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segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Entrevista: Jonas Escurinho



O CINQUENTÃO ESCURINHO É 100 NO ZONA SUL!
O ano de 2012 tem sido especial para Jonas Epifânio dos Santos Neto. Além de completar seu quinquagésimo aniversário e de conquistar duas das principais premiações em um festival de música na terra onde nasceu – Serra Talhada – Jonas, o Escurinho, voltou a se apresentar na capital do país com a sua banda Labacé e iniciou um novo projeto que tende a render bons frutos: a ciranda de maluco. Para completar, esse paraibano nascido em Pernambuco foi o escolhido pelo Zona Sul para ser o centésimo entrevistado do jornal desde outubro de 2003. E ele se fez presente, junto com a Labacé (Alex Madureira, Igor Aires e Flávio Boy) e a sua esposa Ester Rolim. Para contrabalançar, também participaram da “festa” meus amigos Glauco Porto, sua companheira Maíra Pereira, a carioca papa-jerimum Inês Augusta e o repórter fotográfico Roque de Sá, que mostrou talento usando apenas um telefone celular Galaxy SIII, da Samsung (robertohomem@gmail.com).

ZONA SUL – Você nasceu em qual lugar de Pernambuco?
ESCURINHO – Em Serra Talhada, mas só nasci. Meus pais moravam em uma vila chamada Bom Nome, distante 20 minutos de viagem. Como lá não tinha maternidade, grande parte das grávidas tinha seus meninos em Serra Talhada e voltavam para Bom Nome.
ZONA SUL – A população de Bom Nome deve ser bem pequena...
ESCURINHO – Poucas pessoas nasceram lá, mas tem no mapa! Se botar no Google, também encontra. Meu pai era vaqueiro e agricultor. Quando a CHESF foi construir as subestações de eletricidade no interior, ele foi convidado para trabalhar desmatando terreno. Meu pai era esperto, fez amizade com todo mundo. Quando a subestação foi construída, ele ficou como eletricista. Trabalhou de 1962 a 1969 na subestação de Bom Nome, como funcionário da CHESF. Quando a companhia começou a construir subestações em municípios da Paraíba, meu pai foi para Piancó. A família deixou Pernambuco nessa ocasião, em 1969. Fui para o Vale do Piancó com sete anos de idade.
ZONA SUL – Como é o nome do seu pai?
ESCURINHO – Manoel Jonas dos Santos. Quando foi construída a subestação de Catolé do Rocha, a SAELPA (Sociedade Anônima de Eletrificação da Paraíba) contratou alguns funcionários da Chesf, entre eles o meu pai. Mudamos para Catolé em 1973. Eu já tinha onze anos.
ZONA SUL – Você guarda alguma recordação de Serra Talhada?
ESCURINHO – É a terra de Lampião. Recentemente li que a Casa de Lampião conseguiu um projeto com a Petrobras e vai transformar a fazenda onde Lampião viveu em museu, restaurante. Minhas maiores recordações são de Bom Nome. Lembro daquelas coisas de criança, das brincadeiras, de algumas palavras... Por exemplo: tem uma palavra chamada monturo que eu não esqueço nunca. Até porque era onde a gente brincava, no monturo. No monturo era onde tinha os obstáculos e cresciam as frutas gogoia, maria preta, melão de são caetano... Recordando daquele tempo constato que, quando a gente é pequeno, as coisas parecem ser bem maiores. Por exemplo: depois de muitos anos voltei com Ester (Ester Rolim, mulher de Escurinho) e as meninas à casa onde morei em Bom Nome. Eu sempre dizia que era uma casa imensa. Quando chegamos lá, Malu viu aquela casa pequenininha e logo perguntou: “papai, cadê a casa?”. Lembro também que eram imensos os animais que eu via no Sítio Valença, que pertencia à minha família. As aranhas caranguejeiras eram enormes. No caminho de casa para a roça eu via uns bichos que, imagino hoje, deviam ser uns lagartos ou camaleões. Naquela época era como se fossem crocodilos!
ZONA SUL – Quais suas primeiras recordações musicais?
ESCURINHO – Vem das feiras de Conceição do Piancó. Na época de Bom Nome, meu avô Mané Jacinto era dono do que, na época, se chamava Clube Social Brotas. Eles faziam festas e bancavam jogo. Meu avô era uma espécie de produtor de eventos. Todo final de semana tinha a feira do Carmo, no interior, e tinha a Feira de Conceição. Sempre que ele ia, me levava. Eu achava massa porque, na volta, as moedas que ele trazia eram todas para mim. Na viagem eu via os cantadores na feira. Todos eram amigos de Mané Jacinto. Depois que os emboladores acabavam, iam tomar uma com ele. Meu avô faleceu há seis anos. As feiras do Piancó e do Carmo foram marcantes para mim.
ZONA SUL – E os estudos?
ESCURINHO – Minha família nunca vacilou nesse ponto. Naquele tempo não tinha esse negócio de ir para escola com três ou quatro anos. Entrei aos sete, mas já sabendo ler. Minha mãe, minhas tias e minha irmã mais velha ensinaram. Mas, quando entrei na escola, foi até engraçado. Ficavam me comparando com os outros: “o neguinho de Mané Jonas sabe ler e tu não sabe”. Paralelo a isso, havia minha paixão pelo circo. Antigamente todo circo tinha drama, teatro. Quando o circo saía de Piancó, ficava aquela febre de circo na cidade. Então minha mãe, uma tia que morava com a gente, minhas irmãs e algumas vizinhas montavam uns dramas, lá em casa, para arrecadar fósforo, açúcar e o que desse. Armavam uma tenda para encenar peças como “A Escrava Isaura”, “A Cabana do Pai Tomás”, “Sansão e Dalila”... Eu não tinha noção do que era teatro, mas era um momento massa.
ZONA SUL – Como foi a vida em Piancó?
ESCURINHO – Apesar das dificuldades, minha família vivia bem. Era a época dos militares, e eles não deixavam faltar nada para os funcionários da CHESF. Todo final de ano a empresa mandava um caminhão com uma super-feira. Vinha tanta coisa que dava para distribuir com os vizinhos. O almoço de domingo também era uma festa. A gente vestia a roupa de domingo, ia à missa e voltava para comer galinha, que só se comia aos finais de semana. A gente comia com salada de maionese.
ZONA SUL – Você é católico?
ESCURINHO – Minha mãe me levava para a igreja, mas não tenho vínculo com a religião. Depois dos 15 anos não voltei lá e passei a entender a igreja de outra forma. Nos tempos de Bom Nome, quando papai era vaqueiro e trabalhava na agricultura, ele gostava de cantar. Era boêmio e namorador, embora não bebesse nem fumasse. Lá em casa tinha cavaquinho e violão. Meu pai recebia em casa seus amigos, os malucos de Piancó. Muitos deles tinham retornado à cidade depois de ter passado pela universidade em João Pessoa. E tome farra! Lembro daqueles cabeludos lá em casa tocando violão. O término da hora da Ave Maria, no rádio, no final da tarde, coincidia com a hora em que ele chegava da subestação. Então tome forró. Tocava Esmeralda, Luiz Gonzaga... Mas quando a CHESF resolveu levar alguns funcionários para fazer um curso em Paulo Afonso, tudo mudou. Manoel Jonas foi um dos escolhidos. Dois meses depois, quando voltou, estava vestindo uma camisa “volta ao mundo”, que era a foda da época. Trazia também uma carteira de Hollywood no bolso. Voltou todo invocado, usando aquelas escovas de mão para pentear o cabelo, um par de óculos ray-ban e bigode... Era o satanás em gente! (risos).
ZONA SUL – O que sua mãe achou disso?
ESCURINHO - Ficou puta da vida! A partir daí, ele começou a beber e a farrear de verdade. No domingo não era mais só galinha, era cerveja também! Foi por essa loucura dele, no bom sentido, que em 1973 a gente foi embora para Catolé. Na época eu era pequeno, apenas via aquele movimento todo. Só vim entender o sofrimento da minha mãe muito tempo depois. Minha mãe, mulher de família, segurou a onda. Meu pai foi primeiro, para Catolé. Um mês depois passou um caminhão e levou a gente. A partir daí ele sossegou, mas continuou boêmio: aquela figura simpática e querida por todo mundo.
ZONA SUL – Nessa época você já era Escurinho?
ESCURINHO – Não. Quando cheguei a Catolé havia um jogador de futebol do Internacional chamado Escurinho. Ele faleceu no ano passado. Eu jogava na mesma posição do bicho, e corria pra caramba. Os colegas passaram a me chamar de Escurinho. Assim ganhei o apelido. Um ano depois, no meu envolvimento com música, o povo de Catolé já sabia que Escurinho era o neguinho da subestação, o maconheiro da subestação. Catolé foi uma cidade muito louca. Cheguei lá no momento em que estava saindo da confusão do movimento estudantil de 1968. Catolé tinha aura de revolucionária. A influência da música boa da época, a gente tinha tudo lá. Por exemplo: o disco de Elomar, “Das barrancas do Rio Gavião”, ouvi pela primeira vez em 1979, em uma feira na praça de Catolé. Eu também tinha acesso à loja onde Chico César trabalhava como balconista. Onildo trazia tudo que era novidade da Tropicália e botava lá. Foi daí que veio a ideia de fazer música e participar de festivais. Assim surgiu o “Grupo Ferradura”.
ZONA SUL – Fale sobre o “Ferradura”.
ESCURINHO – O grupo nasceu de tanto a gente ir ao Rio Agon. Quando chovia, formava umas cacimbas. A gente comprava umas garrafas de cana, uns tira-gostos, pegava o violão e ia para o rio na sexta-feira de tarde. Se os pais não fossem atrás, a gente ficava até a segunda-feira, escrevendo e fazendo música. (risos). A partir daí passamos a frequentar os festivais nas cidades próximas.
ZONA SUL – Você já começou como compositor?
ESCURINHO – Nessa época todo mundo do grupo compunha.
ZONA SUL – Você chegou a estudar música?
ESCURINHO – Depois. Na época eu tocava percussão, de maneira intuitiva. Nosso trabalho era autoral. Eu compunha, Chico César também. Branco, Adonias... Todo mundo tinha aquela veia. Mas, no final das contas, eu e o Chico - até por a gente se encontrar mais e ficar mais tempo juntos – a gente compunha mais. Adonias tocava flauta doce; Branco, violão. Mais na frente veio Zé Galinha. Chico César tocava uma viola com uma afinação diferente e uma sonoridade foda. Nem ele consegue repetir essa afinação, hoje. Depois, ele ganhou um violão de presente. Eu tocava percussão e cantava. Mas eu não gostava de cantar, tinha medo. Nos festivais todo mundo tocava e cantava. De tanto a gente ganhar festival, quando surgia um os outros concorrentes já começavam a se perguntar: “os neguinhos de Catolé vêm?” (risos). Chico César – apesar de bem magrinho, desse tamanhinho e com aquela cabeçona - quando abria o bico pra falar, todo mundo já ficava de orelha em pé. Ele sempre foi muito seguro, e não tinha boquinha, não. Ele, pra quebrar o violão na cabeça de um, bastava essa pessoa pedir pra ele tocar Roberto Carlos várias vezes, depois de a resposta ser NÃO.
ZONA SUL – A bebida em excesso não atrapalhava?
ESCURINHO – Ela foi boa pra caramba naquele momento, mas começou a ficar ruim porque passamos a exagerar. Na escola, por exemplo, na hora do recreio já ficava combinado que a gente ia se encontrar para tomar a última “meiota” pra voltar e fazer prova. E continuava a beber depois da última aula. Mas, fomos crescendo. Chico César fez vestibular em 1979 e, no ano seguinte, foi para João Pessoa, estudar. Eu fui para Recife, fazer um negócio que não tinha nada a ver comigo: o curso de técnico em Contabilidade, no Colégio Porto Carreiro. Eu queria ter ido para o Instituto da Teologia da Libertação que estava abrindo na Conde da Boa Vista. Dom Hélder Câmara estava instalando esse curso em todo canto. Minha família não deixou. Se tivesse ido, teria sido melhor pra mim: era mais profundo, mais exigente. Eu era muito louco, não tinha disciplina pra contabilidade. No caminho da escola tinha uma casa de vinho quente. Eu guardava o dinheiro da passagem, ia a pé, para tomar vinho. Ainda estava no vício de Catolé. Mas foi um ano massa porque eu saía da escola e ia direto para o Teatro do Parque, pegar o final dos shows: Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Bubuska, Vivencial, Ave Sangria... Vivi esse momento. Foi um ano inteiro assim: só ouvindo esse pessoal. Lá eu não toquei. De Recife fui para João Pessoa. Saí da capital pernambucana em fevereiro, depois do carnaval. Fui direto para a casa de Pedro Osmar, a quem eu só conhecia através da imprensa. Chico César já estava na cidade, mas fui logo procurar Pedro Osmar. Ele foi muito receptivo, ficou bem alegre. Com ele passei a conhecer um pouco do maracatu, da cultura negra. Mas a minha relação com Pedro Osmar, nesse primeiro momento, foi curta. Até porque eu tive que retornar à Catolé. Mas lá percebi que não tinha condições de ficar. Não tinha mais a música, nem os amigos: era só a família pressionando para eu dar um rumo na vida. Resolvi voltar para João Pessoa. Fui morar na Casa do Estudante. Foi quando conheci Odair Salgueiro.
ZONA SUL – Quem é essa pessoa?
ESCURINHO – O professor que formou os principais músicos que mexem com percussão na Paraíba. Comecei a estudar com ele, mas eu era muito irresponsável e louco. Ele apoiou muita gente, nessa época. Inclusive a mim. Quando eu chegava para uma de suas aulas sem ter estudado em casa, sem ter feito a lição que ele havia passado na aula anterior, Odair me dava uma bronca. Ele percebia que eu não tinha estudado logo que eu pegava nas baquetas. Então, Odair dizia: “pode parar, não vou ficar perdendo o meu tempo com quem não quer estudar”. Eu tentava enganá-lo, dizendo que tinha estudado, mas ele sabia que era mentira. Depois criei um pouco de juízo e, nos três anos que passei com Odair Salgueiro, aprendi pra caralho. Muitos aprenderam com ele, inclusive Flávio Teles (Boy), que está aqui conosco. A partir daí fui conhecendo uma turma que tocava na noite. Como eu era muito louco, nunca aceitei muito esse tipo de trabalho. Tocar na noite de João Pessoa, nessa época, era tocar por birita, para beber. Não vou negar que isso era o que eu queria, mas eu também queria pagar minhas contas. E não tinha como. Ainda toquei no Gambrinus, que pagava direitinho, e com Soraia Bandeira e João Linhares. Mas vi que aquilo não servia para mim. Eu achava que não era certo o dono do bar ganhar mais do que a gente e defendia que o “couvert” todo tinha que ser nosso. Eu era bocão. Saí da noite pensando em criar coisas, fazer músicas. Foi quando veio a história do teatro, do “Vau do Sarapalha”.
ZONA SUL – Estamos ansiosos para ouvir essa história...
ESCURINHO – O “Vau da Sarapalha” é um conto de Guimarães Rosa. O “Grupo Piolim”, de Luiz Carlos Vasconcelos, estava trabalhando na adaptação dessa obra para o teatro. Fui o responsável pela parte musical do espetáculo. Viajamos muito pelo Brasil, América do Sul e alguns países da Europa. O ponto de partida foi a visita do então ministro da Cultura, Sérgio Rouanet, a João Pessoa. Quando Luiz Carlos, doido para cavar recursos para o Piolim, soube da visita, convidou o ministro para assistir a um ensaio de “Vau da Sarapalha”. Era a forma de Sérgio Rouanet ir até o Piolim. A gente achava que esse ministro era um cara velho, grandão, importante. Mas ele era novo e já entrou na sala conversando com todo mundo. O ensaio demorou a começar, mas ele permaneceu tranquilo, aguardando. Era noite de lua, e o cenário ficou todo natural, sem aquela luz toda que veio depois. Tinha no máximo uns candeeiros. O ministro pirou. Terminou a peça, ele perguntou onde a gente ia se apresentar. Não tinha nada agendado, mas Luiz Carlos sabia que vinte dias depois seria realizado um festival em São José de Rio Preto. De tão confiante, ele mentiu para o ministro dizendo que nós participaríamos. Rouanet pediu que telefonássemos para ele quando estivéssemos em São Paulo e prometeu que apresentaríamos “Vau da Sarapalha” também em Brasília. Conseguimos participar do festival em São José do Rio Preto. Já chegamos lá com as passagens compradas para Brasília, hospedagem reservada na cidade e uma apresentação agendada no Teatro Garagem, do SESC.
ZONA SUL – Como foi o espetáculo em Brasília?
ESCURIHO – A apresentação era na segunda-feira, pois não tinha vaga na pauta de teatro da cidade. Começava às oito da noite. Duas horas antes, tinha uma fila arrodeando o SESC. Eu, matuto, nunca tinha visto aquilo. Os caras do teatro viram e cancelaram as apresentações dos grupos que se apresentariam no final de semana seguinte, para abrir espaço para o “Vau de Sarapalha”. O fato é que ficamos um mês em Brasília.
ZONA SUL – Qual a explicação para o teatro lotar em Brasília logo na primeira apresentação?
ESCURINHO – A gente tinha vencido os principais prêmios do festival de São José do Rio Preto. Houve também muito trabalho de boca a boca. Além disso, Barbara Heliodora – que tinha nos assistido em São José do Rio Preto - botou uma matéria na “Veja” exaltando a peça. O sucesso em Brasília nos garantiu uma proposta para temporada em São Paulo. Mas antes de ir para lá, voltamos a João Pessoa. Já tinha integrante do grupo reclamando: “vamos pra casa, não aguento mais, quero ir pra casa”. Fomos para São Paulo e fizemos dois dias no Teatro Vergueiro. Tinha mais gente que em Brasília! Saímos de lá para o Teatro Gláucio Gil, no Rio de Janeiro. Era uma quarta-feira e o problema se repetiu: não coube todo mundo que queria assistir. O grupo que apresentaria no final de semana nos cedeu o lugar. Depois disso, passamos mais um mês. Tudo lotado. Na sequência, fomos para Bogotá, na Colômbia. De lá para a Venezuela, onde tivemos prejuízo. O empresário não soube negociar ou roubou. O fato é que ficou de depositar o dinheiro na nossa conta, quando a gente voltasse para o Brasil, e nada...
ZONA SUL – A questão da língua, como ficou?
ESCURINHO – Nunca foi problema. Apesar do texto, a peça é muito plástica e sonora. A estética é muito forte. Nas vezes em que foi tentado botar tradução simultânea, legenda, neguinho reclamou. Na Alemanha, em Hamburgo, aconteceu isso. Colocamos legenda, mas no outro dia pediram para tirar. Enquanto estavam lendo, não assistiam ao espetáculo. Já em Portugal, amargamos um fracasso na primeira temporada. E a gente pensava que ia fazer o maior sucesso. Na primeira viagem a Europa, fizemos Bélgica, Alemanha e Portugal.
ZONA SUL – Até então você estava mais voltado para o teatro do que para a música?
ESCURINHO – Estava dividido. Mas eu sempre gostei de música, e não de teatro. Eu estava envolvido, era um momento massa, estava ganhando um dinheirinho, mas sabia que tinha que me arrumar na música. Depois de uma dessas viagens, comprei um gravador Aiwa para registrar minhas ideias, as composições que eu fazia. Eu já vinha fazendo isso quando houve uma parada do Sarapalha em João Pessoa e eu fui morar com o pessoal do “Carroça de Mamulengo”. Comecei a montar minhas coisas, a tocar em vários instrumentos e a cantar o que eu havia registrado nas viagens. Foram surgindo umas músicas e passei a mostrar esse trabalho. Depois convidei um baixista e um violonista. Rolou um show no Teatro Santa Rosa. No final da apresentação, Alex Madureira, que estava voltando do Rio, chegou gritando, cheio de cachaça: “meu irmão, esse som é muito bom, mas esse violonista não toca nada”. Eu já tinha ouvido falar muito sobre ele. Saímos de lá para a praia, onde bebemos todas. Nem lembro como cheguei em casa, mas na segunda-feira eu estava na casa de Alex, ao meio-dia. Começamos a trabalhar. Em um mês a gente já tinha várias músicas. Depois veio a banda e João Pessoa começou a conhecer o trabalho de Escurinho e Alex Madureira. Primeiro foram os bares da periferia, o Bar da Tapa e os barzinhos do centro. Gravamos o primeiro disco em um período curto.
ZONA SUL – Como é o nome?
ESCURINHO – “Labacé”, gravado em 1995. Fizemos shows em várias cidades. Uma galera de Recife, entre eles Lula Queiroga, estava nos assistindo em um bar em João Pessoa. Rolou um buchicho e logo depois fizemos um show em Recife, no “Rei do Cangaço”. De lá, a gente tocou no “Abril Pro Rock”. Assim começamos a formar um nome naquela região. Depois dessa fase de Recife, percebi que a gente tinha um produto, mas não tivemos a mesma estrutura, por exemplo, que o pessoal do Manguebeat teve. Pernambuco era um estado melhor estruturado e com uma maior visibilidade. A televisão estava se organizando, a mídia de Recife apostava na cultura local. O pernambucano tem orgulho das coisas do seu estado, se valoriza. É assim que tem que ser. Em João Pessoa ainda não tivemos isso. O Labacé fazia um som diferente do que o pessoal do Mangue estava fazendo. Na nossa mistura não entrava só o maracatu, rock, funk, música eletrônica... Nossa influência era muito mais a música da caatinga do que a do mangue. Alex tinha uma proximidade com o cariri, com a cultura indígena.
ZONA SUL – Como a Paraíba recebeu essa novidade que foi o trabalho de vocês?
ESCURINHO – Nem sei se recebeu até hoje, pois a gente ainda está no processo de fazer público, apesar de 16 anos na estrada. Teve recentemente, na Paraíba, um festival nacional de arte. Não fomos convidados para tocar. Alex tocou no circuito do frio de Pernambuco, mas não no da Paraíba. Eu toco em Garanhuns um ano sim, outro não. Mas não toco no circuito da Paraíba. A gente abriu um show para Daniela Mercury, lá no Busto de Tamandaré, em João Pessoa. Tinha gente pra caramba, mas depois nenhum empresário telefonou para negociar a contratação do nosso show. A gente tem que sempre estar correndo atrás, apesar de ter um público fiel. O ideal seria não precisar pedir passagem a um e a outro para viajar, como ocorreu agora nessa vinda a Brasília.
ZONA SUL – O segundo CD foi “Malocage”, lançado em 2003. Em 2004 saiu o DVD patrocinado pelo Itaú Cultural. Fale sobre esses trabalhos.
ESCURINHO – A gente estava interando dez anos de grupo Labacé sem nem se tocar desse aniversário. Foi quando o disco “Malocage” saiu. Um belo dia a gente estava em Recife, quando um amigo, Gil Sabino, disse que uma pessoa da gravadora Atração iria assistir a nosso show na Rua da Moeda. Ela viu o show em Recife e depois em Campina Grande. Na segunda-feira recebemos um telefonema da gravadora. Eles queriam assinar um contrato para distribuir o “Malocage”. Três meses depois do contrato assinado, surgiu a oportunidade do Itaú Cultural. Se não tivéssemos assinado, não teria dado certo, porque eles exigiram vínculo com alguma empresa ligada à música. A Atração entrou na ponte com eles e viabilizou o DVD que selou os dez anos de Labacé.
ZONA SUL – A banda Labacé são vocês quatro há quanto tempo?
ESCURINHO – Podemos dizer que, com esse núcleo aqui, já são 15 anos. Só que vai entrando e saindo gente. Hoje é outro processo, mas, mesmo assim, a gente nunca parou, nunca deixou de compor, de tocar, de viajar. Cada um, lógico, cuidando da sua própria vida. Igor Ayres, carioca, toca baixo. Ele tem a banda Unidade Móvel, que já está no segundo disco. Flávio “Boy” Teles toca guitarra. Já esteve em bandas de rock, como Gargalo, Cobaio... Todo mundo criando suas coisas. Apesar de eu não encontrar mais Alex Madureira com a mesma frequência de antes, a gente continua criando, fazendo música juntos. Se for sentar para organizar, já tem material para outro disco.
ZONA SUL – O DVD abriu portas para você?
ESCURINHO – Não abriu um portão imenso, que tenha proporcionado visibilidade internacional, mas, por exemplo, depois dele comecei a achar meu disco nas “Lojas Americanas”, na Internet, a ouvir em rádios do Japão, da Áustria... Esse processo foi feito pela Atração e, depois, pelo Itaú. Um belo dia o Itaú ligou dizendo que iriam montar um estande na Feira da Música, em Fortaleza. Mandaram as passagens, pagaram cachê, tudo. A gente sempre tocava de graça no Dragão do Mar. Então, o DVD valeu por essas coisas.
ZONA SUL – E a turnê que você fez com Chico César pela Europa?
ESCURINHO – Quando Chico César estava para lançar seu primeiro disco, me telefonou. Ele não tinha gostado do resultado de umas gravações que tinha feito com Paulo Ró. Passamos um mês produzindo, trabalhando e gravando. Quando estava perto de entrar no estúdio, eu estava em João Pessoa, preparado para voltar para gravar. Mas o negócio esfriou. Depois eu soube que Ivan Lins - que era o dono da gravadora “Velas” - tinha dito que o material era muito bom e não deveria ser produzido daquela forma. Ivan Lins desaprovou a produção que a gente tinha feito. Então Chico resolveu fazer o trabalho só. Gravou “Aos Vivos” no teatro, com Lenine e Lanny Gordon. Tudo o que Ivan Lins queria. Mas Chico me chamou para o show de lançamento, no SESC Pompeia, junto com Lanny Gordon, Lenine e Simone Soul. A platéia estava cheia de compositores e cantores, como Leila Pinheiro, Ivan Lins... O bicho detonou ali, com aquele show. Um mês depois fui com ele lançar o disco em Natal. Não tinha ninguém. Passou mais um mês e voltamos para participar do projeto Seis e Meia, no Teatro Alberto Maranhão. Casa lotada. Parecia que não cabia mais. Ainda o acompanhei em Fortaleza. Depois passei um tempo sem tocar com Chico César.
ZONA SUL – Mas você não falou ainda sobre a turnê pela Europa.
ESCURINHO – Simone Soul era quem o acompanhava. Mas quando Chico César foi fazer a turnê na Europa, ela estava comprometida em tocar bateria para os Mutantes, no projeto de retorno do grupo para se apresentar em Londres. Chico me ligou dizendo que tinha uns shows na Europa, mas não queria ir só. Eram doze shows. A maior sorte dele foi que eu estava em uma fase sem beber. E ele estava bebendo muito. Imagina dois loucos, lá do outro lado do mundo, enchendo a cara. Mas a turnê foi ótima.
ZONA SUL – Quais suas influências? Que tipo de música você faz?
ESCURINHO – Minhas influências são a música regional, o violeiro, o embolador de coco, o repentista, o forrozeiro, a literatura de cordel... Quanto ao tipo de música que faço, o normal seria eu dizer: MPB. Mas, se for entrar em detalhe, o que faço é uma mistura. Entra rock, coco, baião... Entra tanta coisa que o melhor mesmo é simplificar e dizer que a gente faz é música popular brasileira mesmo.
ZONA SUL – Você comemorou 50 anos com uma festa, um grande show rodeado de amigos, em João Pessoa.
ESCURINHO – Quando você fala em 50 anos, eu penso logo em meio século. É muita coisa, mas o importante é que a comemoração do meu aniversário foi massa demais. Apareceu até gente que eu não sabia que tocava a minha música. Teve, por exemplo, “As Calungas e Uirá Garcia” tocando um lado B do nosso disco que a gente nunca toca. O bom é que além dos amigos normais, apareceram outras bandas.
ZONA SUL – Escurinho modelo 50 anos abandonou a bebida e hoje é um homem regenerado?
ESCURINHO – Continuo degenerado, mas não bebo mais. Bebida me fez muito mal. Quem quiser beber, que beba, não tenho nada contra. Mas eu não bebo porque sinto que não tenho mais condição de beber.
ZONA SUL – Como foi ganhar o festival de Serra Talhada, sua terra natal, um mês antes de comemorar seus 50 anos?

ESCURINHO – Eu estava em casa quando Ester falou que ia ter um festival em Serra Talhada sobre o cangaço. Como eu não tinha música naquela linha, compus uma: “Nas estradas de Bom Nome”. Fala sobre o cangaço sob a ótica da história da Revolução de Princesa e do coronel José Pereira. Inscrevi-me sem esperar muito. Classificado, quando fui disputar o festival ficaram sabendo que eu tinha nascido lá. Dei entrevista para vários veículos de comunicação da cidade. Depois da apresentação - a minha era a penúltima música - achei que tinha vencido, pela reação do público. Na descida do palco, a TV Asa Branca me entrevistou também como se eu tivesse sido o vencedor. Mas ainda faltava o último se apresentar. No fundo eu pensava que ganharia o terceiro lugar. O prêmio era dois mil e pouco. Eu já estava achando massa demais. Porém, o apresentador começou a anunciar o quarto, o terceiro, o segundo lugar... E nada de chamar meu nome. Eu pensei logo: “fodeu”. Foi quando me chamaram para receber o prêmio de melhor intérprete. Imaginei que era uma premiação de consolação: R$ 2 mil. Depois que recebi, quando estava descendo, me seguraram no palco enquanto fui anunciado como o vencedor do festival. Voltei de Serra Talhada com seis mil reais em dinheiro, porque era domingo e as agências bancárias estavam fechadas.
ZONA SUL – Quais os planos para o futuro.
ESCURINHO – Com essa dificuldade toda de produzir show em João Pessoa, no ano passado me veio a idéia de desenvolver um projeto chamado “Ciranda de Maluco”. A princípio a gente quer tirar momentos dos shows para improvisar. Vamos aproveitar essas improvisações para gravar um disco. Só que está ficando meio diluído. Tem show que é gravado, mas outros não. Mas antes desse CD de cirandas, vamos lançar um disco que já está pronto, chamado “Princípio Básico”. Depois desse lançamento é que trabalharemos o disco de ciranda improvisada.
ZONA SUL – Se despeça do leitor do jornal. 
ESCURINHO – Foi ótimo dar essa entrevista aqui em Brasília na casa do meu amigo Roberto, junto com meus amigos da Paraíba Alex Madureira, Ígor e Boy, da minha mulher Ester, do maranhense Roque, da potiguar Inês e de mais tanta gente que está aqui se divertindo, comendo churrasco e fazendo planos pro futuro. E vamos embora pra frente, que a palavra do poeta é a bala e toda bala atingida tem a meta. 

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Entrevista: Moacir Reis, O Menestrel

POR BAIXO DA MAQUIAGEM DO MENESTREL

Conheci O Menestrel assistindo a uma das diversas apresentações que ele realizou durante o VI Salão do Livro do Tocantins, ocorrido em Palmas. Percebi como as pessoas que prestavam atenção à sua performance ficaram encantadas e sensibilizadas ao testemunhar aquele bobo da corte, ao invés de fazer graça, desferir palavras certeiras em direção do coração de cada uma delas. Moacir Reis eu vi pela primeira vez no café da manhã do hotel. Mesmo chegando apressado para o desjejum, ele ingressou na sala saudando a todos com um bom dia. Não lembro agora se ele fez a saudação em italiano, espanhol ou francês. De qualquer forma, percebi logo que O Menestrel Moacir Reis seria uma ótima entrevista. Agendamos a conversa, que somente se confirmou no último dia do evento literário. A seguir você descobre um pouco do que há por baixo da maquiagem do Menestrel. Essa e as entrevistas anteriores estão disponíveis no www.zonasulnatal.blogspot.com. As fotos são de Britto Gomes. (robertohomem@gmail.com)

ZONA SUL – Seu nome é Mário Reis...
O MENESTREL – Moacir Reis.
ZONA SUL – Desculpe, confundi seu nome com o de Mário Reis, o cantor...
O MENESTREL – Não conheço o cara. Canta bem?
ZONA SUL – Não é da minha época... Você é O Menestrel desde quando?
O MENESTREL – Desde há 15 mil anos atrás. Nasci, cheguei ao portal dimensional, com essa missão: encantar a humanidade com poesia. Participar durante esses dez dias do 6º Salão do Livro de Tocantins, em Palmas, foi um sonho que realizei. Vim com a missão de mexer com a sensibilidade, tocar o coração da humanidade através da poesia, de levar arte e cultura para todos. Com tanta violência, medo e egoísmo, despertar a sensibilidade no coração do povo é digno de prêmio.
ZONA SUL – Onde nasceu Moacir Reis?
O MENESTREL – Por acaso, o portal abriu em São Paulo. Mas deixei a cidade com 14 anos de idade. Depois de ter corrido o Brasil, hoje estou de corpo e alma na Ilha de Santa Catarina. Lá é o meu berço. Percorro o Brasil com um espetáculo, promovendo o meu DVD, um recital chamado “O importante é saber compreender”, com texto em prosa atribuído a William Shakespeare. É uma mensagem que toca a emoção. Encontrei na poesia um canal de comunicação para despertar a consciência do ser humano para os valores de um mundo positivo e sobre a importância do autoconhecimento. Estou celebrando 10 anos do trabalho que se transformou nesse DVD que venho espalhando pelo Brasil. Vamos ouvir poesia, vamos despertar essa sensibilidade no coração. Vamos deixar de violência, medo e egoísmo. É isso que procuro transmitir, através da minha arte.
ZONA SUL – O que você fez até os 14 anos de idade, período em que morou em São Paulo?
O MENESTREL – Olha meu amigo, já estou com certa idade. Sou de uma geração, digamos, muito oprimida. Você, com esses seus cabelos grisalhos, também deve ter passado algum drama. Nas décadas de 1960 e 1970 não tínhamos a liberdade que a juventude de hoje tem. Quem contestasse algo do sistema, levava uma pancada nas idéias. Muitos não sobreviveram. Agradeço a Deus, ao Universo, por ter conseguido superar esses obstáculos. Respondendo à sua pergunta, minha infância não foi fácil. Tive que enfrentar muitos desafios para chegar até aqui.
ZONA SUL – Que tipo de desafios?
O MENESTREL – Todos, devido à crueldade da humanidade. Não quero generalizar, mas a humanidade muitas vezes é desumana. Já dizia o poeta. Com amor no coração e muita esperança, venho superando os obstáculos. Fazer arte e cultura no Brasil não é fácil. Não tenho apoio cultural, nem patrocínio. Levar arte de qualidade e fazer um trabalho sério é o oposto desse “Big Burro Brasil”. As pessoas vão lá só para mostrar o bumbum, fazer bobagem e faturar 1,5 milhão de reais. Enquanto isso, artistas de talento passam fome e enfrentam dificuldades espalhados pelo país. Alguns desistem da arte em nome da sobrevivência. Eu mesmo cheguei a cogitar largar tudo e retornar à quinta dimensão, que é o lugar de onde venho. Mas com perseverança e garra, hoje estou aqui. São dez anos de amor que estou transmitindo através da minha arte, para todos vocês.
ZONA SUL – Antes de O Menestrel ser criado você já gostava de poesia?
O MENESTREL – Desde a infância concluí que não queria ser mais um nesse planeta. Eu queria deixar minha marca. Essa sempre foi minha filosofia. Tenho que valorizar minha existência. A arte me deu essa possibilidade. Se eu partir hoje para outra dimensão, minha marca já está aqui. Faça o bem e você vai ter o bem de volta. Plante amor e você vai ter o amor de volta. A poesia é esse canal de comunicação do qual estou usufruindo. Na infância eu já queria mostrar, valorizar e honrar a minha existência. O fato de estar vivo já é um grande milagre. Muitos não entendem e desprezam essa dádiva com drogas e violência. Procuro sensibilizar a humanidade, através da minha arte, sobre a importância de fazer algo de valor nessa vida.
ZONA SUL – Qual sua primeira tentativa na perseguição desse sonho de deixar sua marca?
O MENESTREL – Olha, foram muitas. Tenho know-how na área cultural e artística. Tive a honra, no final da década de 1970, no começo da minha carreira, de fazer a iluminação de um show do Chacrinha lá em Niterói, na praia de Itaipu. Considero isso o início da minha carreira.
ZONA SUL – E antes desse episódio de iluminar um show do Chacrinha?
O MENESTREL – Olha meu amigo, a história é um pouco longa, mas vou tentar resumi-la. Como comentei, saí de casa aos 14 anos sem lenço e sem documento. Cheguei ao Rio e não tinha o que comer nem onde dormir. Pra não pedir esmola, nem me submeter à maldade humana, fui trabalhar em um restaurante dançante. Mas, como eu já comentei, eu queria ir além. Fui contratado como copeiro, mas eu não queria ser copeiro durante a vida inteira. Era um grande restaurante, onde ocorriam vários espetáculos. Um deles foi o show do Chacrinha. Devido à minha ambição, eu prestava atenção em toda aquela tecnologia do auge da discoteca e da dance music. Eu ligado em evoluir, aprendi a operar as máquinas. Um dia o DJ faltou e assumi o seu lugar. Ele ganhava, vou dar um exemplo, cinco mil reais. Como copeiro eu faturava 500. O dono do restaurante, que não era bobo, me conseguiu o emprego lá. Fiquei com a vaga, aproveitei a oportunidade. Estudei, estudei, estudei. Saí desse restaurante e trabalhei como DJ em várias outras casas de espetáculos do Rio. Depois parti para as artes cênicas. Estudei teatro no Rio. Ainda na ambição de procurar evoluir sempre, trabalhei como produtor cultural. Minha linha sempre foi a da cultura de qualidade, não aquela coisa comercial e descartável. Só para resumir, tive a honra de produzir o lançamento do disco “Alma”, de Egberto Gismonti. Os dois primeiros discos de Renato Borghetti foram lançados no meu espaço cultural.
ZONA SUL – Isso tudo no Rio de Janeiro?
O MENESTREL – Não, esse espaço cultural já foi em Curitiba, no Paraná. O disco “Claro”, de Luiz Melodia, também foi lançado lá. A idéia de popularizar a poesia surgiu quando tive a honra de promover dois discos do Paulo Autran, com poemas. Os discos dele são só a voz. Aperfeiçoei a idéia e criei o personagem O Menestrel. Ele é o instrumento de promoção da poesia. É o lúdico. Vocês vão ver na minha foto. Procuro despertar o lúdico na humanidade através desse personagem. Nesse feedback que tive com Paulo Autran veio a idéia de popularizar a poesia. Por que? Porque considero a poesia como a minha terapia. Não fosse ela, acho que eu nem existiria mais. Com tanto terror e tanta maldade com as quais me deparei vindas da humanidade, a poesia foi minha salvação. Estou procurando compartilhar com a humanidade essa terapia, esse despertar de consciência. Nos discos Paulo Autran interpreta Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga e outros. Hoje estou celebrando com chave de ouro o meu DVD “O importante é saber compreender”, com texto em prosa atribuído a William Shakespeare. Quero agradecer a oportunidade que vocês estão me dando...
ZONA SUL – Calma, a entrevista está apenas começando.
O MENESTREL – Perfeito. Então vamos espalhar essa semente, pois a humanidade está carente.
ZONA SUL – Voltemos no tempo: por que você saiu de casa, aos 14 anos de idade, e trocou São Paulo pelo Rio de Janeiro?
O MENESTREL – Olha querido, prefiro não comentar, porque periga você chorar. E o meu negócio é passar alegria. Mas posso dizer que aprendi o que é o perdão. Saí de minha casa aos 14 anos com garra e coragem. Enfrentei todos os obstáculos. Podia ter me transformado num marginal ou num bandido. Mas, não! Preferi lutar para ser alguém de valor. Antes de você ser um homem de sucesso, procure ser um homem de valor. Essa é a filosofia de vida que eu tenho. Acredito que sou um vitorioso. Criei um casal de filhos. Ele já tem quase 30 anos e ela está com 23. A missão agora é com os dois. Minha mensagem eu passei, meu exemplo, dei. Assim como recebi do meu pai. Sabe o nome do meu pai?
ZONA SUL – Não.
O MENESTREL – Homero! Tenho que honrar esse nome ou não tenho? Encontrei na poesia essa oportunidade.
ZONA SUL – Do Rio de Janeiro você foi para Curitiba? Como se deu essa transição?
O MENESTREL – Sim. A família do meu pai é toda de Curitiba. Naquela época a coisa não era fácil: comi o pão que o diabo amassou. Minha paixão sempre foi a arte. Mas fazer arte e cultura no Brasil, como já disse, não é fácil. Tive que superar diversos obstáculos. Depois de anos na escola da vida, surgiu a oportunidade de retornar à Curitiba. Fui comercializar produtos culturais: discos, objetos de arte, livros... Também passei a promover shows de grandes artistas: Egberto Gismonti, Luiz Melodia, Paulo Autran, Renato Borghetti e por aí vai. Fiquei em Curitiba uns 10 ou 12 anos, até que novamente fui vítima da maldade. Nada que consegui na vida veio de mão beijada, sempre batalhei muito para conseguir.
ZONA SUL – O que ocorreu?
O MENESTREL – Na época eu não pensava na maldade. Sempre fiz as coisas com amor. Até por ignorância e pela inocência, eu não via maldade nas situações. Eu era jovem. Firmei sociedade com um empresário de lá. Não assinamos contrato, nem nada. Depois que nosso trabalho estava sendo um sucesso, esse empresário simplesmente olhou para minha cara e disse que não ia me pagar nada. Passei cinco anos na Justiça e não consegui recuperar nem 10% do que tinha direito. Renasci das cinzas na Ilha de Santa Catarina, que é onde estou há 20 anos. Hoje tenho meu trabalho reconhecido em todo o Brasil. Planejo para 2011 - quando vou celebrar realmente os 10 anos desse recital que deixou de ser um CD e agora é DVD – levar meu espetáculo para a Europa. Vou tocar o coração carente de poesia dos brasileiros que estão lá. Em cada lugar que visitar - já estou montando o roteiro - vou declamar um poeta no idioma do país. Em Portugal será Fernando Pessoa. Na França, Victor Hugo, na Inglaterra, Shakespeare. E assim por diante. Farei isso no idioma local. Agirei diferente da maioria dos estrangeiros que vêm ao Brasil e não se preocupa em falar ao menos um pouquinho do português. Vou levar uma mensagem de amor ao Brasil. Quero espalhar a consciência da importância de valorizarmos nossa pátria.
ZONA SUL – Quais seus primeiros passos para “renascer das cinzas” em Santa Catarina?
MENESTREL – Olha meu amigo, foi barra pesada. Saí de um caos, de uma crueldade. Por acreditar na humanidade, esse oportunista se aproveitou da minha inocência e me ferrou totalmente. Cheguei à Ilha com uma mão na frente e a outra atrás, numa depressão profunda. Tive que renascer, realmente, das cinzas. Mas eu tinha uma bagagem, uma força interior, que hoje procuro transmitir através da minha arte. Em cima desse aprendizado, lancei na Ilha de Santa Catarina uma revista para promover arte e cultura. Não trabalho a cultura como se ela fosse abobrinha e mandioca. Respeito a história. Meu negócio é a história. Não faço essa coisa descartável que infelizmente a grande mídia tanto valoriza. Procuro zelar por esse patrimônio importante que é a arte e a cultura nacional. Em Florianópolis criei essa revista que sobrevivia através da mídia, do espaço publicitário que vendia. Mas, por mais criativo que você seja, com uma mão na frente e a outra atrás, é difícil. Isso foi de 1990 pra 91. A coisa era mais barra pesada ainda, mas enfrentei.
ZONA SUL – E no campo da promoção de eventos?
O MENESTREL - O primeiro evento que produzi na Ilha foi um vernissage na Praia do Campestre, no Caminho das Antas. A exposição foi no atelier de Ruy Braga, um grande nome das artes plásticas. Hoje, se não me engano, ele está na Bahia. Lá reuni diversos artistas, como João Moro e o poeta paranaense José Gaspar Chemin. Depois vou presentear você com o livro que ele está lançando agora. Esse vernissage foi meu primeiro evento. Depois produzi vários shows. Um deles foi especial: um índio cherokee norte-americano, na comemoração do Dia do Índio, no Teatro Álvaro de Carvalho. Foi um protesto contra o racismo, através do blues. Não ganhei nenhum tostão, sabe por quê? A Ordem dos Músicos, à época, tinha poder de polícia e chegou lá dizendo: ou você me dá a grana, ou vou barrar sua bilheteria. Fui obrigado a dar minha parte todinha à Ordem dos Músicos. Você não tinha perguntado sobre obstáculos que enfrentei? Esse foi um deles. Mas enfrentei, fui à luta. Resumindo, porque a história é longa e não vou fazer você chorar: a poesia foi a minha salvação. Em 1996 criei o personagem O Menestrel.
ZONA SUL – Como surgiu O Menestrel?
O MENESTREL – Quando cheguei com a proposta de popularizar a poesia, os céticos de plantão olharam pra mim e disseram: “você é bobo, cara?”. Eles alegaram que o brasileiro não tinha cultura para entender poesia. “Brasileiro não tem oportunidade”, foi o que eu respondi. Passar o valor da arte e da poesia depende da criatividade e da inteligência de cada um. Acreditei nisso e hoje estou aqui. Quando eles disseram que eu era bobo, surgiu o personagem: o bobo da corte, que, na realidade, é uma metáfora. De bobo ele não tem nada. Está ali passando uma mensagem. O bobo da corte, o menestrel, é um personagem medieval. Através da música e da poesia, ele procurava, naquela época medieval, contestar as mazelas praticadas contra o povo. Agora, nessa nova Idade Média, estou fazendo a minha parte: através da poesia estou contestando as mazelas cometidas contra o povo.
ZONA SUL – Sua indumentária já começou essa que você está usando ou ela se aperfeiçoou ao longo do tempo?
O MENESTREL – Era mais simples, porque eu não tinha recursos. No começo, tudo foi aos trancos e barrancos. Tive que bancar toda a minha produção. Nesse figurino que vocês podem visualizar através das fotos, procuro caracterizar as cores da bandeira brasileira. Eu amo o Brasil. Minha roupa tem o verde, amarelo, azul e branco.
No próximo DVD que pretendo lançar com a obra do poeta catarinense Alcides Buss, vocês ficarão encantados com o novo figurino que estou mandando confeccionar, graças ao que consegui captar durante o Salão do Livro de Palmas. Todo recurso que arrecado, estou investindo nesse projeto. O figurino está lindo. Ele mantém a figura do bobo da corte. O Menestrel é o símbolo.
ZONA SUL – Qual o primeiro texto interpretado pelo Menestrel?
O MENESTREL – Na real, essa apresentação que virou DVD foi feita a partir do meu segundo CD. Meu primeiro CD foi mais um laboratório, onde interpretei o texto de uma poeta gaúcha: Eliana Vobeto.
ZONA SUL – Do que tratava o texto?
O MENESTREL – Existência. Os poemas dela tocam a alma. Minha única tristeza foi ter me apaixonado por ela. E não deu liga, meu amigo. Mulher ciumenta é o bicho, entendeu? Quando a coisa estava começando a estourar, depois de muito tranco e barranco, ela simplesmente tomou, porque o poema era dela. Só que quem produziu tudo, quem bancou tudo, foi o bobo aqui. A poesia dela estava na gaveta. Eu tirei a poesia da gaveta e dei vida às palavras dela. Só que mulher brava é o bicho. Mas eu já tinha a resposta do povo, sabia do potencial daquela idéia. E como Deus conspira a favor, Ele chegou e me apresentou a esse texto atribuído a Shakespeare. “Grave esse texto!”. Depois da crueldade dessa mulher e de outras crueldades – principalmente o golpe que recebi em Curitiba – veio a compensação: toda a arte do meu CD que se transformou nesse DVD atual era o layout do meu centro cultural no Paraná. Estava tudo pronto ali, como um milagre mesmo. Chegou num recado divino: “grave somente essa mensagem”. Gravei, também na pauleira. Tirei leite de pedra para conseguir pagar à gravadora. Peguei o layout do centro cultural, montei toda a arte e está aqui. Veja como Deus escreve certo por linhas tortas. Hoje o DVD e o CD estão em todo o Brasil.
ZONA SUL – Por que o convite para suas apresentações é uma imitação de dinheiro com a foto do Menestrel estampada no centro?
O MENESTREL - Faço essa sátira para alertar que o ser humano hoje só se preocupa em ter, ter, ter. Vamos pensar no ser. É isso que estou procurando transmitir e despertar através da minha arte.
ZONA SUL – Quais os locais onde o Menestrel se apresentou pelas primeiras vezes? Escolas? Teatros?
O MENESTREL – Esse texto do DVD, como você já captou, é uma mensagem impactante. Hoje sou um multimídia, um homem de marketing. Na escola da vida, trabalhei nos principais veículos de comunicação em Santa Catarina: grupo RBS, jornal A Notícia... Sempre na área da mídia. Essa foi a minha escola. Absorvi esses conhecimentos para criar o meu veículo de comunicação. Hoje tenho o meu veículo de comunicação. Mas eu esqueci a sua pergunta...
ZONA SUL – Onde você começou apresentando o espetáculo do Menestrel...
O MENESTREL – Ah, perfeito. Na captura de patrocínio para produzir esse texto, me deparei com um empresário (na época ele era presidente da DVP, na Ilha de Santa Catarina). Assim como eu e você, ele ficou encantado quando ouviu a mensagem e me convidou para um megaevento no Costão do Santinho Resort, direcionado a grandes empresários. Foi aí o meu primeiro espetáculo. Depois um comentou com outro e os convites foram surgindo. Só que daí veio outra crueldade. Caprichoso que sou, produzi um CD multimídia. Só que os oportunistas de plantão copiaram o vídeo do meu CD multimídia e jogaram, sem a minha autorização, na Internet, no Youtube. Na ignorância, pensando que artista não tem que pagar conta, não tem que pagar produção. Eu preciso, pois não estou no “Big Burro Brasil”, não sou bonitinho e não tenho bumbum bonito. Porém, felizmente não sou burro pra entrar num programa desses da vida. Ralo pra fazer minha arte. Como meu trabalho não tem apoio cultural, nem patrocínio e sobrevive da venda do CD recital original, essa atitude comprometeu a continuidade da minha arte.
ZONA SUL – Muita gente já viu esse vídeo?
O MENESTREL – Hoje já são mais de 3 milhões de acessos no Youtube. Os americanos é que estão ganhando dinheiro com isso. Não recebo um tostão pelo sacrifício que fiz para produzir aquele vídeo. Quando surgiu a oportunidade, o convite para participar do salão do livro em Palmas, eu – perfeccionista e buscando evoluir em todos os sentidos – produzi a toque de caixa, relâmpago, o meu DVD. Áudio e vídeo com qualidade digital e uma edição, modéstia à parte, espetacular. O DVD também conta a minha história através de fotografias, clipagem de imprensa, e conta com trilhas sonoras fantásticas. Cada pessoa que adquire um produto meu se transforma, para mim, em um rei ou uma rainha. Eles é que dão condições de eu continuar minha missão. Zelo pela qualidade. Não comercializo um produto que não tenha passado pelo selo de qualidade da minha produtora, a Cultura Impressa.
ZONA SUL – Você desenvolve alguma outra atividade além de desempenhar o papel de O Menestrel?
O MENESTREL – Na produção independente é preciso assoviar e chupar cana. Além da parte artística, tenho que cuidar de todos os bastidores, que acompanhar clientes e fãs, e que fazer o meio-campo com a mídia e a imprensa. Ano passado, buscando diversificar meu trabalho - mas sem perder o foco da poesia - criei um novo personagem: O Trovador. Você poderá conhecê-lo no meu site. Ele atua em casamentos e bodas. A apresentação tem um poema belíssimo de Carlos Drummond de Andrade e também tem Vinicius de Moraes cantando “Eu sei que vou te amar”. No site www.culturaimpressa.com você pode assistir a diversos ensaios do meu trabalho e acompanhar minha carreira, minha turnê pelo Brasil. Daqui estou indo para Minas Gerais onde apresentarei O Menestrel em uma formatura do Centro Educacional Santa Edwiges.
ZONA SUL – Você tem idéia de quantas pessoas assistiram, ao vivo, a essa sua performance até hoje?
O MENESTREL – Só aqui em Palmas foram 300 mil pessoas. Nesses dez anos fiz grandes eventos. No site tem a relação dos principais. A média de público de cada apresentação minha é em torno de mil a 1500 pessoas. Some durante dez anos e você terá uma noção. É essa a responsabilidade que tenho. Por isso sempre peço que valorizem o artista e digam não à pirataria. Não é fácil. Humildemente, abri meu coração para você. Muito do que você captou, eu nunca tinha comentado, guardava para mim mesmo. Não peço favor a ninguém, eu ofereço um produto. Quer valorizar o meu trabalho? Eu tenho um trabalho de valor. Procuro também sensibilizar aos órgãos públicos, às fundações culturais. Mas, graças a Deus, nunca dependi deles para fazer a minha arte. Hoje o meu trabalho vende por si. Ele se auto-sustenta tanto através do DVD e do CD, como do espetáculo, também. Mas foi uma batalha, foi necessária muita perseverança. Que isso sirva de exemplo para tudo o que você fizer na vida. Quando decidir fazer alguma coisa, não faça pensando no dinheiro. Faça primeiro pensando no amor que você tem. Fazendo por amor, o dinheiro é uma conseqüência.
ZONA SUL – Como alguém pode contratar o seu show? O DVD está disponível para venda através da Internet?
O MENESTREL – Entrando no meu site, vou repetir o endereço (www.culturaimpressa.com), você encontra todos os contatos: telefone, email... É só fazer o pedido. Mando o DVD, via Correios, para todo o Brasil e o exterior. Se você quiser abrilhantar um evento, quiser tocar o coração do seu público com poesia, você encontrou o cara. É só ligar pra mim, na real, não sou de me prevalecer de nada. Qualquer espaço para mim é uma oportunidade. Só que eu tenho um custo de produção: é transporte, hospedagem, alimentação... Cada vez que me apresento, também tenho que restaurar o figurino. E isso implica no gasto de dinheiro. Como você está vendo, esse meu figurino desgastou depois de tantas apresentações nesses dez dias em Palmas. Na volta a Santa Catarina vou preparar um novo, porque eu zelo pela minha imagem, pelo meu trabalho e principalmente pelo público que me valoriza.
ZONA SUL – Nessas tantas apresentações que você fez até hoje, alguma foi especial?
O MENESTREL – Como diz o Rei: “são tantas emoções...”. Cada uma maior que a outra. Não seria justo eu escolher uma, pois todas foram especiais. Não dá para comparar, pois cada público é diferente, a emoção é diferente. Mas posso dizer que eventos literários são ambientes fantásticos para o meu trabalho. Aqui em Palmas fui muito bem recebido. O povo é tão caloroso quanto a cidade - aqui é quente pra dedéu. Meu personagem é um bobo, mas me senti como rei aqui, com tanto carinho e tanta emoção. Volto para a Ilha com o coração cheio de alegria. A felicidade só não é completa porque no período em que permaneci em Palmas a minha casa, lá na Ilha, foi assaltada. Nem sei ainda o que roubaram. Pelo que meu vizinho falou, arrombaram e levaram tudo de dentro da minha casa. Vou ter que chegar lá e comprar tudo de novo. Pra você ter uma noção do que é o perrengue. Mas eu estou aqui, feliz da vida. Tiraram coisas materiais. Eles podem pensar que me destruíram, com isso. Mal sabem que o que não me mata, me fortalece, como já dizia o grande filósofo.
ZONA SUL – Você é muito assediado, sobretudo pelas crianças. Como você lida com essa procura toda?
O MENESTREL – É uma troca de energias, eu não vivo sem eles. Eles são o combustível para a minha arte. Quando tenho a oportunidade de ter essa troca de energia, a alma vibra, embora o corpo pese um pouquinho. Tive a honra, aqui em Palmas, de apresentar meu espetáculo nos três períodos: manhã, tarde e noite. Você viu o assédio, foi pancadão. Quando chegava ao hotel, eu nem dormia, desmaiava. No outro dia tinha que levantar às 4 e meia da manhã para conseguir chegar a tempo. Só para fazer minha maquiagem, levo mais de uma hora. Não é fácil, mas quando se faz a coisa com amor, você resiste e enfrenta. É o seu sonho que está ali. Volto a repetir: nunca faça a coisa pensando em ter, pense no amor. Dessa forma você vai conquistar tudo na sua vida.
ZONA SUL – Descreva o seu espetáculo para quem ainda não teve a oportunidade de assisti-lo.
O MENESTREL – Sensibilidade. Amor. Compaixão. Acho que essas três palavras resumem o sentimento, a proposta da mensagem que eu interpreto. Encontrei realmente na poesia a minha terapia. E tenho a responsabilidade de compartilhar essa terapia. A humanidade, com toda essa violência, está em pânico. Você liga a TV e vê quanto terror espalhado, quanta crueldade. Quem assiste a meu espetáculo pára pra refletir. É fundamental parar para refletir sobre a sua existência. Chega de violência, chega de medo. Você tem que plantar isso no seu coração. Só é possível através do autoconhecimento, de compreender a responsabilidade que é estar vivo. Você tem que valorizar a sua vida.
ZONA SUL – E também a vida do próximo.
O MENESTREL – Meu amigo, a mensagem é essa: amar ao próximo como a ti mesmo. Essa é a grande sabedoria.
ZONA SUL – Você já visitou Natal?
O MENESTREL – Não tive a honra ainda, mas estou namorando a possibilidade de ir. Já percorri boa parte do Brasil. Ano passado realizei o sonho de apresentar meu espetáculo no Teatro Amazonas, em Manaus. É um templo sagrado. Fiz a performance para os delegados de polícia do Brasil. Estava lá o bobo da corte, no Teatro Amazonas. Foi mágico. Um amigo está mantendo entendimentos para que eu possa levar meu espetáculo para a Feira Pan-Amazônica do Livro, que será realizada em Belém. Quem sabe não me convidam para levar O Menestrel para Natal?
ZONA SUL – Quais os planos do Menestrel?
O MENESTREL – Continuar a missão lançando o próximo DVD com a obra do poeta catarinense Alcides Buss e levar para a Europa o meu espetáculo, em 2011. Já estou montando um roteiro, porque não quero ir no grito. Estou mantendo contatos com empresas de eventos em Portugal. O país será meu primeiro destino. De lá já tenho onde me apresentar em Toulouse. Também vou a Paris, Londres e algumas cidades da Itália... A princípio é isso.
ZONA SUL – E a possível entrevista no programa de Jô Soares?
O MENESTREL – Jô Soares é um dos caras mais inteligentes da TV brasileira. Venho sonhando há algum tempo em apresentar um trabalho de valor no seu programa. Chegou o momento. O salão do livro abriu esse canal. Pra abrilhantar a entrevista, vou montar um clipe de todas as pessoas que tiraram foto comigo. Enquanto eu estiver sendo entrevistado pelo gordinho, será exibido no telão o VI Salão do Livro de Tocantins. Essa é a idéia.
ZONA SUL – O que você sentiu falta de ser perguntado?
O MENESTREL – Fiquei tão à vontade que abri o meu coração. Coisas que eu nunca tinha dito a ninguém, falei agora nessa conversa. Sei que você tem sensibilidade e inteligência para saber dosar essa entrevista. As pessoas não precisam saber de tanta dor. Quero passar esperança para as pessoas.
ZONA SUL – Está bom. Muito obrigado.
O MENESTREL - Não faço nada obrigado, eu agradeço. Você faz alguma coisa obrigado? Não sei quem foi o português que, de mau humor, criou a expressão “obrigado”, para agradecer. Eu não faço nada obrigado. Então, não agradeça obrigado. Agradeço: essa é a palavra correta.
ZONA SUL – Eu agradeço.