisar faculdades de fotografia e até pensei em sair de Natal. Mas não achei nada interessante que pudesse valer a pena. Fui cursar Publicidade mais para dar uma satisfação aos meus pais. Mas o curso foi ótimo, fiz boas amizades e me ajudou bastante. No final de 2008, me formei. Nessa época Cynthia estava grávida e voltou para Brasília, para ficar com a mãe, que é o porto seguro dela. Veio grávida de Alice, a nossa primeira filha. Eu em Natal, no último ano de Publicidade. Nesse ano mudei bastante: não saía, só pensava em me formar e decidir o que ia fazer. Decidi vir para Brasília antes de me formar. Alice nasceu no dia 27 de dezembro de 2008. Vim para o nascimento dela e voltei para Natal só para colar grau. Quando peguei o canudo, desci do palco, olhei para o meu pai e disse: “pai, esse aqui é pra você”.
ZONA SUL – Quando você se mudou para Brasília já tinha alguma coisa em vista?
NICOLAS – Eu tinha muito equipamento de fotografia, reduzi tudo a uma mochila. Comprei tudo portátil, tudo wireless. Troquei o estúdio completo por um equipamento móvel, para ganhar mobilidade. Vim para cá com uma mala, uma mochila e uns tripés. Vim com meia dúzia de roupa, meu novo equipamento e muita vontade. Era o que eu tinha. Cheguei conhecendo apenas três pessoas: Cynthia, Rafael Bilico – que é de Brasília e se formou comigo em Natal - e Izaac Alves, chamado de Durex, que não terminou o curso de Engenharia e voltou para Brasília. Rafael é designer, tive pouco contato com ele em Brasília. Izaac Durex começou a tatuar pouco antes de voltar para Brasília. Quando chegou, conseguiu um trabalho muito legal em um estúdio na galeria do Hotel Nacional. O estúdio de Jersinho, o Jerson Filho. Ele praticamente tatuava os amigos e foi para um estúdio comercial. No primeiro ano em que eu estava aqui, devo ter saído para ver dois shows de bandas gringas. Fora isso eu ia para o estúdio conversar com Izaac.
ZONA SUL – Sua primeira tatuagem veio dessa época?
NICOLAS – A tatuagem é uma coisa bastante marcante. É uma decisão muito importante, definitiva, não tem volta, e as pessoas não levam isso muito a sério. Demorei um tempo até eu mesmo assimilar a ideia de ser tatuado. E foi através dessa minha proximidade com Izaac que comecei a frequentar o estúdio de tatuagem. Como não tinha o que fazer, ia ver se conhecia alguém para arrumar algum trabalho. Conheci muita gente envolvida com arte. As primeiras bandas que fiz foto aqui foram através desses contatos. Mas a minha primeira tatuagem foi o símbolo de uma banda californiana chamada Strung Out, que é um átomo. Fiz esse átomo na perna. Tinha uma mulher sendo tatuada na mesma hora, ao lado. Ela estava tatuando a costela, que é um lugar que dói muito. Ela estava de boa, enquanto eu, uma tatuagenzinha na perna, estava gemendo e fazendo careta. A mulher ficou rindo da minha cara. Foi um bullying que sofri aqui em Brasília. (risos).
ZONA SUL – Em Brasília, você chegou a se enturmar com alguma banda?
NICOLAS – Quando vim, vendi em Natal praticamente tudo relacionado à música (pedais, amplificador e uma guitarra). Vim apenas com uma guitarra e um macbook. No começo ficava compondo e gravando sozinho, só para gastar a energia e a vontade.
ZONA SUL – Por falar em gravar, como o material que você compôs antes, em Natal, pode ser encontrado?
NICOLAS – Tem alguma coisa no disco AllFace Simples, o último do grupo. (O link direto para baixar esse CD é http://www.4shared.com/zip/TXC8Fiw-/AllFace_-_Simples.html). Encontra também alguns clipes no Youtube. O disco do Radial a gente gravou, mas não foi divulgado. A finalização dele foi ruim, não colocaram pra baixar, nem nada. Mas, voltando a Brasília, conheci Cynthia apresentou um colega antigo dela, o César Pirata. As pessoas que eu conhecia na cidade eram os meus dois amigos e as bandas de Brasília que tocaram em Natal, que eu fotografei e tive contato: Lucy And The Popsonics, Bois de Gerião, Móveis Coloniais de Acaju e Autoramas. Mas era complicado, nas vezes em que eu saía para ver show, só conhecia as pessoas que estavam tocando, e mais ninguém. Ficava sozinho. Então, a primeira pessoa que conheci em Brasília foi o César Pirata, que é baixista. Com ele formamos a banda Mais que Palavras. Fazem parte da formação o vocalista Maneko (Manoel Neto), que é o maior tatuador em Brasília; Tiago Caetano, que é baterista. No começo tinha o Kenji. Ele saiu e entrou o Guto (Augusto Toda), também na guitarra. A gente formou essa banda em 2010, no final do ano. A banda lançou o primeiro disco com seis músicas. O nome é Mais que Palavras, também. Gravamos o segundo agora, deve sair no começo do ano. Vai ser no formato split. Ou seja, vamos lançar em conjunto com uma banda amiga a banda Vida Livre. Cinco músicas de cada banda. Vamos aproveitar esse novo trabalho e tentar viajar bastante em 2013 para divulgá-lo e fazer shows.
ZONA SUL – Como está sendo trabalhar no Ministério da Previdência?
NICOLAS – Com o nascimento do meu segundo filho, Lucas, em 27 de setembro de 2010, senti necessidade de ter um trabalho fixo, para não depender apenas de freelancer. Quando entrei em contato com o assessor de Comunicação, José Wilde, coincidiu que o senador Garibaldi Alves estava assumindo o Ministério. Estavam sem fotógrafo, fui contratado na hora. Meu pai tinha me passado os contatos de Wilde. Como eu não tinha experiência em fotojornalismo, senti um pouco de dificuldade, a princípio. Mas depois desse período trabalhando lá, posso dizer que hoje sou um fotojornalista e um fotógrafo social com experiência. Aprendi a importância da rapidez, agilidade e instantaneidade. O clima e o protocolo também são outros. Você não pode ousar tanto, tem que seguir o padrão da coisa. Aprendi a dinâmica de trabalhar com fotojornalismo, que é fantástico. Acumulei experiência de gabinete, de rua, de viagem. Além disso, trabalhar com o ministro Garibaldi Alves é muito bom. O que mais destacaria nele não é nem a sua capacidade política – que é indiscutível - mas a característica que ele tem de deixar todo mundo à vontade com sua espontaneidade.
ZONA SUL – Você participa de várias mídias sociais. Onde o leitor do jornal pode lhe encontrar?
NICOLAS – Todos os trabalhos que eu faço são divulgados no Facebook e no Twitter. No Facebook podem procurar por Nicolas Gomes. No Twitter estou lá como Nicfoto.
ZONA SUL – O que você está planejando para o futuro?
NICOLAS – A curto prazo, pretendo viajar mais, tocar em várias cidades e com bandas amigas para mostrar o trabalho da nossa banda Mais que Palavras. Mais para frente quero focar meu trabalho na área cultural, voltar ao que eu fazia em 2005: trabalhar com bandas e espetáculos. O fato de estar morando em Brasília ajuda bastante, pela localização. Depois que vim para cá consegui finalmente fechar trabalhos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ano passado fiz alguns videoclipes fora. Peguei o final de semana e viajei para gravar o vídeo. Editei em Brasília. Fiz da banda Zander, do Rio, e da banda Bob e o Telescópio, de São Paulo. Também não deixe o mercado de Natal. Tenho voltado com constância, inclusive para o festival DoSol. No começo do ano tirei vinte dias de férias. Fui para Natal e passei uma semana descansando e o resto do tempo trabalhando. Faço dez dias de trabalho seguido, volto para Brasília e edito aqui.
ZONA SUL – Deixe um recado para o leitor do Zona Sul.
NICOLAS – Foi em Natal onde fiz as melhores coisas da minha vida. Precisei voltar para a cidade para me encontrar. Morei em vários lugares, conheço o Brasil todo, mas é em Natal e em Cotovelo que me sinto em casa, me sinto mais à vontade. Vou sempre voltar para Natal a trabalho ou para passar férias com a família. Morando fora, vejo que as pessoas não dão valor às coisas de Natal. Tratam a cidade como se ela fosse um patinho feio. Mas Natal tem muita coisa boa e de qualidade. Comparo as bandas de rock da cidade como qualquer banda de outro lugar. O natalense precisa acreditar mais no que faz. No caso da música, ela não tem fronteira. Essa história de artista da terra não deveria existir. Termina restringido, dá a impressão de que quem é tachado com esse rótulo tem uma menor qualidade. Independente de ser da terra ou não, Natal tem bandas que não deixam nada a dever às melhores do país.